terça-feira, maio 08, 2007

O dom inato do destaque


Alguns possuem o dom inato do destaque. Certas pessoas possuem a qualidade incomparável de chamar a atenção sem esforços, de magnetizar olhares. Dia desses, fui magnetizado por um desses seres de super-poderes.
Atribuo a Ciça (?) a melhor reflexão do meu dia. Do encontro num simples ponto de ônibus à triste despedida num outro ponto de destino, Ciça (?) conquistou toda a minha atenção e simpatia. E meu respeito. Tratava-se de alguém simples, com capacidade elevada de comunicação. Transformou a espera do ônibus demorado num prazer. Fez do ônibus lotado, uma aventura.

A cada minuto, Ciça (?) trocava um idéia com um, chamava a atenção de outro. Um talento inigualável de se fazer conhecer. Eu desempenhava o papel de seu camarada principal na viagem. Embora se dirigisse a todos que estavam por perto, era a mim, seu colega de espera e viagem, a que ela parecia recorrer em busca de um olhar comprensivo. Quando, sem querer, esbarrei nela, por conta de uma freada brusca do motorista, Ciça (?) olhou de rabo de olho, soltando um "Ok, Ok", que significava uma compreensão de alguém já acostumada com os solavancos de ônibus. Mas não foi a simples compreensão oriunda de suas experiências como passageira de coletivos que chamara mais a atenção, mas sim o modo com que ela se dirigia a mim. Como se já me conhecesse. Como se soubesse exatamente que eu a entenderia. Como se amigos fôssemos.

Ciça (?) pertence ao seleto grupo dos que possuem o anseio de comentar tudo que se passa ao seu redor. São pessoas iluminadas pela maneira de conviver pautada pelo exercício da simpatia e da gentileza, pela necessidade das respostas humanas a tudo que a ronda. Sem o outro, não há Ciça (?); não há Ciça (?) sem companhia. E é através desse apego ao vizinho que ela desliza pela passarela da vida, conquistando afetos, distribuindo alegria, alegrando os mais tristes dias de quem quer que esteja triste.

Após incontáveis gracejos, desferidos tanto aos passageiros do ônibus, quanto aos pedestres nas ruas, descemos na mesma parada. Eu estava a caminho de uma diversão. Ela, ao trabalho. E ambos tínhamos a mesma empolgação, pois a vida, para pessoas como Ciça (?), é uma grande diversão. Viver próximo a alguém assim deve ser um riso constante, deve ser engrandecedor, um aprendizado diário.

Ao lado de Ciça (?), qualquer um é coadjuvante. Naqueles poucos momentos, ela foi a artista principal, e assim deve ser em todas as peças da vida. Ao descermos do ônibus, dirigíamo-nos ao mesmo local, porém em situações diferentes. Eu, a caminho do lazer. Ela, a caminho de seu ofício. E ambos demonstrávamos bastante alegria!! Mas a minha era engrandecida pela companhia dela.

Ao descermos, nossa despedida foi antecipada. Assim que pusemos nossos pés para fora do ônibus, uma senhora que trabalhava numa lanchonete próxima a chamou, pelo nome que me pareceu ser Ciça (?). E ela prontamente respondeu, com seu sorriso sincero e mãos ao alto, em sinal de consideração.Tinha intenção apenas de cumprimentar e de continuar seu caminho ao meu lado, porém a amiga insistiu que ela ficasse. E Ciça (?), relutante, porém em seu natural desejo de agradar, se despediu de mim com olhar de quem queria ficar por mais tempo, dando-me a mão como um adeus e um sorriso de agradecimento pela companhia.

Espero que ela tenha sentido que o mais agradecido por aqueles momentos era eu. Um pouco triste por ter me afastado dela, percebi que nossa despedida não poderia ter sido de outra maneira, pois pessoas como Ciça (?) nunca saberão agradar a apenas um: vieram nesta vida para agradar a um mundo inteiro.

Quem dera um dia ela pudesse ler estas palavras... Mas contento-me com o fato da inevitabilidade da justiça nessa vida. Gente como Ciça (?) certamente obterá o retorno merecido pelos seus préstimos com exemplar de ser humano. Quem sabe alguém possa dar a ela - ou já tenha dado- o mesmo carinho que me motivou a escrever este texto, exatamente igual ao carinho que ela distribui aonde quer que passe.

Ciça (?) me fez ter certeza de que nosso descrédito pode ser amenizado pela esperança da existência de pessoas puramente boas. É quando justamente pensamos em desistir de ajudar o mundo, que ele nos mostra que possui, sim, ferramentas para esta tarefa. E pessoas como Ciça (?) podem não ter este objetivo, esta meta, mas contribuem inconscientemente para um fim coletivo, apenas por existir individualmente.
Parabéns a Ciça (?), simplesmente por existir e obrigado por cooperar a imbutir na minha existência a alegria de que pessoas como ela são uma realidade, daquelas que realmente fazem diferença.

3 comentários:

lêu disse...

Ciça é uma pessoa que eu teria um enorme prazer de esbarrar acidentalmente e ser iluminado por sua alegria com a vida em geral.
;O

Aninha disse...

Não é à toa que o sr. é meu xifópago, tem minha mania de se encantar de uma maneira tão pueril com as coisas e pessoas que realmente valem a pena... E esta é nossa verdadeira essência, ninguém muda!
Xero, te amo!

Beth disse...

Conheço gente assim, que muda o ambiente só em estar presente. E é um presente ter pesssoas assim por perto.

=)