domingo, setembro 16, 2007

O diário de Amélia Rosenbal


Encontrei o diário de Amélia Rosenbal jogado à calçada sul do condomínio. Na capa, uma pequena réplica do pôster do filme “Casablanca” colada detalhadamente com papel-contato denunciava, no mínimo, um gosto cinematográfico apurado. Folheei as páginas iniciais, no intuito de colher dados que identificassem com exatidão Amélia Rosenbal, para que prontamente pudesse devolver suas confissões escritas. Amélia Rosenbal estava praticamente desenhada naqueles dados iniciais, porém nenhuma informação útil que auxiliasse na comunicação com ela. Não havia endereço, email, telefone. Amélia Rosenbal tinha medo de ser perseguida. Porém, apenas com aquela página eu sabia que ela era doadora universal, tinha olhos castanhos, 1,68 m de altura, pesava 65 (-2) kg, e tinha rinite alérgica.
Amélia Rosenbal, de tanto preservar sua incolumidade ao omitir dados como endereço e telefone, perdera seus relatos pessoais, suas impressões dos acontecimentos de sua vida, seus amores, seus crimes, seus desabafos... Imagino como agora deve estar se sentindo Amélia Rosenbal, aquela cujas confidências agora pairam em totalidade em poder de um estranho. Amélia Rosenbal está nas mãos de um estranho! Eu poderia decifrá-la nesse exato momento. Tê-la-ia despida em meus braços. Todas as suas fraquezas e talentos mais escondidos... Todos descritos em manual, à minha vista.
Não obstante a aparente separação definitiva entre Amélia Rosenbal e seu eu-descrito-por-ela-mesma, num primeiro momento, muni-me de uma moral inabalável, juramentando à minha consciência que jamais leria o diário de Amélia Rosenbal. Contudo, minha honestidade irrestrita aos poucos foi cedendo espaço à curiosidade de conhecer Amélia Rosenbal. Talvez nesse momento ela estivesse à procura de si mesma, louca desvairada fuçando os lixos alheios, batendo às portas de todos os moradores, convocando assembléias gerais à procura de um possível detentor provisório de suas intimidades. Mas nada. Nem sinal do desespero de Amélia Rosenbal. Para tranqüilizar minha consciência, pus um pequeno aviso simpático no quadro geral do condomínio, o qual dizia:

“Cara Amélia Rosenbal, se deseja reencontrar a si mesma, estou de posse de seu querido diário. Bloco Q, aptº 602. Ass.:Pelópidas Assunção.”

Quanto mais rápido os dias passavam, mais minha angústia por descobrir Amélia Rosenbal, mulher capaz de se perder tão assim de si mesma, sem chance de retorno... Um mês com a relíquia de Amélia Rosenbal em minhas gavetas, sem que ela desse alarde da grande perda, me foi suficiente para iniciar meu estudo sobre a natureza desta pessoa tão relapsa. Pretendia devorar cada linha escrita por aqueles dedos, decifrar cada volta daquela letra arredondada.
Amélia Rosenbal era dois anos mais nova do que eu, e não me recordava haver alguma artista plástica em todo o condomínio. Se bem que num conjunto de edifícios tão grande quanto o que moro, o mais comum é não saber de muitas coisas da grande maioria dos moradores. Mas como a vizinhança desse tipo consegue ser mais astuta do que a vã razão que nos finca os pés ao chão, supus, entre mil fofocas diárias, saber, nem que fosse por um detalhe, da existência de uma artista plástica chamada Amélia Rosenbal, assim tão próxima de mim.
Ahhh, Amélia Rosenbal. Pobre Amélia Rosenbal... Duas vezes divorciada, quatro filhos, dois de cada casamento, artista plástica sem formação acadêmica, ofício herdado pela maravilha da genética. Angustiada como ela, já no primeiro dia do ano foi capaz de tomar 5 calmantes de uma só vez para festejar a distância dos quatro filhos, os quais havia deixado todos de uma só vez aos cuidados dos pais respectivos. Amanda Rosenbal havia aprontado todas naquelas férias! Foi um janeiro regado a saídas diárias com suas amigas solteiras, visitas furtivas às casadas e casos amorosos com vários rapazes da academia de ginástica. Folhas e folhas relatando o resgate da capacidade de gozar novamente, perdida entre meses de preocupações com educação dos filhos e afazeres domésticos.
Criativamente falando, tratou-se de um mês extremamente produtivo para Amélia Rosenbal, que, dentre uma noitada e outra, encontrava estímulo e inspiração para estátuas de argila em formas de homens nus, quadros erótico-surrealistas e poesias sexualmente explícitas. Assim ela descrevia suas obras. Contudo, fevereiro, juntamente com o final das férias, anunciava o retorno das crianças, e era facilmente identificável o inferno astral de Amélia Rosenbal. No carnaval, limitou-se a assistir apenas o resultado do desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro. ‘Nem as porras dos desfiles!!!’, assim escreveu em 18 de fevereiro.
E com esse rancor, essa saudade de um janeiro fogoso e libertário, foram os meses seguintes de Amélia Rosenbal. Em sua quase totalidade, seus relatos eram lamúrias de uma vida repleta de afazeres, de bloqueios criativos causados pelo excesso de responsabilidades e desejos ilusórios de abandonar todos com ‘o primeiro surfista sub-20 que encontrasse em Maracaípe’. Isso tudo até o fatídico dia 07 de abril. Dali em diante, páginas em branco... O que teria acontecido neste dia? Que diabos de desleixo teria se acometido Amélia Rosenbal, para deixar-se perder dessa maneira?
Já havia descartado a hipótese acalentadora de ser Amélia Rosenbal minha vizinha de condomínio... Nesta altura do campeonato, já desistira de encontrar minha amiga Amélia Rosenbal. Uma mulher admiravelmente lutadora, esforçada, tão carente de afeição... Eu, aqui, também divorciado, pensão alimentícia nas costas, com uma mulher deste porte e com tal necessidade de se completar, assim como eu...Ela estava nas minhas mãos, mas em forma de palavras sofridas...
Aos poucos, a aura perturbadora de Amélia Rosenbal foi se desmistificando de minha insanidade. Paulatinamente, minha rotina foi ocupando o lugar dos pensamentos que se iniciavam com o diário e terminavam num desejo dilacerado de encontrar Amélia Rosenbal.
Certo dia, quando Amélia Rosenbal havia se tornado apenas uma quase esquecida personagem de livro de cabeceira ofuscada pela minha necessidade de viver, deparei-me com uma manchete sensacionalista de jornal, que dizia exatamente assim: “Mulher se atira de empresarial no Pina”. Ao, despretensiosamente, ler o texto, o choque: era Amélia Rosenbal, dizia a reportagem!! Pobrezinha... Não resistira à dor de uma vida de via única, de desejos amputados e submissões infinitas... Não conseguira encontrar estímulos para viver, pobre Amélia Rosenbal...Não conseguira prolongar pelo resto do ano as fulguras de um janeiro feliz.
Já, eu, aqui na minha surpresa embasbacada, coração acelerado, e arrependimento por não ter evitado o triste fim de Amélia Rosenbal, choco-me ante à percepção de que a angústia nos leva mesmo a atitudes imedidas. Conheci tanto e tão bem Amélia Rosenbal por parte de sua vida, que declarei luto por semanas em respeito àquela que nunca me serviria de amor perdido, mas me serviria como um exemplo de felicidade a se encontrar. E sempre que as forças me faltarem nessa caminhada, terei sempre o diário de minha querida Amélia Rosenbal, a representar a mulher que nunca tive, e tanto tenho por alguns bons momentos de leitura, vez em quando.

Um comentário:

beth disse...

adorei....

=)