terça-feira, julho 10, 2007

Tudo em cinza


Acordou com hálito de rotina. Pôs os pés ainda quentes do calor das cobertas no chão frio e sentiu arrepios subirem-lhe a espinha. O sono enchia seu quarto de preguiça, tornando a dúvida de uma nova tentativa de suicício numa arriscada certeza. Não. Não devia. Levantou-se da cama como um bebê da barriga da mãe: enrugado, choroso e extremamente sensível. Sensibilidade posta à prova quando deixou para trás seu dedo mindinho agarrado na porta enquanto o resto do seu corpo seguia em frente. A dor terrível não só serviu para acordar cada célula sua, quanto para provar-lhe que vida ainda brotava ali. Desperado, imerso em pontadas de dor, agarrou-se à porta do guarda-roupas, lágrimas escorrendo pela face, enquanto despencava o suporte onde ficavam seus pertences pessoais, por conta dos freqüentes solavancos que dava nos móveis, em virtude da imensa dor que sentia. Perfumes, loções, remédios e outros objetos higiênicos no chão. O cheiro de essências acusava perdas materiais em forma de perfume. "Nem pensar"...-pensava- "Da bagunça cuido depois...Tomarei meu banho, pois preciso me sentir novo...!!"

Assim, em busca da novidade, velha lição. Seguiu ainda cambaleante, mancando e coçando o lado direito do traseiro em direção ao banheiro, conferindo todos os mais impublicáveis impropérios ao inventor do relógio, da porta e dos suportes fajutos. Tirou a cueca como uma múmia se livraria de quilômetros de faixas e seguiu ainda tropegando para debaixo do chuveiro, resfolegando latejar de dedo e vontade de sentir a água quente inebriar-lhe a pele com seu toque massageante. Nada disso. Ao ligar o chuveiro, toneladas de cubos de gelo atiraram-se à sua cabeça, resfirando-lhe instantaneamente seus fios de cabelo, lóbulos da orelha e pêlos das axilas. Sentiu os filetes congelados percorrerem-lhe as costelas num caminho tortuoso de tortura, ao mesmo tempo em que fugia desse alvo polar. Quem diabos havia mudado a temperatura da água??? Agora lembrava...Ele mesmo, na noite anterior, morto de calor por ter ficado trinta minutos preso no elevador, mudara o estado do chuveiro elétrico. E agora amaldiçoava sua própria má sorte, perguntando às almas que lhe rogavam tais pragas a razão de todos esses infortúnios reunidos num só alvo.

Seguiu adiante seu desejoso banho matinal, antes se certificando de atentamente ter mudado para o estado 'inverno' , amparando a água com as mãos em concha, esperando o vapor que subia acusar seu objetivo. Mergulhou nas águas termais como um porco na lama e pôs-se a refestelar no prazer de sentir talvegues mornos passearem pelo leito de sua pele, fazendo mais e mais espuma com o sabonete... Sentiu inclusive vontade de assoviar, numa tentativa de fazer as pazes com os demônios rogadores de praga...Porém, quando estava prestes a entoar a primeira nota de seu humilde assovio de paz, a água foi esquentando rapidamente, num conseqüente anúncio de que se esvaia. Nada de água. Fim da cachoeira quente do prazer! Restava-lhe o frio do vento gelado sobre a sua pele em brasas e a vontade cruel de suicidar-se no interruptor da bomba de água que teria de ligar para voltar ao banho. Desistiu do suicídio, mas foi, dolorosamente, ligar a tal bomba.

Nada iria minar-lhe as esperanças de um momento feliz no dia. Nada!! Nem sequer aquela casa amaldiçoada, aquela vida amaldiçoada, aqueles...aqueles...aqueles... Enquanto seguia, enrolado na toalha e preso em seus pensamentos esperançosos de felicidade, uma imagem o paralisara. Parado à porta de seu quarto, toalha envolta nos quadris como uma saia fora de moda, restos de espuma na testa e orelha, parecia uma estátua em homenagem a algum ilustre frequentador de sauna, braços arqueados e pernas abertas numa pose caricata. Porém, um semblante consternado, à beira do terror, fruto da visão do inferno, empreendia à cena o drama necessário. Jogado em meio às lonções e perfumes quebrados, seu cachorro jazia deitado, respiração fraca, arrotando "Azarrô"... Os últimos momentos do cão morto envenenado com o perfume do próprio dono davam o toque fúnebre necessário ao estado de calamidade privada que nosso herói se encontrava. Perguntava-se a explicação de todas aquelas desgraças!!

Jurava a si próprio que era uma boa pessoa, sempre solícito e amigo fiel em todos os momentos, não se lembrava sequer de furtos de chocolates nas Lojas Americanas ou ao dízimo da Igreja, nada!! Sabia que vivera até aquele ponto sob a égide do princípio maior de semear bondade e caridade, que tinha como prerrogativa de caráter o altruísmo !! Como poderia a vida conceder-lhe tais respostas, numa espécie de tragédias cômicas recheadas de humor negro travestido de dedo em sangue, calafrios e cachorro morto?? Era essa a recompensa de uma vida pautada por boas ações e dignidade??

A ele cabia esperar, cultivar a paciência assim como as suas plantas (que morriam mais freqüentemente nos últimos tempos), sem incidir na fraqueza da desistência!! Desse modo, ergueu-se do chão, nu, pois a toalha deixada largada no chão do corredor, tremendo não sabia se de frio ou de raiva de si mesmo, galgando as prateleiras em busca de escora, sentando no colchão para a reflexão final. Sabia que tinha muito a fazer por si e pelo mundo, e que não seriam tais sinais do inferno que o tornariam um ser menor. Não seria a fraqueza a tomar-lhe o espírito! Mostraria a estas pragas que ele era maior que tudo isso, que iria vencer os obstáculos, que possuía natureza de vencedor!!! Levantou, dando o primeiro passo do ser vitorioso que se tornaria a partir daquele instante. Imbuído de segurança, caminhou numa marcha por toda a casa, reflexos no espelho traduzíam um renascimento nunca antes visto naquelas paredes. A coragem bradava de seu peito, inflado na certeza de que tudo seria diferente.

Foi quando a bomba de água que havia ligado explodiu em farpas de fogo, fiação elétrica despedaçada e curto-circuito, alastrando rapidamente fogo por toda a área de serviço de sua casa. Não creditava no que ouvia, no estrondo, no cheiro que sentia, os fios queimados entravam em seu cérebros em ondas olfativas que denunciavam a inevitabilidade de sua fraqueza. Estalos da máquina de lavar sendo cozida, tábua de passar roupa tostada e águas sanitárias alimentado as labaredas. Todo esse espetáculo pirotécnico o impedia de esperar que o extintor de incêncio funcionasse, após tudo que acontecera. Seria demais.

Então,depois disso, começou a achar convidativa a idéia de virar cinzas junto com seus pertences. Assim como cinza havia se tornado a sua vida.

2 comentários:

Aninha disse...

Não sei por que espero finais surpreendentemente felizes dos seus textos dramáticos... E nem deveria, já que dramas geralmente não têm finais felizes! Hehe! Mas o otimismo tem mania de me dominar... ;D
Ótima descrição, pude ver todo o roteiro!
=***

Hélio disse...

muito bom! tão claro que consegui formar em minha mente toda a imagem da situação! palavras em mais perfeita sincronia. mesmo sendo uma narração pessimista, me dá otimismo ao saber que se produz coisas boas ao meu redor! =D abraço