terça-feira, abril 03, 2007

Crise aérea, crise terrena



Constituição Federal Brasileira , 1988 - Direitos e garantias Fundamentais -
"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade..."



Pense num estado crítico. Eis no que vivemos. Não há momentos de calmaria, não há pausas na loucura pungente do dia-a-dia. Não há sequer um período de descanso. Esse Brasil, o da Ordem e do Progresso, vive nessa sofreguidão causada pelo acúmulo de seus problemas. Uma crise política aqui é diluída por uma crise na segurança acolá, que, por sua vez, perde espaço midiático pelo crise judicária que se estabelece. Outros setores parecem ficar enciumados e mais crises surgem: crise do combustível, crise diplomática, crise de valores...

E a bola da vez é a famigerada "Crise Aérea", cujas origens remotam desde os primórdios do Sistema de Navegação Aérea. Minha ignorância no assunto não me impede de imaginar qual teria sido o principal problema: do baixo de minha percepção leiga, as raízes de toda esta problemática encontram-se nos controladores de vôo, ligados à Aeronáutica Brasileira, que por sua vez, trata seus subordinados a péssimas e desajustadas condições de trabalho. Responsável pelo controle de todo o tráfego aéreo do País, este Setor, de gestão pública, veio sendo ignorado, relevado, diminuído em sua importância, praticamente abandonado. Não deu outra: num dado momento, a insuportabilidade posta à prova culminou em tais demonstrações de desrespeito para todos os lados. Empresas Aéreas impossibilitadas de honrar seus contratos padecem do mesmo mal que os passageiros impossibilitados de exercer seu direito primordial de consumidores. No último final de semana, últimos dias de março de 2007, o cenário: passageiros dormindo nos chãos dos aeroportos, outros esperando dentro da aeronave, uns desesperados em busca de hotéis, outros em desespero por nem sequer poder buscar hotel para se abrigar...

Caos. Desordem. Humilhação. Foram essas as palavras, dentre muitas outras, utilizadas pela imprensa, para descrever essa nova crise, esse novo alarde, essa nova confusão tupiniquim, que logo, logo dará lugar a alguma nova...Pensemos...Qual será a próxima...Econômica?? Política?? Não, não, estas últimas estão muito recentes.. Climática?? Pode ser......está muito na moda...

Mas, deixando tais conjecturas de lado por um momento, voltemos ao nosso tema. Concordo em gênero, número e grau com as denominações dadas à Crise Aérea brasileira. Um misto de incompetência, com leviandade e anti-profissionalismo. Uma vergonha. Mas, pensemos bem. Tal situação é uma anti-propaganda travestida de crise, desordem passageira. E o que faremos em seguida: um ajuste aqui, um retoque ali, até que todos os pólos da situação (Governo, controladores de vôo, Empresas Aéreas, consumidores e opinião pública) recebam sua migalha de recompensa e aparentemente seja resolvido o problema. Será realizado um pacto, um acordo, um (re)direcionamento de (parcos) recursos, uma tangente reorganização que mascarará o problema, esconderá a fissura por alguns anos (ou meses) e todos parecerão esquecer...Até que nova crise se estabelecerá.

O roteiro é sempre esse. E, assim, crise após crise, aprendemos apenas a remendar. Os remendos socias que fazemos ano após ano são sentidos diariamente com a gravidade dos problemas que enfrentamos com a segurança, com a violência, com a cadente distribuição de renda, com a falta de estrutura de nossas cidades, com nosso latente subdesenvolvimento... Falemos sério: em nada são exageradas as imagens que vimos das pessoas dormindo nos aeroportos...são humillhantes, claro. Mas, o que dissemos então daqueles que TODOS os dias dormem na calçada de fora dos aeroportos?? Com a crise aérea, a classe média e alta foram duramente atingidas; mas com a crise terrena, a crise crua e cruel da realidade social desse Brasil, quem sofre somos todos nós. Ao assitir às cenas das pessoas nos aeroportos, não pude deixar de ter compaixão por elas, mas, foi impossível dissociar-me das imagens que vejo todos os dias: da miséria das crianças em nossos sinais de trânsito, da falta de oportunidade de trabalho às milhares de famílias miseráveis de cada cidade desse País. Ao ver pela televisão a imagem de um casal dividindo um papelão no chão do aeroporto para se proteger do frio, indissociável é o infinito de imagens gravadas em minha mente da imensa quantidade de famílias moradoras de palafitas, de marquises, sob viadutos, ao relento...Ao presenciar o 'jantar' oferecido pelas Empresas Aéreas para alguns dos passageiros não-embarcados - composto de um pedaço de chocolate e uma barra de cereal -, foi impossível não me remeter às trocentas milhões de famílias que não possuem perspectiva de alimento ao levantar-se de sua miséria diária.

Pois é... Graaaande Brasil... embalado por crises, parece arrastar-se multidirecionalmente, em desespero, desorientado...A crise do momento é aérea, mas na verdade vivemos uma crise terrena, triste e constante e desesperançosa.

Nesse momento, Santos Dummont, patrono da Aviação e inventor dessa grande Obra humana, a aeronave, deve estar se revirando no túmulo com tal situação. Porém, antes de tudo, Santos Dummont era um patriota. E, nessa posição, me atrevo a dizer que ele vem se revirando há bem mais tempo. Na verdade, nunca deve ter tido a paz necessária e o merecido descanso.

A crise aérea mexeu com o bolso e a paciência de muitos. Mas a crise terrena..ahhh, essa vem mexendo sempre com os mais sensíveis corações...

Um comentário:

Aninha disse...

Nosso amado e vergonhoso país com sua mania de "empurrar com a barriga" e depois dar o "jeitinho brasileiro-mas o barato acaba saindo caro, concorda? Certas economias não valem a pena, por mais falhas que possam parecer no futuro! Já dizia o grande Gregório:
Que falta nesta cidade?-Verdade
Que mais por sua desonra?-Honra
Falta mais que se lhe ponha?-Vergonha
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.


Portanto, nossas crises tornam seus versos imortais e atuais...
Infelizmente.
Até quando vamos viver assim?
Quando poderemos dizer que temos "ordem e progresso", "orgulho de ser nordestinos" e que, "modéstia à parte, somos recifenses"?
A esperança é a última que morre... Só espero que não sejamos enterrado primeiro.

Xero, te amo!