terça-feira, dezembro 05, 2006

A melhor viagem


Entrou apressada e desajeitadamente no ônibus, bolsas e pastas a tira colo, cabelos longos e loiros tingidos ao vento, alguns fios presos na testa pelo suor, unhas vermelhas cintilantes e calça centropê explodindo salientes gordurinhas localizadas. Seus óculos escuros escondiam bonitos olhos verdes, seu batom também vermelho cintilante (existe?) montavam uma personagem que chamou a atenção do momento em que passou a roleta, ao momento em que chegou a seu destino. Pagou com uma nota de vinte reais, resfolegou o máximo de ar que sobrava nos pulmões negros de nicotina e sentou-se num banco próximo ao cobrador no corredor. Esperou pacientemente o seu troco enquanto lutava para prender os cabelos revoltos pelo ar quente que entrava por uma janela aberta. Abria e fechava incessantemente as bolsas e pastas à procura de algo, no momento em que lutava contra as curvas dadas a toda velocidade pelo motorista, forçando suas grandes plataformas contra o chão irregular do veículo. Recebido o troco, bolsas e pastas abertas, pois ainda estava à procura desesperada de algum objeto, direcionou-se para um banco mais atrás, onde pudesse ficar sozinha, para melhor continuar a sua procura. Sentou-se sofregamente após hilários vai-e-vens, tentando-se agarrar nos encontos, nas barras do alto, nos ombros das pessoas. Sentou-se de vez. Pôs a "bagagem" no assento vazio e continuou a árdua tarefa. "Deve ser algo muito importante que essa mulher está a procurar", pensei. "Só espero que ela não invente de puxar uma arma e assalte o ônibus". Contudo, após longa procura, retirou o celular da bolsa, apresentando aos passageiros curiosos a ferramenta que usaria para proporcionar-lhes uma das viagens mais divertidas para muitos. Pegou o aparelho e discou. Levou ao ouvido. (Suspirando e assoprando desesperadamente sobre o seu colo, para 'amenizar' o calor). Eis que, esbravejando, pôs-se a falar:
- Alô? Oi, Gerso. Já varresse a casa? Meu filho, trate de arrumar essa bagunça logo, porque eu não vou fazer mais papel de palhaça contigo não. Ora merda, a pessoa chega cansada do trabalho, a porra da pia estourada e a casa um pardieiro!! Táis pensando o quê da vida, Gerso? Tu já tem quinze anos, rapaz. Toma vergonha nessa tua cara, que eu não tenho obrigação de ficar te sustentando, não. E vê se varre a casa também!! E se quiser almoçar, te arranja ai com o que tiver na geladeira. Oxe, coisa mais sem sentido, rapaz. Tou no ônibus. Tenho tempo pra ficar conversando merda, não.
Desligou. Sem pensar, discou novamente. De novo ao ouvido;
- Ei, de azul, me leva pra tu.. HAHAHAHAH Tudo bom, fia? Tua chefe já chegou? Óia, diz a ela que os papéis do plantão de ontem tão aqui comigo. Aquele negócio da menina lá do IPSEP já resolvi, visse? Falei com o menino de lá, que é meu colega, e ele desenrolou pra mim. Era só mandar um fax e tudo certinho. É porque o plano dela era empresarial, menina, aí tu já sabe..É aquela frescura todinha...Ontem? De que horas?? Mas, rapaz, acredito nisso, não...E o tabacudo do Gerso nem me deu o recado, rapaz..Aquele porra num quer nada da vida, menina. Ontem liguei pra ele. Disse: Tou no espetinho. Quando cheguei em casa, tava tudo a maior zona, pia estourada, roupa e lixo espalhado, rapaz. A pessoa já chega cansada e tem que dar uma de piniqueira é foda!! Mas sábado ele tá fudido, porque eu vou botar ele pra fazer tudinho, e nem vou fazer almoço, porque vou pro Pagode, quero nem saber!! Oxe, voou, fia..Já combinei com as menina da vila. Bora, Sandra, vai ser tão bom...Psirico. De duas horas. Já peguei meu ingresso na rádio, digo logo. Óia, tem outra ligação aqui. Já já falo contigo. (OUTRA LIGAÇÃO). Alô? Diz quenga safada...O que tem? Ele ligou pra tu, foi? Mais menina, aquele porra tá reclamando de barriga cheia. Devo nada àquele porra, não, menina. Eu falo do jeito que eu quiser, tou nem aí. Óia, já falasse com teu bofe? Porra, Ninha ajeita aí, fia. Tu num sabe que eu tô precisando daquela porra...Vê aí, menina, o cartão tá bloqueado, rapaz!! Vocês são foda, mermo. Pra pedir, é num instante, mas pra pagar, me fode todinha. Eu aqui querendo comprar uma blusa pra mim na C&A e sem puder botar no cartão. Fala com ele, Ninha, tá foda...Vai, vai. Depois tu fala comigo.
Telefone toca novamente. Atendeu:
-Alô?? Oi, lindo, tudo bem? Taaaaava...Nem ligasse ontem pra mim, num foi? Seeeeei...Vou, vou , sim...Tu vai passar de que horas? E táis de carro nesse fim de semana? Mas Jaílson vai contigo, é? Vixi, mala do caraio, Robson!Siiim, sei, sei...Mas tu vai me dar atenção, né?? Siiiim, quero só ver...Eu, linda, loira e gostosa e tu me botar de lado por causa daqueles maconheiro, tu vai ver só.. Boto logo uma gaia da porra em tu com o primeiro negão que vier bingando pra cima de mim...HAHAHAHAH. Tu faz o quê?? Te enxerga, otário!! HAHAHHAHA Tá pra nascer o hômi que enconsta em mim, baby. Òia, vou ter que desligar. O tabacudo do meu irmão tá ligando pra mim...Tá, tá...Beijoss hihiihihih Só isso? hhihihhh. Tá tá, faço, faço, animal!! HAHAHAHA (DESLIGOU. ATENDEU OUTRA CHAMADA.)
-Que é, Gerso?????? Peraí que eu ligo pra tu!!
Desligou e prendeu o cabelo de novo, com uma piranha enorme que tirou da bolsa. Discou novamente. Ouvido.
-Diz. Foi. Na parte de baixo. Bote pra descongelar. Claro!! Tá na prateleira. Meu filho, procure...Tá aí, sim...Se acabou, vá no mercadinho comprar. Menino, trinta centavos, tu não tem, não, é? Pra ficar naquela porra do churrasquinho, tu fica a noite todinha com aquelas piniqueira, né, Gerso? Vou te dar dinheiro mais não, meu filho. Você tá merecendo nadinha. Se lasque, quero saber não. Se vire, vá comer na casa das suas nega, peça esmola, se mate, sei não o que você faz. Táis com quinze anos na tua cara, Gerso. Um hômi já!! Num estuda, faz porra nenhuma..Sou tua mãe pra ficar te sustentando, não!! SUSTENTO MEUS MACHO PORQUÊ EU POSSO, SEU FILHO DA PUTA!! E NUM LIGUE MAIS PRA MIM NÃO!
***
Desligou, ainda chingando-o de "fresco". O ápice da viagem foi quando, ao perceber que sua parada passara, a mulher, ainda tentando se recompor dos gritos que há pouco dera, começou a gritar desesperadamente para o motorista ("Pára, Pára, Pára, parada desce, parada desce, parade desce. Porra, vou descer, vou descer!!!"). E percorreu o corredor do ônibus, aos trancos e barrancos, num estado mais risível que aquele em que entrara, enqunto seu telefone tocava a música da Kelly Klarkson. Desceu as escadas do ônibus, fazendo talvez mais barulho do que fez durante toda a viagem.
***
E se afastou do ônibus, andando como uma louca pela calçada, mechas de luzes de um lado a outro, cofrinho aparecendo e malas a tira-colo, enquanto os passageiros ainda riam da figura que por ali passara. E que figura...
UPDATE: OS FATOS ACIMA RELATADOS REALMENTE ACONTECERAM. E QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE NÃO FOI MESMO MERA COINCIDÊNCIA. FOI FATO. TALVEZ VOCÊ TENHA QUE ANDAR MUITO DE ÔNIBUS PARA ENCONTRAR UM PASSAGEIRO DESSE JEITO. POIS É. EU ANDO. :( OU :) ??

4 comentários:

thaís disse...

gostei mto desse não...
ta meio irreal!um monte de telefone ao mesmo tempo!sei la...mas tem partes engraçadas...
hehehe

Beth disse...

H
I
L
Á
R
I
O
!!!!!!!!!!!!!!
RI SEM PARAR....CADA CRIATURA SEM NOÇÃO QUE A GENTE ENCONTRA NO ÔNIBUS QUE SEI NAO VIU....

Aleriane disse...

ooooottiiiimmmoooooo!!!!!!!!!!
Adorei!!!!!!!
Me acabei de ri!!!!!
Eu ando de barro e não encontro uma figura dessa!
Beijos!!!!!!!!!

AMANDA disse...

PUTA MERDA PRIMO!!!MU IRMÃO PARECE QUE ESTAMOS VENDO A CENA!!!SÓ VC PAA TER O PODER DE RELATAR TAIS CENAS MARAVILHOSAS DO DIA-A-DIA!!QUERO VER ESSE LIVRO PUBLICADO!TE AMO