quarta-feira, novembro 08, 2006

Desistência


Com desdém, saiu do carro, desceu as escadas, em direção à portaria, não cumprimentou o porteiro e nem sequer ouviu os gritos do homem. Foi em direção ao elevador, clicou no sétimo andar e nem percebeu quando ele telefonara, denunciando-a. Já não importava se a imprevisibilidade a ajudaria ou não. O que importava nesse momento era a vontade de saciar sua curiosidade. Chegando no andar, aberta a porta do elevador, corredor escuro à frente. A cada passo, uma nova luz se acendia, acionada pelos seus movimentos. Ao chegar à porta, silêncio total. Respiração acelerada, batimentos quase que guturais, vilosidades involuntariamente incômodas. Arruma os cabelos. Primeiro toque. Segunto toque. Chaves. Olho mágico. Porta aberta, devagar...Adentra. Do outro lado, um fantasma segurando a maçaneta. Franja por cima da testa, olheiras de duas noites em claro, cigarros jogados na mesa do centro, aquele cheiro ocre que fica quando não se toma banho. À frente da porta, sentia o ódio remoer suas vontades de dizer todas suas verdades. Ao passar por ela, e se deparar com um adversário tão inofensivo, desabou todas suas armas ao chão. Quebraram-se todas as suas defesas e deixou escapar todos os seus ataques. Só sentiu angústia e pena e amor por aquele que agora colocava embaixo do chuveiro, enquanto incessantemente tocava ao fundo o interfone. No momento em que limpava aquele corpo, pensava unicamente em como limparia aquela alma. Sem que triscasse gota alguma na sua, que custara tanto a clarear. O resto da noite passou ao seu lado, passando os dedos em seus cachos e torcendo para que a manhã do dia seguinte fosse menos turbulenta. E tivesse mais respostas, do que as dúvidas que estavam por vir. Naquela noite, acendeu um cigarro, depois de meses de abstinência. E enfraqueceu diante de dois vícios: o do fumo e o do amor.

Um comentário:

Beth disse...

sempre excelente
=*