sexta-feira, maio 26, 2006

O Pe(r)dido na entrada para o Céu


Saiba que minha vida me matou. Não que eu esteja tentando mitificar minha morte, mas é que tenho certeza que a fiz por merecer. Tenho certeza que irás me aceitar, mesmo porque entendo nunca ter sido o tipo de pessoa que mereceria um destino tão cruel quanto o inferno, lugar que não estou mais disposto a ficar daqui por diante. Nunca fui o exemplo de humanismo e cidadania, muito menos o homem de coração mais puro e honesto. Mas não fui ruim por escolha; foi por falta de uma!
Bem, mereço um espaço superior simplesmente porque a morte me consertou. Se não fui capaz de exercitar todas essas qualidades que sinto se formar em mim neste momento, que ao menos eu tenha a possibilidade de mostrá-las agora, depois da morte, às pessoas que merecem recebê-las. Portanto, se minha vida foi um rol de perversidades, como muitos podem dizer, pretendo fazer de minha morte melhor do que qualquer vida. E está na hora de pôr isto em prática.
Está certo que nunca me preocupei com os outros e sempre fiz de tudo para conquistar meus objetivos mais banais. Mas é que vistos lá de baixo, do mesmo plano, eles pareciam tão essenciais...Eu não tinha esse pensar que tenho agora...Meu egoísmo era minha característica mais latente e meu desprezo pelo resto fazia-me sentir mais importante a cada nova atitude esnobe. Nunca temi ser odiado, pelo contrário, o ódio dos outros por mim alimentava meu vultoso ego, mesmo porque sempre fiz questão de provocar a inveja alheia.
Nunca liguei por pisar em alguém...Aprendi a fazer isso praticamente desde que comecei a andar. E a mentir, desde que comecei a balbuciar minhas primeiras palavras chantagiosas! Sempre fui um líder nato e conquistava todos com minha capacidade de dissimulação extrema! Além disso, sempre fui cercado por gente muito fraca e influenciada, que se deixava levar pelos meus contos e desejos mais fúteis. Minha mãe abdicou cedo do seu papel materno e sempre se dedicou com afinco à uma vidinha vazia, com casos desamorosos. Perdi meu pai antes mesmo de conhecê-lo, e meu primeiro grande amigo foi o poodle de minha mãe, que sempre vinha me lamber após cada chute que eu dava nele.
Cresci assim, sem atenção nem conversa, distante de qualquer mundo senão aquele construído por mim mesmo. Minhas paixões sempre me custaram muito dinheiro e assim foi por toda a minha vida. Nunca conheci algo que se aproximasse do amor; até agora não sabia o que era ter o coração bater forte, senão por raiva do que não consegui obter...E foi pouca coisa...
Minhas novas conquistas eram meus mais profundos objetivos e nada estava à minha frente além do meu desejo satisfeito. Nunca fui de me socializar com ninguém. Minha Sociedade era a minha mansão, meus domínios, o interior de meus muros, as coisas que já me pertenciam e as que eu ainda queria comprar. Comprar sempre foi meu passatempo favorito; sempre valorizei o garbo e o luxo. Mas nada nunca se comparou a comprar as pessoas! Isso sempre me fez ter certeza do quanto elas são fracas e hipócritas e de como elas são capazes de vender fácil suas opiniões e suas crenças...Isso me impulsionava cada vez mais a praticar meus joguinhos de destruição alheia.
Veja você que nunca tive uma oportunidade de reflexão acerca de uma possível conversão, tendo em vista tal ambiente desprezível em que eu que eu era rei. Além do mais, nunca foi realmente minha vontade mudar. Não se pode esperar muito de alguém cujas primeiras lembranças de vida são desarranjos, um começo de uma vida desfigurada, iludida pelo brilho do ouro e ofuscada pela ostentação insana.
Saiba que estou disposto a fazer desta minha estada nos céus o exercício de uma vida que não tive, mesmo que depois de morto. A morte nunca significou nada para mim, mesmo porque no fundo eu sabia que, se ela viesse, viria para me libertar. Hoje vejo que eu precisava de liberdade, que me sentia na verdade preso à pessoa que eu era obrigado a ser. Sim, via e vejo hoje, na morte, a minha liberdade; onde eu posso ser e ter tudo que nunca quis e nunca pude.
Por isso, rogo por um canto aos seus. Peço passagem por um novo mundo onde eu possa descobrir quem eu poderia ter sido e não fui. Onde eu possa perceber que dentro de mim sempre houve uma parte escondida, que só pude agora desvelar. Onde eu me sinta mais vivo do que morto (mesmo morto), onde eu possa mais aprender do que ensinar. Necessito mais do que nunca dessa chance para perceber que fui um fruto e não a raiz de uma árvore cruel.
E, assim, peço entrada neste caminho divino e, pretenso como sou de minhas possibilidades, espero com otimismo. Assim posso provar a mim mesmo que minha falta de humanidade enquanto vivo pode ser consertada pelo exercício de humanidade enquanto morto. Se não pude ser humano onde sensivelmente deveria ter sido, deixe-me o ser onde racionalmente não o poderia. Quem sabe, assim, provo a mim, aos santos e aos anjos que há sempre uma esperança, e que meus erros de vida podem ser compensados com acertos de morte. Mesmo que uma alma como a minha não tenha realmente salvação. Quem sabe não recupero um pouco do tempo perdido, mesmo que seja através desse absurdo pedido.
*****
Para as pessoas perdidas. Sempre há uma saída.
Até a próxima viagem!!

2 comentários:

thais disse...

"Para as pessoas perdidas. Sempre há uma saída.
Até a próxima viagem"

escreve logo um livro higgo!
sou tua fã ja!!!uhauhaua
adoro esse texto e adorei o visual novo do blog!!
beijooo

betinha disse...

adorei higgo..
o título é ótimo...
o final do texto melhor ainda
bjoo