sábado, agosto 04, 2007

Atravessando a ponte


Ele encontrou e não quis duvidar. Tanta falta de clichê poderia até ser...E não foi. Mas enquanto o poder do encantamento e da possibilidade do ‘quiçá’ fazia-se presente, ele enaltecia-se na esperança de uma nova paixão, de um novo amor. Parecia perfeita. Coincidências cinematográficas. Afinidade à flor da pele. Doces lembranças e imaginações diversas sobre o talvez de um possível encantamento. Porém, a vida lhe provou ser feiticeira. Traduziu tudo que houvera imaginado em possibilidade real. Controlou seu guidon contra a correnteza, tornando-o opressor das paixões alheias. Contudo, criou um inocente apaixonado.
Aparentava perfeição. Todas as frases. Todos os gestos. Tudo parecia inclinar-se à sua vontade, ao seu desejo. Os interesses pareciam encaixar-se, encontravam-se em seus pensamentos. Eram nitidamente colaterais, coordenados e convergentes. Eram. Passaram-se uma, duas oportunidades. Avultavam-se em significado e em importância. A cada gesto sua confiança crescia e cada momento perdido lhe era seu próprio calabouço. Mas, além de prisioneiro do azar, alimentava esperança da oportunidade.
Seguia, assim, no caminho tortuoso da probabilidade. Esta alicerçada nas interpretações superestimadas de alguém que espera demais. E foi a espera do melhor momento que o levou à ruína. A aparente perfeição do encontro começou a desmoronar quando, confiante no sonho, confrontou-se com a fria realidade. Não era ele a quem se destinava toda aquela quente doçura. A ele não pertencia a afinidade superinterpretada. Um outro alguém conquistara seu amor. No seu jeito de ser, havia feito de tudo para que ela percebesse seu afeto. Mas talvez a sua flor a fizera perceber o amor de outro alguém.
Para ele, tudo, até então, estivera irretocável. Tudo arranjado, combinado inconscientemente. A perfeição estava por vir; porém viera a decepção. Imaginara todo aquele jogo de conquista entre os dois. Tentara de todas as suas formas mais gentis estabelecer o limiar do compromisso abstrato. Ele era dela. Ela era sua. Até então.
Eis que o tempo passava, seus olhares iam ao encontro dos dela. Pareciam fugir-lhe ao controle. Sentia cada vez mais necessidade de proximidade, de fundir-se em saliva e sentimento. Porém, em sua gentileza de ser, esperou, não soube por quê. Talvez pela 'certeza', ignorando a possibilidade erradamente anunciada. Tal demora, ou tal erro crasso de interpretação, logo o pusera de frente com a verdade. Eram aos braços de outro a que ela se entregava. Era na boca do outro em que ela se perdia. Era o sorriso do outro o que ela procurava. O que lhe restava, resignação, apatia e saliva seca engolida no sofregar de uma música não-desejada. E ninguém percebia.
Enquanto afundava-se na tristeza, na dor de suportar, exatamente ao seu lado, aquela boca noutra boca, pensava em todos os pecados que outrora cometera. E se perguntava por que razão suas punições vinham tão depressa...Não se recordava de ser tão ruim, ao ponto de merecer tanto de tanta coisa. Enquanto se esforçava em atender aos desejos daqueles que requeriam a volta pra casa, num gesto egoístico de livrar-se também daquele espetáculo vexatório, pensava nos antídotos necessários para erguer-se daquele baque.
E assim foram eles. Em grupo, porém solitário. Conversando, porém em silêncio. Sorrindo, embora chorando. Tanto que, no momento da despedida, viu-se literalmente sozinho, abandonado, tendo lhe sido concedido apenas um breve gesto de adeus. Um aceno que lhe era dado em consideração, mas funcionava como uma adaga no peito, dilacerando todas suas expectativas mais inocentes.
Assim se foi ele, que antes era capaz de tão habilmente dividir sua racionalidade de seus sentimentos. Alguém que parecia sabiamente camuflar suas emoções, mas que, naquele momento, as entregara às pessoas mais estranhas, em forma de lágrimas e alma ferida. Aqueles que por ele passavam não imaginavam o quanto dissolvidas em seu rancor estavam suas emoções mais singelas. O quanto confundia-se com sua raiva a sua decepção mais agoniante. Ninguém naquele lugar poderia imaginar o quanto deixara para trás em prol daquele momento. E o quanto aquela escolha havia destruído sua boa intenção.
Entregue ao desespero de sua dor, relutou, como tantas vezes, a aceitar passivamente seu destino. Enfrentou-o, acompanhado apenas de sua sôfrega consciência, à procura de alguém com que pudesse dividir tal aflição. Atravessou o medo e o desespero da solidão, pela ponte mais deserta, em busca de um colo amigo, e, não encontrando-o em lugar algum, refugiou-se nas batidas dos tambores mais resistentes: a trilha de seu mais triste desespero. Fizera todo o caminho de volta sozinho. Na mais bela e terrível cena que poderia protagonizar. Enfrentara a madrugada, a ponte solitária e os ladrilhos molhados aos prantos, dissolvendo-se na lembrança daquele adeus frio e indigno e cruel.
Contudo, trôpega e dramaticamente, conseguiu voltar pra casa, sob o céu que chovia em líquido tudo aquilo que ele desejava chorar em lágrimas. Como numa das cenas mais tristes e clichês que poderia ter imaginado, entregou-se ao desorgulho do disfarce de sua tristeza, deixando cada lágrima como uma cicatriz que o ensinaria a crescer. Tivesse uma maquiagem, estaria borrada. Tivesse necessidade de atenção, seria o assunto do dia seguinte. Fosse um ser sentimental, estaria até agora inerte nalgum copo de cerveja.
Mas ele continuva sendo ele. A fortaleza. A rocha inatingível. O orgulho personificado, embora sem chão. E tal figura jamais seria manchada pela maior desilusão de sua vida. Tal imagem chegou a tremer ante o reflexo daquele abandono na madrugada; porém opaco diante daquele que deseja tanto mais para uma vida até então vivida de tanto menos. Assim sendo, enxugou as lágrimas secas em cicatriz, demonstrou a si mesmo que era capaz de erguer-se de qualquer decepção e limpou seus joelhos, até então sujos de tantas quedas em apenas uma noite. E foi-se em busca de uma felicidade diferente daquela que até então era fruto de sua mais criativa imaginação.


Um comentário:

Aninha disse...

Aff... Que texto enooorme! Poderia ser maior, adoro ler o que tu escreves! Hehe
Que perfeitoooo
SEMPRE, né?
=***
S2

*Bora brincar de visitar o blog dos amigos de vez em quando, né? ¬¬