domingo, junho 17, 2007

São João?


Muitos me recriminam por muitas de minhas opiniões, e esta sobre a qual estou prestes a discorrer não é diferente! Sei que serei recriminado por muitos! Mas, como a coragem de assumir a minha peculiaridade é um de meus fortes, sinto-me à vontade para soltar o verbo.

Estou aqui para falar mal do São João. Os céus que me perdoem, bem como o restante das santidades que nele residem, mas não se trata de uma festividade a qual aprecie. Sigo além: mais do que desapreciar, relativamente abomino. E este 'relativamente' não foi empregado à toa. Apenas não recrimino por completo porque sei que tal festa, alheia à comercialização e à erotização a que é submetida pela estilização vulgar do tradicional, tem como prerrogativa justamente o resgate à tradição. Isto é notável no costume de acender fogueiras, estourar fogos, bem como dançar o folgoso forró pé-de-serra e, é claro, a famosa quadrilha matuta. O São João, em minha leiga opinião, deveria ser uma festa em que buscasse resgatar os costumes mais sertanejos de nosso País...

Contudo....como o homem quase sempre desvirtua tudo que tem algum sentido de existir, o que vemos hoje em dia com o São João não poderia ser diferente. O cheiro de pólvora fraquinho que ficava na rua quando eu era menino, deu lugar ao insuportável cheiro da fumaça das fogueiras que TODOS os vizinhos teimam em fazer em frente às suas casas... O que antes era feito coletivamente, uma grande fogueira armada para toda a comunidade, hoje se tornou uma possibilidade de afirmação, uma disputa de status, uma competição pela maior labareda ou pela fumaça mais intoxicadora. Pular essas fogueiras tornou-se uma tarefa impossível! Até mesmo aproximar-se delas é dificultado pela dor que causam aos olhos.. São lágrimas escorrendo involuntariamente que desestabilizam quaisquer tentativa de aproximação com as ditas cujas. Primeiro ponto baixo: utilização das fogueiras como ostentação e poder são um mero sinal de que o São João perdeu a característica coletiva para a individualidade.

Ademais, vamos às músicas...Talvez seja este o ponto mais controverso. Não venham me dizer que as famigeradas bandinhas pseudo-bregas de forró, que levantam a bandeira da diversão e do compromisso com a alegria, são representativas dessa época. Tais bandas ( "Café-com -numsei-o-quê", "Limão com rapadura", "Calcinha num-sei-que-cor") são arremedos de bandas de forró! São enganadores, golpistas, meras empresas do entretenimento barato, são o circo da política safada do 'pão e circo', desta vez disponibilizada pela mídia despecializada. São lixos radiofônicos que, comparados à poesia e à simplicidade do pé-de-serra, não merecem nem mesmo a reciclagem. Os ritmos matutos devem ser guiados pelo som do triângulo e da sanfona, e cantados pelo suór do sanfoneiro legítimo em cuja circulação, além de sangue, deve correr o som de sua terra. O São João não merece mais uma prova de ridicularização da mulher, como é feita com louvor pelas irmãs-bandas bregas ao longo do ano. O São João, apesar de um amigo distante e não tão íntimo, não merece tal afronta! Segundo ponto baixo: a descaracterização sonora por conta da "estilização" desabonadora das empresas disfarçadas de forró. Meros golpistas fantasiados de artistas.

Por fim, e não menos importante, cabe citar o próprio comportamento das pessoas. As festividades dessa época antes imbuíam nas pessoas o verdadeiro espírito matuto. Os comes-e-bebes eram um grande atrativo e a incocência da dança de uma quadrilha improvisada era um dos pontos altos da noite. Atualmente, as festas de São João são meros 'points' de encontro e exibição daquela bota nova e do 'look' propositalmente imitador do interiorano. O São João serve hoje para servir a mais uma balada em forma de feriado para os jovens, que, ao ritmo lancinante do forró eletrônico de um (a) cantor (a) desafinado (a), entregam-se à folia junina, que mais parece carnavalesca. Terceiro ponto baixo: o comportamento atual releva a tradição em virtude do hábito farrista de refestelar-se no sexo oposto ao som de um ritmo enganador.

Polêmicas à parte, se há alguma defesa que posso fazer ao São João, esta reside na necessidade premente de resgatar sua essência!!! Os rumos comerciais, bem como a artificialização do que era para ser uma volta ao natural, banalizam uma época que poderia ser rica em cultura, mas se descaracteriza em virtude do afastamento da mesma. Cultua-se a aparência (trajes da moda), quando esta deveria servir de brincadeira (trajes matutos); priorizam-se as músicas modernosas que falam de bordéis e cultuam a promiscuidade, em detrimento do lirismo de uma boa música de 'Luís Gonzaga' !! E, dessa forma, mais um evento que tanto poderia ser não é, o que muito me incentiva a preferir ficar em dia com os lançamentos da locadora e do cinema, do que me esbaldar na cultuação a uma festa tão descaracterizada.


Com o perdão da brincadeira:


Olha, que isso aqui não está muito bom; isso aqui poderia ser bom demais.

Olha, quem tá fora, lá quer ficar. E quem tá dentro se esvai.


**Se eu fosse uma bandeirinha, desejaria ser um balão, para voar bem pra longe de tudo isso**

4 comentários:

Leonice disse...

Se você tem essa capacidade de sentir o verdadeiro São João sem nem passar perto dos forrós da vida, imagine o meu sofrimento. Tá foda!!

LÊU disse...

Interessante o seu ponto de vista...Creio que concordamos em alguns pontos, entretanto, somos diferentes(ainda bem) em outros. E isso que é bom né? Qual seria a graça em concordar em tudo. Hun!? Abração Higgo.

Aninha disse...

Huuummm... Vejamos! Atualmente:
Natal=troca de presentes
Páscoa=ovos de chocolate
São João=grande balada
...E o pior:
[b]Carnaval=cabaré de rua[/b]
E, sem concordar com sua opinião sobre a descaracterização de todas as festas, o evento que saiu no canal E!, no programa [red]Wild On! Naked(olha o nome da atração...) foi justamente o Carnaval, e mostrou SP como um prostíbulo gigante... Então, antes de mostrar APENAS a beleza do Carnaval e a desgraça do SJ, analisemos com carinho todas as situações, ok? Afinal, o homem tem mania de brincar de Lego: cria, descaracteriza...
Hehe
Xeroooo
Adorei o texto
Tem texto novo no meu blog, viu?

higgo braga disse...

Éeeee, Aninha...

o homem cria, descaracteriza...
No texto do Carnaval, não apenas exaltei o carnaval em si, mas justamente, o carnaval de nossa Terra, que prima pelo resgate das tradições que bailam por nossas ruas nessa época... Porém, nessa época junina, o mesmo não ocorre com o São JOão, entende? Esse foi o motivo maior da diferença entre os textos... O São João de Recife (aliás...de Gravatá e Caruaru, né?)peca onde o Carnaval de Recife e Olinda acertam melhor!!!
Daí as duas visões diferentes..
Beijosssssssssss