segunda-feira, março 19, 2007

Entropia peculiar (des)equilibradora


Aprendi em química que as moléculas, dependendo do estado físico da matéria, agrupam-se afastadas ou próximas umas das outras. Quando bem próximas, eis o sólido. Afastando-as mais um pouco, líquido. O grau de afastamento maior determina o gasoso.

Eu me penso como um ser sólido. Tudo bem que tenho líquidos e gases, e que muito do meu corpo é formado de água, portanto minhas moléculas, caso sigam as leis da química, estão num estado meio que próximo-afastado. Mas, não obstante à liquidez que me faz organicamente vivo, há massa. E essa massa entendo como responsável pela minha solidez. E o que visualmente entendo como sólido, interiormente entendo como...há algo mais gasoso do que o gasoso?

Há momentos em que a entropia interior que nos acompanha destrutura qualquer arremedo químico, engana quaisquer experiências físicas mirabolantes, camufla seja qual for a lei científica...E essa desestruturação interna na prática poderia refletir uma mudança de estado físico, mas na minha louca teoria de existir representa uma fase de procura, de confronto e de constante adaptação. É a minha entropia. Uma espécie de desorganização conflituosa e problemática. Confusa. Prejudicial. Mas intrigante. Questionadora. E desafiadora. Uma típica entropia peculiar (des)equilibradora. Trata-se de um estado de existir representado pela ausente presença da lucidez, pela corajosa covardia de desestimular-se, pelo apropriado sentimento de sentir-se impróprio. Deslocado. Como se a certeza do caminho aparentemente certo mostrasse agora quanto o fora falho. Como se a opção pela saída racional não fosse suficiente para completar as emoções mais necessárias do agora. Como se o impulso avassalador de deixar-se engolir pelo caminho irremediável da desistência se mostrasse encantadoramente convidativo. Alucinógeno. Desvirtuador. Mais forte?

***

Não sei ao certo explicar como tais escolhas passadas, agora questionadas no presente, serão capazes de determinar meu futuro. Mas sei que durante algum tempo tal estado de entropia seguirá confundindo minha psicologia de esquina.

Que a melancolia disfarçada de gentileza e fortaleza simpática siga sempre a esconder tal descontrole!! Imperceptível. Mas confessional.

Como os pecados que precisam de rezas e arrependimentos sinceros, assim discorro sobre a minha entropia. Um estado quiçá passageiro que ensine a grande lição de que o determinante na busca pela razão de existir é a consciência inconseqüente sobre o que nos constitui. Talvez essas moléculas estejam desarrumadas mesmo, talvez estejam me desorganizando, me desarrumando..Mas talvez representem a desconfortável sensação do conserto. Da cicatrização.

Que venham as marcas desse desarranjo transfigurado em crescimento. Talvez falho para uma experiência química, mas engrandecedor enquanto confusa experiência de vida. São esses momentos de encruzilhadas cortantes, perigosas e desconhecidas que nos tornam essa mistura molecular densa, porém humanamente encantadora...

2 comentários:

Elizabeth disse...

=**

Elizabeth disse...
Este comentário foi removido pelo autor.