quinta-feira, maio 31, 2007

Quem é você?


Somos atores sociais. E muitas vezes confundimos a atuação. O conceito sociológico vem acompanhado de toda uma pompa coletiva e construtivista. Já ao que estou realmente me referindo, a maneira nada espontânea de nos portarmos, a encenação do que devemos ser em determinada situação, o número improvisado como arma para aceitação em grupo social, isto tudo é carregado de uma maquinário avassaladoramente auto-protetor.

Na maioria das vezes não somos nós mesmos. Ou melhor, na grande maioria das vezes nos portamos como nós mesmos achamos que deveríamos nos portar caso não nos importássemos com o que os outros se importarão de nós. Mas nós nos importamos. Não tem jeito. E a confusão, mais do que no modo com que tentei agora há pouco dizer, se avulta de significado à medida que essa facetagem descarada e adaptativa de nos encaixarmos camaleonicamente a cada ambiente passa a confudir nós mesmos: a chamada indentidade duvidosa-perdida-ameaçada entra em cena.

Para não nos degradar ao ponto da picaretagem falsária, digo com veemência que antes de tudo temos uma essência caracterizada pelo que convencionamos chamar simpaticamente de temperamento/ personalidade. Isso é inegável. Ninguém faz reformas interiores por onde quer que passa. Esse traçado interno, o âmago de cada um, é irrepreensivelmente único e determinado. Alguns o conhecem bem, e mesmo assim, aprendem a re-conhecê-lo dia após dia. Outros, coitados, perdem-se nas avaliações e seguem sem rumo, à busca constante da auto-compreensão, mas se perdem na continuidade da batalha.

Dita essa concessão afagadora, a da certeza de que temos um modelo de identidade interior pré-programado, essa espécie de código deontológico pessoal, passemos à criticidade do reconhecimento de nosso descaramento: a relativa espontaneidade presente em nossa atuação como ser humano em sociedade. Para se viver coletivamente, aprendemos a sobrepujar nossos paradigmas, a ceder e relevar certos entendimentos, em detrimento do grupo ao qual estamos inseridos. Isto por si só já ofusca grande parte do que somos, em relação ao modo como nos portamos.

Em segundo lugar, estamos constantemente iniciando novas relações, pondo-nos em contato em situações novas, partindo do zero a cada linha de chegada. Estas apresentações ao recém-chegado não deixam dúvidas de que agimos através de modelos de como se deve agir quando a variável "intimidade" não deixou os atores sociais à vontade o suficiente para deixar transparecer o seu verdadeiro rol de comportamentos ora tolhidos, ora inibidos, ora atenuados, (ou até exagerados, dependendo da situação)pelo simples poder moldador da novidade.

E por fim, e não menos importante, para completar a tríade do que venho tentando expressar nessas linhas, reside a obviedade do fato de que, ao conviver em sociedade, nossos atos são reflexos das atitudes dos que estão à nossa volta. Muito deles certamente são resultados práticos em resposta às atitudes daqueles com quem convivemos. A convivência, o meio, os exemplos e a interação são responsáveis pela padronização da camuflagem grupal. E, além disso, agimos conforme a música, em diálogos constantes com o mundo à nossa volta, e nos portamos na grande maioria das vezes de maneira diferente quando sozinhos, comparado a quando estamos acompanhados.

Na verdade, somos o resultado do (des) equilíbrio estabelecido entre o que interiormente somos e como externamente agimos. O resultado desse cálculo é a incógnita perseguida por esse raciocínio. Definimo-nos pela junção do abstrato de nosso caráter à materialidade de como nos comportamos em coletividade. O grande problema é que na imensa maioria das vezes deixamos a figura social criada por nós dominar aquilo que nossa individualidade primeirante ensinou. O ideal deve ser buscar o limite maduro entre nosso recheio e nossa casca, para que nem nosso roteiro interior seja infringido, nem a atuação da cena mais adiante perca em espontaneidade e talento. O reconhecimento nesta vida reside no fato de deixarmos marcado, em tudo que está à nossa volta,o mais perfeito reflexo daquilo que cultivamos dentro de nós, não obstante às tantas variáveis que relutam em nos impedir de atuar de forma genuína. Diante dessa compreensão, quem sabe estaremos um dia aptos a responder à simples pergunta do título, sem que tenhamos que involuntariamente agir como deveríamos, em detrimento de como agiríamos sem nada dever. Eis uma grande questão, uma interessante dúvida: eis um grande exercicio.

quinta-feira, maio 24, 2007

Baixio das Bestas


Eis uma história crua, que muito depende do quanto desnudados estão dispostos seus executores. Mais do que artistas nus, vemos neste filme de Cláudio Assis uma Zona da Mata despida: pobre, esquecida, abandonada.

Os personagens retratados neste filme são o reflexo do abandono e o da marginalidade a que foram submetidas muitas das cidades interioranas de nosso Nordeste. Muito me fez lembrar - totalmente pelo seu sentimento de escanteio, nunca pelo seu modo se descrever - a cidade esquecida do filme "A Máquina",de João Falcão, da qual seus moradores evadiam-se por conta da falta de recursos.

A falta de recursos da cidade focada em "Baixio das Bestas" é exemplificada pela ausência de oportunidades e mostrada como um palco para o desfile de figuras animalescas, que, muito por conta da marginalidade, são mostrados em tons naturalistas, que remetem à irracionalidade humana. Os personagens aproximam-se dos animais em seus métodos, embora cultivem a maldade de comportamento digna de uma maléfico ser humano. E muitas vezes agem com uma maldade exasperadamente pueril, como a de uma criança que decepa friamente um inseto, por exemplo.

Trata-se de um excelente trabalho de Dira Paes, Matheus Nacthtergaile, Caio Blat e a estreante Mariah Teixeira, que conseguem, cada um à sua "baixeza" de existir, transmitir antipatia, asco, raiva e pena, respectivamente. Através de seus personagens, pode-se ver a absurda falta de contidão e modos de uma prostituta de "segundo escalão"; a loucura e o sadismo existentes num homem cuja instrução volta-se ao gosto pela maldade; a preguiça personificada na malandragem inescrupulosa de um jovem imaturo e inconseqüente; a perda da inocência em virtude da constante humilhação e conformação inevitável. Além de seus personagens principais, o filme conta com um elenco desconhecido, porém não menos brilhante, que age com tal naturalidade diante da câmera, que nos faz pensar se são mesmo atores exercendo seu trabalho, a exemplo da cena entre o bêbado cavador de fossa e o patriarca explorador da sexualidade infantil, ambos interpretados brilhantemente por Irandhir Santos e Fernando Teixeira.

"Baixio das Bestas" é uma história sádica e deprimente por natureza, e que ganha contornos de ótima composição em virtude justamente da crueldade de suas exposições secas e desveladas. Planos de cima, bem como por trás dos personagens, além de no meio de um grupo de maracatu em plena atividade não nos deixam em dúvida de que somos mesmo espectadores. Desde o inicío da projeção fica clara a intenção de exposição de uma realidade com a qual não nos identificamos e que, apesar de próxima e triste demais para ser verdade, é verossímil.

Eis a principal contribuição do filme: um Nordeste da Zona da Mata desnudado de retratações caricaturais, desmascarado em suas verdades mais trágicas. Dentre elas, a de que nasce um animal dentro de cada homem esquecido pela própria Humanidade.

sexta-feira, maio 18, 2007

Coesão particular




Sem mais porquês
Um sim, talvez
Como?
No meu homo-sapiens pensar,questiono.
Quando? Será que vai?
Quanto? Será penar?
Quedê o meu lugar?
Já fui embora
em inúmeros outroras.
Aonde foram meus 'ondes'?
Quantos destes podem
dizer-me o quanto do meu quantum?
Enfrento o sentido da falta de sentido
perdido de meus conteúdos.
Entretanto, aqui no meu canto,
Apesar de contudo, ainda sou portanto.

quarta-feira, maio 16, 2007

We are the Earth Intruders


Não consigo viver sem música. Sem cinema também. São duas paixões que caminham juntas e que me transformam num ser dependente. Não há sentido na minha vida, sem que estas duas formas de expressão artística estejam presentes. E, como toda pessoa ansiosa e ávida pelo consumo do que gosta, a simples existência deles não me basta. Necessito sempre de novidades, de reinvenções, de novos sons, de novos planos, de novos ritmos, de novas lágrimas.
Sou sedento pela novidade. Como se um som novo me fizesse repetir as experiências de uma primeira vez, busco sempre estar atualizado com tudo que há de vir desses dois campos imprescindíveis. Não sou daqueles que se fecha ante às novidades, para exaurir ao máximo o que já se tornou passado. Eu escuto a mesma música mil vezes, se ela mexer comigo, mas não deixo de, nos intervalos, buscar novas músicas que me façam experimentar novas sensações. Admiro e amo os clássicos do cinema, mas estou sempre à espera de uma inventividade, seja na forma de contar um roteiro, seja na forma de posicionar uma câmera, seja na linguagem que tal filme utiliza.
Valorizo por demais a originalidade dos jovens artistas que servem como um receptáculo da reciclagem do que marcou época, acrescendo características próprias dos tempos modernos. É como reviver o passado, sem que seja considerado antiquado. É como re-experimentar velhos momentos com cara de novos. É como se sua (seu) esposa (o) tão amada (o), mas já sacrificada (o) pelos efeitos do tempo, reaparecesse certa noite com a pele menos ressecada, com a carne mais firme e cheiro de nova flor. Funcionam dessa forma novas estrelas, como Amy Winehouse, Lilly Allen, Artic Monkeys, Mystery Jets, Muse, entre muitos outros. Dentre os astros da telona, ressalta-se a inventividade de Charlie kaufman, Michel Gondry, Shyamalan, David Fincher, do Mestre Tarantino, Chan Wook Park, Alejandro Gonzalez Iñarritú, Darren Aronofsky!!
Mas um ponto especial a esse raciocínio deve ser direcionado àqueles artistas que dão um passo à frente. Àqueles que bebem de fontes passadas, mas fazem brotar de seus chafarizes novas cores, novos sons, novas sensações. Estes não são apenas reinvenções bem-vindas: são inventores. Ditam moda, seguem sempre no começo da fila, quebram antigos padrões, criam novos. Nos anos 60, BEATLES. Na década seguinte, a disco music deu o seu recado. Nos anos 80, Michael Jackson e Madonna ditaram as regras. Esta última perdeu em originalidade, mas continua por méritos espirituais inexplicáveis, à frente de todo e qualquer processo musical. MJ não merece comentários. Nos anos 90, não me vem à mente nenhum grande nome que funcione com divisor de águas, mas foi nela que basicamente se originou, cresceu e sedimentou-se, passando a perdurar pela virada do século, demonstrando que ela é o futuro, a melhor contribuição islandesa à humanidade. Ela se chama Björk.
Dona de um timbre de voz nunca antes ouvido neste Planeta, e de uma forma de utilizá-lo completamente original e inusitada, Björk é muito mais do que uma artista de vanguarda. Ela é o que há de novo. Tudo que ela realiza leva o toque de um gênio, refletido em sua inventividade e capacidade de renovar-se. Ouvindo sua discografia, é possível perceber a Obra de uma artista incompleta por natureza, intraduzível, inexplicável. É capaz de tornar sons guturais em obra-prima e de emocionar milhões com sua Selma, de "Dançando no Escuro" (sua bem-sucedida e marcante passagem pelo Cinema, sob a marca do também grande cineasta dinamarquês Lars Von Trier). O novo cume desta carreira brilhante reside em seu mais novo trabalho: “Volta”. Mais um disco excepcional, sonoramente lapidado de um modo a unir o que há de mais íntimo e exposto em cada um de nós. Sua voz inigualável embeleza as melodias, ora intimistas, ora ritmadas, ao som de batuques tribais, de um clima oriental, de um lirismo digno dos grandes musicais, de uma verdade escancarada. Uma miscelânea de sensações, de momentos, de sentimentos perpassam qualquer que seja aquele que aguce seus ouvidos a esta beleza que é “Volta”. E é uma viagem sem volta.
Portanto, artistas como esta jóia da “Terra do fogo e do gelo” ratificam em mim a certeza de que estarei sempre bem servido no meu desejo de experimentar o novo. Seja reinventado, seja realmente novidade. E me emociona perceber que são capazes de tocar em algo além de impressões em nossos tímpanos, mas em sentimentos recônditos, em necessidades de consumir com minhas emoções a qualidade artística que deles brotam. Por isso gosto tanto de Música e Cinema, pois ambos são terrenos férteis ao que mais aprecio na arte de apreciar Arte: a intenção de (re)fazer Arte.


Vai um conselho?


Saber escutar o que aqueles que você ama têm a dizer é um dos melhores remédios para as almas mais amarguradas. Quando se cultiva algum problema, um dos melhores remédios podadores desse mal é um bom conselho daqueles que o querem bem. Muitas das vezes, a força de um conselho não reside apenas na mensagem que ele passa. Mas da combinação 'pessoa que fornece + intenção com que diz + resultado a que se chega". Algumas vezes a mensagem pode ser dura demais, pode não ser o que se queira escutar, mas diante dessa tríade poderosa da boa e eficiente intenção, nenhum desejo pueril é mais valente.

Do mesmo modo que um dia aprendi que 'o que se diz pode ser enternecido pelo modo com que se diz' - fruto de uma sábia pessoa que me se serve de exemplo e admiração profunda -, também aprendi que isso que se diz deve muito de sua finalidade ao quanto o outro está disposto a ouvir. E a deixar-se convencer. Portanto, não há verdade acalentada pela meiguice e modos de dizer que surtam efeito nos maus-ouvintes. Embora a meiguice dos que sabem dizer algo com carinho seja por deveras necessária àqueles, digamos, domesticados para a arte da audição controlada, às vezes do que se precisa seja da verdade nua e crua, para os surdos por escolha.

Daqui por diante, aguçarei mais meus sentidos, mais do que me policio fazer. Valorizarei mais as intenções dos conselhos que me dão, mais ainda do que os próprios conselhos. E tentarei apreender lições não simplesmente da mensagem, não somente dos efeitos causados por tal conversa: mas também do que significa para aquela pessoa dizer-me aquilo que ela acredita ser bom pra mim. Talvez ela esteja superando regras impostas a ela própria... talvez seja um recente aprendizado que ela deseje dividir comigo...talvez seja a simples e terna vontade de me ver mais feliz.

E isso me está sendo mais do que suficiente. Melhor do que superar traumas é saber que se está bem servido não apenas de bons conselhos, mas de excelentes conselheiros.

terça-feira, maio 15, 2007

Fossem lágrimas, seriam chorume


Lixo. Esgoto. Carniça. Putrefação. Dejeto. Ceborréia. Suór de vaca prenha de bezerro mutante. Fedor de hálito de anciã sem dentes presa pelos parentes dentro da lata de lixo do banheiro da empregada trancada por dentro. Catarro. Excreção. Viscosidade da última gota de corisa escorrida pelo pescoço. Lambida na sola do pé de um grupo de soldados sebosos vindo da batalha do Iraque. Mergulho em toda a pasta expelida por todos os cravos do mundo espremidos ao mesmo tempo. Nojo. Regurgitação. Vômito das próprias vísceras acompanhado de um platelminto bígamo. Golfada de macaco velho. Defecação. Embebido de urina de camelo raquítico no deserto do Saara. Excremento.


Nojeira travestida de um sentimento baixo por si próprio.

O cúmulo da baixa auto-estima representado pelo curioso ato de sentir-se na merda.

Fossem palavras ditas, sentirias o cheiro ocre do fracasso.

Fossem lágrimas, seriam chorume.



sábado, maio 12, 2007

Prazer, chamo-me dúvida


OLá, prazer em conhecê-lo! Aliás, prazer em revê-lo. Quer dizer, prazer em estar sempre por perto. Ou melhor, ahhh você já sabe!Gosto do jeito que me percebo em seus olhos, quando você, sem saída, me chama entre as várias opções que a vida te propõe. Caso eu não existisse, você facilmente optaria por alguma delas, talvez a certa, talvez a errada, talvez... Se eu não fosse tão presente nas suas escolhas, você pouparia menos preocupações na hora da opção, mas certamente sua margem de erro aumentaria consideravelmente. Mas, pela minha simples presença, a minha gostosa companhia que te faz refletir sobre suas decisões, eu mexo com seu pensamento. Bagunço suas necessidades maiores, avivo a sua razão, sua emoção, com seus hemisférios todos. Eu marco encontros de você mesmo com seus próprios mistérios, te faço enxergar coisas que há tempos você não percebia. Eu te faço repensar e repensar sobre o que já repensou. E na hora de ir embora, vou satisfeita, deixando-o com os pesos da balança na medida certa. Prós, contras, benefícos, prejuízos. Refestelo-me com todos esses elementos farfalhando no carnaval de suas maquinações! Te deixo no ponto com a necessidade de se decidir. Após a dúvida, vem a dívida. Salde-a, para que não seja tarde demais.

sexta-feira, maio 11, 2007

A Liberdade de dizer


Minha bandeira tem cor do tempo
O tom que escolhi
Nesse momento
Perdi

Nela pincei toda metade do passado
O que não vivi
De errado
Escondi

Independente do auto-colonizador
Finquei meu símbolo
Fugi da dor
De ídolo

Revoguei os dogmas da minha prisão
Liberdade: um embaraço
De uma fraco coração
Sem marca-passo

Trotes da tragédia da persuasão divina
Louca obsessão de letras publicadas
Teorias urgentes de esquina
desajustadas

Refém do silenciador invencível
Poder de quem é o comando
Momento irreversível
Dominando

Fruto da genética psicológica da submissão
Atrapalho do balançar de uma bandeira
Destremulada por minha fraqueza
Por mais que eu queira

Inutilidade disseminar um discurso burocrático
Se quem me detém é a coleira do sistema
Só não queria ser estático
Não é meu esquema

E embora minha luta seja menos do que puder
Embora fraca ante à Guerra do Poder
Devo ser mais do que quiser
Devo ser

Persistir na indesistibilidade (des)conquistada
Provocar a algema fortalecida
Uma história mal-contada
Re-Vivida


(por uma voz solta

no eco incerto de uma

esperança absorta

pelo "correto")


Sem saber
Sem desistir
A liberdade de dizer
A liberdade de existir.

terça-feira, maio 08, 2007

O dom inato do destaque


Alguns possuem o dom inato do destaque. Certas pessoas possuem a qualidade incomparável de chamar a atenção sem esforços, de magnetizar olhares. Dia desses, fui magnetizado por um desses seres de super-poderes.
Atribuo a Ciça (?) a melhor reflexão do meu dia. Do encontro num simples ponto de ônibus à triste despedida num outro ponto de destino, Ciça (?) conquistou toda a minha atenção e simpatia. E meu respeito. Tratava-se de alguém simples, com capacidade elevada de comunicação. Transformou a espera do ônibus demorado num prazer. Fez do ônibus lotado, uma aventura.

A cada minuto, Ciça (?) trocava um idéia com um, chamava a atenção de outro. Um talento inigualável de se fazer conhecer. Eu desempenhava o papel de seu camarada principal na viagem. Embora se dirigisse a todos que estavam por perto, era a mim, seu colega de espera e viagem, a que ela parecia recorrer em busca de um olhar comprensivo. Quando, sem querer, esbarrei nela, por conta de uma freada brusca do motorista, Ciça (?) olhou de rabo de olho, soltando um "Ok, Ok", que significava uma compreensão de alguém já acostumada com os solavancos de ônibus. Mas não foi a simples compreensão oriunda de suas experiências como passageira de coletivos que chamara mais a atenção, mas sim o modo com que ela se dirigia a mim. Como se já me conhecesse. Como se soubesse exatamente que eu a entenderia. Como se amigos fôssemos.

Ciça (?) pertence ao seleto grupo dos que possuem o anseio de comentar tudo que se passa ao seu redor. São pessoas iluminadas pela maneira de conviver pautada pelo exercício da simpatia e da gentileza, pela necessidade das respostas humanas a tudo que a ronda. Sem o outro, não há Ciça (?); não há Ciça (?) sem companhia. E é através desse apego ao vizinho que ela desliza pela passarela da vida, conquistando afetos, distribuindo alegria, alegrando os mais tristes dias de quem quer que esteja triste.

Após incontáveis gracejos, desferidos tanto aos passageiros do ônibus, quanto aos pedestres nas ruas, descemos na mesma parada. Eu estava a caminho de uma diversão. Ela, ao trabalho. E ambos tínhamos a mesma empolgação, pois a vida, para pessoas como Ciça (?), é uma grande diversão. Viver próximo a alguém assim deve ser um riso constante, deve ser engrandecedor, um aprendizado diário.

Ao lado de Ciça (?), qualquer um é coadjuvante. Naqueles poucos momentos, ela foi a artista principal, e assim deve ser em todas as peças da vida. Ao descermos do ônibus, dirigíamo-nos ao mesmo local, porém em situações diferentes. Eu, a caminho do lazer. Ela, a caminho de seu ofício. E ambos demonstrávamos bastante alegria!! Mas a minha era engrandecida pela companhia dela.

Ao descermos, nossa despedida foi antecipada. Assim que pusemos nossos pés para fora do ônibus, uma senhora que trabalhava numa lanchonete próxima a chamou, pelo nome que me pareceu ser Ciça (?). E ela prontamente respondeu, com seu sorriso sincero e mãos ao alto, em sinal de consideração.Tinha intenção apenas de cumprimentar e de continuar seu caminho ao meu lado, porém a amiga insistiu que ela ficasse. E Ciça (?), relutante, porém em seu natural desejo de agradar, se despediu de mim com olhar de quem queria ficar por mais tempo, dando-me a mão como um adeus e um sorriso de agradecimento pela companhia.

Espero que ela tenha sentido que o mais agradecido por aqueles momentos era eu. Um pouco triste por ter me afastado dela, percebi que nossa despedida não poderia ter sido de outra maneira, pois pessoas como Ciça (?) nunca saberão agradar a apenas um: vieram nesta vida para agradar a um mundo inteiro.

Quem dera um dia ela pudesse ler estas palavras... Mas contento-me com o fato da inevitabilidade da justiça nessa vida. Gente como Ciça (?) certamente obterá o retorno merecido pelos seus préstimos com exemplar de ser humano. Quem sabe alguém possa dar a ela - ou já tenha dado- o mesmo carinho que me motivou a escrever este texto, exatamente igual ao carinho que ela distribui aonde quer que passe.

Ciça (?) me fez ter certeza de que nosso descrédito pode ser amenizado pela esperança da existência de pessoas puramente boas. É quando justamente pensamos em desistir de ajudar o mundo, que ele nos mostra que possui, sim, ferramentas para esta tarefa. E pessoas como Ciça (?) podem não ter este objetivo, esta meta, mas contribuem inconscientemente para um fim coletivo, apenas por existir individualmente.
Parabéns a Ciça (?), simplesmente por existir e obrigado por cooperar a imbutir na minha existência a alegria de que pessoas como ela são uma realidade, daquelas que realmente fazem diferença.

sexta-feira, abril 20, 2007

Nova mente


Aquele será o primeiro da fila.
Te dará teu norte, teu destino.
Tuas pegadas encaixarão nas dele.
E teu sentido coincidirá com o dele.
O teu consumo se resumirá ao que ele produz.
E tua demanda surgirá em função
da tecnologia que ele lança.


Mais uma velha nova mente
ditando os rumos da tua consumida
vidinha de consumidor
novamente.

Maviosidade


Se o teu ego te impede
de erguer-se da redoma que
criou para isolar-se de mim,
saiba que o meu também me nega
o desejo de quebrar cada rachadura
que a sua angústia deixa
no vidro de sua proteção.

Como dois errantes
sobre o mesmo caminho diferente
de sentidos opostos,
é difícil encontrar sinais
de procura nos seus desvios,
por mais comuns que eles sejam.

(E por mais que eu queira)

Sendo assim,
eu, na virtuose do orgulho de cultivar orgulho,
e você, com a sobriedade das vestes maléficas no coração,
- o tripé do ódio, egoísmo e interesse que fantasiam sua alma -
tornamo-nos reféns do tudo que poderia tanto mais ser
e o que não é.
Para que retornemos ao que éramos
antes de tudo mudar,
basta lembrarmos de que, na verdade, não houve mudança alguma.
Apenas a vontade sua não encontrou na minha
um lugar para ficar à vontade.

Sigo em busca de sua maviosidade.
E você trate de restaurar meus desmantelos.
Quiçá ainda tenhamos tempo...

Logo nós, que parecíamos tão sincronizados...





quarta-feira, abril 11, 2007

Ridículo Coração



Sempre escravo da razão
Sem pulso, sem batida
Uma seca constrição
De tristeza, de ferida

Sem pulso, sem batida
Nessa circulação
De tristeza, de ferida
Não há sangue, nem vazão

Nessa circulação
Não tem átrio, nem ventrículo
Não há sangue, nem vazão
Há um coração ridículo

Não tem átrio, nem ventrículo
Há vazio de emoção
Há um coração ridículo
Sempre escravo da razão

terça-feira, abril 10, 2007

In Sônia



Sônia era uma garota de muitos sonhos.

Fosse acordada, fosse dormindo, lá estava Sônia nos mais alucinógenos pensamentos...

E neles, ela estava sempre descalça, flutuando, envolta por bolhas de sabão, coberta pelas notas de "My Girl"...

Involutariamente, em seu dia-a-dia, nos poucos momentos em que conseguia ser solitária, Sônia se envolvia com seus sonhos de bolhinhas de sabão.

A vida de Sônia era tão sem graça, que ela buscava em tais sonhos a realização da fuga idealizada, do tempo paralisado que não adiantava, nem rebobinava, da desejada falta de sentido na ilusão acalentadora de uma realidade emoldurada apenas pelos seus recônditos desejos.

Mas, eis que num terrível dia Sônia parou de sonhar. Incrivelmente, por mais que tentasse bravamente transportar-se ao sabão, à melodia alegre, aos pés descalços flutuantes, Sônia não conseguia.

Lutava, rolava contra o mau-tempo, amaldiçoava sua má sorte e desejava a morte.

Sem seus sonhos, sua realidade não tinha mais sentido. E tudo que uma dia Sônia construíra de belo vinha de sua faculdade de imaginar-se além.

Sem seus sonhos, era ninguém.

Assim, Sônia foi definhando, cada vez mais atada aos grilhões de sua má-quista existência.

Setenciada por uma insônia capaz de apagar-lhe tudo que nela era alma, Sônia morreu por falta de sonho.

E,certamente, em algum lugar onde a vida seja apenas de flutuantes pés descalços e bolhas de sabão, lá estará Sônia, a entoar os primeiros versos de sua música favorita - "I've got sunshine on a cloudy day"-, deixando os raios-de-sol passar por entre as nuvens cinzentas, esperando ser acordada de seu derradeiro novo sonho, que brilhantemente teimava em não acabar.





terça-feira, abril 03, 2007

Crise aérea, crise terrena



Constituição Federal Brasileira , 1988 - Direitos e garantias Fundamentais -
"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade..."



Pense num estado crítico. Eis no que vivemos. Não há momentos de calmaria, não há pausas na loucura pungente do dia-a-dia. Não há sequer um período de descanso. Esse Brasil, o da Ordem e do Progresso, vive nessa sofreguidão causada pelo acúmulo de seus problemas. Uma crise política aqui é diluída por uma crise na segurança acolá, que, por sua vez, perde espaço midiático pelo crise judicária que se estabelece. Outros setores parecem ficar enciumados e mais crises surgem: crise do combustível, crise diplomática, crise de valores...

E a bola da vez é a famigerada "Crise Aérea", cujas origens remotam desde os primórdios do Sistema de Navegação Aérea. Minha ignorância no assunto não me impede de imaginar qual teria sido o principal problema: do baixo de minha percepção leiga, as raízes de toda esta problemática encontram-se nos controladores de vôo, ligados à Aeronáutica Brasileira, que por sua vez, trata seus subordinados a péssimas e desajustadas condições de trabalho. Responsável pelo controle de todo o tráfego aéreo do País, este Setor, de gestão pública, veio sendo ignorado, relevado, diminuído em sua importância, praticamente abandonado. Não deu outra: num dado momento, a insuportabilidade posta à prova culminou em tais demonstrações de desrespeito para todos os lados. Empresas Aéreas impossibilitadas de honrar seus contratos padecem do mesmo mal que os passageiros impossibilitados de exercer seu direito primordial de consumidores. No último final de semana, últimos dias de março de 2007, o cenário: passageiros dormindo nos chãos dos aeroportos, outros esperando dentro da aeronave, uns desesperados em busca de hotéis, outros em desespero por nem sequer poder buscar hotel para se abrigar...

Caos. Desordem. Humilhação. Foram essas as palavras, dentre muitas outras, utilizadas pela imprensa, para descrever essa nova crise, esse novo alarde, essa nova confusão tupiniquim, que logo, logo dará lugar a alguma nova...Pensemos...Qual será a próxima...Econômica?? Política?? Não, não, estas últimas estão muito recentes.. Climática?? Pode ser......está muito na moda...

Mas, deixando tais conjecturas de lado por um momento, voltemos ao nosso tema. Concordo em gênero, número e grau com as denominações dadas à Crise Aérea brasileira. Um misto de incompetência, com leviandade e anti-profissionalismo. Uma vergonha. Mas, pensemos bem. Tal situação é uma anti-propaganda travestida de crise, desordem passageira. E o que faremos em seguida: um ajuste aqui, um retoque ali, até que todos os pólos da situação (Governo, controladores de vôo, Empresas Aéreas, consumidores e opinião pública) recebam sua migalha de recompensa e aparentemente seja resolvido o problema. Será realizado um pacto, um acordo, um (re)direcionamento de (parcos) recursos, uma tangente reorganização que mascarará o problema, esconderá a fissura por alguns anos (ou meses) e todos parecerão esquecer...Até que nova crise se estabelecerá.

O roteiro é sempre esse. E, assim, crise após crise, aprendemos apenas a remendar. Os remendos socias que fazemos ano após ano são sentidos diariamente com a gravidade dos problemas que enfrentamos com a segurança, com a violência, com a cadente distribuição de renda, com a falta de estrutura de nossas cidades, com nosso latente subdesenvolvimento... Falemos sério: em nada são exageradas as imagens que vimos das pessoas dormindo nos aeroportos...são humillhantes, claro. Mas, o que dissemos então daqueles que TODOS os dias dormem na calçada de fora dos aeroportos?? Com a crise aérea, a classe média e alta foram duramente atingidas; mas com a crise terrena, a crise crua e cruel da realidade social desse Brasil, quem sofre somos todos nós. Ao assitir às cenas das pessoas nos aeroportos, não pude deixar de ter compaixão por elas, mas, foi impossível dissociar-me das imagens que vejo todos os dias: da miséria das crianças em nossos sinais de trânsito, da falta de oportunidade de trabalho às milhares de famílias miseráveis de cada cidade desse País. Ao ver pela televisão a imagem de um casal dividindo um papelão no chão do aeroporto para se proteger do frio, indissociável é o infinito de imagens gravadas em minha mente da imensa quantidade de famílias moradoras de palafitas, de marquises, sob viadutos, ao relento...Ao presenciar o 'jantar' oferecido pelas Empresas Aéreas para alguns dos passageiros não-embarcados - composto de um pedaço de chocolate e uma barra de cereal -, foi impossível não me remeter às trocentas milhões de famílias que não possuem perspectiva de alimento ao levantar-se de sua miséria diária.

Pois é... Graaaande Brasil... embalado por crises, parece arrastar-se multidirecionalmente, em desespero, desorientado...A crise do momento é aérea, mas na verdade vivemos uma crise terrena, triste e constante e desesperançosa.

Nesse momento, Santos Dummont, patrono da Aviação e inventor dessa grande Obra humana, a aeronave, deve estar se revirando no túmulo com tal situação. Porém, antes de tudo, Santos Dummont era um patriota. E, nessa posição, me atrevo a dizer que ele vem se revirando há bem mais tempo. Na verdade, nunca deve ter tido a paz necessária e o merecido descanso.

A crise aérea mexeu com o bolso e a paciência de muitos. Mas a crise terrena..ahhh, essa vem mexendo sempre com os mais sensíveis corações...

sábado, março 31, 2007

O esboço de Constâncio


É difícil a vida de viver onde não se sinta vivo o suficiente. O fato de completar-se não é um fato. É um ato!! Nós somos inerentemente incompletos, ao ponto de, por mais esforços que tenhamos com o objetivo de preencher-nos os vazios, mais valas interiores vão se formando, clamando por novas metas, novos preenchimentos.

Muitos hão de dizer - e o dizem - que nossa incompletude é a maior arma contra o desmantelo da acomodação. E até o é; mas não é imprescindível! É um elemento que, se presente, ótimo; se ausente, no caso daqueles seres de poucos desejos e de fácil satisfação, não é um grande mal.

Diante dessas reflexões, Constâncio sentia-se insatisfeito. Porém, não do medo subjacente à nossa natureza- não era do constante desejo do mais de que ele prescindia. O mal de que padecia Constâncio era o de exercitar algo recompensador, consubstanciado na tragédia de viver racionalmente no pátio da segurança monetária, em detrimento da satisfação emocional de viver do que se gosta.

É isso mesmo: faltava-lhe estímulo. Faltava-lhe calor e ânimo. Estava cansado de tentar e tentar novamente tentar de novo. Havia desistido de buscar resgatar o pouco que sobrara de um amor que na verdade nunca acontecera. Sentia-se engatinhar enquanto outros quebravam recordes. Acumulava sensações de inadequação à medida em que acrescia o desdém por sua atual condição.

Eis o ato-fato interessante: a incompletude que deveria impulsionar a luta de Constâncio contra seu aflito desespero era a principal responsável pelos seus ensaios de desistência! E desistir a esta altura da vida seria até honesto, mas seria feio e covarde e desinteressante.

Assim, num arrasto desequilibrado, num piloto-automático sem muita rota, Constâncio apenas seguia a fila, andava sem guiar-se sozinho, no encalço dos passos da frente. Ia em direção à luz do que lhe garantiam ser seguro, mas sem cultivar os otimismos das centenas de boas conquistas que constantemente lhe atribuíam. Diante disso, das duas uma: ou Constâncio continuaria este eterno esboço mal-feito e mal-determinado ou cairia na depressiva mediocridade da falha irrecuperável do fracasso pela desistência.

Caso não superasse suas dificuldades - esses temores irritantes do que seria do futuro, tendo em vista o triste presente -, certamente Constâncio desviaria dos dois destinos acima preconizados. Pois não havia nascido para ser modelo de rotina que reproduz em vez de criar, nem muito menos para sucumbir à miséria de diluir-se no erro da incompetência.

Portanto, eis a estratégia elaborada por Constâncio: perpetuar-se-ia pelo caminho inóspito das lamúrias do desconforto de não se completar - tentando desperadamente buscar algum sentido escondido nessa viagem turbulenta e aparentemente desproposital- , mas acresceria às suas virtudes o revigorante exercício de buscar perceber o momento certo de aventurar-se no que passaria a dar-lhe prazer, e não sucumbir ao que o matava de tédio. Restava saber apenas se Constâncio teria a suficiente coragem de redirecionar suas coordenadas quando o grande momento chegasse. E mais ainda, se ele perceberia tal momento.

Logo, Constâncio, que nunca usara um bússola, seria obrigado a encontrar seu verdadeiro norte quando a vida, enfim, o apresentasse à grande oportunidade de mudar, o que transformaria uma vida esboçada no trabalho evolutivo da construção de uma Obra, no mínimo, bem encaminhada.

segunda-feira, março 19, 2007

Entropia peculiar (des)equilibradora


Aprendi em química que as moléculas, dependendo do estado físico da matéria, agrupam-se afastadas ou próximas umas das outras. Quando bem próximas, eis o sólido. Afastando-as mais um pouco, líquido. O grau de afastamento maior determina o gasoso.

Eu me penso como um ser sólido. Tudo bem que tenho líquidos e gases, e que muito do meu corpo é formado de água, portanto minhas moléculas, caso sigam as leis da química, estão num estado meio que próximo-afastado. Mas, não obstante à liquidez que me faz organicamente vivo, há massa. E essa massa entendo como responsável pela minha solidez. E o que visualmente entendo como sólido, interiormente entendo como...há algo mais gasoso do que o gasoso?

Há momentos em que a entropia interior que nos acompanha destrutura qualquer arremedo químico, engana quaisquer experiências físicas mirabolantes, camufla seja qual for a lei científica...E essa desestruturação interna na prática poderia refletir uma mudança de estado físico, mas na minha louca teoria de existir representa uma fase de procura, de confronto e de constante adaptação. É a minha entropia. Uma espécie de desorganização conflituosa e problemática. Confusa. Prejudicial. Mas intrigante. Questionadora. E desafiadora. Uma típica entropia peculiar (des)equilibradora. Trata-se de um estado de existir representado pela ausente presença da lucidez, pela corajosa covardia de desestimular-se, pelo apropriado sentimento de sentir-se impróprio. Deslocado. Como se a certeza do caminho aparentemente certo mostrasse agora quanto o fora falho. Como se a opção pela saída racional não fosse suficiente para completar as emoções mais necessárias do agora. Como se o impulso avassalador de deixar-se engolir pelo caminho irremediável da desistência se mostrasse encantadoramente convidativo. Alucinógeno. Desvirtuador. Mais forte?

***

Não sei ao certo explicar como tais escolhas passadas, agora questionadas no presente, serão capazes de determinar meu futuro. Mas sei que durante algum tempo tal estado de entropia seguirá confundindo minha psicologia de esquina.

Que a melancolia disfarçada de gentileza e fortaleza simpática siga sempre a esconder tal descontrole!! Imperceptível. Mas confessional.

Como os pecados que precisam de rezas e arrependimentos sinceros, assim discorro sobre a minha entropia. Um estado quiçá passageiro que ensine a grande lição de que o determinante na busca pela razão de existir é a consciência inconseqüente sobre o que nos constitui. Talvez essas moléculas estejam desarrumadas mesmo, talvez estejam me desorganizando, me desarrumando..Mas talvez representem a desconfortável sensação do conserto. Da cicatrização.

Que venham as marcas desse desarranjo transfigurado em crescimento. Talvez falho para uma experiência química, mas engrandecedor enquanto confusa experiência de vida. São esses momentos de encruzilhadas cortantes, perigosas e desconhecidas que nos tornam essa mistura molecular densa, porém humanamente encantadora...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Conviver


Relacionar-se com outras pessoas talvez seja um dos maiores desafios que enfrentamos nessa vida. Primeiro, porque, para se sair bem nessa tarefa, é preciso uma boa dose de maturidade. Segundo, porque é preciso paciência. E terceiro, necessita-se de uma isenção enorme de sentimentos egoísticos, além do exercício constante da famigerada senhora de todas as boas relações: a generosidade.

É isso: para conviver bem em sociedade, é necessário generosidade. E a prática desse despreendimento consigo mesmo o leva a adquirir confiança. Esta última concede a segurança exata que um ser humano precisa para conviver com o outro. Confiar no que você sente, confiar no sentimento do outro para com você...isso é capaz de alçá-lo à posição invejável de uma vida de conflitos facilmente resolúveis...

Há pessoas que não sabem lidar com os problemas de convivência. Estes, alimentam vorazmente os problemas como uma espécie de escape infindável...Como se precisassem sempre dos conflitos para sentirem evoluir suas relações..como se as agruras de um desacerto momentâneo fossem impulsionar aquela relação ao desejado. Contudo, este acúmulo de problemas, esta dificuldade de saber lidar com os abismos de diferenças entre as pessoas, na maioria das vezes mina as relações. E o que num momento pode parecer a solução de uma briga recente, é apenas um "empurrão com a barriga", um "varrer para debaixo do tapete"...É um leve paliativo.

Evitam-se problemas quando para-se de questionar incessantemente as atitudes do outro. Ou então quando se é tao certo das razões deste, que se torna desnecessário qualquer questionamento. É preciso que paremos de duvidar das escolhas daqueles que escolhemos para conviver. Devemos orientá-los, aconselhá-los. E, em troca, pedir orientação e aconselhamento. E não requerer respostas, mudanças e explicações para tudo que nos aflige.

Se o o objetivo é a boa convivência, não é através de desconfiança e insegurança que se chegará a algum lugar. Alimentar tais sentimentos apenas nos afasta daqueles de quem mais gostamos, daqueles com que podemos mais contar. Tornamo-nos cansativos e problemáticos e difíceis, algo que aponta apenas para péssimas expectativas.

Então pronto: assim estamos combinados. Quando alguém falar de você, eu te escuto antes de te acusar. Quando eu duvidar de algo que você diz, eu tento entender na hora o porquê desta dúvida. Se você escolhe alguém para conversar em vez de mim, eu tento compreender que talvez o outro tenha realmente algo que você precise mais. Eu não te acusarei sem ter certeza. Eu não esconderei suas faltas. Eu as esfregarei na sua frente e mostrarei o caminho certo. Eu duvidarei de cada um que vier iludir-me sobre você. Pois, afinal, se eu gosto de conviver com você é porque eu te amo. E nada, nem mesmo os meus problemas, são maiores do que este sentimento.

Ok, estamos combinados. E é assim construiremos boas relações...através da ajuda, do entendimento e da prática disseminada da intransitividade do verbo amar, em seu mais alto grau de fácil complexidade. E pronto. Prontos estaremos para conviver. Ótima teoria. Pratiquemos!

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Nossos abadás são nossas fantasias


Quando dou os primeiros passos pelas pontes coloridas, em direção ao som dos trombones misturados às batidas do maracatu; quando vejo pais carregando pequenos nos ombros, serpentina, confete, alegria, distribuindo amor; quando vejo as troças, os batuques, os mangue-boys, os alternativos, as sandálias de couro, os ambulantes, o cheiro de gente passando, vivendo, suando, cantando, comendo...cheiro de gente reunida para dividir felicidade. Quando eu vejo tudo isso, meu coração salta do peito ante à ansiedade do momento de me inserir nos festejos. Como admiro o carnaval de minha cidade!!
Como é lindo ver tantas pessoas entoando em uníssono as mesmas canções todos os anos...canções estas que soam como verdadeiros hinos, emprestados de épocas passadas, e que permanecem vivos através do exercício desse resgate. Quanta coisa para se admirar!! Ficaria horas apenas observando toda essa folia, todo esse descer e subir de ladeiras, todo esse êxtase dividido...toda essa harmonia resplandecida nos rostos e sorrisos e beijos e notas cantadas dos artistas dessa grande obra!!
O Carnaval de Recife e de Olinda merecem homenagens mundiais, pois carregam como principal atrativo a possibilidade de congregar todos num só grupo...Brancos, negros, velhos, pobres, bebês, ricos, muito pobres, muito ricos, homens, mulheres, crianças, bons, maus...brincam todos lado a lado e parecem, por alguns dias, esquecer das dificuldades por que passa esta cidade nos últimos tempos...
Porque bastam as primeiras notas do "Vassourinhas", para que todos - todos- entoem numa só voz o 'pã-rã-rã-rã-rã-rã-rãnnnn", em homenagem à festa, às suas cidades, ao frevo e à beleza do que significa um carnaval de todos. Sem distinções, sem convites, sem divisões, sem barreiras. Com amor, união, paz de espírito e no coração e muita, mas muita vontade de festejar a felicidade de viver um bom frevo.
Nossos abadás são nossas fantasias!!!
E como "todo carnaval tem seu fim", que o saldo final destes dias seja apenas pés cansados e um sorriso no rosto que, se puder, permanecerá ao longo do ano.
Sexo com camisinha! Não às drogas! Não à violência! Sim à folia e à gentileza de cuidar bem de si e do folião ao lado nesse carnaval. Esses são meus votos a todos aqueles, que, assim como eu, vêem nessa festa mais do que uma simples esbórnia disseminada, mas uma verdadeira comunhão de todas as gentes. E como eu tenho orgulho dessas gentes nessa época...e que época!!!

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Escamas


Vejo o reflexo de
minhas escamas
e as toco com os braços
que já não esticam tanto

O áspero do que fora fino
O opaco do que tinha viço
A água dos meus olhos tem menos brilho
- reflete minha saudade -
prevê a última liberdade

Os cabelos poucos hoje me lembram
de tudo aquilo que já perdi
mas meus sonhos também mostram
os frutos que colhi

Se a minha constatação
encontra em meus sentimentos
uma barreira para evoluir,
talvez venha por emoção
o caminho mais ameno antes de partir

Mas eu choro de tristeza
pelo que em mim não reconheço
e qualquer otimismo
que o meu sentir possa me dar
empalidece ante a poderosa
mania do tempo passar

Mas quando penso que ainda
te tenho ao lado
Fico certo de que é este sentimento
o libertador deste meu fardo

E a minha pele se transformou
em escamas...
Mas ensinou que não fui só alguém que amou;
sou alguém que ama.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Declaração


Caro amigo,


mil dificuldades são acrescidas ao trabalho de se dizer o que se sente quando o sentimento a ser descrito é tão grande quanto o que sinto. Mesmo porque a amizade, apesar de ter se tornado uma prática banal, continua inabalavelmente complexa de se resumir em simples palavras, como qualquer forma de sentir complexa. Complexidade e completude. Descrever o quanto completo me sinto ao seu lado talvez seja a melhor maneira de iniciar meu tangenciamento pessoal por tal nobreza. E esse preenchimento causado pela sua companhia não é uma dependência: é um acréscimo de entusiasmo, é um exaltar de espírito, é um sentir-se bem. É um sentir maior. É você me tornar melhor do que sou, simplesmente por me fazer acreditar em mim mesmo. Esse é seu grande crédito, amigo. O de me pôr nas nuvens quando necessito, sem esquecer de precipitá-las quando ultrapasso meus limites. Você é um dos poucos que compreende a medida relativa da minha auto-confiança. E, assim, aprendeu a ler todos os sinais de necessidade que transmito com um simples suspiro. Você especializou-se em mim, tornando-se capaz de entender as minhas linhas, os meus olhares, o meu soluço, os meus olhos úmidos, a minha boca seca e o meu gaguejar. Você acredita nas minhas histórias e embarca nas minhas loucuras, me ensinando paulatinamente a não misturar o que desejo que aconteça ao que realmente já aconteceu. Você tem me mostrado que a vida é um acúmulo desordenado de erros e acertos os quais temos a missão de organizar, se quisermos evoluir. Tê-lo como amigo me engrandece, me faz perceber o quanto sou importante e me orgulho de mim mesmo por tê-lo conquistado. Me orgulho daquele que és, e daquele que sou quando estás. Mas, acima de tudo, aprendi a orgulhar-me mais ainda daquele que sou quando na sua ausência. Afinal, você me ensinou várias lições. E, dentre tantas, está a honrada prática de saber querer bem o ser humano. Isso me torna muito melhor. Isso nos torna melhores.

E, com você, essa estrada pode até ser perigosa, mas se torna mais segura apenas por caminhá-la ao seu lado.

Meu amor por você é eterno, amigo.

Eterno, amigos.