terça-feira, janeiro 29, 2008

Demônio na estrada


Meia-noite. A mata seca e alta já começara a rarear no acostamento. Já podiam-se ver campos igualmente secos entre as folhas, através de olhos muitos deles úmidos já de saudade do que deixaram. Viagem de 12 horas não é fácil para ninguém, por mais que se acostume com o sacolejo vertiginoso. A meio caminho de viagem em direção a São Pilar do Céu, muitos daqueles rostos levavam marcas de uma saudade sendo construída. Aquele olhar terno formado quando se imagina entes queridos.

O ônibus não tão velho, não muito confortável, porém não insuportável, trazia 45 pessoas, incluindo o motorista. O mais jovem na verdade ainda sequer possuía idade, pois viajava numa placenta, pertencente a Maria da Graça, de 13 anos. Expulsa de casa por seu pai, Maria da Graça levava poucas roupas e muita aflição em direção à fazenda de tios, os quais mal conhecera.

Logo atrás de Maria da Graça estava Dona Zeferina Baudalho, do senso de sua consciência nonagesimal. Formação na vida: benzedeira. Seguia para São Pilar do Céu em busca da paz e do sossego que sempre perseguira. Não, Zeferina não estava se aposentando. Ia, junto com seu neto mais velho, Augusto dos Anjos da Silva, em busca de notícias de sua amada e sumida filha, Giselda Baudalho, que rumara para aquelas bandas há anos, e extinguira inexplicavelmente suas cartas. Dona Zeferina levava consigo a esperança do reencontro e mirava a todo minuto a foto da filha saudosa , como se para lembrar que a cada curva se aproximava dela.

Em seguida, pessoas de todos os tipos. Pessoas humildes de todos os tipos. Choro de crianças pequenas era quase sempre audível. Choramingos de impaciência, por percorrer uma distância tão longa. Em cada assento, uma história diferente, como a de Manuela e Juvenir, recém-casados, buscando em São Pilar do Céu uma oportunidade de emprego oferecida ao jovem rapaz. Como a de Antônio Pedro, seminarista, devoto e santo, rumando em direção a uma visita a serviço de sua paróquia, como cumprimento de um roteiro carismático promovido por seu Bispo, no intento que chamava de "União das Almas católicas Sertanejas". Completando as filas, famílias inteiras: filhos, pais, mães, sobrinhos, netos, bisnetos, tatarenos de alguém, seguiam seus destinos, cada um por um objetivo próprio.

Esse ônibus carregava sentimentos dos mais diversos. Felicidade pela saída, medo pela chegada, ansiedade pelo inesperado, tédio pelo obrigação, cansaço pela espera, tudo isso se misturava numa aura multi-color que encobria o veículo pelo caminho asfaltado entre matas já escassas, como uma bala a percorrer um sulco esburacado. O ônibus seguia firme em seus solavancos, que mais lembravam artrites em idosos, enquanto muitos de seus passageiros já desfrutavam do ronco nervoso de mais uma noite mal-dormida.

E, como um flash de luz, como num take de cinema, a câmera lenta começou a rodar. E junto com ela, malas, roupas, escovas, bolsas, sacolas, óculos, jornais, pertences diversos. Os passageiros confundiam-se com seus objetos, na dança disforme provocada pelo capotamento que começara sem aviso. Não fosse pelo súbito enjôo que sentira antes do acontecido, Maria da Graça morreria sem ter presenciado a mandíbula do jovem seminarista Antônio Pedro esmagar-se em osso e sangue no banco da frente. Ao mesmo tempo em que Dona Zeferina Baudalho enforcava-se com o próprio cinto de segurança, tentando sem sucesso agarrar as mão de seu neto, Augusto dos Anjos, cruelmente arremessado para fora numa das capotadas. Maria da Graça, com as mãos na barriga, era um misto de batimentos cardíacos, lágrimas, desespero e explosão interna. Caso as memórias de sua quase-morte fossem levadas consigo às portas do plano superior, ela sentiria seu abdômen, juntamente com seu filho, ser esmagado por ferragens destemidas, contorcidas, maceradoras de sua carne jovem e fértil. Uma cesariana crua e assassina fora feita enquanto o banco em que viajava se dobrava em 4 partes diferentes sobre e sob o peso de outros bancos. Sobre e sob os corpos de outras pessoas. Manuela e Juvenir, os recém-casados, despediam-se aos gritos de socorro. Irônico, não fosse trágico, terem ao final de tudo, como única parte intacta em seus corpos, as alianças baratas compradas por Juvenir a mil prestações antes do casório.

Mato, vidro e ferro, tudo embolado no sangue das vítimas. Uma capotada. Dois mortos, dentre eles o motorista, Fagundes, que, apesar de ser o primeiro esmagado, foi o único a presenciar a aparição que provocara o acidente. O outro falecido instantaneamente havia sido o bebê de Maria da Graça, arrancado violentamente do ventre de sua mãe pelas garras oxidadas do ônibus. Segunda capotagem. Mais 21 mortos. Terceira. Mais 17 mortos. Instantaneamente.

Ao final da quarta, os cinco que ainda restavam, caso ainda se podia chamá-los por seus nomes, haja vista o estado físico de cada um, davam seus últimos gritos de horror. Maria da Graça, sangrando por todos seus orifícios, era desespero puro, encoberta pelo pedaço de carne roxa que se tornara Dona Zeferina Baudalho. Ao lado delas, Antônio Pedro, o seminarista, não possuía mais face, mas sim uma máscara ornada por lentes de óculos enfiadas em seus globos oculares. Tremia seus últimos movimentos de dor, ao lado de Manuela e Juvenir, que, incrivelmente, haviam sido os menos danificados, não obstante o corte profundo na testa dela e as múltiplas fraturas expostas nas pernas dele. Mesmo assim, ainda vivos, porém quase-mortos, todos os cinco ainda gritavam, amontoados uns sobre os outros, quando o fogo começou a tomar tudo o que sobrara da tragédia. Já anestesiados de dor, os cinco últimos a perder suas vidas no acidente do ônibus para São Pilar do Céu queimaram como mártires numa fogueira.

E, se pudéssemos, como naquele take de câmera lenta, voltar a fita, para saciar a curiosidade sobre o que acontecera, veríamos a meiga figura que fizera Fagundes desviar tão impetuosamente, àquela velocidade, naquela escuridão. De pé, ainda no meio da pista, a sinistra figura de uma garota observava o que não sobrarara do ônibus para São Pilar do Céu. Enquanto o ônibus cintilava em chamas e borbulhava em ferro e borracha e pele derretidos, na escuridão da noite da estrada entre as folhas de uma mata do sertão, 45 vidas eram incineradas. E, ateando fogo com os dentes, sorria, do asfalto, uma garota. Sorria, do asfalto, mais um demônio.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Ledger...Lenda?



2008 já começa com turbulência na indústria cinematográfia. Não, não é mais um filme sobre seqüestro de aviões. O seqüestro em questão, aliás, o desaparecimento de que se fala é a falta de tranqüilidade. Greve dos roteiristas ainda indefinida, festa de Globo de Ouro cancelada, Oscar temeroso pela possibilidade de cancelamento...Tudo isto já provocou rumores refletidos nos mais diversos estúdios mundo afora. Mas eis que a vida põe tudo isso de lado, e muda os refletores. É através da morte que ela secundarizou todas estas as crises já citadas. Primeiro, Brad Renfro é encontrado morto pela namorada, supostamente vítima de overdose. Em seguida, Heath Ledger encontra o mesmo fim: o corpo do ator foi surpreendido por sua empregada e massagista, aparentemente vítima de uma overdose (acidental?) de pílulas parta dormir. Antes fosse mais um roteiro de Hollywood. Mas é realidade.

James dean, Bruce Lee, Brandon Lee, River Phoenix. Estrelas precocemente levadas do recinto terreno, pelos mais diversos motivos. Tão chocante e repentino se torna o fato, que logo se tornam mártires. Numa espécie de marketing pessoal póstumo (e mórbido), tais estrelas alçam, mesmo após a morte, algo semelhante à "Calçada da Fama" de nossas consciências. Como numa espécie de agradecimento pelo pouco (ou não) a nós por eles proporcionado - em virtude da brevidade de suas vidas-, além de uma forma de recompensa pelo trágico da chegada da morte em idade tão pouca, prontamente a opinião pública os imortaliza, criando uma espécie de símbolo da fragilidade da vida ante à irremediabilidade da morte.

O ator Heath Ledger, a mais recente perda, infelizmente é mais um desses exemplos. Porém acrescento méritos maiores do ator em vida, mais do que simplesmente a forma de sua morte, que cooperarão para a imortalização de seu nome:o trabalho deixado por ele. De astro adolescente a ator dedicado a papéis desafiadores, sua trajetória ascendente traçava caminhos parecidos a estrelas consagradas, como Johnny Depp ou Edward Norton. Como Jake Gyllenhall e Ryan Gossling, Ledger constava do rol de jovens atores experientes e de currículo invejável.

Seu último trabalho, o coringa, no mais recente filme do Batman, já levantara ótimas expectativas, elogios ecoavam a cada exibição do trailer, em que, ironicamente à nossa falta de alegria, ele imortaliza a fala: "Why so serious?". Não apenas sérios. Fãs, profissionais das mais diversas áreas artísticas ao redor do mundo, entre tantos outros que acompanhavam sua carreira, hoje estão tristes. Lamentando não apenas a perda de uma vida que cumpriu com louvor seus destínios, mas a fatalidade da morte, em hora tão inesperada. Sem contar o carisma e o talento perdidos no que se poderia chamar de auge da carreira. Seria como um piloto de Fórmula 1 falecer a caminho do pódium. Ledger estava prestes a colher e desgustar de uma consagração conquistada com trabalho sério e competente.
Pessoalmente, sempre admirei suas escolhas e seus papéis e claramente via que ali estava algo de substancial. Ledger não era mais um ator, entre tantos. Era um dos melhores. Como ele, no Brasil, eu citaria Selton Mello, Caio Blat ou Rodrigo Santoro. Atores que trazem em seu nome um currículo de qualidade. Mas, infelizmente, o nome de Ledger, que ultrapassara os limites da promessa, para sempre será associado à efemeridade irremediável da vida. Ledger deixa seu talento registrado como um ícone, e, com ele, a inconfortável pergunta: como lenda?

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Beatles do Século XXI




Tudo bem. Não causam a mesma histeria. Não possuem a mesma popularidade. Não possuem o mesmo apelo pop e nem a mesma atenção da mídia de massa. E não é neste ponto mesmo que reside a comparação. Assim, se há alguma banda neste mundo que contribui tanto para a Música quanto os Beatles um dia contribuíram, esta é Radiohead.

E não é preciso falar o quanto os tempos são diferentes. Hoje, diante do acesso à infinidade de profusões culturais mundo afora, o meio se torna cada vez mais competitivo. É cada vez mais difícil chamar a atenção, se destacar, mesmo onde se produza mais novidade. Hoje, uma boa novidade de talento pode não sobreviver, simplesmente pela dificuldade de se estabelecer em terreno tão fértil, do qual brotam novos semi-deuses a cada esquina. Cada novo lançamento é uma nova promessa. E o que chamo de lançamento não é mais um grupo engomadinho impulsionado por qualquer gravadora qualquer, mas, por exemplo, uma jóia que se ache nos garimpos no mundo internético do MP3.

A mídia atual é tão volátil quanto o surgimento dessas novidades, e confirmar talento, fôlego e reinvenção em tempos como estes é tarefa nunca antes enfrentada. E isso o Radiohead vem fazendo com louvor. A cada novo passo na carreira, surpresas. Eles vêm confirmando as profecias que sempre os acompanharam. Seja revolucionando o modo como um artista consagrado disponibiliza novos trabalhos, seja mostrando que o palco é o melhor lugar para materializar a Arte sonora, o Radiohead se impõe como pioneiro. De minha leiga opinião, creio que existe uma coisa muito importante no meio musical: a moral do artista. Hoje, tal palavra está banalizada. Qualquer sucesso radiofônico que se repita 300 vezes ao dia pode ser taxado como proveniente de um artista. A qualidade não é tão relevante e o consumo, como todo bom mercado capitalista, dita as regras. A mídia musical tornou-se uma fornalha de talentos vendáveis, de marcas que pulam dentro de estilos caricatos e geram riqueza.

Viver de música em tal celeiro é uma tarefa árdua. A não ser que se conquiste a moral. Onde quer que vá, Radiohead leva consigo o rótulo justíssimo de talento proveniente do esforço artístico, e não apenas como um mero fenômeno de mercado. A banda parece ter noção exata do que representa para o cenário musical do MUNDO (!) e da legião de admiradores e reconhecedores de seu trabalho nos diversos meios: fãs, jornalistas, críticos musicais, admiradores da boa música, etc.

Ademais, o Radiohead vence quaisquer tentativa de encaixe de segmento. É rock demais para eletrônico; Pop demais para Rock; Indie demais para Pop, e por aí vai. Radiohead, assim como Beatles, reinventou uma nova classificação. Não se qualifica perfeitamente em nenhuma prateleira; trafega pelas prateleiras a cada album, a cada faixa. Album: Radiohead parece conhecer por inteiro o que significa tal palavra. Algo com início, meio e fim, como qualquer obra de Arte, dotada de um significado que por menos uniformidade que possua, confira a possibilidade de se extrair algum entendimento.

Trata-se de uma banda 'sui generis', distante de qualquer imitação, acima de qualquer crítica pejorativa. Radiohead, assim como os Beatles, tem MORAL. Uma banda que traz em seu nome um selo de qualidade, fazendo de suas músicas hinos exemplares de trabalho a ficar para a posteridade. A música que deles hoje escuto ecoará nos ouvidos de incontáveis gerações futuras, não tenho dúvidas. E seu trabalho já está sedimentado como um dos mais notáveis desta breve História da Humanidade.

*Se John Lennon ainda fosse vivo, talvez ele olhasse para Tom Yorke sem precisar pedir que ele se levantasse.*

E se o mundo, hoje, tivesse apenas um rádio, este tocaria Radiohead.

sábado, janeiro 12, 2008

Diagnóstico


Doutor me avisou
que estou curado
que os batimentos
estavam acelerados
por conta de alguns tormentos
não resolvidos
mas basta uma dose de um certo remédio
pra destruir o tédio
e levantar todos os prédios
que desabaram
quando você se ia.
O que eu não via
talvez você também não enxergasse:
uma miopia e uma cegueira
juntando desastres.
Mas basta uma nesga de coragem
e de impetuoso desejo de limpar arestas
que do pranto se faz festas.
Pressão aumenta, esperança renovada
cá estou à espera de uma outra levada
que junte minha vontade com o que desejas
e transforme tudo que não foi

em algo que talvez seja.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Feliz Dia novo


Chuva de espuma embaçando os fogos artificiais.

Como o abraço que te deram minutos atrás.

O vinho vermelho mancha o seu vestido branco

escorrendo pelo colo e pelo chão.

Vomita o que de ruim passou

enquanto o dia não amanhece.

Porque um novo ano chega

e tudo que fica

é uma rotina

que permanece.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Carta a Inácio






Recife, 13 de março de 1987.







Inácio,



sabe a emoção de realizar algo que julgava já perdido? Como deve ser o sentimento de um segundo lugar fadado à medalha de prata que encontra num último momento o fôlego para chegar ao ouro. É esse o meu estado de espírito no momento.

Contudo, se acha que um alívio me acompanha, engana-se. Carrego nestas letras o regozijo do orgulho de vê-lo tentar se redimir. Não que me admire a sua atitude, pois se arrepender com atraso de décadas é facílimo, mas que, nesse jogo destrutivo chamado vida, enfim me sinto campeã em relação a você. Não ganho nada com isto, porém a sua redenção, embora tardia, me liberta. Ela me desata dos grilhões que você deixou ao partir.

Saiba, Inácio, que você levou consigo parte de mim. E esta parte, que tanto me fez falta, não me foi recuperada com o tempo. Além de me tirar o chão naquela época, você me roubou a capacidade de acreditar numa nova chance de ser feliz. Tive seqüestrada por você a confiança de que precisava para recomeçar minha vida. Menos me dói perceber que você foi covarde comigo. Afinal, assuntos do meu coração não dependem apenas da intensidade de sentimento, mas também de valores os quais você nunca sequer demonstrou: coragem e honestidade.

O que realmente me afligiu à época, e sedimentou-se ao longo dos anos, foi sua fuga de responsabilidade para com seus filhos. A mim você não deve perdão. A mim vôcê não deve respeito. Afinal, estes já foram sacrificados tempos atrás, quando a porta agora à minha frente fechou-se ante suas costas para sempre. Porém, os laços com seus filhos, voluntariamente rompidos por sua própria iniciativa, cruelmente formam cicatrizes invisíveis, que sangram sempre que as memórias aparecem. Estes laços, Inácio, não afirmo serem irrecuperáveis, mas prezo que, para serem refeitos, tenha a magnitude da justiça frente à crueldade com a qual foram cortados.

Respondo-te com a aflição de uma mãe que teme as portas reabertas. Sei que hoje meus filhos não mais são crianças, e que do alto da maturidade, seriam capazes de absorver o seu inesperado pronunciamento. Contudo, após refletir bastante sobre o tema, resolvi por enquanto nao revelar-lhes as novidades.

Note nossas diferenças: enquanto em sua carta você tratou de seus filhos como um ponto obrigatório, trago-os como o meu assunto principal. Pois acompanhei de perto os desdobramentos de sua ausência nos meus ultra-esforços de duplicação. Logo, é basicamente nisso que penso: menos em mim, mais neles. Já desisti há anos de tentar entender suas atitudes desmedidas, e agora tampouco o farei. Menos ainda tecerei razões pelas quais acredito não haver mais motivos para te conceder perdão. Apenas posso eleger como motivo principal o fato do poderoso tempo ser capaz de sedimentar as mais terríveis tragédias. E este me fez perceber que o que anteriormente se apresentou a mim como uma lástima, hoje representa um dos maiores fatores para o meu engrandecimento. Assim, tenho mais orgulho de mim agora do que jamais tive no passado.

A fim de te informar, saiba que também reconstruí a minha vida a muito esforço, haja vista as resistências que passei a cultivar quando do seu abandono. Hoje sou viúva de um grande homem, que além de ter se dado como presente a mim durante nossos anos juntos, me deu mais dois filhos.

Hoje, eu e minhas quatro prendas seguimos juntos e felizes dentro de nossas possibilidades. Pena que dois deles não tenham tantos motivos para admirar suas origens paternas, mas adotaram com muito carinho o pai suplente que a vida por uma graça lhes concedeu. E, hoje, conseguem exercer tal função, a paternidade, através de um bom exemplo.


Desejo-lhe paz e saúde,


e com o tremor em cada linha, tambem desejo distância


de você.


Rosana Aguiar de Fonseca.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Pausa para a ceia


Chegue atrasado, até meio sem jeito
cumprimente a todos, embora durante o ano não tenha feito
mas leve o presente do amigo secreto
aquela camisa listrada de número incerto
pro tio que está tão longe, de tão perto


Encene alegria e felicidade estampada
como se a harmonia estivesse sempre de pé
engrene logo uma conversa que floreie o tédio
tome nos intervalos dos papos aquele remédio
que te ajude a suportar a dor de um sorriso qualquer


Coma pouco, e bem rápido, pra adiantar a despedida
Não há saída, elogie todo o menu, do porco ao peru
E ainda com comida na boca, se despeça
Dizendo-se cansado por ter trabalhado até tarde
e, sem alarde, busque a primeira resposta
que te leve ao seu mundo quieto, correto e banal
Lembrando sempre que, apesar de tudo, como diz na loja,


é Natal.


(desarme o presépio e abra alas ao carnaval)


sexta-feira, dezembro 21, 2007

Carta a Rosana


Porto Alegre, 22 de dezembro de 1986.


Cara Rosana,


eis-me aqui após tanto tempo, sei nem por que razão. Se ao menos tu tiveres aberto por curiosidade a carta, já me quedo por satisfeito. E, se além disso, tiveres coragem de ler estas palavras, saiba que é através delas que venho te pedir perdão.

Perdão de um homem envergonhado de seu passado. Um homem que abandonou seu lar e seus queridos e fugiu de suas responsabilidades, impulsionado pelo ato egoísta e pueril de buscar sua liberdade além dos limites de onde poderia ser feliz.

Há 40 anos não nos falamos, Rosana, mas saiba que durante todo este tempo, não importando a variedade de experiências que colhi longe de ti, em momento algum esqueci-me do quanto havia falhado. E se a vergonha pelo abandono covardemente me impedia de te olhar novamente nos olhos, ao mesmo tempo a insanidade de seguir adiante me impulsionava neste sonho fingido.

Um sonho fingido que me trouxe outra família, a qual amo incomensuravelmente. Nesta busca, descobri uma nova função, pondo em prática todas as minhas habilidades como artesão, o que me proporcionou a dignidade necessária de manter minha atual família. Mas isso tudo, Rosana, nunca me fez esquecer da família que abandonei. Mesmo porque, o abandono de outrora foi necessário para que esta existisse. E quando me vejo nos álbuns de família, ainda me imagino segurando outro carrinho de bebê. Vejo-me ao teu lado, em nosso simples casamento. Vejo, nessa época de Natal, ajudando a montar outra árvore, noutro lugar. E não posso controlar as lágrimas, diante de tal aflição.

Diante de tanto sofrimento, que, enfim, decidi tentar traduzir nestas letras, rogo-lhe toda tua compaixão, que sempre lhe foi tão inerente. Aprendi ao longo do caminho que a felicidade é um misto de compatibilidade, sorte e oportunidade. Juntos, tivemos pouco de tudo isso. Mas separados, eu tive ainda menos. Minha companhia todos esses anos, além de todos os ingredientes que me proporcionaram a lucidez de, após tanto tempo, lançar-lhe tal redenção, sempre foi a do remorso. Todas as minhas ações traziam no verso as lembranças de meu passado. E teu rosto nele sempre esteve estampado, Rosana. Não me acusando, mas me lembrando dolorasamente de meus erros injustificáveis.

Desta forma, despeço-me, sem em nenhum momento propor-lhe tregüas e chances para que possamos reviver infelicidades. Venho, sinceramente, como um de meus últimos atos nesta vida, enfim claramente render-me à sua hombridade e fortaleza, por ter, ainda em tenra idade, suportado uma vida inteira as dificuldades de ter sido abandonada pelo marido, e, conseqüentemente, ver-se sozinha com dois filhos para criar.

Quanto às crianças, que hoje devem ser grandes pessoas, sempre guardei no peito lembranças carinhosas. São filhos dos quais abdiquei. E se há maior vergonha que um ser humano um dia possa ter antes de deixar este plano, é justamente esta, Rosana. Apesar de pela vida ter acertado em muitos pontos, errei seriamente numa parte essencial dela. E este erro, se não me foi cobrado em vida, deverá certamente me perseguir por todo o sempre.

Portanto, Rosana, perdoe este velho, que não lhe pede nada, além de uma demorada, porém única oportunidade de ter, no mínimo, como lidos seus desabafos.

Espero que eu tenha acertado no endereço.

Um beijo afetuoso daquele que um dia negou-lhe afeto,

mas, hoje, humildemente, vem oferecer seu mais sincero pedido de perdão,


Amaro Inácio de Pontes

terça-feira, dezembro 18, 2007

Breve Particular


Um dia esses fios que a gente arrasta por onde passa se encontrarão e se unirão num nó tão apertado que nossos silêncios trancafiados em todos os traumas serão obrigados a se explicar. Será o dia em que minha barreira emparelhará com a sua, e ambas, encostadas, formarão um obstáculo intransponivel, de onde apenas sairemos após removermos todos os tijolos. E, do nublado desse desentendimento tácito, talvez se faça um laço, diferente do nó traçado pelo acaso. Laço que a gente molda, bonito, escolhido, e só solta quando pedido por um dos dois. E, depois, será o meu com o teu compromisso os improvisos que poderemos encenar. Sejam cenas de um drama, sejam de um romance, o importante mesmo é que se lance, neste instante, o roteiro ainda inacabado, mal-adaptado, de uma história de amor ou de humor a se desenrolar.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Via dupla


Dizem que amor é via dupla
Que ele não tem culpa
Que se sabe quando ele chega
Mesmo que não haja entrega

Que se sente coisas engraçadas
Vontades impensadas
Ficar perto, dependência
Vício da presença.

Pode ser, até parece
que ele seja tudo isso
Mas será que ele permanece
Com o compromisso?

Dizem que o amor é pura culpa
Que ele é fruto de uma dupla
que não sabe quando se entrega
mesmo quando chega
Que as vontades impensadas
passam a não ser engraçadas
quando o vício da presença
gera dependência

Pode ser, até parece
que é mesmo assim complicado
Dizem que o amor enlouquece
em demasiado

Já que dizem, diga-me agora
E quem sente tudo isso só?
Será que já não é hora
de procurar algo melhor?

Pode ser, até parece
que tudo tenha esse contorno
mas será que há mesmo amor


sem retorno?


domingo, dezembro 09, 2007

Sobre a fragilidade


Ele não conseguia dizer a ela o que sentia, como se a relação dos dois houvesse sido acometida de um excesso de racionalidade. Tudo era pensado demais, e pouco se via dos dois que não fossem conversas de pessoas que se gostam, apenas. Está certo que, para ser coerente com o já dito, nenhum dos dois tinha mesmo certeza do que um cultivava genuinamente pelo outro. Era tudo suposição. Era tudo jogo de pensamentos trocados, numa espécie de transmissão de aparência. Num dia, ele superinterpretava o que ela dizia; ela, por outro lado, menosprezava algum detalhe que na mente dele era o ponto mais importante. No dia seguinte, os papéis se invertiam. E assim continuavam na construção de uma relação entre pessoas que se gostam, mas que param por ai, por culpa da completa inércia que os dominava. Ambos não eram assim com outras pessoas; até que eram acostumados a explicitar mais cristalinamente suas emoções. Mas quando era para um a demonstração do outro, tudo se revestia de uma dose cavalar de complicação. Havia entre os dois termos tacitamente proibidos. A cada momento acresciam limites e redomas de proteção, com os quais um não pretendia confundir o outro, mas se preservar dele. Um tinha medo de tentar; o outro, medo de conseguir. Ambos eram desacelerados pela cautela exarcebada, como numa espécie de medo de machucar. Talvez um, pelo trauma da rejeição; o outro, pelo trauma da entrega. Na verdade, ambos são dois apaixonados que amam, mas não sabem o quê. Ou simplesmente não descobriram que amam errado coisas erradas. Mas vivem procurando no outro desculpas e tateamentos para sanar dúvidas, evocando cada vez mais certezas de que aquelas ainda existem. E sempre irão assistir a uma história indefinida, enquanto o implícito, ao invés de um toque de sugestão, der o compasso desse história. No final, quando tudo o que antes era névoa for enfim revelado, talvez ele não veja nela a perfeição amalucada que tanto admira. E talvez ela encontre nele o porto seguro que tanto esperava. Ou o contrário.Talvez ele perceba que esteve certo o tempo todo quanto a seu alvo de admiração. E ela descubra que ele é realmente um querido amigo como imaginara. Muitos "talvez" nisso tudo. E esse, certamente, é o principal problema entre os dois. Quando ambos se permitirem dizer, sem rodeios, suas verdades para o outro, o saldo final seja uma relação, se não mais feliz, ao menos mais corajosa. E, quiçá, mais libertadora. Menos frágil, pois.

sexta-feira, novembro 30, 2007

As chaves


- Levante-se.
- Não ouse me dar ordens!!
- Então fique aí, se quiser.
-Mas, espere!! Garçom, a conta está mesmo paga?
- Sim, senhorita, está!
- Mas, que absurdo!!! Eu exijo pagar minha própria conta!!
- Perdão, senhorita, mas não poderia imaginar que não aceitaria a cordialidade...
- Cordialidade...Ele me paga ainda! Ei, mocinho, não saia, ainda quero falar com você!! Eeei...!!! Droga, droga!!! Maldito seja!!!
- Psiu...
- O que está fazendo aí?
- Vendo você em desespero...
- Desespero uma ova!! Quero tirar a limpo essa história!!!
- Percebi pelos suspiros do receio de não mais me ver...
- Eram do receio de não poder me vingar, isso sim!
- Não continue com essa auto-tortura. Ambos sabemos que já temos um link.
- Link?? Você é comediante, só pode ser...
- Eu posso ser o que você quiser...
- Então aproveitando seu bom humor forjado, vamos ao seguinte. A partir do momento em que eu retirar as chaves da minha bolsa, eu vou virar-lhe as costas e nunca mais vê-lo onde quer que seja...!!
- Posso me matar agora?
- Era o que sua mãe deveria ter feito ao primeiro choro! E deixe de gracinhas. Espero que tenha entendido muito bem!!
- Não acredito que vai abrir mão de um futuro de tanta felicidade...
- Isso é o que diz você. Você não deveria estar sequer no meu presente.
- Tudo bem, tudo bem. Cheguemos a um consenso. Talvez o fato de ter sido seguida a tenha assustado. Talvez o fato de que eu seja tão seguro também a amedronte. Mas covenhamos que nós nos completamos de certa forma.
- Não sei o que o faz pensar dessa maneira...
- Veja bem...Desconhecidos, bonitos, desempedidos, de mesmo carro, trocam olhares afetuosos durante o sinal vermelho. Parecem se gostar, o que os leva aos sorrisos. Por que tudo isso mudaria, apenas porque resolvi materializar toda a carga subjetiva que nos uniu?
- Você não vai me enrolar...
- Não estou enrolando. Agora estou falando sério. Sou um homem sério.
- Estou vendo. Mesmo assim, então tudo bem. Já que demonstrou resquício de humildade no seu discurso, deixemos tudo como está. Adeus, então.
- Espere. Está cedo ainda. Que tal irmos a outro lugar e fingir que nunca nos vimos antes?
- Impossível.
- E se você não encontrar suas chaves na bolsa?
- Por que não encontraria?
- Não sei, às vezes as pessoas perdem.
- E às vezes outras pessoas roubam. O que fez com minhas chaves?
- Nada, nada, foi apenas uma sugestão inocente...
- Nada inocente, você é diabólico...O que fez com minhas chaves?? Devolva agora!! Não as estou encontrando!!!
- Pelo jeito tem gente que vai ter que pedir carona...
- Onde estão minhas chaves ?? Diga logo!!!
- Não tenho nada ver com isso, mas se quiser, as minhas estão bem aqui... Podemos providenciar novas...
- Nada disso, não quero mais saber de você na minha vida!!! Me deixe em paz!! Você está quase me deixando louca, com esse seu cerco!!
- Senhorita, ainda bem que ainda está aqui! Suponho que estas chaves devem ser suas...Estavam próximas à sua mesa...
- Hã? ... Ah, obrigada, garçom, obrigada, são mesmo minhas...Desculpe, já estava entrando em desespero...
- Viu o que eu disse?
- Está bem, pode tripudiar de mim agora!!!
- Viu o que eu disse?
- Viu o quê?
- Você agora me deve desculpas...
- Desculpe-me. Mas que isso não o encoraje demais...
- Como pagamento você poderia me dar uma chance...
- Você não desiste mesmo, não é? Eu lhe dou 30 minutos...!!
- Para onde vamos, mademoiselle?
- Não sei, lugar com muito movimento, por favor. Não confio quase nada em você ainda.
- Ah, muito normal.. Relacionamentos duradouros se fazem com construção eterna de confiança...
- Você tem resposta pra tudo.
- E você tem uma questão pra tudo.
- Você não tem nada mesmo a ver com o sumiço de minhas chaves, não é?
- Como poderia? Não estavam na sua bolsa?
- Tudo bem, tudo bem...mas foi coincidência você citá-las.
- Tudo bem, tudo bem... Confesso que as vi caídas ao chão.
- E nada me disse??? Você é mesmo um crápula!!
- Mas é claro que avisei ao garçom ao sair..
- E se ele agisse de má-fé?
- Porque acha que montei sentinela esperando você?
- Para exibir a previsão de que eu iria seguí-lo.
- Também, também.. Mas uni o útil ao agradável.
- O agradável foi certamente a sua exibição.
- Você tem sido o mais agradável.
- E você tem sido o mais surpreendente.
- Já estamos evoluindo...
- Só não me decidi ainda qual o tipo de surpresa.
- Ainda bem que tenho 30 minutos para fazê-la tomar essa decisão.
- Utilize-os bem.
- No seu carro ou no meu?
- Cada um no seu, claro, lembra da confiança? A de passageira ainda não foi conquistada.
- Combinado. Vamos à praia, então? Calçadão, mais a frente? Muitas pessoas, não poderei sequestrá-la...
- Combinado.
- Até o próximo sinal vermelho.
- Ah, até.
- E se quiser sorrir de novo, não se reprima.
- Pode deixar. Mas serei forte e manterei a pose.
- Assim é que eu gosto.
- Assim é que eu costumo agir
- Até logo, então, posuda.
- Até logo, então, sortudo.

quarta-feira, novembro 28, 2007

O cruzamento


- Sente-se.
- Ah, que maravilha!!
- Isto foi apenas para agilizar a minha saída.
- Você não está pensando em me abandonar, está?
- De modo algum. Você terá companhia.
- Estamos começando a falar a mesma língua.
- Companhia da minha conta.
- Você sabia que quanto mais o jogo se complica, mais ele se torna atraente?
- Nada me interessa se há pessoas que nasceram para perder...
- Não cante vitória antes do tempo.
- Não mesmo. E não me considero peça desse tabuleiro.
- Isso você não pode negar. Praticamente estamos medindo forças...
- Pelo visto não concordaremos em nada.
- Discordar de tudo é a primeira atitude de quem nega identificação por capricho.
- Ou então seja uma estratégia errada para quem deseja afastamento.
- Essas coisas são relativas. Você mesmo mente para si desde que aqui cheguei.
- Tudo bem. Até onde você quer chegar com isso?
- Depende do quanto você me conquista.
- Estou fazendo todo o esforço para o contrário.
- Pelo visto está utilizando mais uma estratégia errada.
- Por que diz isso?
- Porque você me conquista a cada resposta atravessada.
- Eu gostaria mesmo era de não ter atravessado seu caminho.
- Infelizmente atravessou, há duas horas atrás.
- Como assim?
- Cruzei com você no trânsito e te sigo desde então.
- Palio metal do cruzamento da Conselheiro com Carapuceiro?
- Exatamente. Prazer em conhecer, Palio preto do cruzamento da Conselheiro com Carapuceiro...
- Que loucura!!
- Que destino, eu diria...
- Quer dizer que você me segue desde então?
- Desde que você sorriu para mim no sinal.
- E você está a me observar esse tempo todo?
- Primeiro esperei a sua companhia não chegar. Depois vim te fazer companhia.
- Péssima companhia...
- Futuro do Pretérito. Não é o que diz no presente.
- Não esbanje esse papo pedante para o meu lado. Você não tinha o direito de me seguir!
- É verdade, eu tinha o dever.
- Você se considera muito importante, não é?
- Me considero o suficiente.
- Mais do que deveria.
- Apenas quando as condições jogam comigo.
- Pois te darei uma condição. Ou você desce desse pedestal ridículo de quem infla o peito pelo disparate de seguir outros na rua, ou eu atirarei em você o que sobra em meu copo, te deixando a sós com minha despesa e sem o meu rastro.
- Enfim falamos a mesma língua!!
- Violenta??
- Decidida!
- Decido agora que você vá para o inferno!
- Só se junto com você...
- Garçom, preste atenção. A conta, e é uma ordem.
- Escute bem, garçom. Já estamos de saida.
- Eu estou de saída!!
- Que coincidência... Estou saindo também...
- Você tem problemas mentais, psicose, alguma coisa semelhante?
- Problemas, sim. Mas não dessa natureza. Não ainda.
- Você parece adorar minha irritação...
- Nada disso. Estou apenas estudando seus limites.
- Pois me escute aqui. Se você me seguir após aquela porta, eu chamo a polícia.
- Tudo bem. É você quem vai me seguir depois daquela porta...
- Isso é um absurdo!!
- Isso é uma previsão...
- Isso é uma esperança...O que está fazendo?
- Estou de saída...
- Graças a Deus...!
- Encontro você lá fora...
- Espere!! E vai me deixar só com a conta???
- Já está paga antes mesmo de conversarmos.
- ...
- Encontro com você lá fora...
- Mas..
- Levante-se.
-...



( E CONTINUA...)

segunda-feira, novembro 26, 2007

O drinque


- Posso me sentar?
- E se estivesse ocupado?
- Você me negaria.
- E se eu negar, mesmo não estando?
- Eu insistiria.
- E se eu resistisse aos seus ataques?
- Você nem os perceberia.
- É o que vocês está fazendo agora.
- De modo algum. Mal comecei a minha empreitada.
- Pois eu já terminei a minha.
- Sua resistência?
- Minha refeição.
- E você é do tipo que se vai assim que se satisfaz?
- Não. Mas sou do tipo que permanece enquanto está gostando.
- Então pelo visto iremos conversar a noite inteira.
- Humildade não é o seu forte.
- É verdade. Mas sinceridade é.
- Bem...Pedirei a conta.
- Pedirei uma chance.
- Eu passarei adiante.
- Eu ficarei para sempre.
- Em pé, para sempre.
- Que seja, se ao seu lado.
- Não inicie melodramas, por favor. Permaneça na comédia.
- Prefiro o seu suspense.
- Bem.. eu não queria cortar a sua cena, mas.. Garçom, a conta por favor!
- Garçom, mais um drinque, por favor.
- Garçom, não dê ouvidos. Para mim, a conta.
- Garçom, me dê ouvidos. Para nós, mais duas doses do que estou tomando.
- Você nem sabe se eu gosto...
- Mas sei do que eu gosto.
- Então não me inclua na próxima dose.
- Perdoe-me, mas você está em meu cardápio.
- Mas talvez seja muito caro para você.
- Você vale a dívida.
- Eu não valho o que você pode suportar, te garanto.
- Não sei o quanto você vale. Mas isso não importa.
- Você não vale nada, e isso importa.
- O valor das coisas não tem importância...
- Quando se decepciona com elas, sim.
- Basta não criar expectativas...
- E você permite?
- E você criou expectativas? Garçom, as doses, por favor.
- ...
- Para coroar o futuro brinde, e dar prosseguimento a essa agradável noite, posso, enfim, me sentar?
- Já que insiste..
- Já que você não resiste..
- Já que você é petulante...
- Já que você é irresistível...
- Sente-se.


(ESTA HISTÓRIA CONTINUA...)

sexta-feira, novembro 23, 2007

Carta pré-adolescente



Nunca quis de nada coisa alguma

Toda espera é eterna enquanto dura

Vida pensada é nenhuma

que não a ordem que se atura


Expectativa sem decepção

Impossível de achar

Nem naquela canção

Que você não soube cantar


Minha voz só no vento

Fez o eco do tremor de minha alma

Pois o aguardo dos seus alentos

Do jeito que pensas, não me acalma


Tenho a dor de te projetar em pensamento

Embora sofra por não tê-la ao peito

Tenho-na guardada, dentro

Mas por fora, nada feito.


Sei que é grave incentivar tristeza

E remoer dores, cruel demais

Mas é por sua beleza,

que meu coração corre atrás.


Difícil disfarçar, controlar qualquer fervor,

Mesmo em gente obscura como eu,

São assim, essas coisas de amor

Só não machucam aquele que disso já morreu.

terça-feira, novembro 20, 2007

Nasci para morrer


Um belo dia desses as moscas vieram bater à minha janela. Zumbiram, jogaram-se desesperadamente contra o vidro, fazendo barulhos que me acordaram das minhas profundezas. Acho que elas sentiram meu cheiro de morte. Ultimamente não tenho conseguido disfarçar minha aflições cadavéricas, minhas projeções de último suspiro. Nunca havia sido tétrico o suficiente para ser taxado de tétrico. Mas hoje pela manhã as moscas vieram salientar esse meu novo rótulo de veveno.


Abriram caminho para a minha despedida. Eu abri os olhos com a certeza de que fechá-los-ia eternamente ao final daquele dia. Estava cada vez mais próximo de meu derradeiro suspiro, de meu adeus à esta encarnação. Projetei tanto esse momento, que nunca cheguei a pensar nas hipóteses de como seria depois dele.


Do lado de cá, bem sei. Velas, choros, sofrimentos, não-amigos que se descobrem amigos, minhas qualidades na ponta das línguas lamentosas, um descarrilho de arrependimentos, palavras ditas aos ouvidos de meu corpo morto. Dois dias depois já estaria na memória. E um porta-retrato com minha foto mais apresentável me representaria friamente...


Do lado de lá, questionamentos. Mas menos curiosos do que meu grande momento. Com o meu mais querido e mastigado momento no tempo. Como deverá ser o exato momento em que meu sangue parar de circular? Deve ser algo mais ou menos parecido com a última lembrança antes do sono. Fechamos os olhos, pensamentos começam a percorrer nossa mente, falamos com nós mesmos, viajamos, viajamos e logo estamos desacordados. Talvez no momento da morte seja assim. Pelo menos a minha morte. Pois eu sei que acontecerá exatamente assim. Deitarei, despedindo-se de mim mesmo, e lá viverei meus últimos acordes. Meus olhos cansados e nervosos abrirão alas à escuridão, minha respiração ficará cada vez mais lenta, minha temperatura começará a diminuir, minhas mãos tremelicarão de ansiedade, e cada vez mais me afundarei nos meus pensamentos. Talvez meu último seja algo bem corriqueiro. Talvez eu pense no meu fone de ouvido quebrado. Ou nas moscas que me deram bom-dia mais cedo...


Mas o que interessa mesmo é deixar de pensar. Porque foi justamente essa capacidade a responsável por montar esse depressivo personagem. Essa alma cujo único objetivo de vida era deixar de ter um corpo. E meu cérebro iria concluir essa história ao fim do dia. Coração aos poucos pararia de bombear meu sangue, e lentamente me despediria da aflição de sonhar com esse momento. Não nasci para ser humano. Eu nasci para morrer.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Zoo


Há muito tempo, Gonzaga, o gorila libertino, como era conhecido em todo o zoológico, já não possuía a alegria de viver dos áureos tempo do Zoo. Já não suportava mais a convivência da vizinhança. Kate, a macaquinha levada, com os anos já nem era tão faceira. Os macacos pregos, Simão e Margarida, também já nem conversavam mais com ele, pois, sendo de gerações diferentes, só queriam saber de novas bananas transgênicas. As tão doces bananas nanicas, já desgostavam. Até seu grande brother-macaco Zeca, o chimpanzé, de uns tempos para cá, por estar velho demais, adquiriu novos hábitos introspectivos e mal saía de seu aposento, e quando o fazia, era para pedir silêncio.

Restava ao velho Gonzaga, o gorila mais libertino de todos os tempos, menos alegria ao arremeçar fezes na platéia. Suas caretas já nem o impressionavam mais, e podia jurar que também não impressionavam mais o público. Vez ou outra, Gonzaga se pegava suspirando pelos tempos passados, em que araras soltas das florestas que circundavam o Zoo vinham bicar bananas podres, e batiam aquele papo inter-classes...Foram-se os dias em que seu tratador o mimava com bananeiras de plástico, ou calças maneiras bordadas com o seu nome na traseira. Foram-se.

Agora o Zoo era um deserto de celas, nas quais seus moradores nada mais eram do que espectros do que foram um dia. As aves deveriam ter menos penas; os hipopótamos, achava até que já tinham morrido; nem o Leão dava mais os urros que vez ou outra se dava para ouvir. Camelos e lhamas já nem eram mais vistos nas cercas mais adiante. Os répteis, disseram, eram escassos, como a vegetação de hoje em dia. Mal lhe chegavam fofocas...

Haja saudades dos tempos em que o Zoo um dia era referência para os domingos daquela cidade! Não via mais crianças com bolas coloridas, como era antes. Os pedalinhos, se ainda existissem, enferrujariam por falta de uso. O cheiro fétido do lago em que eles ficavam chegava-lhe agora mais podre do que nunca. Era o esgoto do Zoo. E Gonzaga sentia-se parte desse esgoto.

Já não sentia mais vontade de comer. Já nem sequer limpavam sua sujeira. A depressão lhe tomara por completo. Os murros que antes dava no peito, eram agora nas paredes. Os urros, que antes levavam exibicionismo e saúde aos visitantes, hoje nada mais eram que muxoxos de insatisfação. Gonzaga, o gorila libertino, não via mais seu pedaço de liberdade dentro das grades que o continham. E, assim, numa noite dentro do inferno de seu 'paraíso' particular, Gonzaga se foi, com as mãos nas grades, em súplica. Com os olhos nos céus, em questionamento. Com o coraçao no chão, em tristeza. Com a alma, aos pulos, nalgum outro lugar, em felicidade. De libertino a libertado.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Coisas de lençol


- Eu só quero ver se da próxima vez você me deixará assim a ver navios...

- Você queria que fizesse o quê? Bancasse o segurança seu e de seu amigo (fazendo sinal de aspas) enquanto vocês trocavam figurinhas de como era boa a época da sorveteria de Dona Nena?

- Mas é claro. Você é meu marido e tem obrigação de me esperar!

- Minha única obrigação com você é te respeitar e te satisfazer sexualmente, Tânia, nada mais!

- Como ousa resumir nossa relação a sexo e respeito?

- E você como ousa me fazer de mero segurança de ex-namoradinho na época da Sorveteria da Dona Nena?

- Eu não te fiz nada de segurança... Eu apenas gostaria que você, como disse, respeitasse o meu momento.

- Respeito tem limite, Tânia!! Você nem me apresentou ao cabra! Nem sequer um rabo de olho em minha direção, para que eu tivesse paciência! Da próxima vez, ou você me trata como seu marido, ou eu vou te deixar esperando quantas vezes forem necessárias!!!

- Mas eu não passei nem dois minutos conversando com o Tadeu..

- Tadeu, Tadeu...porcaria de Tadeu!

- Você nunca foi de fazer essas ceninhas, não sei porque só agora..

- Não é ceninha, Tânia!!!!! Eu te deixei lá porque você, enquanto estava indo embora com seu amrido, esqueceu do mundo quando encontrou com Tadeu da época de sorveteria de DOna Nena!

-Pára de repetir "Tadeu da época da sorveteria de Dona Nena" toda hora.. O nome dele é só Tadeu!!

- Pára de falar só nesse Tadeu da sorveteria de Dona Nena, eu acho que a conversa aqui deveria se restringir a suas atitudes!

- E que tal AS SUAS atitudes???

- MInhas atitudes??? Foram as de qualquer ser humano com um pingo de 'semancol' e amor próprio, Tânia!!

- Nada disso, você demonstrou fraqueza, impulsividade e dor de corno.

- Fraqueza??? Impulsividade??? Dor de coooorno?? Essa agora é boa...

- E ainda tem mais...Eu quase que aceitava a carona do Tadeu...

- Você não ficou louca ainda não, Tânia..

- Mas eu queria te deixar louco, por ter me abandonado lá na festa!!!!!! Quebrei meu salto de 500 reais da Arezzo por sua culpa!!!! E tive que deixar o motorista do Táxi esperando lá embaixo..

- Vá logo pagar esse táxi, senão ele vai começar a desconfiar que você é mesmo uma caloteira...

- Quando eu subir, continuaremos essa conversa, mocinho.

- Se eu ainda estiver aqui, sim.

- Ouse sair deste quarto.

- Ouse mandar em mim de novo.


(Quinze minutos mais tarde. Mateus enrolado nos lençóis. Tânia se despe)


-Mateeeus, Mateeeeus.. eu não acredito que você já esteja dormindo, não..

-Huuum...

-Mateus, não me deixe mais nervosa... Desculpa...

-Huuummm...

-Da próxima vez eu te apresento...

-Huuuuuuuuummm...

-Posso entrar aí no lençol?


Mateus estende o cobertor, permitindo a passagem de Tânia.


E assim terminou mais uma discussão.

terça-feira, outubro 23, 2007

Eu sei


Hoje eu descobri algo sobre mim. Na verdade, essa frase é um exagero, pois não foi bem uma descoberta. Mas foi uma certeza de algo que eu já desconfiava há algum tempo. Nao diz respeito ao que sou ou ao que deixo de ser. Mas é sobre o que eu quero para mim no futuro.

É o seguinte: hoje ficou claro que as coisas ficam melhores quando você pratica as teorias adquiridas. Nada é mais salutar do que a sensação de ver produzido na real o que antes era imbuído da vagueza da abstração.

Hoje eu descobri que preciso ajudar o próximo. Que eu me preocupo com o bem-estar alheio, que meu negócio mesmo é contribuir socialmente. Percebi, em poucas horas, o quanto nossas diferenças explicitam na verdade o que temos de mais igual. Não vou explicar aqui qual foi a experiência que me fez reconhecer esse fato - não é de modo algum essa a intenção desse texto -, mas pretendo discorrer sobre esse importante momento em que você se olha sem miopia e sente o que realmente importa em você. É a comprovaçãode habilidades que até então você achava que tinha; é a percepção de que aquilo que era tosco e assombrado pela inexperiência é capaz de em pouco tempo brotar frondoso, pintado de novas cores, já velhas na consciência, mas originais na forma pela qual se expressam através de você.

Não sei se a atividade jurídica que tanto me enche de dúvidas ao longo desses anos de estudo sejam onde minha função nesse mundo se estabeleça confortavelmente; nem mesmo sei se através da escrita, um hábito prazeroso que me enche a alma, é o meu porto seguro da estabilidade de consciência. Mas sei, hoje eu sei, que é meu dever neste Planeta fazer dele um lugar menos sofrido de se viver.

E se esse discurso soa inexperiente, fruto de uma juventude incipiente, utópica, saiba que ele se sedimenta justamente numa maturidade estabelecida. Talvez o meu destino seja mesmo soar sempre como inocente e sonhador aos ouvidos mais impermissivos, como se eu não enxergasse as mazelas do mundo cão que se apresenta. Mas é justamente quando essas mazelas aparecem, que me percorrem os impulsos de dirimir esses males, de baixar essa febre. E não vejo outra saída que não a de estender a minha mão ao outro, seja através de minha caneta, de meu pensamento, de minha palavra ou de meu coração.

domingo, outubro 21, 2007

Eu não sei


Queria aquelas chaves de volta, pra te roubar as senhas dos cofres e acabar com a sua vida...
Mas não sei como

Queria em meu colo sua coleção de entradas de cinema, para rasgá-las com os dentes, enquanto você observasse, presa numa cadeira
Mas não sei por quê

Queria uma xícara de café quente, para derrubá-la sobre seu couro cabeludo, assim que você chegasse saltitante do cabeleireiro
Mas não consigo

Queria uma faca, ou melhor, uma tesoura, bem amolada, para enfeitar de buracos suas roupas mais caras
Mas não tenho coragem

Queria que toda vez que calçasse os sapatos, houvesse dentro um escorpião venenoso, para ferir-lhe os dedos que não mais acariciaria
Mas não sei quando

Queria que uma loucura desmedida a fizesse cair desse pedestal escroto que inventou para me coordenar, dando-lhe de presente um traumatismo e eu pudesse torturosamente lhe fazer aquelas cócegas proibidas intermináveis vezes durante o seu coma
Mas não sei quanto

Queria que tanto ódio te atingisse a nuca sempre que de longe em mim você pensasse
Mas não quero

Eu não sei várias coisas. Mas não consigo não te desejar todo mal, pois te quero tão bem...