segunda-feira, agosto 27, 2007

A revolta dos dezoito


Tudo que eles dizem ser permitido fazer é apenas o que eles querem que eu faça. Minhas possibilidades revestem-se sempre pela poderosa aura do dever social ou pelo que é socialmente considerado um comportamento médio. O que mais quero é o desconforto. E não me importa se sou pega com o dedo no glacê do bolo. Não temo a punição! Cheguei a este ponto através de tantos desejos sufocados no lamaçal coordenador dos dogmas comportamentais. Como porcos catequizadores que são, os criadores dos paradigmas “decentes” desta sociedade hipócrita fodem com as próprias leis que eles criam...Andam com seus códigos morais sob suas axilas e pensam na filha adolescente do vizinho enquanto se masturbam. Cansei de me render ao modelo empurrado goela abaixo; vomito-o junto com minhas tripas sobre os rostos dos infelizes que me condenaram ao rancor eterno. Do auge dos meus dezoito anos, subverto-me à anarquia do dedo médio na fuça dessa autoridade expectorante. Nego a boça deles, nego suas missas, nego o recato falsário de suas filhas mimadas, aquelas montagens foscas de um belo penteado farsante. Que o nó de suas gravatas sufoque suas palavras de molde, inexpressivas e repetitivas como um sonho ruim. Não mais resignarei minhas vontades mais hostis aos calabouços das toscas rotinas fantasiadas de hábitos salutares. Minha única saúde é meu veneno cuspido nas linhas sobre as quais escrevo, cobertas da mágoa da repressão de uma felicidade subversiva. Sou um cataclisma em formação ante ao declínio do império do comodismo certinho e burocrata. Saúdo os eflúvios de uma libido animal, saldando uma nudez lasciva e condenatória. Vendo minha alma aos demônios mais escrotos, setenciados pela divindade forjada dos comedidos. Ganho a maioridade como quem perde rédeas, enquanto me algemo aos braços permissivos da minha vontade mais precipitada. Presenteio-me com o egoísmo resgatado dos recônditos de minha falsa prisão, como uma entidade cujo muito que há de aprender seja o mínimo que há de se querer. Minha ignorância é meu protesto. Meu preguiçoso escárnio ante a sua reprovação. Rasgo-me toda, em contraste com seus cacos colados pela sua pose banal de aceitação, que não passa de uma figura pálida ante a vivacidade da minha rispidez sanguinolenta. Minha atenção te renegará à clausura careta de seu desinteresse. Contente-se com a alcunha limitada por sua mediocridade, ao mesmo tempo em que deixo para trás o rastro empoeirado de minha velocidade irracional. Doutrinadores, conheçam minha anti-doutrina e se vendam/rendam à perversão que aqui evoco. Eis o negócio. Minha mistura gordurosa de desleixo, loucura e ócio.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Abraços Grátis


Com o meu cartaz e meu sorriso
te convido a um abraço preciso
Pode ser rapaz, pode ser uma menina
não há nessa esquina interesse algum
apenas o abraço de dois formando um
Tudo que talvez você queira
Na esteira de um dia dificil
seja esse novo ofício, minha atitude
de estender-lhe meus braços em solicitude.
Enconsta no meu peito,
sou de defeito e acerto como você,
não há por quê não entender
O que venho humildemente oferecer.
Oferto-te minha mão, minha humildade
Na certeza de seres meu semelhante,
Ante a beleza de sermos iguais errantes
No caminho correto de acertar quando podemos.
Nao te conheço, mas nossos caminhos aqui se juntam
Eis os meus braços os que te cruzam
Abusam da beleza de enxergar no desconhecido
Qualquer coisa que não um inimigo.
Sei que a vida moderna nos afasta
Uma baderna de tempos sem valor
Mas meu braço está aqui pra que percebas
e aceite que te enxergo com amor.
Pois um povo que se aquece
com o calor do abraço de quem não conhece
é um povo que se aceita
e que, sobretudo, se respeita.


http://www.youtube.com/watch?v=vr3x_RRJdd4
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ESTE QUE VOS ESCREVE ABRAÇA COM LOUVOR TAL INICIATIVA.

JUAN MANN, AUSTRALIANO, PRIMEIRO A PÔR EM PRÁTICA O QUE SE CHAMOU DE 'FREE HUGS', NÃO FOI APENAS O QUE INICIOU UMA BELA PRÁTICA, MAS ALGUÉM QUE TALVEZ TENHA INICIADO UMA NOVA FORMA DE VER O MUNDO. ATRAVÉS DA GENTILEZA DO BELO ATO DE ESTENDER OS BRAÇOS AO OUTRO.

sábado, agosto 04, 2007

Atravessando a ponte


Ele encontrou e não quis duvidar. Tanta falta de clichê poderia até ser...E não foi. Mas enquanto o poder do encantamento e da possibilidade do ‘quiçá’ fazia-se presente, ele enaltecia-se na esperança de uma nova paixão, de um novo amor. Parecia perfeita. Coincidências cinematográficas. Afinidade à flor da pele. Doces lembranças e imaginações diversas sobre o talvez de um possível encantamento. Porém, a vida lhe provou ser feiticeira. Traduziu tudo que houvera imaginado em possibilidade real. Controlou seu guidon contra a correnteza, tornando-o opressor das paixões alheias. Contudo, criou um inocente apaixonado.
Aparentava perfeição. Todas as frases. Todos os gestos. Tudo parecia inclinar-se à sua vontade, ao seu desejo. Os interesses pareciam encaixar-se, encontravam-se em seus pensamentos. Eram nitidamente colaterais, coordenados e convergentes. Eram. Passaram-se uma, duas oportunidades. Avultavam-se em significado e em importância. A cada gesto sua confiança crescia e cada momento perdido lhe era seu próprio calabouço. Mas, além de prisioneiro do azar, alimentava esperança da oportunidade.
Seguia, assim, no caminho tortuoso da probabilidade. Esta alicerçada nas interpretações superestimadas de alguém que espera demais. E foi a espera do melhor momento que o levou à ruína. A aparente perfeição do encontro começou a desmoronar quando, confiante no sonho, confrontou-se com a fria realidade. Não era ele a quem se destinava toda aquela quente doçura. A ele não pertencia a afinidade superinterpretada. Um outro alguém conquistara seu amor. No seu jeito de ser, havia feito de tudo para que ela percebesse seu afeto. Mas talvez a sua flor a fizera perceber o amor de outro alguém.
Para ele, tudo, até então, estivera irretocável. Tudo arranjado, combinado inconscientemente. A perfeição estava por vir; porém viera a decepção. Imaginara todo aquele jogo de conquista entre os dois. Tentara de todas as suas formas mais gentis estabelecer o limiar do compromisso abstrato. Ele era dela. Ela era sua. Até então.
Eis que o tempo passava, seus olhares iam ao encontro dos dela. Pareciam fugir-lhe ao controle. Sentia cada vez mais necessidade de proximidade, de fundir-se em saliva e sentimento. Porém, em sua gentileza de ser, esperou, não soube por quê. Talvez pela 'certeza', ignorando a possibilidade erradamente anunciada. Tal demora, ou tal erro crasso de interpretação, logo o pusera de frente com a verdade. Eram aos braços de outro a que ela se entregava. Era na boca do outro em que ela se perdia. Era o sorriso do outro o que ela procurava. O que lhe restava, resignação, apatia e saliva seca engolida no sofregar de uma música não-desejada. E ninguém percebia.
Enquanto afundava-se na tristeza, na dor de suportar, exatamente ao seu lado, aquela boca noutra boca, pensava em todos os pecados que outrora cometera. E se perguntava por que razão suas punições vinham tão depressa...Não se recordava de ser tão ruim, ao ponto de merecer tanto de tanta coisa. Enquanto se esforçava em atender aos desejos daqueles que requeriam a volta pra casa, num gesto egoístico de livrar-se também daquele espetáculo vexatório, pensava nos antídotos necessários para erguer-se daquele baque.
E assim foram eles. Em grupo, porém solitário. Conversando, porém em silêncio. Sorrindo, embora chorando. Tanto que, no momento da despedida, viu-se literalmente sozinho, abandonado, tendo lhe sido concedido apenas um breve gesto de adeus. Um aceno que lhe era dado em consideração, mas funcionava como uma adaga no peito, dilacerando todas suas expectativas mais inocentes.
Assim se foi ele, que antes era capaz de tão habilmente dividir sua racionalidade de seus sentimentos. Alguém que parecia sabiamente camuflar suas emoções, mas que, naquele momento, as entregara às pessoas mais estranhas, em forma de lágrimas e alma ferida. Aqueles que por ele passavam não imaginavam o quanto dissolvidas em seu rancor estavam suas emoções mais singelas. O quanto confundia-se com sua raiva a sua decepção mais agoniante. Ninguém naquele lugar poderia imaginar o quanto deixara para trás em prol daquele momento. E o quanto aquela escolha havia destruído sua boa intenção.
Entregue ao desespero de sua dor, relutou, como tantas vezes, a aceitar passivamente seu destino. Enfrentou-o, acompanhado apenas de sua sôfrega consciência, à procura de alguém com que pudesse dividir tal aflição. Atravessou o medo e o desespero da solidão, pela ponte mais deserta, em busca de um colo amigo, e, não encontrando-o em lugar algum, refugiou-se nas batidas dos tambores mais resistentes: a trilha de seu mais triste desespero. Fizera todo o caminho de volta sozinho. Na mais bela e terrível cena que poderia protagonizar. Enfrentara a madrugada, a ponte solitária e os ladrilhos molhados aos prantos, dissolvendo-se na lembrança daquele adeus frio e indigno e cruel.
Contudo, trôpega e dramaticamente, conseguiu voltar pra casa, sob o céu que chovia em líquido tudo aquilo que ele desejava chorar em lágrimas. Como numa das cenas mais tristes e clichês que poderia ter imaginado, entregou-se ao desorgulho do disfarce de sua tristeza, deixando cada lágrima como uma cicatriz que o ensinaria a crescer. Tivesse uma maquiagem, estaria borrada. Tivesse necessidade de atenção, seria o assunto do dia seguinte. Fosse um ser sentimental, estaria até agora inerte nalgum copo de cerveja.
Mas ele continuva sendo ele. A fortaleza. A rocha inatingível. O orgulho personificado, embora sem chão. E tal figura jamais seria manchada pela maior desilusão de sua vida. Tal imagem chegou a tremer ante o reflexo daquele abandono na madrugada; porém opaco diante daquele que deseja tanto mais para uma vida até então vivida de tanto menos. Assim sendo, enxugou as lágrimas secas em cicatriz, demonstrou a si mesmo que era capaz de erguer-se de qualquer decepção e limpou seus joelhos, até então sujos de tantas quedas em apenas uma noite. E foi-se em busca de uma felicidade diferente daquela que até então era fruto de sua mais criativa imaginação.


segunda-feira, julho 16, 2007

O assunto é esporte







É como se diz. Ganhar é bom. Ganhar em cima da Argentina, é bom demais!! Finalmente, posso vir falar bem - e muito bem - de futebol, esporte com que não tenho intimidade, mas não deixo de sofrer todas as emoções que um brasileiro é capaz de ter. Mais ou menos há um ano atrás, afirmei que minha bandeira estava vermelha de vergonha, porém, nada melhor como um ano atrás do outro, para o orgulho deixar-se transparecer.


A seleção de futebol não apenas venceu medalha, troféu e dinheiro. Não só apenas levou o bicampeonato da Copa América. Não somente classificou-se para a Copa das Confederações. Estas são meras conseqüências. O que mais me orgulho é a forma com que venceu! O jogo bonito, raçudo, confiante e certeiro que desfilou em campo. Não se via apatia, nada de jogo entregue, jogadas argentinas cortadas no meio-de-campo, bendita trave, bela defesa...Tudo conspirava a favor! Argentinos corriam de um lado a outro, num tango ensaiado, consciente e poderoso, mas ineficiente frente ao poderio do samba no pé dos jogadores brasileiros. Lançamento milimétrico de Delano, ajuda providencial de Ayala e passe profissional de Vágner Love desenharam o chocolate brasileiro aos nossos hermanos. Bela vitória!! Belo jogo!! Assim que se faz: gana, força e energia para fazer jus a uma camisa rica em história!!


E não apenas o futebol nos orgulhou nesse domingo. É Panamericano!!! Não esqueçamos que no sábado o handebol feminino entregou mais uma goleada, desta vez para as canadenes, firme na luta para o ponto mais alto do pódio. Diogo Silva se fez líder no taekwondo, emocionando a todos numa das mais belas imagens do Panamericano do Rio. Nosso time de vôlei masculino, sublinhou sua força de mestres no esporte, galgando mais um título da Liga Mundial de Vôlei, o sétimo, apenas um a menos que os grandes italianos. Ah! Não esqueçamos do time juvenil de Vôlei, que sobre a mesma Rússia, levou o Título Mundial! E, como se não bastasse, uma menina de origem humilde do Rio, Bárbara Leoncio, de apenas 15 anos, conquistou a medalha de ouro, com o melhor tempo de sua vida, nos 200 metros rasos do Mundial de Atletismo.


É de encher de orgulho qualquer peito verde-e-amarelo. Podem paracer conquistas tímidas frente a qualquer nível de primeiro patamar, podem soar como raros os momentos de glória dourada de nosso esporte. Mas é dessa forma, e através de nosso reconhecimento, que podemos continuar vencendo, nos tornando, um dia quem sabe, uma potência olímpica de fazer tremer os adversários. Como em quase todos os setores sociais em nosso País, o esporte não possui o investimento necessário, cabendo-lhe incentivos privados, projetos sociais comunitários e pouca quase nada cultura esportiva de atividade transformadora. Muito a melhorar!! Muito!!!


Mas a certeza de que somos reconhecidos, além de por nossa condição de aprendizes em diversas modalidades, pela garra e pela vontade incontestável de entrar para vencer. No Panamericano, estou certo de que muitos dias como o de domingo hão de vir. E muitas vitórias mais, para fazer-nos alavancar no ainda apagado quadro geral de medalhas. Temos natação (Rebeca Gusmão!), ginástica individual, atletismo, finais de vôlei e handebol, muito, muito por vir. E com toda essa esperança, uma torcida sem fim, para realçar os tons de nossas bandeiras e para inflar-nos os peitos orgulhosos.

quarta-feira, julho 11, 2007

Eu sou mais Potter


Hoje tive a prova concreta do fanatismo deprimente. Do exagero em forma de desperdício de energia. Do exibicionismo. Da euforia desmedida na forma de quem grita mais alto. De quem conhece mais detalhes irrelevantes. De quem exalta mais o menos exaltante.

Ontem fui à estréia de Harry Potter - A Ordem da Fênix, e, o que à primeira vista, me parecia ser um espetáculo de comédia, tornou-se um espetáculo de horror!!! Não me refiro à angústia de ver seu ídolo da literatura pelo seu ídolo adotado no cinema. Não me refiro ao fato de afissurar-se numa Obra fissurante. Não me refiro à idolatria do estilo juvenil e descompromissado de J. K. Rowling contar a história do mago mais famoso da atualidade. Nada disso. Refiro-me às desmesuras causadas por tudo isso. Ir ao cinema travestido de estudante de Hogwarts, de posse de chapéu e varinha mágica seria mais hilário, se não fosse tão exagerado. Até aí, é uma opinião própria, nada demais...Sinta-se à vontade para fantasiar-se do que quiser...Talvez um fã de Gretchen sinta-se muito à vontade de vestir-se de tigresa na estréia de seu novo filme pornô... Problema de quem gosta de se montar...

Mas daí a chegar ao orgasmo a cada piscar de olhos do ator, a cada novo close, a cada novo apresentar de personagem, é demais para a minha cansada compreensão...Como se não bastasse a exposição ao ridículo - que só muito amor desperdiçado pode causar -, pior é quando todos esses exageros estupram os direitos de quem é fã simplesmente de uma forma mais comedida. Tudo bem que fui a uma sessão especial, a primeira, de madrugada, em que praticamente só foram fãs...Mas isso não me tira o direito de não me atrapalharem as sirenes roucas dos gritos das mal-educadas infanto-juvenis que se sentaram na fileira atrás de mim!! Junto com o ingresso comprado, mal sabia eu que junto adquiria narradoras-comentaristas de todos os detalhes mais irrelevantes que se possa imaginar. Ah, se arrependimento matasse... E, para piorar, ao exigir ter o meu direito de sanidade auditiva resguardado, obtive como resposta uma negativa, um ignorar ainda mais mal-educado, porque veio acompanhado de um palavrão.

Que fanatismo é esse que o faz desprezar o incômodo alheio, de egoisticamente se importar apenas com sua demonstração babaca exibicionista?? Que falta de medidas são essas causadas por uma idolatria que beira à insanidade, ao bom senso e à criticidade?? Talvez a resposta mais óbvia resida mesmo na imaturidade, na falta de uma educação caseira mais apropriada, aquela que equilibra impulsos com bons modos... Bons modos... Muitos daqueles fanáticos estão longe de reconhecer o sentido dessa expressão tão simples...

No fim, os momentos que me foram possíveis aproveitar me fizeram concluir que se trata de um ótimo filme mediano, repleto de bons momentos visuais, porém carente da profundidade necessária para ser inesquecível. Junto com essa impressão, somam-se ao saldo positivo da noite as boas companhias e o fato de ter mais uma lição aprendida. Estréia de filme de Harry Potter, jamais.

Dizem que se reconhece uma boa obra pelo público que ela cativa. Temo em perceber que há uma relativa discrepância entre às figuras com as quais ontem cruzei e a série do bom e jovem Potter. Trata-se de um raro exemplo em que a Obra se mostra muito maior do que grande parte do público que a consome. Geralmente isso se coaduna. Este definitivamente não é o caso. Eu sou mais Potter.

terça-feira, julho 10, 2007

Tudo em cinza


Acordou com hálito de rotina. Pôs os pés ainda quentes do calor das cobertas no chão frio e sentiu arrepios subirem-lhe a espinha. O sono enchia seu quarto de preguiça, tornando a dúvida de uma nova tentativa de suicício numa arriscada certeza. Não. Não devia. Levantou-se da cama como um bebê da barriga da mãe: enrugado, choroso e extremamente sensível. Sensibilidade posta à prova quando deixou para trás seu dedo mindinho agarrado na porta enquanto o resto do seu corpo seguia em frente. A dor terrível não só serviu para acordar cada célula sua, quanto para provar-lhe que vida ainda brotava ali. Desperado, imerso em pontadas de dor, agarrou-se à porta do guarda-roupas, lágrimas escorrendo pela face, enquanto despencava o suporte onde ficavam seus pertences pessoais, por conta dos freqüentes solavancos que dava nos móveis, em virtude da imensa dor que sentia. Perfumes, loções, remédios e outros objetos higiênicos no chão. O cheiro de essências acusava perdas materiais em forma de perfume. "Nem pensar"...-pensava- "Da bagunça cuido depois...Tomarei meu banho, pois preciso me sentir novo...!!"

Assim, em busca da novidade, velha lição. Seguiu ainda cambaleante, mancando e coçando o lado direito do traseiro em direção ao banheiro, conferindo todos os mais impublicáveis impropérios ao inventor do relógio, da porta e dos suportes fajutos. Tirou a cueca como uma múmia se livraria de quilômetros de faixas e seguiu ainda tropegando para debaixo do chuveiro, resfolegando latejar de dedo e vontade de sentir a água quente inebriar-lhe a pele com seu toque massageante. Nada disso. Ao ligar o chuveiro, toneladas de cubos de gelo atiraram-se à sua cabeça, resfirando-lhe instantaneamente seus fios de cabelo, lóbulos da orelha e pêlos das axilas. Sentiu os filetes congelados percorrerem-lhe as costelas num caminho tortuoso de tortura, ao mesmo tempo em que fugia desse alvo polar. Quem diabos havia mudado a temperatura da água??? Agora lembrava...Ele mesmo, na noite anterior, morto de calor por ter ficado trinta minutos preso no elevador, mudara o estado do chuveiro elétrico. E agora amaldiçoava sua própria má sorte, perguntando às almas que lhe rogavam tais pragas a razão de todos esses infortúnios reunidos num só alvo.

Seguiu adiante seu desejoso banho matinal, antes se certificando de atentamente ter mudado para o estado 'inverno' , amparando a água com as mãos em concha, esperando o vapor que subia acusar seu objetivo. Mergulhou nas águas termais como um porco na lama e pôs-se a refestelar no prazer de sentir talvegues mornos passearem pelo leito de sua pele, fazendo mais e mais espuma com o sabonete... Sentiu inclusive vontade de assoviar, numa tentativa de fazer as pazes com os demônios rogadores de praga...Porém, quando estava prestes a entoar a primeira nota de seu humilde assovio de paz, a água foi esquentando rapidamente, num conseqüente anúncio de que se esvaia. Nada de água. Fim da cachoeira quente do prazer! Restava-lhe o frio do vento gelado sobre a sua pele em brasas e a vontade cruel de suicidar-se no interruptor da bomba de água que teria de ligar para voltar ao banho. Desistiu do suicídio, mas foi, dolorosamente, ligar a tal bomba.

Nada iria minar-lhe as esperanças de um momento feliz no dia. Nada!! Nem sequer aquela casa amaldiçoada, aquela vida amaldiçoada, aqueles...aqueles...aqueles... Enquanto seguia, enrolado na toalha e preso em seus pensamentos esperançosos de felicidade, uma imagem o paralisara. Parado à porta de seu quarto, toalha envolta nos quadris como uma saia fora de moda, restos de espuma na testa e orelha, parecia uma estátua em homenagem a algum ilustre frequentador de sauna, braços arqueados e pernas abertas numa pose caricata. Porém, um semblante consternado, à beira do terror, fruto da visão do inferno, empreendia à cena o drama necessário. Jogado em meio às lonções e perfumes quebrados, seu cachorro jazia deitado, respiração fraca, arrotando "Azarrô"... Os últimos momentos do cão morto envenenado com o perfume do próprio dono davam o toque fúnebre necessário ao estado de calamidade privada que nosso herói se encontrava. Perguntava-se a explicação de todas aquelas desgraças!!

Jurava a si próprio que era uma boa pessoa, sempre solícito e amigo fiel em todos os momentos, não se lembrava sequer de furtos de chocolates nas Lojas Americanas ou ao dízimo da Igreja, nada!! Sabia que vivera até aquele ponto sob a égide do princípio maior de semear bondade e caridade, que tinha como prerrogativa de caráter o altruísmo !! Como poderia a vida conceder-lhe tais respostas, numa espécie de tragédias cômicas recheadas de humor negro travestido de dedo em sangue, calafrios e cachorro morto?? Era essa a recompensa de uma vida pautada por boas ações e dignidade??

A ele cabia esperar, cultivar a paciência assim como as suas plantas (que morriam mais freqüentemente nos últimos tempos), sem incidir na fraqueza da desistência!! Desse modo, ergueu-se do chão, nu, pois a toalha deixada largada no chão do corredor, tremendo não sabia se de frio ou de raiva de si mesmo, galgando as prateleiras em busca de escora, sentando no colchão para a reflexão final. Sabia que tinha muito a fazer por si e pelo mundo, e que não seriam tais sinais do inferno que o tornariam um ser menor. Não seria a fraqueza a tomar-lhe o espírito! Mostraria a estas pragas que ele era maior que tudo isso, que iria vencer os obstáculos, que possuía natureza de vencedor!!! Levantou, dando o primeiro passo do ser vitorioso que se tornaria a partir daquele instante. Imbuído de segurança, caminhou numa marcha por toda a casa, reflexos no espelho traduzíam um renascimento nunca antes visto naquelas paredes. A coragem bradava de seu peito, inflado na certeza de que tudo seria diferente.

Foi quando a bomba de água que havia ligado explodiu em farpas de fogo, fiação elétrica despedaçada e curto-circuito, alastrando rapidamente fogo por toda a área de serviço de sua casa. Não creditava no que ouvia, no estrondo, no cheiro que sentia, os fios queimados entravam em seu cérebros em ondas olfativas que denunciavam a inevitabilidade de sua fraqueza. Estalos da máquina de lavar sendo cozida, tábua de passar roupa tostada e águas sanitárias alimentado as labaredas. Todo esse espetáculo pirotécnico o impedia de esperar que o extintor de incêncio funcionasse, após tudo que acontecera. Seria demais.

Então,depois disso, começou a achar convidativa a idéia de virar cinzas junto com seus pertences. Assim como cinza havia se tornado a sua vida.

domingo, julho 08, 2007

Silêncio!


Sim.
É a falta de luz que traz tantos excessos. Sempre que me pego sozinho em meu cego e não-surdo silêncio escuto vozes que dizem mais do que qualquer som. Uma espécie de esquizofrenia da solidão, largada no abismo imaginário de uma mente sórdida. Acompanhado pela escuridão da espera do sono, maquino sobre tudo o que deveria ter acontecido e não foi, sobre tudo que aconteceu e foi e sobre tudo o que acontecerá e poderá ou não ser. Realizo um balanço das arbitrariedaes passadas em branco, dos erros propositais, dos acertos contra-vontade, das atitudes inevitáveis. Preciso prestar contas a meu famigerado ego deveras exigente.

E é justamente nesse momento em que ele fala comigo. O silêncio é o mais tagarela de todos os sons. Seria ensurdecedor se todos pudessem ouví-lo. Brada aos meus ouvidos em todos os tons, em todas as notas, entoando todas as combinações de tudo que me aconteceu. O silêncio é a cadeia certa, é o testamento revelador, é onde tudo se esclarece. Ele lhe revela tudo que você mais gosta de esconder e espalha pelo quarto todas as sensações que o perturbaram durante o dia, provocando angústias, confirmando alívios, mensurando sentimentos.

Enfim silêncio. O clímax de sua própria auto-consolação. É o seu momento consigo mesmo. O verdadeiro reflexo dos últimos momentos; repetem-se repetidamente vários repetecos, como um filme desorientado. Sua interpretação da vida rebate incessantemente na redoma criada pelo limitador silêncio sem limites. Portanto, seja ele tal qual se mostra ou tal qual se sinta, me faz melhor pensá-lo com o mais de conteúdo, que com o menos de ausência. Pois é quando tudo está tranqüilo que rompem os tambores tagarelas do silêncio mal-criado dessa poderosa consciência. Não?


***


"Porque o silêncio não tem substância; ele é vazio como grande redoma de vidro, e o que vive nele é a última palavra e o último gesto." (Rubem Braga)

segunda-feira, julho 02, 2007

Marginais em formação


É sabido de todos. Cinco marginais de classe média, moradores da Barra da Tijuca, roubaram e espancaram a empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto, de 32 anos, enquanto esta aguardava o transporte coletivo, há mais ou menos uma semana. Os criminosos alegaram confundir a agredida com uma prostituta, justificando, dessa forma, a violência do ato cometido.

Ato indubitavelmente reprovável, justificativa risível e mesquinha. No mês passado escrevi sobre o filme "Baixio das Bestas", o qual versa sobre a exploração da mulher na realidade canavieira do interior pernambucano. Os jovens retratados naquele filme remetem instantaneamente a estes crápulas do Rio de Janeiro que viraram notícia. Juntos formam uma quadrilha cuja diversão se resume a espancar covardemente mulheres, tal qual no filme. Muito me aflige imaginar quantas mais foram vítimas de uma atrocidade como essa! Seja prostituta, seja empregada doméstica, seja princesa ou rainha, nenhuma, repito, nenhuma mulher merece ser agredida de tal forma. Aliás, nenhum ser humano.

Diante disso, tal situação rende diversas reflexões, que vão desde a revisão do sistema punitivo vigente em nosso atual Direito Penal - bem como a correta aplicação da penalidade devida neste caso - às questões morais subjacentes a essa violência. O que leva um ser humano a agir desta forma?? Álcool? Drogas? Não observância de limites? Estes são meros catalisadores, impulsionadores, despertadores de um mal guardado em forma de afirmação pela subversão indevida. Me resta imaginar que pessoas capazes de cometer tal ato, o fizeram impulsionados pelo prazer de maltratar o outro, como numa espécie de exibição aos seus parceiros, num compartilhamento de atrocidade: uma diversão coletiva de animais, pobres em sentimentos fraternos, ricos em maldade disfarçada de rebeldia.

A falta de acompanhamento familiar, a educação deseducadora a que foram submetidos, a falta de rédeas e de estímulos aos verdadeiros prazeres de se viver uma juventude sadia foram amplamente apontados como possíveis explicações para o acontecido. Ademais, a impunidade gritante de nosso sistema penal estimularia tais atitudes, tendo em vista que seu caráter coercitivo se resume a alguns poucos anos de uma cárcere repleto de regalias e suficientemente passageiro. Como talvez fossem as punições a que tais jovens eram submetidos no âmbito familiar.

No meu modo de pensar, mais do que lutar por uma punição exemplar, mais do que transformar tais monstros em modelos de crápulas e alvos principais do ódio coletivo, devemos, sim, lutar contra o que torna um ser humano capaz de tal atrocidade. Falamos de jovens que agiram não-movidos por um impulso de vingança ou estavam guarnecidos de ódio pessoal pela vítima. Estes, por mais e ainda injustificados que sejam, são motivos. Os jovens da Barra da Tijuca agiram desmotivadamente. Atacaram a esmo, como um predador à sua presa; como prova de repúdio a um tipo de pessoa que consideram menor, e, assim sendo, digna de merecer castigos físicos. Nossa luta deve se focar no poder da educação, no modelo de família e sociedade que cultivamos. Que família de classe média alta é essa, que tipos de pais são esses, que geram cidadãos como esses?? Um dos pais de um dos criminosos no noticiário se perguntava:"Onde erramos?". E eu respondo a ele: erraram pela omissão, pelo descaso, pela covardia preguiçosa de pautar a educação de uma criança através do pronto atendimento de seus desejos, por meio do parabéns dado quando realizada uma mera obrigação, pela supervalorização do reconhecimento, pela gratificação do não-merecimento. Dou minha cara a tapa se todos os cinco brutamontes não foram educados dessa forma...Apostaria minha honra nisso... O erro desses pais foi justamente não saber ser pai e mãe. Foi ter simplesmente fracassado em sua função mais sagrada nessa vida!

Portanto, venho salientar repúdio a tal modelo de sociedade, já tão repleta de lutas de classes, de embates sociais, de pobreza , de tragédias... Alimentamos mais tragédias!! As famílias desses jovens são tambem vítimas de uma sociedade em guerra civil, mas são culpadas por formar tais cidadãos dignos de uma merecida reclusão social. O medo que nos encarcera em casa merece outras vacinas, sobre as quais não cabe refletir no momento, e não justifica tal forma de resposta, personificada na criação de pequenos grandes monstros espancadores. Incendiadores de índios, espancadores de homossesuais, de prostitutas, de qualquer ser tido como diferente ou marginal são bandidos formados no seio familiar, seco e fraco de alimentação devida. Divulguemos a falta de vigilância e de cuidado de muitos pais com a educação de seus filhos!! Mais do que oportunidades para o mercado de trabalho ou de conforto, pessoas em formação merecem oportunidades de ser gente! E gente não se comporta de tal maneira! Sigamos o exemplo do pai de Sirlei Pinto, que esbanja consciência e cultura do alto de sua simplicidade. Este senhor declarou com hombridade a raiz do problema, mostrando a todo o País que foi na educação de casa o erro dos pais desses que tanto mal fizeram a sua filha. Ajudemos estes pais, ajudemos estes filhos, ajudemo-nos. Falemos sobre o assunto, abramos seus olhos, iluminemos seus caminhos em busca do estímulo ao devido acompanhamento familar. "Eduque a criança e não será necessário castigar o Homem", disse Pitágoras. O Homem mostrou ao longo de sua história que, por mais educação que lhe seja proporcionada, ainda assim existem aqueles alheios à regra, que incidem na ilicitude social. Alguns seres humanos são mesmo violentos, donos de mau-caráter e capazes, sim, de cometer atrocidades. Mas espero um dia contar que tais atrocidades possam ser estimuladas por uma má-índole, por problemas psíquicos, por anormalidades funcionais... E não pela carência de educação familiar. Família esta rica em posses, porém carente no que mais lhe deveria caracterizar: a capacidade de formar dignos cidadãos.



sábado, junho 23, 2007

"9"


Enquanto o mundo explode lá fora em fumaça, pólvora e arrotos de canjica, e meu cachorro enlouquece por conta dos barulhos apocalípticos dos fogos e adjacências, vasculho a internet em busca de algum passatempo, verifico emails, organizo pastas do computador. Em busca de algo ainda inspirador - achei que assistir "Zodíaco" hoje à tarde me traria alguma inspiração, mas não obtive sucesso -, ponho o disco mais recente do Damien Rice para rodar no media player. Na busca de algo interessante para ver, percebi que o mais de interessante que ocorria comigo no momento, além de imaginar modos de acalmar meu cachorro que ladrava de desespero tentando infiltrar-se pelas grades da casa, eram justamente as músicas que eu ouvia.

Damien Rice. Conhecido do grande público através da famosa canção do filme "Closer" (imagino a bela cena de Natalie Portman atravessando a rua enquanto "I can't take my eyes off of you" se repete, repete, repete...), canção esta que originou a versão "Eu não vou parar de te olhar", de Seu Jorge, o qual fez um grande sucesso em um certo Natal de outrora num dueto com Ana Carolina.

Pois bem. Após ter me encantado com a simplicidade complexa do filme "Closer", bem como com a beleza de sua trilha, e em especial a canção do Damien Rice, resolvi apresentar aos meus ouvidos este cantor, sem nada esperar, no passado ano de 2005. Eis que o emule me proporcionou a maravilha de exaustivamente ouvir "O" (primeiro trabalho solo do cantor, se não me engano). Lirismo, melancolia, graciosa dor de cotovelo, profundidade, amor, sentimento visceral e escancarado. Isso tudo brotava de cada verso daquele album. Todo esse conjunto de sensações - ou seja, quase tudo que eu desejo quando escuto uma música- me conquistou de cara.

Contudo, eis que a fórmula, após repetidamente consumida, foi se esgotando e deixei um pouco de lado, sempre indo buscar esta fonte auditiva sentimental quando precisava de um pouco de lirismo na minha vida. Talvez à espera de algum novo som charmosamente contagiante. Devo ter encontrado, porque não senti alguma falta desesperadora de um novo trabalho de Damien Rice. Mesmo assim, anos depois (exagero aqui), já sabendo que havia nova música dele rolando por aí ("Me, My Yoke and I"), a qual não consegui encontrar para download à época, vou ao cinema descompromissadamente ver o filme "Shrek Terceiro" e, tal foi a minha surpresa, que no momento-drama do filme, o que toca?? Hein? Hein? Damien Rice!! Flashes de memória e saudade evocam nesse momento: 'Preciso ir atrás dessa música ... Preciso saber se isso significa um Cd novo...'

Não deu outra! Facilmente dessa vez encontro o disco "9", cuja data acusa o ano de 2006 (!!!!) Como pude deixar essa relíquia passar assim, despercebida??? "9" é um CD igualmente profundo, igualmente melancólico, extremamente carregado do mesmo lirismo e emoção que me cativaram no "O", porém, surpreendentemente, com momentos barulhentos e ápices dramáticos dignos de uma boa cena de destruição de quarto e pulsos cortados. E como eu gosto disso!!!

Decidido: "9" vai embalar meu Sao João, vai me embalar nessa necessidade de fuga premente, vai me inspirar a repensar e repensar novamente acerca de minha vida, meus sentimentos, meus desejos e meus anseios. será a trilha sonora para a reconstrução de ideais, de metas e planejamentos. Atrasada, porém bem-vinda está me sendo a audição desta Obra tão rica, tão profunda, tão apaixonante. Damien Rice se mostra um primor de artista: seguro, sincero e corajosamente intimista, dono de uma voz plácida e limpa,que pretende servir de pano de fundo para os próximos capítulos desta minha vida. E, assim, cada suspiro de cada verso me acompanha nessa empreitada reflexiva.

domingo, junho 17, 2007

São João?


Muitos me recriminam por muitas de minhas opiniões, e esta sobre a qual estou prestes a discorrer não é diferente! Sei que serei recriminado por muitos! Mas, como a coragem de assumir a minha peculiaridade é um de meus fortes, sinto-me à vontade para soltar o verbo.

Estou aqui para falar mal do São João. Os céus que me perdoem, bem como o restante das santidades que nele residem, mas não se trata de uma festividade a qual aprecie. Sigo além: mais do que desapreciar, relativamente abomino. E este 'relativamente' não foi empregado à toa. Apenas não recrimino por completo porque sei que tal festa, alheia à comercialização e à erotização a que é submetida pela estilização vulgar do tradicional, tem como prerrogativa justamente o resgate à tradição. Isto é notável no costume de acender fogueiras, estourar fogos, bem como dançar o folgoso forró pé-de-serra e, é claro, a famosa quadrilha matuta. O São João, em minha leiga opinião, deveria ser uma festa em que buscasse resgatar os costumes mais sertanejos de nosso País...

Contudo....como o homem quase sempre desvirtua tudo que tem algum sentido de existir, o que vemos hoje em dia com o São João não poderia ser diferente. O cheiro de pólvora fraquinho que ficava na rua quando eu era menino, deu lugar ao insuportável cheiro da fumaça das fogueiras que TODOS os vizinhos teimam em fazer em frente às suas casas... O que antes era feito coletivamente, uma grande fogueira armada para toda a comunidade, hoje se tornou uma possibilidade de afirmação, uma disputa de status, uma competição pela maior labareda ou pela fumaça mais intoxicadora. Pular essas fogueiras tornou-se uma tarefa impossível! Até mesmo aproximar-se delas é dificultado pela dor que causam aos olhos.. São lágrimas escorrendo involuntariamente que desestabilizam quaisquer tentativa de aproximação com as ditas cujas. Primeiro ponto baixo: utilização das fogueiras como ostentação e poder são um mero sinal de que o São João perdeu a característica coletiva para a individualidade.

Ademais, vamos às músicas...Talvez seja este o ponto mais controverso. Não venham me dizer que as famigeradas bandinhas pseudo-bregas de forró, que levantam a bandeira da diversão e do compromisso com a alegria, são representativas dessa época. Tais bandas ( "Café-com -numsei-o-quê", "Limão com rapadura", "Calcinha num-sei-que-cor") são arremedos de bandas de forró! São enganadores, golpistas, meras empresas do entretenimento barato, são o circo da política safada do 'pão e circo', desta vez disponibilizada pela mídia despecializada. São lixos radiofônicos que, comparados à poesia e à simplicidade do pé-de-serra, não merecem nem mesmo a reciclagem. Os ritmos matutos devem ser guiados pelo som do triângulo e da sanfona, e cantados pelo suór do sanfoneiro legítimo em cuja circulação, além de sangue, deve correr o som de sua terra. O São João não merece mais uma prova de ridicularização da mulher, como é feita com louvor pelas irmãs-bandas bregas ao longo do ano. O São João, apesar de um amigo distante e não tão íntimo, não merece tal afronta! Segundo ponto baixo: a descaracterização sonora por conta da "estilização" desabonadora das empresas disfarçadas de forró. Meros golpistas fantasiados de artistas.

Por fim, e não menos importante, cabe citar o próprio comportamento das pessoas. As festividades dessa época antes imbuíam nas pessoas o verdadeiro espírito matuto. Os comes-e-bebes eram um grande atrativo e a incocência da dança de uma quadrilha improvisada era um dos pontos altos da noite. Atualmente, as festas de São João são meros 'points' de encontro e exibição daquela bota nova e do 'look' propositalmente imitador do interiorano. O São João serve hoje para servir a mais uma balada em forma de feriado para os jovens, que, ao ritmo lancinante do forró eletrônico de um (a) cantor (a) desafinado (a), entregam-se à folia junina, que mais parece carnavalesca. Terceiro ponto baixo: o comportamento atual releva a tradição em virtude do hábito farrista de refestelar-se no sexo oposto ao som de um ritmo enganador.

Polêmicas à parte, se há alguma defesa que posso fazer ao São João, esta reside na necessidade premente de resgatar sua essência!!! Os rumos comerciais, bem como a artificialização do que era para ser uma volta ao natural, banalizam uma época que poderia ser rica em cultura, mas se descaracteriza em virtude do afastamento da mesma. Cultua-se a aparência (trajes da moda), quando esta deveria servir de brincadeira (trajes matutos); priorizam-se as músicas modernosas que falam de bordéis e cultuam a promiscuidade, em detrimento do lirismo de uma boa música de 'Luís Gonzaga' !! E, dessa forma, mais um evento que tanto poderia ser não é, o que muito me incentiva a preferir ficar em dia com os lançamentos da locadora e do cinema, do que me esbaldar na cultuação a uma festa tão descaracterizada.


Com o perdão da brincadeira:


Olha, que isso aqui não está muito bom; isso aqui poderia ser bom demais.

Olha, quem tá fora, lá quer ficar. E quem tá dentro se esvai.


**Se eu fosse uma bandeirinha, desejaria ser um balão, para voar bem pra longe de tudo isso**

sábado, junho 16, 2007

CEM


Sem o sentimentalismo de sempre.
Sem o sentido de prolixidade.
Sem a pressa de acabar o mal-iniciado.
Sem a parcimônia de gastar a quantidade.
Sem o hábito de atropelar o planejado.
Sem o trânsito de frear o acelerado.
Sem a angústia de guiar o teu caminho.
Sem a força de fechar-me sozinho.
Sem a coragem de parecer corajoso.
Sem o meu modo de dizer o seu modo.
Sem o seu modo de aceitar o meu jeito.
Sem a sua luta de entender o meu canto.
Sem a obrigação de lembrar seu respeito.


***


Cem textos.

Sem palavras!




quarta-feira, junho 13, 2007

"Viajar eu preciso" ou "Hermanos e irmãos"







Apaixone-se perdidamente por uma banda, faça amigos excepcionais por conta dela, seja maluco o suficiente para viajar ao encontro do último show, arrume mais malucos iguais a você para te acompanhar e seja feliz! Se a felicidade existe, foi com ela que estive nos últimos 4 dias.

O desejo de presenciar o provável último show da Los Hermanos foi o pontapé inicial de uma viagem inesquecível ao Rio de Janeiro, cujo esboço de idéia nasceu de uma mera probabilidade que foi se consubstanciando na loucura dividida entre amigos. Ingresso comprado no ímpeto do inesperado, passagem adquirida na ânsia do desespero, alegria garantida pelas ótimas companhias entre paisagens memoráveis.

É verdade tudo que dizem: o Rio é mesmo muito lindo. Não há como negar! Os problemas socias subjacentes a qualquer boa cidade brasileira praticamente somem diante da beleza hipnotizante do lugar. A malandragem preguiçosa de seu sotaque parece desfilar pelo ar, subindo e descendo os morros que saltam à vista a cada momento. Trata-se de uma cidade em constante visitação, cujas belezas são constantemente submetidas flashes fotográficos. Turistas ensandecidos por todo lado, em toda esquina, seja no Centro, seja no subúrbio, garantindo sua lembrança inesquecível em forma de retrato, são lugar-comum. Eu era um deles, juntamente com meu grupo de companheiros inesquecíveis.

Juntos dividimos momentos importantes de nossas vidas, desde a foto conquistada ao lado de nosso ídolo (algo completamente inesperado) ao show praticamente particular na passagem de som invadida; desde o entusiasmo de entoar o hino de nosso Estado na fila do esperado show à emoção de unir suór, sorrisos e lágrimas durante o espetáculo de despedida; desde a espera cansativa do nascer do sol num aeroporto semi-morto e gélido à descontração de conhecer aos poucos cada detalhe um do outro; desde a maluquice sadia de guiar-se por informações desencontradas à beleza de compartilhar um linda paisagem no final; da satisfação de ver o mundo dando voltas em virtude de uma cachaça coletiva ao singelo desejo de prolongar o momento da companhia.
Conhecemos uma cidade nobre em sua história e exemplar em beleza. Cada rua, cada construção, cada obra natural forma um conjunto inigualável. O Centro resguarda a tradição do antigo juntamente com a sofisticação do novo; os subúrbios contêm a placidez do verde adicionado à turbulência do trânsito; as praias famosas acrescentam ao seu poder turístico de conquista a sua estética incontestável.


O Rio de janeiro deve continuar lindo por muito tempo. Não é à toa que hoje cultuamos nomes como Vinícius de Moraes ou Chico Buarque...Seria praticamente uma afronta se uma cidade com o Rio não incentivasse mentes brilhantes e corações em formas de versos como os destes poetas. O Rio é um poema rimado por suas estradas devastadoras de morros, uma canção cuja melodia reside no tom de suas imagens sem igual. E os cariocas parecem ser os músicos que dão arranjo a este grande poema musicado, sincronizados em sua sintonia malandra.

Por fim, tão certo quanto a saudade destes 4 dias, agradecido estou pelo fato de ter dividido tais momentos com pessoas tão especiais. O pouco tempo de convívio consolidou-se numa forte amizade ratificada pelo poder de momentos em comum, divididos em euforia e êxtase de aproveitar cada segundo. Cada figura, cada sorriso, cada risada sem fim estão guardados neste coração de quem vos escreve em forma de sentimento querido.

Viajar em busca da Los hermanos era uma necessidade angustiante, que se transformou num presente precioso. Os irmãos conquistados lamentam o 'adeus' momentâneo da banda, mas agradecem pela irmandade que este hiato ajudou a iniciar.

Até a próximo vislumbre deste pernambucano que desejou ser carioca por um momento em sua vida!

terça-feira, junho 05, 2007

Dize-me teu nome, que te direi com quem ele parece


Por trás de nosso nome, há algo além ou aquém de uma pessoa, com sentimentos, temperamentos e personalidade. Nele se encerra uma força externa maior, a qual deixamos nos vencer ou não. Cada nome traz em si uma carga simbólica, que coincide ou não com o modo de vida e o jeito de ser de seu dono.

Explicarei: nossos ouvidos, os quais possuem uma ponte interessante diretamente ligada ao nosso honrado cérebro, recebem as ondas sonoras realizadas pelo som de seu nome, e são transmitidas, através de impulsos elétricos à região cerebral responsável por transformá-lo na imagem que dele temos. Porém, a imagem a qual quero aqui demonstrar, não é a ligada à sua figura, ao seu rosto, à sua pessoa. Cada nome vive sozinho, sem o seu dono, mesmo porque um nome pode ser dividido entre várias pessoas diferentes. Porém, o mais interessante é que cada nome vive de uma forma diferente, dependendo dos ouvidos onde chegam...

Exemplificarei, iniciando pelo meu próprio, claro, para evitar quaisquer acusações: meu nome advém, logicamente, do nome Igor, o qual tem cara certa de segurança de boate ou de bar. (Nada de Igor cigano da novela !! É pra dissociar do que já existe!!) É sim daqueles leões-de-chácara que a gente vê nos filmes, cuja única função é a de pedir senha e a de esbofetear bêbados brigões. Só que, no meu caso, Higgo é o nome de um segurança de família muito pobre, pois seu pai inventou de enfeitar seu nome com o que há de menos combinativo em nossa língua portuguesa. Dois 'g' que tem som de um só, "h" na frente para ficar à frente na chamada e sem o "r" no final, que é pra sintetizar...Pasquale ensinou isso em algum lugar? Eu, mesmo, nunca vi...

Além do meu 'querido' nome, posso lhes dar inúmeros outros exemplos... Vejam Aleriane, por exemplo...É o nome de uma grande amiga, porém dissociando a imagem dela de seu nome, fica óbvia e clara em minha mente a imagem de alguém, por trás de uma ligação telefônica, assim atendendo o telefone: "Operadora X, Aleriane, Boa Tardjje !!"... (assim mesmo, com dj...no carioquês...) Aleriane foi inventado para ser nome de operadora de telemarketing, e se, minha amiga mudou essa história que parecia estar marcada como decisória pelo poder imposto por tal nome, tornando-se uma futura artista plástica, ela venceu o destino marcado pela cartório !!!Apesar de achar que um nome do tipo Glauco, ou Elisa, combina muito mais com artistas plásticos...

Continuando nossa tarefa de decifrar a natureza de cada nome, chegamos a um interessante. Em que imagem vocês pensam ao ouvir, por exemplo, o nome Natana?? Vejam se essa imagem não cabe perfeitamente: descendo das escadas improvisadas da favela, lá vem Natana, com seu cabelo baixinho pintado de loiro-albino, seus shorts jeans rasgados que antes eram uma calça corsário, seu top estampado com papoulas rosas e seu piercing que mais parece uma alegoria de escola de samba. Se formos pesquisar mais a fundo, saberemos que na verdade seu nome é Natan, mas a identidade sexual de nosso personagem não vem ao caso...

Vamos adiante: Elizabeth!! Como pode uma criança chamar-se Elizabeth...? Uma criança não tem cara de Elizabeth...Invariavelmente, uma mini-Elizabeth, deve responder aos apelidos de "Lili", "Lizinha", "Bethy", "Betinha.." Elizabeth é nome de senhora, mais especificamente daquelas velhinhas que viajam freqüentemente em excursões de idosos, e que sabem fazer um ponto-de-cruz como ninguém...É lúcida a imagem de Dona Elizabeth, costurando sentada em uma mesinha , entre outras senhoras (Conceição, Maria das Dores, Maria Anunciada, Fátima e Marlene), a bordo de um cruzeiro com destino a Angra dos Reis, indo para o 75º Encontro Mensal de Dança de Salão para a Terceira Idade...

Posso dar-lhes muitos outros exemplos: Rubens é nome de intelectual, de alguém que quando morrer certamente deve contribuir com seu nome para alguma rua e avenida; Adriano Ricardo, assim, junto, é nome de personagem de novela mexicana, e sua mãe, a espectadora assídua Jucilene, colocou, claro, em homenagem ao galã da novela; Wendell...nome perfeito para os ambulantes, sejam da praia, sejam do Centro da Cidade; Bruno é nome de surfista mauricinho, daqueles que vão-e-voltam de Maracaípe como quem compra pão; Angélica é nome de mulher recatada que esconde o grande segredo de se envolver com o pai de sua melhor amiga; Suzy é nome de cachorro, desculpem, assim como Astor, Otto e Rufus; Ana, nome de carola de igreja que reza três terços por dia, etc e etc e etc. Há vários outros escondidos em nossa consciência: Manoel é nome do padeiro; Seu Anselmo, o da banca de jornal, que também faz jogo do bicho; Ívisson, o do rapaz que dá aquela força lavando o carro e arrumando o jardim; Samuel, o taxista de confiança que faz umas viagens com você vez em quando.

Pois bem....poderia ficar aqui horas e horas transcrevendo nomes e as impressões pré-conceituosas que sobre eles posso citar. É claro que isso não passa de um exercício de quem não tem outra coisa importante para falar, e que os significados de tais nomes dependem dos ouvidos e das impressões de quem os recebe. A falta de ciência dessa prática não inibe o poder de seu excesso de criatividade, pois, pode ser a partir de nomes, que novos personagens são criados. Melhor: cada nome nos apresenta a um personagem diferente, presente na imaginação fértil de cada um. Na vida real, acredito que o nome pouco - ou quase nada- diga sobre a pessoa que o possui (a não ser que alguém se chame Ribonucléica - essa possivelmente é uma pessoa deprimida...). O que fala realmente sobre ela é o seu caráter e no que ela acredita. Mas, num mundo fictício, presente nos vastos labirintos da criação de uma mente, um nome cabe perfeitamente na figura imaginativa para que nos remete nosso cérebro quando traduz aquelas ondas sonoras que em nossos tímpanos chegam.

Portanto, seja você Samantha (lésbica, claro), seja você Aguiar (corretor de imóveis, óbvio), ou Tereza (nome de vó, qualquer uma), Vera (cabeleireira) ou Jaciara (professora), é você que escolhe quem você quer ser. Seu nome pode se tornar apenas o alvo de brincadeiras como esta, mas você tem o poder de fazer a sua pessoa servir, não de brincadeira, mas de exemplo. E isso, claro é muito mais importante. Beleza, Antônio do elevador?

quinta-feira, maio 31, 2007

Quem é você?


Somos atores sociais. E muitas vezes confundimos a atuação. O conceito sociológico vem acompanhado de toda uma pompa coletiva e construtivista. Já ao que estou realmente me referindo, a maneira nada espontânea de nos portarmos, a encenação do que devemos ser em determinada situação, o número improvisado como arma para aceitação em grupo social, isto tudo é carregado de uma maquinário avassaladoramente auto-protetor.

Na maioria das vezes não somos nós mesmos. Ou melhor, na grande maioria das vezes nos portamos como nós mesmos achamos que deveríamos nos portar caso não nos importássemos com o que os outros se importarão de nós. Mas nós nos importamos. Não tem jeito. E a confusão, mais do que no modo com que tentei agora há pouco dizer, se avulta de significado à medida que essa facetagem descarada e adaptativa de nos encaixarmos camaleonicamente a cada ambiente passa a confudir nós mesmos: a chamada indentidade duvidosa-perdida-ameaçada entra em cena.

Para não nos degradar ao ponto da picaretagem falsária, digo com veemência que antes de tudo temos uma essência caracterizada pelo que convencionamos chamar simpaticamente de temperamento/ personalidade. Isso é inegável. Ninguém faz reformas interiores por onde quer que passa. Esse traçado interno, o âmago de cada um, é irrepreensivelmente único e determinado. Alguns o conhecem bem, e mesmo assim, aprendem a re-conhecê-lo dia após dia. Outros, coitados, perdem-se nas avaliações e seguem sem rumo, à busca constante da auto-compreensão, mas se perdem na continuidade da batalha.

Dita essa concessão afagadora, a da certeza de que temos um modelo de identidade interior pré-programado, essa espécie de código deontológico pessoal, passemos à criticidade do reconhecimento de nosso descaramento: a relativa espontaneidade presente em nossa atuação como ser humano em sociedade. Para se viver coletivamente, aprendemos a sobrepujar nossos paradigmas, a ceder e relevar certos entendimentos, em detrimento do grupo ao qual estamos inseridos. Isto por si só já ofusca grande parte do que somos, em relação ao modo como nos portamos.

Em segundo lugar, estamos constantemente iniciando novas relações, pondo-nos em contato em situações novas, partindo do zero a cada linha de chegada. Estas apresentações ao recém-chegado não deixam dúvidas de que agimos através de modelos de como se deve agir quando a variável "intimidade" não deixou os atores sociais à vontade o suficiente para deixar transparecer o seu verdadeiro rol de comportamentos ora tolhidos, ora inibidos, ora atenuados, (ou até exagerados, dependendo da situação)pelo simples poder moldador da novidade.

E por fim, e não menos importante, para completar a tríade do que venho tentando expressar nessas linhas, reside a obviedade do fato de que, ao conviver em sociedade, nossos atos são reflexos das atitudes dos que estão à nossa volta. Muito deles certamente são resultados práticos em resposta às atitudes daqueles com quem convivemos. A convivência, o meio, os exemplos e a interação são responsáveis pela padronização da camuflagem grupal. E, além disso, agimos conforme a música, em diálogos constantes com o mundo à nossa volta, e nos portamos na grande maioria das vezes de maneira diferente quando sozinhos, comparado a quando estamos acompanhados.

Na verdade, somos o resultado do (des) equilíbrio estabelecido entre o que interiormente somos e como externamente agimos. O resultado desse cálculo é a incógnita perseguida por esse raciocínio. Definimo-nos pela junção do abstrato de nosso caráter à materialidade de como nos comportamos em coletividade. O grande problema é que na imensa maioria das vezes deixamos a figura social criada por nós dominar aquilo que nossa individualidade primeirante ensinou. O ideal deve ser buscar o limite maduro entre nosso recheio e nossa casca, para que nem nosso roteiro interior seja infringido, nem a atuação da cena mais adiante perca em espontaneidade e talento. O reconhecimento nesta vida reside no fato de deixarmos marcado, em tudo que está à nossa volta,o mais perfeito reflexo daquilo que cultivamos dentro de nós, não obstante às tantas variáveis que relutam em nos impedir de atuar de forma genuína. Diante dessa compreensão, quem sabe estaremos um dia aptos a responder à simples pergunta do título, sem que tenhamos que involuntariamente agir como deveríamos, em detrimento de como agiríamos sem nada dever. Eis uma grande questão, uma interessante dúvida: eis um grande exercicio.

quinta-feira, maio 24, 2007

Baixio das Bestas


Eis uma história crua, que muito depende do quanto desnudados estão dispostos seus executores. Mais do que artistas nus, vemos neste filme de Cláudio Assis uma Zona da Mata despida: pobre, esquecida, abandonada.

Os personagens retratados neste filme são o reflexo do abandono e o da marginalidade a que foram submetidas muitas das cidades interioranas de nosso Nordeste. Muito me fez lembrar - totalmente pelo seu sentimento de escanteio, nunca pelo seu modo se descrever - a cidade esquecida do filme "A Máquina",de João Falcão, da qual seus moradores evadiam-se por conta da falta de recursos.

A falta de recursos da cidade focada em "Baixio das Bestas" é exemplificada pela ausência de oportunidades e mostrada como um palco para o desfile de figuras animalescas, que, muito por conta da marginalidade, são mostrados em tons naturalistas, que remetem à irracionalidade humana. Os personagens aproximam-se dos animais em seus métodos, embora cultivem a maldade de comportamento digna de uma maléfico ser humano. E muitas vezes agem com uma maldade exasperadamente pueril, como a de uma criança que decepa friamente um inseto, por exemplo.

Trata-se de um excelente trabalho de Dira Paes, Matheus Nacthtergaile, Caio Blat e a estreante Mariah Teixeira, que conseguem, cada um à sua "baixeza" de existir, transmitir antipatia, asco, raiva e pena, respectivamente. Através de seus personagens, pode-se ver a absurda falta de contidão e modos de uma prostituta de "segundo escalão"; a loucura e o sadismo existentes num homem cuja instrução volta-se ao gosto pela maldade; a preguiça personificada na malandragem inescrupulosa de um jovem imaturo e inconseqüente; a perda da inocência em virtude da constante humilhação e conformação inevitável. Além de seus personagens principais, o filme conta com um elenco desconhecido, porém não menos brilhante, que age com tal naturalidade diante da câmera, que nos faz pensar se são mesmo atores exercendo seu trabalho, a exemplo da cena entre o bêbado cavador de fossa e o patriarca explorador da sexualidade infantil, ambos interpretados brilhantemente por Irandhir Santos e Fernando Teixeira.

"Baixio das Bestas" é uma história sádica e deprimente por natureza, e que ganha contornos de ótima composição em virtude justamente da crueldade de suas exposições secas e desveladas. Planos de cima, bem como por trás dos personagens, além de no meio de um grupo de maracatu em plena atividade não nos deixam em dúvida de que somos mesmo espectadores. Desde o inicío da projeção fica clara a intenção de exposição de uma realidade com a qual não nos identificamos e que, apesar de próxima e triste demais para ser verdade, é verossímil.

Eis a principal contribuição do filme: um Nordeste da Zona da Mata desnudado de retratações caricaturais, desmascarado em suas verdades mais trágicas. Dentre elas, a de que nasce um animal dentro de cada homem esquecido pela própria Humanidade.

sexta-feira, maio 18, 2007

Coesão particular




Sem mais porquês
Um sim, talvez
Como?
No meu homo-sapiens pensar,questiono.
Quando? Será que vai?
Quanto? Será penar?
Quedê o meu lugar?
Já fui embora
em inúmeros outroras.
Aonde foram meus 'ondes'?
Quantos destes podem
dizer-me o quanto do meu quantum?
Enfrento o sentido da falta de sentido
perdido de meus conteúdos.
Entretanto, aqui no meu canto,
Apesar de contudo, ainda sou portanto.

quarta-feira, maio 16, 2007

We are the Earth Intruders


Não consigo viver sem música. Sem cinema também. São duas paixões que caminham juntas e que me transformam num ser dependente. Não há sentido na minha vida, sem que estas duas formas de expressão artística estejam presentes. E, como toda pessoa ansiosa e ávida pelo consumo do que gosta, a simples existência deles não me basta. Necessito sempre de novidades, de reinvenções, de novos sons, de novos planos, de novos ritmos, de novas lágrimas.
Sou sedento pela novidade. Como se um som novo me fizesse repetir as experiências de uma primeira vez, busco sempre estar atualizado com tudo que há de vir desses dois campos imprescindíveis. Não sou daqueles que se fecha ante às novidades, para exaurir ao máximo o que já se tornou passado. Eu escuto a mesma música mil vezes, se ela mexer comigo, mas não deixo de, nos intervalos, buscar novas músicas que me façam experimentar novas sensações. Admiro e amo os clássicos do cinema, mas estou sempre à espera de uma inventividade, seja na forma de contar um roteiro, seja na forma de posicionar uma câmera, seja na linguagem que tal filme utiliza.
Valorizo por demais a originalidade dos jovens artistas que servem como um receptáculo da reciclagem do que marcou época, acrescendo características próprias dos tempos modernos. É como reviver o passado, sem que seja considerado antiquado. É como re-experimentar velhos momentos com cara de novos. É como se sua (seu) esposa (o) tão amada (o), mas já sacrificada (o) pelos efeitos do tempo, reaparecesse certa noite com a pele menos ressecada, com a carne mais firme e cheiro de nova flor. Funcionam dessa forma novas estrelas, como Amy Winehouse, Lilly Allen, Artic Monkeys, Mystery Jets, Muse, entre muitos outros. Dentre os astros da telona, ressalta-se a inventividade de Charlie kaufman, Michel Gondry, Shyamalan, David Fincher, do Mestre Tarantino, Chan Wook Park, Alejandro Gonzalez Iñarritú, Darren Aronofsky!!
Mas um ponto especial a esse raciocínio deve ser direcionado àqueles artistas que dão um passo à frente. Àqueles que bebem de fontes passadas, mas fazem brotar de seus chafarizes novas cores, novos sons, novas sensações. Estes não são apenas reinvenções bem-vindas: são inventores. Ditam moda, seguem sempre no começo da fila, quebram antigos padrões, criam novos. Nos anos 60, BEATLES. Na década seguinte, a disco music deu o seu recado. Nos anos 80, Michael Jackson e Madonna ditaram as regras. Esta última perdeu em originalidade, mas continua por méritos espirituais inexplicáveis, à frente de todo e qualquer processo musical. MJ não merece comentários. Nos anos 90, não me vem à mente nenhum grande nome que funcione com divisor de águas, mas foi nela que basicamente se originou, cresceu e sedimentou-se, passando a perdurar pela virada do século, demonstrando que ela é o futuro, a melhor contribuição islandesa à humanidade. Ela se chama Björk.
Dona de um timbre de voz nunca antes ouvido neste Planeta, e de uma forma de utilizá-lo completamente original e inusitada, Björk é muito mais do que uma artista de vanguarda. Ela é o que há de novo. Tudo que ela realiza leva o toque de um gênio, refletido em sua inventividade e capacidade de renovar-se. Ouvindo sua discografia, é possível perceber a Obra de uma artista incompleta por natureza, intraduzível, inexplicável. É capaz de tornar sons guturais em obra-prima e de emocionar milhões com sua Selma, de "Dançando no Escuro" (sua bem-sucedida e marcante passagem pelo Cinema, sob a marca do também grande cineasta dinamarquês Lars Von Trier). O novo cume desta carreira brilhante reside em seu mais novo trabalho: “Volta”. Mais um disco excepcional, sonoramente lapidado de um modo a unir o que há de mais íntimo e exposto em cada um de nós. Sua voz inigualável embeleza as melodias, ora intimistas, ora ritmadas, ao som de batuques tribais, de um clima oriental, de um lirismo digno dos grandes musicais, de uma verdade escancarada. Uma miscelânea de sensações, de momentos, de sentimentos perpassam qualquer que seja aquele que aguce seus ouvidos a esta beleza que é “Volta”. E é uma viagem sem volta.
Portanto, artistas como esta jóia da “Terra do fogo e do gelo” ratificam em mim a certeza de que estarei sempre bem servido no meu desejo de experimentar o novo. Seja reinventado, seja realmente novidade. E me emociona perceber que são capazes de tocar em algo além de impressões em nossos tímpanos, mas em sentimentos recônditos, em necessidades de consumir com minhas emoções a qualidade artística que deles brotam. Por isso gosto tanto de Música e Cinema, pois ambos são terrenos férteis ao que mais aprecio na arte de apreciar Arte: a intenção de (re)fazer Arte.


Vai um conselho?


Saber escutar o que aqueles que você ama têm a dizer é um dos melhores remédios para as almas mais amarguradas. Quando se cultiva algum problema, um dos melhores remédios podadores desse mal é um bom conselho daqueles que o querem bem. Muitas das vezes, a força de um conselho não reside apenas na mensagem que ele passa. Mas da combinação 'pessoa que fornece + intenção com que diz + resultado a que se chega". Algumas vezes a mensagem pode ser dura demais, pode não ser o que se queira escutar, mas diante dessa tríade poderosa da boa e eficiente intenção, nenhum desejo pueril é mais valente.

Do mesmo modo que um dia aprendi que 'o que se diz pode ser enternecido pelo modo com que se diz' - fruto de uma sábia pessoa que me se serve de exemplo e admiração profunda -, também aprendi que isso que se diz deve muito de sua finalidade ao quanto o outro está disposto a ouvir. E a deixar-se convencer. Portanto, não há verdade acalentada pela meiguice e modos de dizer que surtam efeito nos maus-ouvintes. Embora a meiguice dos que sabem dizer algo com carinho seja por deveras necessária àqueles, digamos, domesticados para a arte da audição controlada, às vezes do que se precisa seja da verdade nua e crua, para os surdos por escolha.

Daqui por diante, aguçarei mais meus sentidos, mais do que me policio fazer. Valorizarei mais as intenções dos conselhos que me dão, mais ainda do que os próprios conselhos. E tentarei apreender lições não simplesmente da mensagem, não somente dos efeitos causados por tal conversa: mas também do que significa para aquela pessoa dizer-me aquilo que ela acredita ser bom pra mim. Talvez ela esteja superando regras impostas a ela própria... talvez seja um recente aprendizado que ela deseje dividir comigo...talvez seja a simples e terna vontade de me ver mais feliz.

E isso me está sendo mais do que suficiente. Melhor do que superar traumas é saber que se está bem servido não apenas de bons conselhos, mas de excelentes conselheiros.

terça-feira, maio 15, 2007

Fossem lágrimas, seriam chorume


Lixo. Esgoto. Carniça. Putrefação. Dejeto. Ceborréia. Suór de vaca prenha de bezerro mutante. Fedor de hálito de anciã sem dentes presa pelos parentes dentro da lata de lixo do banheiro da empregada trancada por dentro. Catarro. Excreção. Viscosidade da última gota de corisa escorrida pelo pescoço. Lambida na sola do pé de um grupo de soldados sebosos vindo da batalha do Iraque. Mergulho em toda a pasta expelida por todos os cravos do mundo espremidos ao mesmo tempo. Nojo. Regurgitação. Vômito das próprias vísceras acompanhado de um platelminto bígamo. Golfada de macaco velho. Defecação. Embebido de urina de camelo raquítico no deserto do Saara. Excremento.


Nojeira travestida de um sentimento baixo por si próprio.

O cúmulo da baixa auto-estima representado pelo curioso ato de sentir-se na merda.

Fossem palavras ditas, sentirias o cheiro ocre do fracasso.

Fossem lágrimas, seriam chorume.



sábado, maio 12, 2007

Prazer, chamo-me dúvida


OLá, prazer em conhecê-lo! Aliás, prazer em revê-lo. Quer dizer, prazer em estar sempre por perto. Ou melhor, ahhh você já sabe!Gosto do jeito que me percebo em seus olhos, quando você, sem saída, me chama entre as várias opções que a vida te propõe. Caso eu não existisse, você facilmente optaria por alguma delas, talvez a certa, talvez a errada, talvez... Se eu não fosse tão presente nas suas escolhas, você pouparia menos preocupações na hora da opção, mas certamente sua margem de erro aumentaria consideravelmente. Mas, pela minha simples presença, a minha gostosa companhia que te faz refletir sobre suas decisões, eu mexo com seu pensamento. Bagunço suas necessidades maiores, avivo a sua razão, sua emoção, com seus hemisférios todos. Eu marco encontros de você mesmo com seus próprios mistérios, te faço enxergar coisas que há tempos você não percebia. Eu te faço repensar e repensar sobre o que já repensou. E na hora de ir embora, vou satisfeita, deixando-o com os pesos da balança na medida certa. Prós, contras, benefícos, prejuízos. Refestelo-me com todos esses elementos farfalhando no carnaval de suas maquinações! Te deixo no ponto com a necessidade de se decidir. Após a dúvida, vem a dívida. Salde-a, para que não seja tarde demais.