quarta-feira, novembro 22, 2006

A motorista e a passageira


Hoje fui da alegria à tristeza em menos de meia hora. Ou melhor, fui do orgulho à decepção em questão de minutos. Contarei: como sempre, apanhei um ônibus para a Faculdade e, qual foi a minha surpresa, que o motorista do coletivo era A motorista. Tudo bem que isso já não é muito lá novidade para muita gente, mas era para mim. Apesar de passar horas importantes da minha vida em ônibus, nunca havia pego algum dirigido por uma mulher. Pois bem. Este simples fato muito me deixou feliz, pois, apesar de ser homem, não sou machista ao ponto de não me alegrar ao ver uma mulher em posição majoritariamente masculina. Na verdade, fico feliz de poder presenciar quaisquer derrubada de barreiras sociais, quaisquer quebra de paradigmas e impossibilidades, apenas cultivadas por herança de tempos mais injustos. Me senti orgulhoso por ela, por entender o significado da posição que ocupava. Era mais do que uma motorista, tão cheia de responsabilidades e com tão pouco reconhecimento. Uma mulher no volante de um coletivo é um símbolo de tempos melhores, de uma sociedade mais justa e menos preconceituosa. E, entendendo qualquer dificuldade que ela pudesse enfrentar, era notório que aquela motorista realizava uma de suas primeiras viagens. Ou seja, ela ainda estava numa espécie de treinamento. Neste período, é extremamente normal que, seja homem ou mulher, a adaptação àquela posição ocorra paulatinamente. Assim, ela estancou o ônibus duas vezes no percurso, além de manter uma velocidade não tão costumeiramente alta, e ainda lhe era soprado o caminho pelo cobrador. Na minha visão orgulhosa (no bom sentido), perfeitamente compreensível. Minha satisfação por estar sendo guiado pelas mãos dela era tanta, que ela poderia me atrasar mais meia hora, e mesmo assim eu não ligaria. Aquela mulher não merecia de forma alguma minha irritação, mas nada menos que meus parabéns. Encaminhava-se a história para um final feliz, pelo qual eu sairia refletindo sobre como nossa realidade atual talvez seja mais fácil de viver em alguns poucos aspectos, eis que me deparo com os comentários de certa passageira. Isso mesmo, passageira. Prestes a descer, já à frente da porta de saída, fui testemunha de uma das mais completas faltas de sensibilidade e consciência que já vi alguém emitir. Uma mulher que conversava num dos assentos traseiros com dois homens, falava incessantemente em tom de reclamação, as seguintes asneiras (tentarei reproduzir com o máximo de fidelidade): "Se eu soubesse que ela (a motorista, obviamente) tava aprendendo, eu não tinha nem entrado", disse a mulher, em alto tom e dirigindo-se à frente do ônibus. E prosseguiu: "É por isso que os homens falam das mulheres. Porquem sempre têm essas antas para atrapalhar a vida dos outros." Diante da gravidade desta declaração injusta e inconcebível, contrastante por demais aos meus sentimentos no momento, resolvi retrucar a ignorância dela, diante de todos que estavam próximos, algo que realmente não costumo fazer. Disse a ela que era completamente compreensível que, como uma aprendiz, a motorista enfrentasse dificuldades. E que o melhor lugar para um motorista aprender a dirigir no trânsito era justamente no trânsito. Acrescentei dizendo que, caso não fossem dadas oportunidades como esta, uma mulher nunca poderia chegar a tal posição, e continuaríamos com uma sociedade tão injusta por muito mais tempo. Gostaria de ter acrescentado que ela, como mulher, deveria se sentir orgulhosa por ver seu gênero, tão historicamente castigado, ser capaz de mostrar à sociedade suas capacidades de eqüidade com o masculino. Porém, minha parada já se anunciava e não pude completar minha sincera e afoita lição de moral. Com a minha resposta, meu ânimo me impediu de perceber a reação dos demais passageiros, porém o meu alvo ensaiou uma espécie de reflexão confusa que talvez seja impedida de se desenvolver justamente pelo tanto de ignorância que nela deve haver. Mas me senti de tarefa cumprida. Nesta curta viagem de ônibus aprendi que 20 minutos são mais que suficientes para ir do otimismo ao pessimismo. Otimismo, por poder ter o privilégio de presenciar tais exemplos de dignidade e coragem (por parte da motorista). Pessimismo, por verificar que a ignorância é um dos maiores obstáculos sociais que temos. Por isso me senti tão assim no dia de hoje. Tão orgulhoso, e tão decepcionado...

Primeiro Ato


Abro alas neste espaço para uma reflexão um tanto quanto pessoal sobre um assunto que a mim me agrada analisar: a natureza humana. Logicamente, este é um assunto capaz de render mais do que meros textos publicados. Nem uma biblioteca repleta de volumes minuciosamente elaborados para transmitir algo equivalente à miscelânea de cores do que vem a ser natureza humana é capaz de atingir tal objetivo. É humanamente impossível um ser humano chegar a tais e tantos detalhes elucidativos. Assim sendo, restringirei-me a focar numa das imperfeições que constróem este quadro surrealista que formamos. Falarei do erro. Para muitos, algo inevitável. Para outros, inerente. Muitos ainda dizem ser um degrau para certa evolução. Porém, mais do que tentar definir tal realidade, mais do que tentar estudar a influência que um erro pode causar em nossas vidas, e de que forma tal erro ajuda a compor a imagem do que somos ou do que parecemos ser, convém lembrar que estamos a falar de algo extremamente subjetivo. Trata-se de algo misturado a valores pré-determinados. Mas, diante do que a moral implícita em nossa sociedade nos ensina, é possível chegar-se a consensos sobre o que é um erro. Nada impede que surjam divergências interpretativas a respeito, mas pode-se, diante de um julgamento de valor coletivo, dizer o que é certo para esta coletividade. E o que é errado. Nem tudo que é errado é proibido. Mas todo erro é mal-quisto. Muitas vezes o erro proporciona o aprendizado necessário para um fim de correição. Mas em grande parte das vezes, e é esse tipo de atitude que venho especificamente falar, um erro pode ser irremediável a tal ponto, que relacionam-se os motivos pelos quais tal falha foi cometida à ausência de providencial talento de acertar. Pois bem. Um erro mecânico reflete-se na possibilidade de repetir outro movimento em busca da perfeição. Um erro estilístico propicia uma maior meticulosidade e clareza na forma de se comunicar. Um erro estatístico pode provocar uma certa confusão sobre a verdadeira situação de tal grandeza, mas um refazimento de cálculos muitas vezes mostra novas fórmulas matemáticas. Já um erro de atitude é também vexatório para o ser errante, mas não ao ponto de impedí-lo de agir de forma mais acertada no futuro. Logo, igualmente remediável. Talvez o único erro que não possua conserto é aquele proveniente de uma falha oriunda de uma realidade já distante. Certamente não há remédios para os erros de caráter. Afinal, os maus valores pessoais de alguém são adquiridos através do acúmulo de experiências aliado à gênese do temperamento deste. E esses se arraigam de tal forma, que são indesvinculáveis do ser que erra ao externá-los. Portanto, um erro de caráter é reflexo de alguém provavelmente inescrupuloso, ardil e inacabado. Tendo em vista esta análise, os mais desavisados muito costumam confundir os dois últimos erros citados. Erros de atitude e erros de caráter. Quase todos os erros de caráter manifestam-se através de erros de atitudes. Porém, nem todos os erros de atitudes vêm a ser erros de caráter. Mesmo assim, a natureza humana, generalizatória como se mostra, teima em macular certas atitudes isoladas como fossos de caráter e reputação. Exigir tal discernimento do alvo do erro talvez seja até um pouco demais, porém aqueles que se encontram em posição imparcial ao feito deveriam aprender melhor a dissociar atos falhos de má-natureza. Assim sendo, por mais que a natureza humana se revele mais profunda a cada desvendar, devemos seguir a creditar nossos maiores acertos na reflexão do que somos capazes, tentando sempre antever as reais conseqüências de nossos atos, mensurando o quanto somos capazes de se importar e meditando acerca das necessidades que possuímos de se consertar. Sempre chego à conclusão de que a conscientização de nossas características mais latentes é o primeiro passo para nos entendermos melhor, tanto a si próprios, quanto uns aos outros. E esse entendimento se perfaz em meio a percalços tais, que a hipótese de erros de atitude perde em importância para a consciência de que estes podem jamais arranhar a nobreza de alguém que exercite seu papel. Por mais que este papel de desenrole através de atos falhos, na verdade ele sempre busca o reconhecimento da platéia para a qual se exibe. Por mais que o drama que desenvolva ofusque a possibilidade do público rir no final, este papel é um mero fantoche diante do que somos e do que somos capazes. A grande questão reside no quanto a distância entre estas duas grandezas pode influenciar na peça inteira. À medida em que se limita a capacidade à natureza do "ser", reduz-se tais confusões. Contudo, muitas vezes ela escapa aos limites, aventurando-se no que simplificadamente chamamos de erros de atitude. E novamente mostramos nossa verdadeira essência indecifrável, nossa natureza nada menos que inexplicável.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Desistência


Com desdém, saiu do carro, desceu as escadas, em direção à portaria, não cumprimentou o porteiro e nem sequer ouviu os gritos do homem. Foi em direção ao elevador, clicou no sétimo andar e nem percebeu quando ele telefonara, denunciando-a. Já não importava se a imprevisibilidade a ajudaria ou não. O que importava nesse momento era a vontade de saciar sua curiosidade. Chegando no andar, aberta a porta do elevador, corredor escuro à frente. A cada passo, uma nova luz se acendia, acionada pelos seus movimentos. Ao chegar à porta, silêncio total. Respiração acelerada, batimentos quase que guturais, vilosidades involuntariamente incômodas. Arruma os cabelos. Primeiro toque. Segunto toque. Chaves. Olho mágico. Porta aberta, devagar...Adentra. Do outro lado, um fantasma segurando a maçaneta. Franja por cima da testa, olheiras de duas noites em claro, cigarros jogados na mesa do centro, aquele cheiro ocre que fica quando não se toma banho. À frente da porta, sentia o ódio remoer suas vontades de dizer todas suas verdades. Ao passar por ela, e se deparar com um adversário tão inofensivo, desabou todas suas armas ao chão. Quebraram-se todas as suas defesas e deixou escapar todos os seus ataques. Só sentiu angústia e pena e amor por aquele que agora colocava embaixo do chuveiro, enquanto incessantemente tocava ao fundo o interfone. No momento em que limpava aquele corpo, pensava unicamente em como limparia aquela alma. Sem que triscasse gota alguma na sua, que custara tanto a clarear. O resto da noite passou ao seu lado, passando os dedos em seus cachos e torcendo para que a manhã do dia seguinte fosse menos turbulenta. E tivesse mais respostas, do que as dúvidas que estavam por vir. Naquela noite, acendeu um cigarro, depois de meses de abstinência. E enfraqueceu diante de dois vícios: o do fumo e o do amor.

terça-feira, novembro 07, 2006

Atrás da cortina de fumaça


Quando a gente faz fumaça, tudo embaça. Com aflição, o fogo ameaça se espalhar pelos outros cômodos, você se desespera por alguns segundos, imagina por poucos e curtos e longos momentos sua face desmanchando em pele e carvão. Mas nada se queima além do que se quer queimar. Aos poucos, as cinzas flutuantes se descolam das lentes dos óculos, as tosses mais fortes expelem qualquer resto de fuligem que tenha se enxerido pelas vias respiratórias. Paulatinamente, a vista desembaça, o cabelo se (des) arruma em pó. Restam os dedos negros cheirando a papel queimado e tudo que se quer é um banho de água fria. Enfim, a poeira desanuvia, e a gente passa a enxergar um mundo novo. Um mundo coberto de fuligem velha precisa ser olhado através de um olhar diferente. Um espaço diferente requer um maneira diferente de tratamento. Não se pisa num chão branco de limpo do mesmo modo que um chão podre de sujo. E é assim que os dias me vêm sendo apresentados. De forma diferente. O que era antes claro, hoje me põe dúvidas. E o que anteriormente eu desconhecia, hoje já nem consigo discordar da existência. Graças às fogueiras acesas. E às chamas luminosas, que causaram novas formas de olhar. Novos olhares. Muita poeira pra limpar, mas novos olhares.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Nova no ônibus

Fiquem sabendo.Quem vier pela Domingos Ferreira, e desejar descer na Parada do Shopping Recife, e não souber, sigam as instruções que eu escutei dia desses no ônibus. Uma mulher dizia a outra:
"Táis vendo essa construção da Môra Du-Beúxi (Moura Dubeux)? Quando passar da Pizzaria Hutz (Pizza Hut), vai ter a Braidjistone (Bridgestone). Pronto. A parada é essa. Desce, fia. Bora!!"
Entenderam???? Cuidado para não se perder!!
Até outra história de ônibus.

Graforréia


Mais importante do que o que se diz é a maneira como isso que se diz chega aos ouvidos daquele a quem se destina o recado que sai daquele que deseja emitir alguma opinião sobre alguma coisa que o chamou a atenção para que alguma atitude sobre alguma coisa possa ser tomada quando alguém que deseja chamar atenção para alguma coisa tenta fazer com que outra a receba e capte tudo que se intenciona, mas se, no caminho, a experiência do que aquele quem diz o recado se confunde com a forma com que se tentou dizer, e, mais ainda, as experiências daquele que recebe suplantam a tentativa tosca de entender o recado dado, perde-se tudo que se tentou fazer com a emissão do singelo recado, que mesmo importante pode se perder no que alguém não conseguiu transmitir e no que alguém não conseguiu captar, fazendo disso um grande e claro e confuso retrato das nossas próprias vidas: uma complicada graforréia que se perde num emaranhado de palavras que parecem nunca acabar, e se fantasiam do que tanto se quer transmitir mas às vezes não se consegue, a famigerada e discutida e complicada mensagem.

domingo, outubro 15, 2006

Um pouco bagunçado


Quando cheguei havia poeira e bagunça para todo lado. Móveis revirados, discos jogados ao chão, revistas rasgadas e um coração triste no canto, com cara de culpado. Arrumei tudo cautelosamente, com cuidado e dedicação. Levantei as cadeiras, pus água nos vasos e arranjei toalhas de mesa limpas. Tudo em seu lugar. Mas resolvi deixar aquele coração arteiro de castigo, no canto, imóvel, sem se mexer. Porque talvez ele seja imaturo para perceber que ficar sozinho não é o fim do mundo. Deveria tê-lo feito consertar toda a bagunça, mas resolvi deixá-lo com a angústia da dúvida do que eu iria fazer com ele. Por enquanto, será apenas um coração no canto, de costas, sozinho e pensativo em tudo que fez e deixou de fazer. Para aprender que um coração arteiro merece nada menos que castigo. Um dia eu tiro ele de lá.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Má digestão


O fundo das meias manchavam-se com a sujeira do chão daquele cenário grotesco. Corpos vestidos de gala, smokings e longos inutilizados vestindo cadáveres. As pernas dos noivos confundiam-se com as dos seguranças; os dentes do padre agora se perdiam debaixo das saias das damas de honra. Membros e vísceras agora enfeitavam o ambiente, novos elementos da decoração. As cortinas adquiriram um tom mais róseo. Mesas e cadeiras jogadas, horror espalhado em cada emenda do salão. Enquanto limpava o suor que escorria pela testa, revirava os corpos atrás do órgão de que necessitava. Deveria estar em algum lugar por debaixo daqueles tecidos, daqueles tufos de cabelos e pêlos ensangüentados. Enquanto tropeçava entre os pedaços, ossos estalavam sob os montes de carne contorcidos regados a 'champagne' francês. Não havia nada que o fizesse desistir de sua procura insana; não desistiria de resgatar aquele que viria a ser o maior troféu do único amor que ousou rejeitá-lo. Havia anunciado que aquele coração um dia voltaria a ser dele...Logo, o procuraria nem que o seu sangue começasse a se misturar ao daqueles inúteis. Até que, enquanto ria da face de horror de uma das tias do cadáver principal, viu reluzindo sob o vestido branco o coração que procurava. Parecia ainda pulsar no momento em que o mordia com toda a força, sentindo o gosto interno das cavidades misturado ao de sangue seco. E o mastigou impetuosamente, engolindo-o com satisfação.
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Após o banquete, levantou-se calmamente e sentou-se à mesa dos noivos. Guardando a lembrança do matrimônio no bolso do paletó, calmamente levou um guardanapo à boca, limpando o sangue que dela escorria. O sangue daquela que um dia lhe negara seu amor, mas que agora era digerida pelas enzimas de seu estômago. Um brinde à má digestão.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Ensaio sobre a Maldade


O que é maldade? Para início de conversa, maldade é um pouco relativo...pois o que pode ser considerado maldade para a vítima, pode ser a solução para o seu algoz. Contudo, entendo ser a maldade um ato injusto de tal forma que prejudique outrem, impulsionado pela simples finalidade de prejudicar. A maldade está intrinsecamente ligada à inteligência e ao sofrimento. Inteligência de quem dá causa e sofrimento daquele sobre quem recaem estes efeitos.
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Sobre a inteligência: a minha humilde observação e minha leiga opinião sobre o cérebro dos seres vivos me faz perceber que, quanto mais inteligente for aquele ser, mais propício ele está de praticar atos maldosos. O que quero dizer, para exemplificar, é o fato de predadores caçarem mesmo quando não estiverem com fome. É como se a inteligência burlasse o equilíbrio da cadeia alimentar, transformando necessidades em privilégios. Agir maldosamente, ao meu ver, é tentar conseguir mais para si em detrimento de uma constante falta para o outro. Vi certaz vez num programa de televisão uma cena pavorosa de orcas caçando focas. As baleias, como seres inteligentes que são (e superiores às focas) não se contentavam simplesmente em se alimentar das focas. As orcas, nada mais, nada menos, desferiam golpes nas focas, de modo a jogá-las de uma lado a outro em pleno mar revolto. Como se espancassem as suas presas, não sei se para amaciar a carne, sei lá. Mas o que vi foi uma cena de um predador (inteligente) torturando a sua presa antes de abatê-la. Nós, homens, somos capazes da mesma coisa. Fazemos isto com as próprias orcas, belungas, golfinhos e quaisquer outros seres que nos trazem lucro. Fazemos isto com nosso Planeta!! Até com nossos semelhantes... É certo que a raça humana é 'hour-concour' na Arte da Maldade, e tanto assim o Homem consegue ser, que muitos se questionam se é da natureza da própria humanidade agir dessa forma. Ao meu ver, não. Mas que a nossa inteligência nos fornece a meticulosidade necessária para praticar tais atos, ah, isso ela dá. Ela nos concede a capacidade de criar planos, de bolar loucuras, de pisar sobre o que já está pisado. Como se o grande número de neurônios que possuímos nos impulsionasse a agir de forma injusta, provocando sofrimento e sentindo prazer pela dor alheia. E, assim, seguimos, vítimas de nossa própria maldade.
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Sobre o sofrimento: o outro lado da maldade é o de quem sofre. É o alvo do excesso de inteligência. E esse sofrimento não atinge apenas quem diretamente sofre as terríveis conseqüências desse mal, mas também aqueles que reconhecem essa injusta prática mordaz. A vítima da maldade geralmente é o lado mais fraco da relação. Leia-se mais fraco não pelo significado óbvio, mas pelo significado de ser aquela parte que, por estar em desvantagem por determinada razão, padece por isto.
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Assim, não reconheço a maldade como inerente ao Homem, mas como uma forma de exercício da fenomenal capacidade de raciocício. O pior é reconhecer que aquele que atua para o Mal é também aquele que sofre o Mal, num ciclo interminável de causas e conseqüências.
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E segue a cruel realidade. Um misto de vítimas e vitimados que se confundem no infindável rol de maldades que fazem parte, infelizmente, do que nos é mais comum: a vida.

terça-feira, outubro 10, 2006

Opinião possessiva.


Já falei bastante aqui de mudanças, de impressões, de perturbações íntimas e sugestões de sentimentos conflituosos. Já desabafei sobre o que não gosto, sobre o que odeio, sobre o que não sei, e sobre o que gostaria tanto de entender. Já falei sobre muita coisa. E Muitos dos assuntos abordados dizem respeito a mim. Disso eu sei falar perfeitamente bem. De mim. Também sei que consigo falar razoavelmente bem sobre as coisas ao meu redor. Mas muito disso tem tantos dedos meus, que, mesmo sendo sobre algo externo, é como se estivesse vendo meu reflexo em tudo que me cerca. A tarefa de quem escreve, por mais que seja um exercício de observação do que está fora, reveste-se camufladamente de uma visão egoísta do que o autor vê do mundo. Portanto, ao tentar descrever as minhas impressões sobre uma simples viagem de ônibus, é impossível para mim desvincular disso tudo a maneira como EU enxergo certos detalhes, com isenção do que estes detalhes realmente representam. Nem tudo que eu digo ou que penso é a verdade. Mas também não é falso. Não é. É, simplesmente, minha opinião sobre o fato. Minha visão. Notem o possessivo. Minha. Daí a conclusão de que toda opinião é egoísta, por mais que sua finalidade seja em prol da coletividade, por mais que sua finalidade seja de compartilhar uma idéia. Opinião é uma espécie de manifestação de auto-congratulação. É um amostramento cínico revestido de argumento.
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Mas minha intenção ao vir neste espaço hoje, além de uma mera manifestação egoísta de mostrar apenas o que vejo ou sinto, é a de dividir opinião. Por mais individual que ela seja, ela apenas deixa de só isso ser justamente na hora em que é lida. Com a leitura do outro, minha ação presunçosa de emitir minha opinião se socializa. Ela cai na interpretação de suas pupilas e de seu cérebro do modo como suas experiências lhe permitem. Mas continua sendo minha a opinião. Apenas minha. E a sua será somente a de concordar ou não. E será sua. Só sua.
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Portanto, é no mínimo interessante notar que o ato de se comunicar, por mais que envolva, no mínimo, dois sujeitos, significa a emissão e a recepção de vontades individuais. Note que muitas das conversas alheias, por maior camaradagem envolvida, sempre são revestidas de desabafos pessoais. Quando alguém chega para contar-lhe algo sobre si, o que você faz? Na mesma hora não busca um experiência parecida na SUA VIDA para contar? Uma conversa entre duas pessoas, na grande maioria (quase 99%, diz a minha experiência de observação) é nada menos do que duas pessoas falando de si, em que muitas das vezes uma praticamente nem escuta o que a outra tem a dizer; apenas procura algo a dizer.
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Na minha opinião egoísta, as pessoas deveriam prender a saber dividir mais. Inclusive seus pensamentos. Quando meu amigo chega para me dizer que viu um filme muito ruim, eu não devo como resposta pensar num filme que EU também tenha visto e tenha odiado. Eu devo, sim, tentar entender o que ele está querendo me dizer, e dar todas as oportunidades a ele de demonstrar seu ponto de vista. Afinal, aquele é um momento dele. E sabe-se lá se ele está apenas disposto a falar de si.
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Muitas vezes prejudicamos demais nossas relações quando, no momento que outro chega para dividir, passamos a substituir. Problemas da comunicação.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Estado crítico constante


Eu sou uma panela de pressão. Resistente, suponho que de bom material, aparentemente sem rachaduras, útil para diversas coisas e ineficiente para outras. Consigo resolver muitas coisas facilmente, mas estouro se me superocuparem. Acumulo as coisas externas, isolando o que vem de fora de tal forma, que crio um estado interno de alta pressão capaz de "cozinhar" rapidamente as minhas coisas. Desse modo, crio estágios diferentes de pressão interna e externa e vou soltando, aos poucos, meus sentimentos internos, em busca do esperado equilíbrio constante, com o resultado do meu esforço nas minhas mãos.
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E, ultimamente, essa panela tem estado trabalhando em estado crítico constante. Esperando o dia de estourar, torcendo para isso não acontecer, se controlando para os danos não ferirem ninguém à sua volta, contentando-se com os prejuízos de si mesma. Essa panela nunca foi de dar problemas, mas se preocupa, a cada dia, com a possibilidade de um dia provocá-los. Talvez precise de uns reparos, talvez precise de alguém que enxergue seus problemas, talvez precise ser substituída...Mas certamente ela não deverá desistir de trabalhar. Isso jamais!

segunda-feira, setembro 18, 2006

Recife cor de tijolo


Não posso dizer que conheço bem minha cidade, nem consigo afirmar com segurança que domino seus roteiros, seus caminhos...Mas o pouco que conheço faz brotar em mim a plena certeza de que a amo e, acima de tudo, a admiro. Nascido na periferia e criado na Região Metropolitana, fui acostumado a viver em outras realidades, que nada mais são do que meros alongamentos da minha cidade natal, que sempre esteve tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Assim, minha vida inteira sempre foi um grande aprendizado sobre essa cidade, e a cada novo capítulo de minha história, era-me apresentada uma nova página de Recife.
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Alguns momentos me sinto até acanhado de demorar tanto a enveredar por seus caminhos, por ter perdido tanto tempo, numa espécie de frustração dos momentos que poderia ter aproveitado naquelas ruas que nem sequer sabia que existiam...Mas, ao mesmo tempo, percebo que esse relativo atraso talvez tenha me ensinado a valorizar ainda mais as qualidades dessa Cidade Maurícia. E como ensinaram...
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Às vezes me sinto enfeitiçado pela cor de tijolo dos bairros antigos, pelo cheiro forte do rio sob as pontes de metal. Hoje o Recife me encanta de tal forma, que me faz esquecer por diversas vezes de seus graves problemas, que meus também o são. Adoro a disposição que o corte do Capibaribe faz nela, sem seguir uma linha reta e friamente divisória, apenas. O Rio parece passear pela cidade e dá voltas como se para cumprimentar cada esquina da minha cidade de praças, de ruas ladrilhadas, de postes iluminados no cais.
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O centro da minha cidade é tão referencial que, de costume, é chamado de "cidade'. É na "cidade", ou seja, no Centro, onde tudo se concentra, de maneira tal, que é como se ele dispusesse radialmente para os outros bairros, sejam do Norte ou do Sul, reflexos do que lá acontece diariamente...Aprendi a andar um pouco pelas ruas do Centro, e a me apaixonar pelo contraste dos costumes modernos com construções tão antigas, que nunca nos deixam esquecer de nossa rica História...
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Ah, a História....me mata de orgulho a História de minha cidade... No passado - e no presente, que fique claro- funcionava como um verdadeiro celeiro intelectual e artístico, profusor de ideais, de idéias, de cultura e de movimentações políticas. O passado do Recife nos invoca a grande responsabilidade de manter esse espírito vanguardista e tão peculiar e nos faz perceber sua extrema importância na construção deste País.
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E nossa gente... Tão sofrida, e tão batalhadora, que rema contra os percalços impostos por nossa própria desorganizaçao. Antes, um povo de vizinhança, de conversa fiada na calçada de casa e fofoca na banda de jornal. Hoje, uma gente que teme cada sinal de trânsito, e se guarda, e se esconde, com medo do lado de fora (e tem motivos para temer inclusive o lado de dentro). Mas é este povo que representa a faceta mais linda do lugar, é este povo que dá vida aos movimentos de uma cidade tão castigada, mas brava e linda e de cor de tijolo que tanto amo.
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Falar dessa cidade para mim é como falar de alguém que ainda não se conhece por completo: há sempre uma nova surpresa para contar. Surpresa esta, que me vem em forma de orgulho e em vontade de homenageá-la sempre. Vem em forma de amor.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Imperfeição


Eu amo o passado. Apesar de não conhecer História a fundo, nem ter uma mente ultrapassada, adoro olhar para trás e perceber o caminho que fiz. Eu gostaria de ter uma página anotada sobre cada episódio de minha vida e uma foto para cada cena importante. Gostaria de rever o áudio de cada frase que me fez sorrir ou chorar. Gostaria de presenciar novamente meus erros e meus acertos. De rir de minhas gafes, de minhas roupas antigas. Eu sou um completo saudosista do que se passou comigo.
Muitos dizem que o passado é para ser esquecido...Refuto fervosoramente essa afirmação! Por que hei de apagar de minha memória um roteiro completo de caminhos trilhados, que me ensinam com clareza qual o caminho que não devo seguir? Condordo, sim, em não andar para frente com a cabeça virada para trás! Isso, não!! Eu sou adepto da boa olhada por cima do ombro...
Escrever, por exemplo, é um de meus passatempos favoritos e das atividades que mais me ensinam a me conhecer. Cada linha que escrevo mostrará eternamente o que se passou na minha cabeça certo momento. Assim, cada texto que fica para trás surte efeito semelhante ao das páginas de diário e das fotos instantâneas que mencionei mais acima. Além de um ótimo hábito, escrever me faz traçar um roteiro de todas as minhas sensações, opiniões e sentimentos. Como é bom reler mais à frente o que escrevi mais atrás. E como é bom saborear minhas imperfeições...Por esta razão, não sou do tipo que busca a perfeição. Adoro os erros de meus textos (se forem de digitação, eu corrijo) e me divirto muito quando, depois de um certo tempo, vejo alguma colocação imatura, incoerente, ingênua. É como se olhasse para trás e pudesse mensurar de alguma forma o quanto mudei e o quanto sou capaz de (re) fazer melhor.
Ao meu ver, a letra é expressão do momento atual de quem escreve, com as imperfeições da época, com os riscos e imaturidades do passado em que escreveu seu texto. Logo, não deve ser mexido. Ele pode ser aprimorado esteticamente, concordo. Mas na hora!! Não depois!! O que vem depois é um retrato. E realizar uma espécie de "fotoshop' num texto do passado dá a mesma impressão artificial que a gente vê nas capas de revistas. Sou a favor da obra sem enfeites acrescidos, sem retoques. A favor do texto que retrate perfeitamente o que se foi.
É por esta maior razão que escrevo. Para poder me guiar não em busca da perfeição. Mas, sim, para me reconhecer nada menos como alguém imperfeito, em construção.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Facínoras fascinantes


Como viver é engraçado...Somos seres altamente complexos - ou pelo menos nos achamos assim- e somos capazes de agir de diversas maneiras, em diferentes situações, em distintos momentos e lugares. Somos, digamos, seres altamente versáteis, adaptáveis, cuja característica das mais marcantes reside simplesmente na insatisfação. E este ponto é imprescindível na percepção do quanto complexos somos. A grande maioria das pessoas teoricamente nasceu para atingir objetivos: aprendemos que devemos viver em busca da felicidade, e ela, de modo geral, deve vir revestida de saúde, amor e dinheiro no bolso. Mas, quando se tem tudo isso, nunca se sabe se a felicidade já chegou. Não venho aqui falar de felicidade, mas do quanto somos injustos com a felicidade que nos é apresentada. Para nós, ela é o grande objetivo, mas nunca a reconhecemos, simplesmente porque nossa incessante "vontade do mais" nos nubla a devida consciência. Somos inconformados por natureza, e esse estado de entropia constante nos torna cada vez mais investigadores de novidades que venham a preencher o estado vazio causado por algo que está para chegar, mas chegou e não se percebeu. Somos animais que pensam (demais) e, por isso, sentimo-nos obrigados a fazer jus a essa capacidade única: queremos mais! Queremos sempre buscar uma forma de ultrapassar limites, de aumentar nossas áreas de influência, de esticar nossos passos, de aumentar nosso ritmo. Corremos sempre em busca de recordes, de galgar degraus mais altos e mais difíceis...E, nessa trajetória, esquecemos de nós mesmos...Esquecemos, por conta dessa corrida pela felicidade plena que nunca virá, que já somos felizes. Não percebemos o quanto o presente de ir em busca da felicidade nos mostra caminhos felizes! Mas não os vemos...E, assim, felizes que somos, vemo-nos muitas vezes tristes por não encontrar a felicidade com que sonhamos.
*
Somos facínoras fascinantes, verdadeiras vítimas de nós mesmos...

segunda-feira, setembro 04, 2006

Negócio


Eis o negócio:
não negue o ócio
e seja meu sócio.

terça-feira, agosto 29, 2006

Ele por ela...Ela por ele


Ela sempre o via no metrô. Seu olhar de hipnose nunca deixava transparecer o que sentia por ele, sabia disso. Mas o medo de entregar suas intenções a um estranho conhecido a fazia demonstrar menos interesses do que a própria falta de interesse.
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Ele a notara antes mesmo de ser notado por ela. Quando viu seus cabelos vermelhos pela primeira vez, teve a certeza de que entre aqueles cachos faltavam seus dedos. Mas ele não notara sequer um mínimo gesto de aceitação por parte dela. Ao menos um rabo de olho...nunca! E isso o castigava mais do que a espera por aquele rotineiro horário do metrô, a hora em que iria revê-la.
*
O tempo passava, e a estátua dela assim permanecia: estática, sóbria, concentrada em guardar para si cada "flash" de momento que sobrava quando a atenção dele parecia não estar lá. Ela, com todas as dificuldades que seu temperamento lhe impunha, passava toda a viagem de ida ao trabalho tentando guardar os cheiros que ele exalava, o jeito dele bocejar, o modo com andava...Mas nunca o deixava penetrar na redoma que criara em torno de si...
*
Ele só via aqueles cachos vermelhos à sua frente. Nos degraus, nos corrimões, no passar do vento só via o movimento daqueles cabelos vermelhos. Já cansara de se imaginar agarrado àquele pescoço, de pensar quão bom seria caso pudesse chamar a atenção dela de alguma forma. Mas ela parecia de gelo. E não derretia.
*
Eis que um dia a redoma dela começou a rachar. Aproveitando-se de um cochilo dele, pôs-se a observar sua feição enquanto dormia. A calma daquela respiração, o leve cair de seus cabelos lisos sobre a testa, o jeito dos seus lábios fechados num sono descompromissado. Ela deixou-se enfeitiçar por aquela visão de seus olhos apaixonados, eternecidos pela inocência que ele emanava. Aquele cochilo aguçou seu espírito maternal, brotando nela uma vontade de aninhá-lo em seus braços e de embalá-lo. A doçura daquele sentimento e daquela ternura provocou uma leve rachadura na sua redoma protetora, fazendo ressonar um leve tilintar, que o fez abrir os olhos.
*
Ele despertou e a fitou no exato momento em que ela, divagando em seus pensamentos mais carinhosos, mostrava um sorriso de encantamento direcionado exatamente para ele. Disso, não podia se enganar. Quando ele percebeu que era ele o alvo daquele olhar tão terno, não havia espaço em seu peito para tanto sentimento. Sentiu-se um sonâmbulo ao levantar, por achar que aquilo só podia ser a continuação de algum sonho. Ainda dormia, não era possível!Mas sentia suas pernas e elas o guiavam na direção dela, decididas.
*
Surpresa por ter sido flagrada num momento que considerava tão íntimo, ela não soube como agir. Foi quando percebeu que ele se levantava. Ele vai descer, ele vai descer. Não pode vir aqui, não será possível. Mas ele continuava se aproximando e, a cada passo que ele dava, mais ela se encolhia à janela, quase infiltrando-se no vidro, com vontade de se jogar, para evitar aquele aguardado (porém temido) momento em que ele lhe dirigisse a palavra.
*
Inadvertida, inconsciente e instintivamente, ele parou ao seu lado, sentou-se e pôde perceber que seus olhos eram ainda mais verdes do que conseguia ver a determinada distância. Sem pensar, apenas sentindo, pousou carinhosamente sua mão sobre a dela e notou um leve tremer por parte dela.
*
Impressionada, encantada e extasiadamente, ela sentiu quando o ombro dele tocou o seu e pôde perceber que os cabelos dele eram ainda mais lisos do que conseguia ver a determinada distância. Sem pensar, só sentindo, notou que ele, carinhosamente, pousara sua mão sobre a dela e notou um leve tremer por parte dele.
***
E, assim, de mãos dadas, seguiram viagem. Nesse dia, nenhum deles desceu em seu destino, pois tiveram a certeza de que o verdadeiro lugar de cada um era segurando a mão do outro. Na última estação, levantaram-se, saíram do vagão e enfim se encararam de frente, sem dizer palavra alguma. Naquela hora, ficou encerrada, mais do que a alegria de quebrar os próprios limites, a felicidade de se ver refletido no olhar do outro. E desse jeito perceberam que seriam naqueles reflexos suas moradias dali por diante.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Depois do São João


No meio do nada, assim seguia Maria: sentada à beira da estrada num velho tamborete, descascando milhos, debulhando grãos...um meticuloso trabalho de formiga operária. No dia anterior, ela sozinha havia colhido todas aquelas espigas do campo de milho da cidade. E naquele dia, iria ela própria sentar à beira do fogão quente, mexer as panelas e preparar canjica, pamonha e bolos de milho para a festa de São João.
Era todo dia essa rotina: alguns dias de plantação, seguidos de dias de espera, os quais ela passava tecendo redes de descanso com fios de palha seca da casca do milho velho. Quando o milho dava, Maria gastava um dia inteiro na colheita, sob o sol escaldante. E quando já tivesse colhido o suficiente, começavam os preparos. Senta, separa, descasca, debulha, enxuga o suór. Não pensa, tritura, lamenta, descasca novamente. Chora e debulha novamente. E assim continua, despejando sobre os grãos suas lágrimas.
Naquele dia, enquanto as moças da cidade preparavam-se entre tranças e vestidos de chita, Maria debruçava-se sobre a panela, mexendo a colher até engrossar a mistura. Enquanto os rapazes se empapavam de loção de feira e bebiam seus quartinhos de cana à volta da fogueira à espera das moças faceiras, Maria punha-se a se entregar ao estado de semi-moribundez em que vivia entre as panelas que ferviam.
Eis que chega a noite, começam os folguedos, o som das sanfonas e ilumina-se a cidade. Mas Maria não pode participar da festa, pois suas costas doem por demais, por causa de todo o trabalho de dias atrás...
E, novamente, Maria chora sob os lençóis pesados, ao mesmo tempo em que bombinhas explodiam do lado de fora e todos comiam com vontade todos os pratos preparados pela pobre Maria.
Após a festa, todos foram dormir, cansados das folias de uma noite feliz, no momento exato em que Maria acordava do último pesadelo. Cinco da manhã, Maria se levanta, brilho opaco no olhar, como feitiço, enquanto nas outras casas a cidade preparava-se para dormir. Maria segue o caminho da plantação, descalça, levantando poeira, mais poeira do que toda a quadrilha junina na noite passada levantara. Maria segue decidida, foice em punho e chega a seu destino: a plantação de milho. Orquestrada pelos sons de seus gritos ensandecidos, Maria desfere golpes certeiros sobre as plantas, à medida em que as pessoas na cidade iam se acordando uma a uma. Enquanto a dança da foice de Maria se dava, acima, abaixo, folhas para um lado, raízes para outro, as pessoas seguiam a melodia dramática da trilha sonora dos gritos com os golpes secos.
E se surpreenderam com o espetáculo que viam. Mais do que com qualquer luz, brilho, som ou beijo da noite enterior. Toda a cidade, recém-acordada, presenciou o (des)controle de Maria, que se libertava dos grilhões a que era submetida.
E, tal qual Maria nos dias de tristeza, todos choraram. Ela, mãos já ensanguentadas, pés de milho mortos sob seus pés, e a triste canção do choro de toda uma cidade.
Mas não eram só as pessoas que choravam. Choravam também os milhos mortos, os grãos secos e as folhas no chão. Choravam a fumaça da fogueira apagada, os balões que sobravam no céu e as garrafas e copos sujos jogados no arraiá.
Foi quando, num último gesto, cai Maria, toda suja, entregue aos restos de sua surpreendente atitude. Cai Maria, morta, como os pés de milho.
***
E, sobre seu corpo e sua solidão, cai uma singela bandeirinha de São João. Vermelha, da cor de seu sangue.

domingo, agosto 20, 2006

Sol


O sol apareceu pra contar que as nuvens de ontem foram encomendadas por ele.
'Muito cansado, ultimamente', ele disse.
Logo, chamara as nuvens para ocupar o espaço dele no céu.
Só que as nuvens cumpriram bem demais o seu papel.
Empolgadas com a importância de tal substituição, elas partiram a ocupar todas os lugares que antes pertenciam aos raios do sol.
Com sede de eficiência, taparam todas as frestas, fecharam todas as brechas...
E, sem querer, criaram uma escuridão nunca antes vista, uma espécie de sombra incessante, escurecendo todos os espaços.
*
Eis que, com o recesso do sol, todos perceberam que nada pode susbtituí-lo, e que ele é, indubitavelmente, essencial.
*
A luz, mais do que a beleza de enxergar, traz a sensação psicológica de normalidade à rotina. Traz a calma necessária para que o andar da carruagem não perca o rumo da estrada, por mais sombras e obstáculos que ela possua...por mais que ele esquente, queime e seque sem pesar.
Mas, ele floresce, ilumina e envivece o que estava quase morto.
Depois daquele dia, nunca mais o sol fez suas malas.
E voltou ao velho hábito de despedir-se de um lado, apresentando-se ao outro.
Sempre lá....onisciente...como devem ser os melhores contadores de histórias...

terça-feira, agosto 08, 2006

Rimas de Pedaços


Ele,
nos passos,
se pergunta
se o tempo
que tem
é suficiente
para agir
do modo
como gosta.
E a resposta,
tão logo,
a sorrir,
faz presente
se mais além
o sentimento
junta
os pedaços
dele.

segunda-feira, agosto 07, 2006

A flor


Sol. Chuva. A flor. Água. Seca. Folha. Falha. A flor. Espinho. Néctar. Abelha. Pé. A flor.
*
Pétala esmagada.
*
Mesmo assim, flor.
*
Entregue, a flor se esvai, esquecendo de que o poder das circunstâncias é menor do que a beleza da estação.