terça-feira, outubro 23, 2007

Eu sei


Hoje eu descobri algo sobre mim. Na verdade, essa frase é um exagero, pois não foi bem uma descoberta. Mas foi uma certeza de algo que eu já desconfiava há algum tempo. Nao diz respeito ao que sou ou ao que deixo de ser. Mas é sobre o que eu quero para mim no futuro.

É o seguinte: hoje ficou claro que as coisas ficam melhores quando você pratica as teorias adquiridas. Nada é mais salutar do que a sensação de ver produzido na real o que antes era imbuído da vagueza da abstração.

Hoje eu descobri que preciso ajudar o próximo. Que eu me preocupo com o bem-estar alheio, que meu negócio mesmo é contribuir socialmente. Percebi, em poucas horas, o quanto nossas diferenças explicitam na verdade o que temos de mais igual. Não vou explicar aqui qual foi a experiência que me fez reconhecer esse fato - não é de modo algum essa a intenção desse texto -, mas pretendo discorrer sobre esse importante momento em que você se olha sem miopia e sente o que realmente importa em você. É a comprovaçãode habilidades que até então você achava que tinha; é a percepção de que aquilo que era tosco e assombrado pela inexperiência é capaz de em pouco tempo brotar frondoso, pintado de novas cores, já velhas na consciência, mas originais na forma pela qual se expressam através de você.

Não sei se a atividade jurídica que tanto me enche de dúvidas ao longo desses anos de estudo sejam onde minha função nesse mundo se estabeleça confortavelmente; nem mesmo sei se através da escrita, um hábito prazeroso que me enche a alma, é o meu porto seguro da estabilidade de consciência. Mas sei, hoje eu sei, que é meu dever neste Planeta fazer dele um lugar menos sofrido de se viver.

E se esse discurso soa inexperiente, fruto de uma juventude incipiente, utópica, saiba que ele se sedimenta justamente numa maturidade estabelecida. Talvez o meu destino seja mesmo soar sempre como inocente e sonhador aos ouvidos mais impermissivos, como se eu não enxergasse as mazelas do mundo cão que se apresenta. Mas é justamente quando essas mazelas aparecem, que me percorrem os impulsos de dirimir esses males, de baixar essa febre. E não vejo outra saída que não a de estender a minha mão ao outro, seja através de minha caneta, de meu pensamento, de minha palavra ou de meu coração.

domingo, outubro 21, 2007

Eu não sei


Queria aquelas chaves de volta, pra te roubar as senhas dos cofres e acabar com a sua vida...
Mas não sei como

Queria em meu colo sua coleção de entradas de cinema, para rasgá-las com os dentes, enquanto você observasse, presa numa cadeira
Mas não sei por quê

Queria uma xícara de café quente, para derrubá-la sobre seu couro cabeludo, assim que você chegasse saltitante do cabeleireiro
Mas não consigo

Queria uma faca, ou melhor, uma tesoura, bem amolada, para enfeitar de buracos suas roupas mais caras
Mas não tenho coragem

Queria que toda vez que calçasse os sapatos, houvesse dentro um escorpião venenoso, para ferir-lhe os dedos que não mais acariciaria
Mas não sei quando

Queria que uma loucura desmedida a fizesse cair desse pedestal escroto que inventou para me coordenar, dando-lhe de presente um traumatismo e eu pudesse torturosamente lhe fazer aquelas cócegas proibidas intermináveis vezes durante o seu coma
Mas não sei quanto

Queria que tanto ódio te atingisse a nuca sempre que de longe em mim você pensasse
Mas não quero

Eu não sei várias coisas. Mas não consigo não te desejar todo mal, pois te quero tão bem...

sábado, setembro 22, 2007

O condenado


Quando ela voltar, diga que não estou.
Esconda em qualquer desculpa a minha farsa:
Fingida alegria de um sorriso de ator.
Diga que aquele que a amava ainda não voltou,
Minta que já estou noutra valsa
E não recluso nesta incurável dor.
Não gagueje, não se faça de desentendido;
Haja normalmente, como se fosse um simples recado.
Pergunte como está só por educação.
Nada de recuperação do amor perdido,
Nem melhoras de que algo bom está guardado...
Mas investigue tudo que puder daquele coração.
E lembre-se: sempre pose como alguém que nada quer!
Sabes bem como é mulher...
Se perguntar demais, desconfia;
Se nada disser, inventa história.
Decore tudo que ela falar, tim-tim por tim-tim,
Principalmente se for de mim.
Olhe seus dedos, veja aliança,
Note o pescoço, qualquer saliência.
Perceba se está arrumada, se parece querer ir-se logo.
Se anda bem vestida, perfumada
Se há alguém apressando-a para descer.
Qualquer coisa assim denunciativa de como está a viver.
Se houver alguém, te dirá, tenho certeza
Orgulhosa como ela, fará questão
De dar nome, sobrenome e profissão.
Não esqueça, meu amigo, siga todas minhas recomendações
Haja desse jeitinho, desse modo que eu te digo
São essas ações também um grande castigo!
Torço para que ela esteja bem, mas sem ninguém!
Ainda a amo como quem ainda quer voltar
Mas confesso que vê-la sofrer apenas um pouquinho
Compensará todos esses dias em que esperei pelo dia
Em que ela voltaria, assim, de mansinho,
E eu te pediria para mentir tudo isto por mim.
Não, não estou sendo bobo.
É que, amigo, quase morro...
E sei que um condenado que sobrevive a dores de amor
é mesmo assim.




sexta-feira, setembro 21, 2007

Hora do Adeus


Quando você entrou com as meias molhadas, jogou seus tênis no espelho e bolsa no vaso sobre a mesa, deixando rastros da noite turbulenta pela sala, achei que fosse sair de mim. Tive o ímpeto de abandoná-la na desgraça de sua embriaguez irresponsável, mas dei meia-volta quando a pena deu lugar à minha raiva. Prestes a bater a porta e arrancar a sua tontura da minha memória, escutei o ruído vergonhoso do seu desmanchar em vômito pelos carpetes da sala, rodeada de porta-retratos tão sorridentes... Entrei tomado por minha covardia frente à sua fraqueza, e te recolhi do chão em poças, amaldiçoando a mim mesmo por isto. Pu-la no colo, a carreguei ao banheiro e limpei seu rosto, seus cabelos. Despi-a, enquanto você cuspia palavrões, relatando traições da noite anterior. Sentei-a numa cadeira embaixo do chuveiro e com calma banhei seus vícios e sua sujeira inconseqüente. Enquanto fazia isto, via descer pelo ralo, juntamente à água escura da sua farra, o que restava da minha admiração. Lamentava não ser forte o suficiente para aturar suas sandices, suportar seus gritos cada vez mais freqüentes por liberdade. Meu amor não era maior do que isso. Não conseguia mais conciliar nosso compromisso ao seu desejo de solidão. Tudo isso passava por minha mente, enquanto te ensaboava, ao mesmo tempo em que você vomitava ainda mais. Logo depois, te sequei com calma e paciência, impedido por diversas vezes por seus golpes bêbados e nada certeiros. Vesti-a e pus na cama, tentando acalmá-la, rogando para que pegasse logo no sono. Enrolei-a em seu lençol mais confortável, alisei seus cabelos, tentei ternamente lembrar daquela mulher de vivacidade tal, que me fizera apaixonar. Quando percebi que já havia adormecido, levantei, peguei minhas chaves, abri a porta e dei um último olhar a quem não mais me permitiria dar mais chance alguma. De costas dada ao que um dia havia sido uma promessa para a vida inteira, virei-me ao ouvi-la dizer, num tom baixo, mas facilmente inteligível: “Não pense que é melhor do que eu. E eu te odeio por isso.” Nada respondi, fechei definitivamente aquela porta, com malas a tira colo e todo meu orgulho inflado no peito, mas doído no coração. Enquanto descia no elevador, chorei ao lembrar das duras e sinceras palavras que escutara. Mas ao sair daquele edifício, ao dar adeus àquela relação, sorria aliviado, não por saber que dali por diante tudo seria diferente. Eu poderia até errar novamente. Mas jamais esse erro me faria testemunhar tamanho definhamento. A partir dali, aprenderia o limite exato da hora certa de dizer adeus, sem que fosse literalmente para sempre.

quinta-feira, setembro 20, 2007

A humilhação de Antunes


Antunes acordou cedo. Ao lado, apenas o quente da cama deixado por Marta, já em seu compromisso com sais e cremes e hidratantes relaxantes no banho curador de seu devastador mau-humor matinal. Calçou suas sandálias, pôs o roupão que havia ganho de dia dos pais, bordado “Papai dos Sonhos” no bolso. Suíte ocupada, vontade enorme de urinar, desceu as escadas em busca do “pit-stop” mais próximo, o banheiro social do fim das escadas. Porta fechada. “Sou eu, pai”, resposta de Diego, seu filho mais velho.
Rogando uma praga à má sorte, enquanto aumentava copiosamente a vontade por uma privada, subiu as escadas, roçando as pernas no modo que todos fazemos para impedir um dilúvio, mãos em concha sobre seu órgão, inibindo qualquer jato involuntário. Ardência à vista ao se deparar com a porta trancada de sua doce Marilinha. Desespero em forma de suor na testa e caretas. A essa altura, batia na porta em sofrimento, rogando para que a filha abrisse a porta, a fim de aliviar sua tensão. Lá dentro, passos de um lado a outro. Não notou que eram quatro pés lá dentro a correr em outro tipo de desespero. Marília gritava que estava se trocando, não podia atender. Do lado de dentro, Marquinhos-Boladão, enrolado no lençol de infância de Marilinha, procurava suas roupas de baixo e suas calças, que se confundiam nos ursinhos de pelúcia e bonecas Barbie da garota.
Lá fora, um Antunes meio roxo, meio rosa, totalmente aflito, mãos quase dilacerando suas partes, olhava por todos os lados à procura de um vaso de plantas, vasilha de água do cachorro, qualquer coisa. Nada. Precisava agir rapidamente. Duas saídas: procurar novamente o banheiro de baixo e rogar ao filho que dividisse a privada por alguns segundos ou gritar pela piedade de Marta e atrapalhá-la. Escolheu a esposa, pois mais alguns passos descendo a escada significariam “Niagara Falls” descendo para a sala.
Voltava ao quarto pisando em ovos, deslizando pelo corredor num arrastar de dar pena, pensamentos focados em objetos sólidos. Última solução. Interromper Marta, sua difícil Marta, em seu momento mais seu. Já próximo da entrada do quarto, Marília começou a abrir a porta. “Graças, meu Deus”, pensou. Era agora ou nada. Antunes arriscou-se numa corrida fatal de volta ao quarto da filha, decidido a atropelá-la pelo caminho, se preciso. A urgência justificaria. No meio de seus metros rasos pelo corredor, viu a pontinha da cabeça de Marilinha observando pela porta até então entreaberta, numa atitude obviamente desconfiada a um observador em estado normal. Antunes mal notou a tentativa da filha de investigar a barra-limpa, decidido a passar até pela fina brecha que inexplicavelmente se mantinha. Dois segundos depois batia impetuosamente na porta trancada, dessa vez com um estampido.
Gritava, esbravejava, lágrimas copiosas faziam coro às batidas na porta, pressão total na parte de baixo dava o tom. A filha não respondia, enquanto a estranha correria e os sussurros se faziam perceber no quarto. A essa altura, havia pouquíssimo por fazer, sua cueca já pingava urina por todo o assoalho, mãos ainda em concha tentando impedir o desastre também se molhavam com o líquido quente e amarelo. Vazava por entre seus dedos, parede atingida, tapetes atingidos, vergonha atingida. Mais ainda quando apareciam ao mesmo tempo Marta coberta de espuma vinda do quarto, Diego angustiado pela escada, ambos chocados com a cena. Os gritos de Antunes, o rosto vermelho de Antunes, a raiva de Antunes explodiam junto com a pressão de sua uretra.
Abrindo a porta, Marilinha não viu alternativa senão revelar seu crime, no intuito de socorrer o pai perdido em apelos. Foi assim que Marta, Diego, Marilinha e Marquinhos-Boladão presenciaram a vergonha de Antunes. E foi desse mesmo jeito que Antunes, cuecas molhadas, pernas molhadas, mãos molhadas, preparava-se para matar aquele estranho que, junto com sua família presenciava sua humilhação. Pretendia fazê-lo engolir cada costura de sua cueca molhada e limpar cada poça de urina do assoalho com aquela língua furada.
Mas nada fez Antunes, pois Marta já o enxotava da cama, aos berros, derrubando-o no chão, enquanto ladrava pelos seus edredons, empapados por mililitros fedorentos de urina, os quais tentava freneticamente esfregar-lhes na cara, enquanto gritava loucamente: “Mijão! Mijão! Mijão!”, lembrando a Antunes como é difícil fugir da humilhação, quando ela se faz presente tanto nos sonhos quanto na vida real.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Apenas uma festa




Enfim chegara o dia. Era só suspiros. Mal podia esperar para descer a escadas, deslumbrante, cumprimentar a todos e refestelar-se em comemoração a mais um ano de vida. 21 anos de muita introspecção, é verdade, mas conformava-se com sua capacidade sobre-humana de projeção. Imaginação como aquela havia poucas em atividade, e seu sorriso deslumbrante enquanto abria a porta do quarto em direção aos holofotes faziam jus a essa capacidade.
De cima de seus sapatos fechados coloridos, baixos e confortáveis para a pista de dança que a aguardava, desfilava sua saia armada até o meio das coxas, repleta de babados sobrepostos. Mais acima exibia belos colo e busto, emoldurados por um tomara-que-caia negro e tentador. Olhos marcantes dos cílios postiços e da sombra carregada formavam, juntamente com o batom vermelho, a tela perfeita para os seus cabelos novos, cortados a navalha no estilo e no despojamento. Franja caída sobre um lado do rosto, alargador na orelha a mostra. Estava pronta. Auto-estima nos céus a saborear tal momento.
Durante o trajeto da descida da escada, sentia o calor que emanavam os olhares de admiração, sorrisos nervosos a esperavam lá embaixo, abraços apertados, perfumes e beijos estalados seguiam ao seu encalço. Desceu, cumprimentou a todos, agarrou-se a seu cuba libre e dirigiu-se à pista de dança. Levava consigo uma fila indiana de adoradores e puxa-sacos, dentre convidados por educação e bicões. Poucos eram os que desejava estarem ali de coração. Mas muitos serviam mesmo para saciar seu gosto pelo exibicionismo e ostentação de riqueza e beleza.
Dirigiu-se à mesa de som, e de lá não saiu a noite inteira. Quem se encorajasse a disputar sua atenção com o som enfrentaria várias dificuldades, dentre um grito, um pulo e outro grito da aniversariante. Sempre de copo em punho, esbaldava-se ao som de seus artistas favoritos – White Stripes, Killers, Cure, Sounds, Mars Volta, Björk. Rocks pesados, batidas eletrônicas e muito sotaque inglês numa festa arrasadora, como nunca havia-se visto naqueles quarteirões luxuosos. Seguia ensandecida pela pista, braços torneados ao alto, derramando rum pelo queixo, pelo decote. Rodava sinuosamente pelos outros dançarinos, todos decididos a dividir um momento sequer de toda aquela atenção que ela espontaneamente roubava para si. Sua saia desenhava seus movimentos, deslizando sobre bonitas coxas brilhosas, que terminavam em batatas da perna fortes e marcadoras de ritmo.
No auge da festa, já envolta pelos demônios do álcool, pulou na piscina e lá continuou seu número por um bom tempo. Ao sair, não perdeu a desenvoltura, agora ainda mais sensual com a roupa molhada colada ao corpo, exibindo curvas, sensualidade e charme aos convidados. A estas alturas, a madrugada já dava mostras de potência total, o cheiro de alucinógenos era o oxigênio do ambiente. Pisava em balas e se cobria pela fumaça. Perdeu-se de si mesma ao som de Paranoid Android e num quarto qualquer da casa era comida pelo que parecia ser o Fifth Cent. Em seguida, apagou de prazer.
Anestesiada, levantou-se uma hora depois, enquanto lá longe Freddy Mercury entoava “Somebody to Love”. Apenas de saia, descalça, desceu as escadas, desligou a aparelhagem de som, quebrou alguns copos de algumas mesas, olhou ao seu redor. Ninguém. Como sempre havia sido.
As mesas todas no mesmo lugar em que deixara, à exceção de algumas cadeiras que derrubara durante a noite. No bar, uma garrafa e meia de rum detonado, e diversos tipos de bebidas intocadas no freezer. Havia bagunça, e, apesar de parecer ter sido por várias pessoas, fora feita por apenas uma, que mais uma vez recolhia-se à sua concha protetora, presa à apatia que conquistara através do hábito cruel de viver de ilusões. Naquela noite, iria dormir no chão do salão de sua festa de aniversário. Mesmo que sobre aquele chão apenas seus pés tenham comemorado mais um ano de uma vida solitária guiada por uma mente que se acostumara a imaginar coisas demais.

domingo, setembro 16, 2007

O diário de Amélia Rosenbal


Encontrei o diário de Amélia Rosenbal jogado à calçada sul do condomínio. Na capa, uma pequena réplica do pôster do filme “Casablanca” colada detalhadamente com papel-contato denunciava, no mínimo, um gosto cinematográfico apurado. Folheei as páginas iniciais, no intuito de colher dados que identificassem com exatidão Amélia Rosenbal, para que prontamente pudesse devolver suas confissões escritas. Amélia Rosenbal estava praticamente desenhada naqueles dados iniciais, porém nenhuma informação útil que auxiliasse na comunicação com ela. Não havia endereço, email, telefone. Amélia Rosenbal tinha medo de ser perseguida. Porém, apenas com aquela página eu sabia que ela era doadora universal, tinha olhos castanhos, 1,68 m de altura, pesava 65 (-2) kg, e tinha rinite alérgica.
Amélia Rosenbal, de tanto preservar sua incolumidade ao omitir dados como endereço e telefone, perdera seus relatos pessoais, suas impressões dos acontecimentos de sua vida, seus amores, seus crimes, seus desabafos... Imagino como agora deve estar se sentindo Amélia Rosenbal, aquela cujas confidências agora pairam em totalidade em poder de um estranho. Amélia Rosenbal está nas mãos de um estranho! Eu poderia decifrá-la nesse exato momento. Tê-la-ia despida em meus braços. Todas as suas fraquezas e talentos mais escondidos... Todos descritos em manual, à minha vista.
Não obstante a aparente separação definitiva entre Amélia Rosenbal e seu eu-descrito-por-ela-mesma, num primeiro momento, muni-me de uma moral inabalável, juramentando à minha consciência que jamais leria o diário de Amélia Rosenbal. Contudo, minha honestidade irrestrita aos poucos foi cedendo espaço à curiosidade de conhecer Amélia Rosenbal. Talvez nesse momento ela estivesse à procura de si mesma, louca desvairada fuçando os lixos alheios, batendo às portas de todos os moradores, convocando assembléias gerais à procura de um possível detentor provisório de suas intimidades. Mas nada. Nem sinal do desespero de Amélia Rosenbal. Para tranqüilizar minha consciência, pus um pequeno aviso simpático no quadro geral do condomínio, o qual dizia:

“Cara Amélia Rosenbal, se deseja reencontrar a si mesma, estou de posse de seu querido diário. Bloco Q, aptº 602. Ass.:Pelópidas Assunção.”

Quanto mais rápido os dias passavam, mais minha angústia por descobrir Amélia Rosenbal, mulher capaz de se perder tão assim de si mesma, sem chance de retorno... Um mês com a relíquia de Amélia Rosenbal em minhas gavetas, sem que ela desse alarde da grande perda, me foi suficiente para iniciar meu estudo sobre a natureza desta pessoa tão relapsa. Pretendia devorar cada linha escrita por aqueles dedos, decifrar cada volta daquela letra arredondada.
Amélia Rosenbal era dois anos mais nova do que eu, e não me recordava haver alguma artista plástica em todo o condomínio. Se bem que num conjunto de edifícios tão grande quanto o que moro, o mais comum é não saber de muitas coisas da grande maioria dos moradores. Mas como a vizinhança desse tipo consegue ser mais astuta do que a vã razão que nos finca os pés ao chão, supus, entre mil fofocas diárias, saber, nem que fosse por um detalhe, da existência de uma artista plástica chamada Amélia Rosenbal, assim tão próxima de mim.
Ahhh, Amélia Rosenbal. Pobre Amélia Rosenbal... Duas vezes divorciada, quatro filhos, dois de cada casamento, artista plástica sem formação acadêmica, ofício herdado pela maravilha da genética. Angustiada como ela, já no primeiro dia do ano foi capaz de tomar 5 calmantes de uma só vez para festejar a distância dos quatro filhos, os quais havia deixado todos de uma só vez aos cuidados dos pais respectivos. Amanda Rosenbal havia aprontado todas naquelas férias! Foi um janeiro regado a saídas diárias com suas amigas solteiras, visitas furtivas às casadas e casos amorosos com vários rapazes da academia de ginástica. Folhas e folhas relatando o resgate da capacidade de gozar novamente, perdida entre meses de preocupações com educação dos filhos e afazeres domésticos.
Criativamente falando, tratou-se de um mês extremamente produtivo para Amélia Rosenbal, que, dentre uma noitada e outra, encontrava estímulo e inspiração para estátuas de argila em formas de homens nus, quadros erótico-surrealistas e poesias sexualmente explícitas. Assim ela descrevia suas obras. Contudo, fevereiro, juntamente com o final das férias, anunciava o retorno das crianças, e era facilmente identificável o inferno astral de Amélia Rosenbal. No carnaval, limitou-se a assistir apenas o resultado do desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro. ‘Nem as porras dos desfiles!!!’, assim escreveu em 18 de fevereiro.
E com esse rancor, essa saudade de um janeiro fogoso e libertário, foram os meses seguintes de Amélia Rosenbal. Em sua quase totalidade, seus relatos eram lamúrias de uma vida repleta de afazeres, de bloqueios criativos causados pelo excesso de responsabilidades e desejos ilusórios de abandonar todos com ‘o primeiro surfista sub-20 que encontrasse em Maracaípe’. Isso tudo até o fatídico dia 07 de abril. Dali em diante, páginas em branco... O que teria acontecido neste dia? Que diabos de desleixo teria se acometido Amélia Rosenbal, para deixar-se perder dessa maneira?
Já havia descartado a hipótese acalentadora de ser Amélia Rosenbal minha vizinha de condomínio... Nesta altura do campeonato, já desistira de encontrar minha amiga Amélia Rosenbal. Uma mulher admiravelmente lutadora, esforçada, tão carente de afeição... Eu, aqui, também divorciado, pensão alimentícia nas costas, com uma mulher deste porte e com tal necessidade de se completar, assim como eu...Ela estava nas minhas mãos, mas em forma de palavras sofridas...
Aos poucos, a aura perturbadora de Amélia Rosenbal foi se desmistificando de minha insanidade. Paulatinamente, minha rotina foi ocupando o lugar dos pensamentos que se iniciavam com o diário e terminavam num desejo dilacerado de encontrar Amélia Rosenbal.
Certo dia, quando Amélia Rosenbal havia se tornado apenas uma quase esquecida personagem de livro de cabeceira ofuscada pela minha necessidade de viver, deparei-me com uma manchete sensacionalista de jornal, que dizia exatamente assim: “Mulher se atira de empresarial no Pina”. Ao, despretensiosamente, ler o texto, o choque: era Amélia Rosenbal, dizia a reportagem!! Pobrezinha... Não resistira à dor de uma vida de via única, de desejos amputados e submissões infinitas... Não conseguira encontrar estímulos para viver, pobre Amélia Rosenbal...Não conseguira prolongar pelo resto do ano as fulguras de um janeiro feliz.
Já, eu, aqui na minha surpresa embasbacada, coração acelerado, e arrependimento por não ter evitado o triste fim de Amélia Rosenbal, choco-me ante à percepção de que a angústia nos leva mesmo a atitudes imedidas. Conheci tanto e tão bem Amélia Rosenbal por parte de sua vida, que declarei luto por semanas em respeito àquela que nunca me serviria de amor perdido, mas me serviria como um exemplo de felicidade a se encontrar. E sempre que as forças me faltarem nessa caminhada, terei sempre o diário de minha querida Amélia Rosenbal, a representar a mulher que nunca tive, e tanto tenho por alguns bons momentos de leitura, vez em quando.

segunda-feira, agosto 27, 2007

A revolta dos dezoito


Tudo que eles dizem ser permitido fazer é apenas o que eles querem que eu faça. Minhas possibilidades revestem-se sempre pela poderosa aura do dever social ou pelo que é socialmente considerado um comportamento médio. O que mais quero é o desconforto. E não me importa se sou pega com o dedo no glacê do bolo. Não temo a punição! Cheguei a este ponto através de tantos desejos sufocados no lamaçal coordenador dos dogmas comportamentais. Como porcos catequizadores que são, os criadores dos paradigmas “decentes” desta sociedade hipócrita fodem com as próprias leis que eles criam...Andam com seus códigos morais sob suas axilas e pensam na filha adolescente do vizinho enquanto se masturbam. Cansei de me render ao modelo empurrado goela abaixo; vomito-o junto com minhas tripas sobre os rostos dos infelizes que me condenaram ao rancor eterno. Do auge dos meus dezoito anos, subverto-me à anarquia do dedo médio na fuça dessa autoridade expectorante. Nego a boça deles, nego suas missas, nego o recato falsário de suas filhas mimadas, aquelas montagens foscas de um belo penteado farsante. Que o nó de suas gravatas sufoque suas palavras de molde, inexpressivas e repetitivas como um sonho ruim. Não mais resignarei minhas vontades mais hostis aos calabouços das toscas rotinas fantasiadas de hábitos salutares. Minha única saúde é meu veneno cuspido nas linhas sobre as quais escrevo, cobertas da mágoa da repressão de uma felicidade subversiva. Sou um cataclisma em formação ante ao declínio do império do comodismo certinho e burocrata. Saúdo os eflúvios de uma libido animal, saldando uma nudez lasciva e condenatória. Vendo minha alma aos demônios mais escrotos, setenciados pela divindade forjada dos comedidos. Ganho a maioridade como quem perde rédeas, enquanto me algemo aos braços permissivos da minha vontade mais precipitada. Presenteio-me com o egoísmo resgatado dos recônditos de minha falsa prisão, como uma entidade cujo muito que há de aprender seja o mínimo que há de se querer. Minha ignorância é meu protesto. Meu preguiçoso escárnio ante a sua reprovação. Rasgo-me toda, em contraste com seus cacos colados pela sua pose banal de aceitação, que não passa de uma figura pálida ante a vivacidade da minha rispidez sanguinolenta. Minha atenção te renegará à clausura careta de seu desinteresse. Contente-se com a alcunha limitada por sua mediocridade, ao mesmo tempo em que deixo para trás o rastro empoeirado de minha velocidade irracional. Doutrinadores, conheçam minha anti-doutrina e se vendam/rendam à perversão que aqui evoco. Eis o negócio. Minha mistura gordurosa de desleixo, loucura e ócio.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Abraços Grátis


Com o meu cartaz e meu sorriso
te convido a um abraço preciso
Pode ser rapaz, pode ser uma menina
não há nessa esquina interesse algum
apenas o abraço de dois formando um
Tudo que talvez você queira
Na esteira de um dia dificil
seja esse novo ofício, minha atitude
de estender-lhe meus braços em solicitude.
Enconsta no meu peito,
sou de defeito e acerto como você,
não há por quê não entender
O que venho humildemente oferecer.
Oferto-te minha mão, minha humildade
Na certeza de seres meu semelhante,
Ante a beleza de sermos iguais errantes
No caminho correto de acertar quando podemos.
Nao te conheço, mas nossos caminhos aqui se juntam
Eis os meus braços os que te cruzam
Abusam da beleza de enxergar no desconhecido
Qualquer coisa que não um inimigo.
Sei que a vida moderna nos afasta
Uma baderna de tempos sem valor
Mas meu braço está aqui pra que percebas
e aceite que te enxergo com amor.
Pois um povo que se aquece
com o calor do abraço de quem não conhece
é um povo que se aceita
e que, sobretudo, se respeita.


http://www.youtube.com/watch?v=vr3x_RRJdd4
###



ESTE QUE VOS ESCREVE ABRAÇA COM LOUVOR TAL INICIATIVA.

JUAN MANN, AUSTRALIANO, PRIMEIRO A PÔR EM PRÁTICA O QUE SE CHAMOU DE 'FREE HUGS', NÃO FOI APENAS O QUE INICIOU UMA BELA PRÁTICA, MAS ALGUÉM QUE TALVEZ TENHA INICIADO UMA NOVA FORMA DE VER O MUNDO. ATRAVÉS DA GENTILEZA DO BELO ATO DE ESTENDER OS BRAÇOS AO OUTRO.

sábado, agosto 04, 2007

Atravessando a ponte


Ele encontrou e não quis duvidar. Tanta falta de clichê poderia até ser...E não foi. Mas enquanto o poder do encantamento e da possibilidade do ‘quiçá’ fazia-se presente, ele enaltecia-se na esperança de uma nova paixão, de um novo amor. Parecia perfeita. Coincidências cinematográficas. Afinidade à flor da pele. Doces lembranças e imaginações diversas sobre o talvez de um possível encantamento. Porém, a vida lhe provou ser feiticeira. Traduziu tudo que houvera imaginado em possibilidade real. Controlou seu guidon contra a correnteza, tornando-o opressor das paixões alheias. Contudo, criou um inocente apaixonado.
Aparentava perfeição. Todas as frases. Todos os gestos. Tudo parecia inclinar-se à sua vontade, ao seu desejo. Os interesses pareciam encaixar-se, encontravam-se em seus pensamentos. Eram nitidamente colaterais, coordenados e convergentes. Eram. Passaram-se uma, duas oportunidades. Avultavam-se em significado e em importância. A cada gesto sua confiança crescia e cada momento perdido lhe era seu próprio calabouço. Mas, além de prisioneiro do azar, alimentava esperança da oportunidade.
Seguia, assim, no caminho tortuoso da probabilidade. Esta alicerçada nas interpretações superestimadas de alguém que espera demais. E foi a espera do melhor momento que o levou à ruína. A aparente perfeição do encontro começou a desmoronar quando, confiante no sonho, confrontou-se com a fria realidade. Não era ele a quem se destinava toda aquela quente doçura. A ele não pertencia a afinidade superinterpretada. Um outro alguém conquistara seu amor. No seu jeito de ser, havia feito de tudo para que ela percebesse seu afeto. Mas talvez a sua flor a fizera perceber o amor de outro alguém.
Para ele, tudo, até então, estivera irretocável. Tudo arranjado, combinado inconscientemente. A perfeição estava por vir; porém viera a decepção. Imaginara todo aquele jogo de conquista entre os dois. Tentara de todas as suas formas mais gentis estabelecer o limiar do compromisso abstrato. Ele era dela. Ela era sua. Até então.
Eis que o tempo passava, seus olhares iam ao encontro dos dela. Pareciam fugir-lhe ao controle. Sentia cada vez mais necessidade de proximidade, de fundir-se em saliva e sentimento. Porém, em sua gentileza de ser, esperou, não soube por quê. Talvez pela 'certeza', ignorando a possibilidade erradamente anunciada. Tal demora, ou tal erro crasso de interpretação, logo o pusera de frente com a verdade. Eram aos braços de outro a que ela se entregava. Era na boca do outro em que ela se perdia. Era o sorriso do outro o que ela procurava. O que lhe restava, resignação, apatia e saliva seca engolida no sofregar de uma música não-desejada. E ninguém percebia.
Enquanto afundava-se na tristeza, na dor de suportar, exatamente ao seu lado, aquela boca noutra boca, pensava em todos os pecados que outrora cometera. E se perguntava por que razão suas punições vinham tão depressa...Não se recordava de ser tão ruim, ao ponto de merecer tanto de tanta coisa. Enquanto se esforçava em atender aos desejos daqueles que requeriam a volta pra casa, num gesto egoístico de livrar-se também daquele espetáculo vexatório, pensava nos antídotos necessários para erguer-se daquele baque.
E assim foram eles. Em grupo, porém solitário. Conversando, porém em silêncio. Sorrindo, embora chorando. Tanto que, no momento da despedida, viu-se literalmente sozinho, abandonado, tendo lhe sido concedido apenas um breve gesto de adeus. Um aceno que lhe era dado em consideração, mas funcionava como uma adaga no peito, dilacerando todas suas expectativas mais inocentes.
Assim se foi ele, que antes era capaz de tão habilmente dividir sua racionalidade de seus sentimentos. Alguém que parecia sabiamente camuflar suas emoções, mas que, naquele momento, as entregara às pessoas mais estranhas, em forma de lágrimas e alma ferida. Aqueles que por ele passavam não imaginavam o quanto dissolvidas em seu rancor estavam suas emoções mais singelas. O quanto confundia-se com sua raiva a sua decepção mais agoniante. Ninguém naquele lugar poderia imaginar o quanto deixara para trás em prol daquele momento. E o quanto aquela escolha havia destruído sua boa intenção.
Entregue ao desespero de sua dor, relutou, como tantas vezes, a aceitar passivamente seu destino. Enfrentou-o, acompanhado apenas de sua sôfrega consciência, à procura de alguém com que pudesse dividir tal aflição. Atravessou o medo e o desespero da solidão, pela ponte mais deserta, em busca de um colo amigo, e, não encontrando-o em lugar algum, refugiou-se nas batidas dos tambores mais resistentes: a trilha de seu mais triste desespero. Fizera todo o caminho de volta sozinho. Na mais bela e terrível cena que poderia protagonizar. Enfrentara a madrugada, a ponte solitária e os ladrilhos molhados aos prantos, dissolvendo-se na lembrança daquele adeus frio e indigno e cruel.
Contudo, trôpega e dramaticamente, conseguiu voltar pra casa, sob o céu que chovia em líquido tudo aquilo que ele desejava chorar em lágrimas. Como numa das cenas mais tristes e clichês que poderia ter imaginado, entregou-se ao desorgulho do disfarce de sua tristeza, deixando cada lágrima como uma cicatriz que o ensinaria a crescer. Tivesse uma maquiagem, estaria borrada. Tivesse necessidade de atenção, seria o assunto do dia seguinte. Fosse um ser sentimental, estaria até agora inerte nalgum copo de cerveja.
Mas ele continuva sendo ele. A fortaleza. A rocha inatingível. O orgulho personificado, embora sem chão. E tal figura jamais seria manchada pela maior desilusão de sua vida. Tal imagem chegou a tremer ante o reflexo daquele abandono na madrugada; porém opaco diante daquele que deseja tanto mais para uma vida até então vivida de tanto menos. Assim sendo, enxugou as lágrimas secas em cicatriz, demonstrou a si mesmo que era capaz de erguer-se de qualquer decepção e limpou seus joelhos, até então sujos de tantas quedas em apenas uma noite. E foi-se em busca de uma felicidade diferente daquela que até então era fruto de sua mais criativa imaginação.


segunda-feira, julho 16, 2007

O assunto é esporte







É como se diz. Ganhar é bom. Ganhar em cima da Argentina, é bom demais!! Finalmente, posso vir falar bem - e muito bem - de futebol, esporte com que não tenho intimidade, mas não deixo de sofrer todas as emoções que um brasileiro é capaz de ter. Mais ou menos há um ano atrás, afirmei que minha bandeira estava vermelha de vergonha, porém, nada melhor como um ano atrás do outro, para o orgulho deixar-se transparecer.


A seleção de futebol não apenas venceu medalha, troféu e dinheiro. Não só apenas levou o bicampeonato da Copa América. Não somente classificou-se para a Copa das Confederações. Estas são meras conseqüências. O que mais me orgulho é a forma com que venceu! O jogo bonito, raçudo, confiante e certeiro que desfilou em campo. Não se via apatia, nada de jogo entregue, jogadas argentinas cortadas no meio-de-campo, bendita trave, bela defesa...Tudo conspirava a favor! Argentinos corriam de um lado a outro, num tango ensaiado, consciente e poderoso, mas ineficiente frente ao poderio do samba no pé dos jogadores brasileiros. Lançamento milimétrico de Delano, ajuda providencial de Ayala e passe profissional de Vágner Love desenharam o chocolate brasileiro aos nossos hermanos. Bela vitória!! Belo jogo!! Assim que se faz: gana, força e energia para fazer jus a uma camisa rica em história!!


E não apenas o futebol nos orgulhou nesse domingo. É Panamericano!!! Não esqueçamos que no sábado o handebol feminino entregou mais uma goleada, desta vez para as canadenes, firme na luta para o ponto mais alto do pódio. Diogo Silva se fez líder no taekwondo, emocionando a todos numa das mais belas imagens do Panamericano do Rio. Nosso time de vôlei masculino, sublinhou sua força de mestres no esporte, galgando mais um título da Liga Mundial de Vôlei, o sétimo, apenas um a menos que os grandes italianos. Ah! Não esqueçamos do time juvenil de Vôlei, que sobre a mesma Rússia, levou o Título Mundial! E, como se não bastasse, uma menina de origem humilde do Rio, Bárbara Leoncio, de apenas 15 anos, conquistou a medalha de ouro, com o melhor tempo de sua vida, nos 200 metros rasos do Mundial de Atletismo.


É de encher de orgulho qualquer peito verde-e-amarelo. Podem paracer conquistas tímidas frente a qualquer nível de primeiro patamar, podem soar como raros os momentos de glória dourada de nosso esporte. Mas é dessa forma, e através de nosso reconhecimento, que podemos continuar vencendo, nos tornando, um dia quem sabe, uma potência olímpica de fazer tremer os adversários. Como em quase todos os setores sociais em nosso País, o esporte não possui o investimento necessário, cabendo-lhe incentivos privados, projetos sociais comunitários e pouca quase nada cultura esportiva de atividade transformadora. Muito a melhorar!! Muito!!!


Mas a certeza de que somos reconhecidos, além de por nossa condição de aprendizes em diversas modalidades, pela garra e pela vontade incontestável de entrar para vencer. No Panamericano, estou certo de que muitos dias como o de domingo hão de vir. E muitas vitórias mais, para fazer-nos alavancar no ainda apagado quadro geral de medalhas. Temos natação (Rebeca Gusmão!), ginástica individual, atletismo, finais de vôlei e handebol, muito, muito por vir. E com toda essa esperança, uma torcida sem fim, para realçar os tons de nossas bandeiras e para inflar-nos os peitos orgulhosos.

quarta-feira, julho 11, 2007

Eu sou mais Potter


Hoje tive a prova concreta do fanatismo deprimente. Do exagero em forma de desperdício de energia. Do exibicionismo. Da euforia desmedida na forma de quem grita mais alto. De quem conhece mais detalhes irrelevantes. De quem exalta mais o menos exaltante.

Ontem fui à estréia de Harry Potter - A Ordem da Fênix, e, o que à primeira vista, me parecia ser um espetáculo de comédia, tornou-se um espetáculo de horror!!! Não me refiro à angústia de ver seu ídolo da literatura pelo seu ídolo adotado no cinema. Não me refiro ao fato de afissurar-se numa Obra fissurante. Não me refiro à idolatria do estilo juvenil e descompromissado de J. K. Rowling contar a história do mago mais famoso da atualidade. Nada disso. Refiro-me às desmesuras causadas por tudo isso. Ir ao cinema travestido de estudante de Hogwarts, de posse de chapéu e varinha mágica seria mais hilário, se não fosse tão exagerado. Até aí, é uma opinião própria, nada demais...Sinta-se à vontade para fantasiar-se do que quiser...Talvez um fã de Gretchen sinta-se muito à vontade de vestir-se de tigresa na estréia de seu novo filme pornô... Problema de quem gosta de se montar...

Mas daí a chegar ao orgasmo a cada piscar de olhos do ator, a cada novo close, a cada novo apresentar de personagem, é demais para a minha cansada compreensão...Como se não bastasse a exposição ao ridículo - que só muito amor desperdiçado pode causar -, pior é quando todos esses exageros estupram os direitos de quem é fã simplesmente de uma forma mais comedida. Tudo bem que fui a uma sessão especial, a primeira, de madrugada, em que praticamente só foram fãs...Mas isso não me tira o direito de não me atrapalharem as sirenes roucas dos gritos das mal-educadas infanto-juvenis que se sentaram na fileira atrás de mim!! Junto com o ingresso comprado, mal sabia eu que junto adquiria narradoras-comentaristas de todos os detalhes mais irrelevantes que se possa imaginar. Ah, se arrependimento matasse... E, para piorar, ao exigir ter o meu direito de sanidade auditiva resguardado, obtive como resposta uma negativa, um ignorar ainda mais mal-educado, porque veio acompanhado de um palavrão.

Que fanatismo é esse que o faz desprezar o incômodo alheio, de egoisticamente se importar apenas com sua demonstração babaca exibicionista?? Que falta de medidas são essas causadas por uma idolatria que beira à insanidade, ao bom senso e à criticidade?? Talvez a resposta mais óbvia resida mesmo na imaturidade, na falta de uma educação caseira mais apropriada, aquela que equilibra impulsos com bons modos... Bons modos... Muitos daqueles fanáticos estão longe de reconhecer o sentido dessa expressão tão simples...

No fim, os momentos que me foram possíveis aproveitar me fizeram concluir que se trata de um ótimo filme mediano, repleto de bons momentos visuais, porém carente da profundidade necessária para ser inesquecível. Junto com essa impressão, somam-se ao saldo positivo da noite as boas companhias e o fato de ter mais uma lição aprendida. Estréia de filme de Harry Potter, jamais.

Dizem que se reconhece uma boa obra pelo público que ela cativa. Temo em perceber que há uma relativa discrepância entre às figuras com as quais ontem cruzei e a série do bom e jovem Potter. Trata-se de um raro exemplo em que a Obra se mostra muito maior do que grande parte do público que a consome. Geralmente isso se coaduna. Este definitivamente não é o caso. Eu sou mais Potter.

terça-feira, julho 10, 2007

Tudo em cinza


Acordou com hálito de rotina. Pôs os pés ainda quentes do calor das cobertas no chão frio e sentiu arrepios subirem-lhe a espinha. O sono enchia seu quarto de preguiça, tornando a dúvida de uma nova tentativa de suicício numa arriscada certeza. Não. Não devia. Levantou-se da cama como um bebê da barriga da mãe: enrugado, choroso e extremamente sensível. Sensibilidade posta à prova quando deixou para trás seu dedo mindinho agarrado na porta enquanto o resto do seu corpo seguia em frente. A dor terrível não só serviu para acordar cada célula sua, quanto para provar-lhe que vida ainda brotava ali. Desperado, imerso em pontadas de dor, agarrou-se à porta do guarda-roupas, lágrimas escorrendo pela face, enquanto despencava o suporte onde ficavam seus pertences pessoais, por conta dos freqüentes solavancos que dava nos móveis, em virtude da imensa dor que sentia. Perfumes, loções, remédios e outros objetos higiênicos no chão. O cheiro de essências acusava perdas materiais em forma de perfume. "Nem pensar"...-pensava- "Da bagunça cuido depois...Tomarei meu banho, pois preciso me sentir novo...!!"

Assim, em busca da novidade, velha lição. Seguiu ainda cambaleante, mancando e coçando o lado direito do traseiro em direção ao banheiro, conferindo todos os mais impublicáveis impropérios ao inventor do relógio, da porta e dos suportes fajutos. Tirou a cueca como uma múmia se livraria de quilômetros de faixas e seguiu ainda tropegando para debaixo do chuveiro, resfolegando latejar de dedo e vontade de sentir a água quente inebriar-lhe a pele com seu toque massageante. Nada disso. Ao ligar o chuveiro, toneladas de cubos de gelo atiraram-se à sua cabeça, resfirando-lhe instantaneamente seus fios de cabelo, lóbulos da orelha e pêlos das axilas. Sentiu os filetes congelados percorrerem-lhe as costelas num caminho tortuoso de tortura, ao mesmo tempo em que fugia desse alvo polar. Quem diabos havia mudado a temperatura da água??? Agora lembrava...Ele mesmo, na noite anterior, morto de calor por ter ficado trinta minutos preso no elevador, mudara o estado do chuveiro elétrico. E agora amaldiçoava sua própria má sorte, perguntando às almas que lhe rogavam tais pragas a razão de todos esses infortúnios reunidos num só alvo.

Seguiu adiante seu desejoso banho matinal, antes se certificando de atentamente ter mudado para o estado 'inverno' , amparando a água com as mãos em concha, esperando o vapor que subia acusar seu objetivo. Mergulhou nas águas termais como um porco na lama e pôs-se a refestelar no prazer de sentir talvegues mornos passearem pelo leito de sua pele, fazendo mais e mais espuma com o sabonete... Sentiu inclusive vontade de assoviar, numa tentativa de fazer as pazes com os demônios rogadores de praga...Porém, quando estava prestes a entoar a primeira nota de seu humilde assovio de paz, a água foi esquentando rapidamente, num conseqüente anúncio de que se esvaia. Nada de água. Fim da cachoeira quente do prazer! Restava-lhe o frio do vento gelado sobre a sua pele em brasas e a vontade cruel de suicidar-se no interruptor da bomba de água que teria de ligar para voltar ao banho. Desistiu do suicídio, mas foi, dolorosamente, ligar a tal bomba.

Nada iria minar-lhe as esperanças de um momento feliz no dia. Nada!! Nem sequer aquela casa amaldiçoada, aquela vida amaldiçoada, aqueles...aqueles...aqueles... Enquanto seguia, enrolado na toalha e preso em seus pensamentos esperançosos de felicidade, uma imagem o paralisara. Parado à porta de seu quarto, toalha envolta nos quadris como uma saia fora de moda, restos de espuma na testa e orelha, parecia uma estátua em homenagem a algum ilustre frequentador de sauna, braços arqueados e pernas abertas numa pose caricata. Porém, um semblante consternado, à beira do terror, fruto da visão do inferno, empreendia à cena o drama necessário. Jogado em meio às lonções e perfumes quebrados, seu cachorro jazia deitado, respiração fraca, arrotando "Azarrô"... Os últimos momentos do cão morto envenenado com o perfume do próprio dono davam o toque fúnebre necessário ao estado de calamidade privada que nosso herói se encontrava. Perguntava-se a explicação de todas aquelas desgraças!!

Jurava a si próprio que era uma boa pessoa, sempre solícito e amigo fiel em todos os momentos, não se lembrava sequer de furtos de chocolates nas Lojas Americanas ou ao dízimo da Igreja, nada!! Sabia que vivera até aquele ponto sob a égide do princípio maior de semear bondade e caridade, que tinha como prerrogativa de caráter o altruísmo !! Como poderia a vida conceder-lhe tais respostas, numa espécie de tragédias cômicas recheadas de humor negro travestido de dedo em sangue, calafrios e cachorro morto?? Era essa a recompensa de uma vida pautada por boas ações e dignidade??

A ele cabia esperar, cultivar a paciência assim como as suas plantas (que morriam mais freqüentemente nos últimos tempos), sem incidir na fraqueza da desistência!! Desse modo, ergueu-se do chão, nu, pois a toalha deixada largada no chão do corredor, tremendo não sabia se de frio ou de raiva de si mesmo, galgando as prateleiras em busca de escora, sentando no colchão para a reflexão final. Sabia que tinha muito a fazer por si e pelo mundo, e que não seriam tais sinais do inferno que o tornariam um ser menor. Não seria a fraqueza a tomar-lhe o espírito! Mostraria a estas pragas que ele era maior que tudo isso, que iria vencer os obstáculos, que possuía natureza de vencedor!!! Levantou, dando o primeiro passo do ser vitorioso que se tornaria a partir daquele instante. Imbuído de segurança, caminhou numa marcha por toda a casa, reflexos no espelho traduzíam um renascimento nunca antes visto naquelas paredes. A coragem bradava de seu peito, inflado na certeza de que tudo seria diferente.

Foi quando a bomba de água que havia ligado explodiu em farpas de fogo, fiação elétrica despedaçada e curto-circuito, alastrando rapidamente fogo por toda a área de serviço de sua casa. Não creditava no que ouvia, no estrondo, no cheiro que sentia, os fios queimados entravam em seu cérebros em ondas olfativas que denunciavam a inevitabilidade de sua fraqueza. Estalos da máquina de lavar sendo cozida, tábua de passar roupa tostada e águas sanitárias alimentado as labaredas. Todo esse espetáculo pirotécnico o impedia de esperar que o extintor de incêncio funcionasse, após tudo que acontecera. Seria demais.

Então,depois disso, começou a achar convidativa a idéia de virar cinzas junto com seus pertences. Assim como cinza havia se tornado a sua vida.

domingo, julho 08, 2007

Silêncio!


Sim.
É a falta de luz que traz tantos excessos. Sempre que me pego sozinho em meu cego e não-surdo silêncio escuto vozes que dizem mais do que qualquer som. Uma espécie de esquizofrenia da solidão, largada no abismo imaginário de uma mente sórdida. Acompanhado pela escuridão da espera do sono, maquino sobre tudo o que deveria ter acontecido e não foi, sobre tudo que aconteceu e foi e sobre tudo o que acontecerá e poderá ou não ser. Realizo um balanço das arbitrariedaes passadas em branco, dos erros propositais, dos acertos contra-vontade, das atitudes inevitáveis. Preciso prestar contas a meu famigerado ego deveras exigente.

E é justamente nesse momento em que ele fala comigo. O silêncio é o mais tagarela de todos os sons. Seria ensurdecedor se todos pudessem ouví-lo. Brada aos meus ouvidos em todos os tons, em todas as notas, entoando todas as combinações de tudo que me aconteceu. O silêncio é a cadeia certa, é o testamento revelador, é onde tudo se esclarece. Ele lhe revela tudo que você mais gosta de esconder e espalha pelo quarto todas as sensações que o perturbaram durante o dia, provocando angústias, confirmando alívios, mensurando sentimentos.

Enfim silêncio. O clímax de sua própria auto-consolação. É o seu momento consigo mesmo. O verdadeiro reflexo dos últimos momentos; repetem-se repetidamente vários repetecos, como um filme desorientado. Sua interpretação da vida rebate incessantemente na redoma criada pelo limitador silêncio sem limites. Portanto, seja ele tal qual se mostra ou tal qual se sinta, me faz melhor pensá-lo com o mais de conteúdo, que com o menos de ausência. Pois é quando tudo está tranqüilo que rompem os tambores tagarelas do silêncio mal-criado dessa poderosa consciência. Não?


***


"Porque o silêncio não tem substância; ele é vazio como grande redoma de vidro, e o que vive nele é a última palavra e o último gesto." (Rubem Braga)

segunda-feira, julho 02, 2007

Marginais em formação


É sabido de todos. Cinco marginais de classe média, moradores da Barra da Tijuca, roubaram e espancaram a empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto, de 32 anos, enquanto esta aguardava o transporte coletivo, há mais ou menos uma semana. Os criminosos alegaram confundir a agredida com uma prostituta, justificando, dessa forma, a violência do ato cometido.

Ato indubitavelmente reprovável, justificativa risível e mesquinha. No mês passado escrevi sobre o filme "Baixio das Bestas", o qual versa sobre a exploração da mulher na realidade canavieira do interior pernambucano. Os jovens retratados naquele filme remetem instantaneamente a estes crápulas do Rio de Janeiro que viraram notícia. Juntos formam uma quadrilha cuja diversão se resume a espancar covardemente mulheres, tal qual no filme. Muito me aflige imaginar quantas mais foram vítimas de uma atrocidade como essa! Seja prostituta, seja empregada doméstica, seja princesa ou rainha, nenhuma, repito, nenhuma mulher merece ser agredida de tal forma. Aliás, nenhum ser humano.

Diante disso, tal situação rende diversas reflexões, que vão desde a revisão do sistema punitivo vigente em nosso atual Direito Penal - bem como a correta aplicação da penalidade devida neste caso - às questões morais subjacentes a essa violência. O que leva um ser humano a agir desta forma?? Álcool? Drogas? Não observância de limites? Estes são meros catalisadores, impulsionadores, despertadores de um mal guardado em forma de afirmação pela subversão indevida. Me resta imaginar que pessoas capazes de cometer tal ato, o fizeram impulsionados pelo prazer de maltratar o outro, como numa espécie de exibição aos seus parceiros, num compartilhamento de atrocidade: uma diversão coletiva de animais, pobres em sentimentos fraternos, ricos em maldade disfarçada de rebeldia.

A falta de acompanhamento familiar, a educação deseducadora a que foram submetidos, a falta de rédeas e de estímulos aos verdadeiros prazeres de se viver uma juventude sadia foram amplamente apontados como possíveis explicações para o acontecido. Ademais, a impunidade gritante de nosso sistema penal estimularia tais atitudes, tendo em vista que seu caráter coercitivo se resume a alguns poucos anos de uma cárcere repleto de regalias e suficientemente passageiro. Como talvez fossem as punições a que tais jovens eram submetidos no âmbito familiar.

No meu modo de pensar, mais do que lutar por uma punição exemplar, mais do que transformar tais monstros em modelos de crápulas e alvos principais do ódio coletivo, devemos, sim, lutar contra o que torna um ser humano capaz de tal atrocidade. Falamos de jovens que agiram não-movidos por um impulso de vingança ou estavam guarnecidos de ódio pessoal pela vítima. Estes, por mais e ainda injustificados que sejam, são motivos. Os jovens da Barra da Tijuca agiram desmotivadamente. Atacaram a esmo, como um predador à sua presa; como prova de repúdio a um tipo de pessoa que consideram menor, e, assim sendo, digna de merecer castigos físicos. Nossa luta deve se focar no poder da educação, no modelo de família e sociedade que cultivamos. Que família de classe média alta é essa, que tipos de pais são esses, que geram cidadãos como esses?? Um dos pais de um dos criminosos no noticiário se perguntava:"Onde erramos?". E eu respondo a ele: erraram pela omissão, pelo descaso, pela covardia preguiçosa de pautar a educação de uma criança através do pronto atendimento de seus desejos, por meio do parabéns dado quando realizada uma mera obrigação, pela supervalorização do reconhecimento, pela gratificação do não-merecimento. Dou minha cara a tapa se todos os cinco brutamontes não foram educados dessa forma...Apostaria minha honra nisso... O erro desses pais foi justamente não saber ser pai e mãe. Foi ter simplesmente fracassado em sua função mais sagrada nessa vida!

Portanto, venho salientar repúdio a tal modelo de sociedade, já tão repleta de lutas de classes, de embates sociais, de pobreza , de tragédias... Alimentamos mais tragédias!! As famílias desses jovens são tambem vítimas de uma sociedade em guerra civil, mas são culpadas por formar tais cidadãos dignos de uma merecida reclusão social. O medo que nos encarcera em casa merece outras vacinas, sobre as quais não cabe refletir no momento, e não justifica tal forma de resposta, personificada na criação de pequenos grandes monstros espancadores. Incendiadores de índios, espancadores de homossesuais, de prostitutas, de qualquer ser tido como diferente ou marginal são bandidos formados no seio familiar, seco e fraco de alimentação devida. Divulguemos a falta de vigilância e de cuidado de muitos pais com a educação de seus filhos!! Mais do que oportunidades para o mercado de trabalho ou de conforto, pessoas em formação merecem oportunidades de ser gente! E gente não se comporta de tal maneira! Sigamos o exemplo do pai de Sirlei Pinto, que esbanja consciência e cultura do alto de sua simplicidade. Este senhor declarou com hombridade a raiz do problema, mostrando a todo o País que foi na educação de casa o erro dos pais desses que tanto mal fizeram a sua filha. Ajudemos estes pais, ajudemos estes filhos, ajudemo-nos. Falemos sobre o assunto, abramos seus olhos, iluminemos seus caminhos em busca do estímulo ao devido acompanhamento familar. "Eduque a criança e não será necessário castigar o Homem", disse Pitágoras. O Homem mostrou ao longo de sua história que, por mais educação que lhe seja proporcionada, ainda assim existem aqueles alheios à regra, que incidem na ilicitude social. Alguns seres humanos são mesmo violentos, donos de mau-caráter e capazes, sim, de cometer atrocidades. Mas espero um dia contar que tais atrocidades possam ser estimuladas por uma má-índole, por problemas psíquicos, por anormalidades funcionais... E não pela carência de educação familiar. Família esta rica em posses, porém carente no que mais lhe deveria caracterizar: a capacidade de formar dignos cidadãos.



sábado, junho 23, 2007

"9"


Enquanto o mundo explode lá fora em fumaça, pólvora e arrotos de canjica, e meu cachorro enlouquece por conta dos barulhos apocalípticos dos fogos e adjacências, vasculho a internet em busca de algum passatempo, verifico emails, organizo pastas do computador. Em busca de algo ainda inspirador - achei que assistir "Zodíaco" hoje à tarde me traria alguma inspiração, mas não obtive sucesso -, ponho o disco mais recente do Damien Rice para rodar no media player. Na busca de algo interessante para ver, percebi que o mais de interessante que ocorria comigo no momento, além de imaginar modos de acalmar meu cachorro que ladrava de desespero tentando infiltrar-se pelas grades da casa, eram justamente as músicas que eu ouvia.

Damien Rice. Conhecido do grande público através da famosa canção do filme "Closer" (imagino a bela cena de Natalie Portman atravessando a rua enquanto "I can't take my eyes off of you" se repete, repete, repete...), canção esta que originou a versão "Eu não vou parar de te olhar", de Seu Jorge, o qual fez um grande sucesso em um certo Natal de outrora num dueto com Ana Carolina.

Pois bem. Após ter me encantado com a simplicidade complexa do filme "Closer", bem como com a beleza de sua trilha, e em especial a canção do Damien Rice, resolvi apresentar aos meus ouvidos este cantor, sem nada esperar, no passado ano de 2005. Eis que o emule me proporcionou a maravilha de exaustivamente ouvir "O" (primeiro trabalho solo do cantor, se não me engano). Lirismo, melancolia, graciosa dor de cotovelo, profundidade, amor, sentimento visceral e escancarado. Isso tudo brotava de cada verso daquele album. Todo esse conjunto de sensações - ou seja, quase tudo que eu desejo quando escuto uma música- me conquistou de cara.

Contudo, eis que a fórmula, após repetidamente consumida, foi se esgotando e deixei um pouco de lado, sempre indo buscar esta fonte auditiva sentimental quando precisava de um pouco de lirismo na minha vida. Talvez à espera de algum novo som charmosamente contagiante. Devo ter encontrado, porque não senti alguma falta desesperadora de um novo trabalho de Damien Rice. Mesmo assim, anos depois (exagero aqui), já sabendo que havia nova música dele rolando por aí ("Me, My Yoke and I"), a qual não consegui encontrar para download à época, vou ao cinema descompromissadamente ver o filme "Shrek Terceiro" e, tal foi a minha surpresa, que no momento-drama do filme, o que toca?? Hein? Hein? Damien Rice!! Flashes de memória e saudade evocam nesse momento: 'Preciso ir atrás dessa música ... Preciso saber se isso significa um Cd novo...'

Não deu outra! Facilmente dessa vez encontro o disco "9", cuja data acusa o ano de 2006 (!!!!) Como pude deixar essa relíquia passar assim, despercebida??? "9" é um CD igualmente profundo, igualmente melancólico, extremamente carregado do mesmo lirismo e emoção que me cativaram no "O", porém, surpreendentemente, com momentos barulhentos e ápices dramáticos dignos de uma boa cena de destruição de quarto e pulsos cortados. E como eu gosto disso!!!

Decidido: "9" vai embalar meu Sao João, vai me embalar nessa necessidade de fuga premente, vai me inspirar a repensar e repensar novamente acerca de minha vida, meus sentimentos, meus desejos e meus anseios. será a trilha sonora para a reconstrução de ideais, de metas e planejamentos. Atrasada, porém bem-vinda está me sendo a audição desta Obra tão rica, tão profunda, tão apaixonante. Damien Rice se mostra um primor de artista: seguro, sincero e corajosamente intimista, dono de uma voz plácida e limpa,que pretende servir de pano de fundo para os próximos capítulos desta minha vida. E, assim, cada suspiro de cada verso me acompanha nessa empreitada reflexiva.

domingo, junho 17, 2007

São João?


Muitos me recriminam por muitas de minhas opiniões, e esta sobre a qual estou prestes a discorrer não é diferente! Sei que serei recriminado por muitos! Mas, como a coragem de assumir a minha peculiaridade é um de meus fortes, sinto-me à vontade para soltar o verbo.

Estou aqui para falar mal do São João. Os céus que me perdoem, bem como o restante das santidades que nele residem, mas não se trata de uma festividade a qual aprecie. Sigo além: mais do que desapreciar, relativamente abomino. E este 'relativamente' não foi empregado à toa. Apenas não recrimino por completo porque sei que tal festa, alheia à comercialização e à erotização a que é submetida pela estilização vulgar do tradicional, tem como prerrogativa justamente o resgate à tradição. Isto é notável no costume de acender fogueiras, estourar fogos, bem como dançar o folgoso forró pé-de-serra e, é claro, a famosa quadrilha matuta. O São João, em minha leiga opinião, deveria ser uma festa em que buscasse resgatar os costumes mais sertanejos de nosso País...

Contudo....como o homem quase sempre desvirtua tudo que tem algum sentido de existir, o que vemos hoje em dia com o São João não poderia ser diferente. O cheiro de pólvora fraquinho que ficava na rua quando eu era menino, deu lugar ao insuportável cheiro da fumaça das fogueiras que TODOS os vizinhos teimam em fazer em frente às suas casas... O que antes era feito coletivamente, uma grande fogueira armada para toda a comunidade, hoje se tornou uma possibilidade de afirmação, uma disputa de status, uma competição pela maior labareda ou pela fumaça mais intoxicadora. Pular essas fogueiras tornou-se uma tarefa impossível! Até mesmo aproximar-se delas é dificultado pela dor que causam aos olhos.. São lágrimas escorrendo involuntariamente que desestabilizam quaisquer tentativa de aproximação com as ditas cujas. Primeiro ponto baixo: utilização das fogueiras como ostentação e poder são um mero sinal de que o São João perdeu a característica coletiva para a individualidade.

Ademais, vamos às músicas...Talvez seja este o ponto mais controverso. Não venham me dizer que as famigeradas bandinhas pseudo-bregas de forró, que levantam a bandeira da diversão e do compromisso com a alegria, são representativas dessa época. Tais bandas ( "Café-com -numsei-o-quê", "Limão com rapadura", "Calcinha num-sei-que-cor") são arremedos de bandas de forró! São enganadores, golpistas, meras empresas do entretenimento barato, são o circo da política safada do 'pão e circo', desta vez disponibilizada pela mídia despecializada. São lixos radiofônicos que, comparados à poesia e à simplicidade do pé-de-serra, não merecem nem mesmo a reciclagem. Os ritmos matutos devem ser guiados pelo som do triângulo e da sanfona, e cantados pelo suór do sanfoneiro legítimo em cuja circulação, além de sangue, deve correr o som de sua terra. O São João não merece mais uma prova de ridicularização da mulher, como é feita com louvor pelas irmãs-bandas bregas ao longo do ano. O São João, apesar de um amigo distante e não tão íntimo, não merece tal afronta! Segundo ponto baixo: a descaracterização sonora por conta da "estilização" desabonadora das empresas disfarçadas de forró. Meros golpistas fantasiados de artistas.

Por fim, e não menos importante, cabe citar o próprio comportamento das pessoas. As festividades dessa época antes imbuíam nas pessoas o verdadeiro espírito matuto. Os comes-e-bebes eram um grande atrativo e a incocência da dança de uma quadrilha improvisada era um dos pontos altos da noite. Atualmente, as festas de São João são meros 'points' de encontro e exibição daquela bota nova e do 'look' propositalmente imitador do interiorano. O São João serve hoje para servir a mais uma balada em forma de feriado para os jovens, que, ao ritmo lancinante do forró eletrônico de um (a) cantor (a) desafinado (a), entregam-se à folia junina, que mais parece carnavalesca. Terceiro ponto baixo: o comportamento atual releva a tradição em virtude do hábito farrista de refestelar-se no sexo oposto ao som de um ritmo enganador.

Polêmicas à parte, se há alguma defesa que posso fazer ao São João, esta reside na necessidade premente de resgatar sua essência!!! Os rumos comerciais, bem como a artificialização do que era para ser uma volta ao natural, banalizam uma época que poderia ser rica em cultura, mas se descaracteriza em virtude do afastamento da mesma. Cultua-se a aparência (trajes da moda), quando esta deveria servir de brincadeira (trajes matutos); priorizam-se as músicas modernosas que falam de bordéis e cultuam a promiscuidade, em detrimento do lirismo de uma boa música de 'Luís Gonzaga' !! E, dessa forma, mais um evento que tanto poderia ser não é, o que muito me incentiva a preferir ficar em dia com os lançamentos da locadora e do cinema, do que me esbaldar na cultuação a uma festa tão descaracterizada.


Com o perdão da brincadeira:


Olha, que isso aqui não está muito bom; isso aqui poderia ser bom demais.

Olha, quem tá fora, lá quer ficar. E quem tá dentro se esvai.


**Se eu fosse uma bandeirinha, desejaria ser um balão, para voar bem pra longe de tudo isso**

sábado, junho 16, 2007

CEM


Sem o sentimentalismo de sempre.
Sem o sentido de prolixidade.
Sem a pressa de acabar o mal-iniciado.
Sem a parcimônia de gastar a quantidade.
Sem o hábito de atropelar o planejado.
Sem o trânsito de frear o acelerado.
Sem a angústia de guiar o teu caminho.
Sem a força de fechar-me sozinho.
Sem a coragem de parecer corajoso.
Sem o meu modo de dizer o seu modo.
Sem o seu modo de aceitar o meu jeito.
Sem a sua luta de entender o meu canto.
Sem a obrigação de lembrar seu respeito.


***


Cem textos.

Sem palavras!




quarta-feira, junho 13, 2007

"Viajar eu preciso" ou "Hermanos e irmãos"







Apaixone-se perdidamente por uma banda, faça amigos excepcionais por conta dela, seja maluco o suficiente para viajar ao encontro do último show, arrume mais malucos iguais a você para te acompanhar e seja feliz! Se a felicidade existe, foi com ela que estive nos últimos 4 dias.

O desejo de presenciar o provável último show da Los Hermanos foi o pontapé inicial de uma viagem inesquecível ao Rio de Janeiro, cujo esboço de idéia nasceu de uma mera probabilidade que foi se consubstanciando na loucura dividida entre amigos. Ingresso comprado no ímpeto do inesperado, passagem adquirida na ânsia do desespero, alegria garantida pelas ótimas companhias entre paisagens memoráveis.

É verdade tudo que dizem: o Rio é mesmo muito lindo. Não há como negar! Os problemas socias subjacentes a qualquer boa cidade brasileira praticamente somem diante da beleza hipnotizante do lugar. A malandragem preguiçosa de seu sotaque parece desfilar pelo ar, subindo e descendo os morros que saltam à vista a cada momento. Trata-se de uma cidade em constante visitação, cujas belezas são constantemente submetidas flashes fotográficos. Turistas ensandecidos por todo lado, em toda esquina, seja no Centro, seja no subúrbio, garantindo sua lembrança inesquecível em forma de retrato, são lugar-comum. Eu era um deles, juntamente com meu grupo de companheiros inesquecíveis.

Juntos dividimos momentos importantes de nossas vidas, desde a foto conquistada ao lado de nosso ídolo (algo completamente inesperado) ao show praticamente particular na passagem de som invadida; desde o entusiasmo de entoar o hino de nosso Estado na fila do esperado show à emoção de unir suór, sorrisos e lágrimas durante o espetáculo de despedida; desde a espera cansativa do nascer do sol num aeroporto semi-morto e gélido à descontração de conhecer aos poucos cada detalhe um do outro; desde a maluquice sadia de guiar-se por informações desencontradas à beleza de compartilhar um linda paisagem no final; da satisfação de ver o mundo dando voltas em virtude de uma cachaça coletiva ao singelo desejo de prolongar o momento da companhia.
Conhecemos uma cidade nobre em sua história e exemplar em beleza. Cada rua, cada construção, cada obra natural forma um conjunto inigualável. O Centro resguarda a tradição do antigo juntamente com a sofisticação do novo; os subúrbios contêm a placidez do verde adicionado à turbulência do trânsito; as praias famosas acrescentam ao seu poder turístico de conquista a sua estética incontestável.


O Rio de janeiro deve continuar lindo por muito tempo. Não é à toa que hoje cultuamos nomes como Vinícius de Moraes ou Chico Buarque...Seria praticamente uma afronta se uma cidade com o Rio não incentivasse mentes brilhantes e corações em formas de versos como os destes poetas. O Rio é um poema rimado por suas estradas devastadoras de morros, uma canção cuja melodia reside no tom de suas imagens sem igual. E os cariocas parecem ser os músicos que dão arranjo a este grande poema musicado, sincronizados em sua sintonia malandra.

Por fim, tão certo quanto a saudade destes 4 dias, agradecido estou pelo fato de ter dividido tais momentos com pessoas tão especiais. O pouco tempo de convívio consolidou-se numa forte amizade ratificada pelo poder de momentos em comum, divididos em euforia e êxtase de aproveitar cada segundo. Cada figura, cada sorriso, cada risada sem fim estão guardados neste coração de quem vos escreve em forma de sentimento querido.

Viajar em busca da Los hermanos era uma necessidade angustiante, que se transformou num presente precioso. Os irmãos conquistados lamentam o 'adeus' momentâneo da banda, mas agradecem pela irmandade que este hiato ajudou a iniciar.

Até a próximo vislumbre deste pernambucano que desejou ser carioca por um momento em sua vida!

terça-feira, junho 05, 2007

Dize-me teu nome, que te direi com quem ele parece


Por trás de nosso nome, há algo além ou aquém de uma pessoa, com sentimentos, temperamentos e personalidade. Nele se encerra uma força externa maior, a qual deixamos nos vencer ou não. Cada nome traz em si uma carga simbólica, que coincide ou não com o modo de vida e o jeito de ser de seu dono.

Explicarei: nossos ouvidos, os quais possuem uma ponte interessante diretamente ligada ao nosso honrado cérebro, recebem as ondas sonoras realizadas pelo som de seu nome, e são transmitidas, através de impulsos elétricos à região cerebral responsável por transformá-lo na imagem que dele temos. Porém, a imagem a qual quero aqui demonstrar, não é a ligada à sua figura, ao seu rosto, à sua pessoa. Cada nome vive sozinho, sem o seu dono, mesmo porque um nome pode ser dividido entre várias pessoas diferentes. Porém, o mais interessante é que cada nome vive de uma forma diferente, dependendo dos ouvidos onde chegam...

Exemplificarei, iniciando pelo meu próprio, claro, para evitar quaisquer acusações: meu nome advém, logicamente, do nome Igor, o qual tem cara certa de segurança de boate ou de bar. (Nada de Igor cigano da novela !! É pra dissociar do que já existe!!) É sim daqueles leões-de-chácara que a gente vê nos filmes, cuja única função é a de pedir senha e a de esbofetear bêbados brigões. Só que, no meu caso, Higgo é o nome de um segurança de família muito pobre, pois seu pai inventou de enfeitar seu nome com o que há de menos combinativo em nossa língua portuguesa. Dois 'g' que tem som de um só, "h" na frente para ficar à frente na chamada e sem o "r" no final, que é pra sintetizar...Pasquale ensinou isso em algum lugar? Eu, mesmo, nunca vi...

Além do meu 'querido' nome, posso lhes dar inúmeros outros exemplos... Vejam Aleriane, por exemplo...É o nome de uma grande amiga, porém dissociando a imagem dela de seu nome, fica óbvia e clara em minha mente a imagem de alguém, por trás de uma ligação telefônica, assim atendendo o telefone: "Operadora X, Aleriane, Boa Tardjje !!"... (assim mesmo, com dj...no carioquês...) Aleriane foi inventado para ser nome de operadora de telemarketing, e se, minha amiga mudou essa história que parecia estar marcada como decisória pelo poder imposto por tal nome, tornando-se uma futura artista plástica, ela venceu o destino marcado pela cartório !!!Apesar de achar que um nome do tipo Glauco, ou Elisa, combina muito mais com artistas plásticos...

Continuando nossa tarefa de decifrar a natureza de cada nome, chegamos a um interessante. Em que imagem vocês pensam ao ouvir, por exemplo, o nome Natana?? Vejam se essa imagem não cabe perfeitamente: descendo das escadas improvisadas da favela, lá vem Natana, com seu cabelo baixinho pintado de loiro-albino, seus shorts jeans rasgados que antes eram uma calça corsário, seu top estampado com papoulas rosas e seu piercing que mais parece uma alegoria de escola de samba. Se formos pesquisar mais a fundo, saberemos que na verdade seu nome é Natan, mas a identidade sexual de nosso personagem não vem ao caso...

Vamos adiante: Elizabeth!! Como pode uma criança chamar-se Elizabeth...? Uma criança não tem cara de Elizabeth...Invariavelmente, uma mini-Elizabeth, deve responder aos apelidos de "Lili", "Lizinha", "Bethy", "Betinha.." Elizabeth é nome de senhora, mais especificamente daquelas velhinhas que viajam freqüentemente em excursões de idosos, e que sabem fazer um ponto-de-cruz como ninguém...É lúcida a imagem de Dona Elizabeth, costurando sentada em uma mesinha , entre outras senhoras (Conceição, Maria das Dores, Maria Anunciada, Fátima e Marlene), a bordo de um cruzeiro com destino a Angra dos Reis, indo para o 75º Encontro Mensal de Dança de Salão para a Terceira Idade...

Posso dar-lhes muitos outros exemplos: Rubens é nome de intelectual, de alguém que quando morrer certamente deve contribuir com seu nome para alguma rua e avenida; Adriano Ricardo, assim, junto, é nome de personagem de novela mexicana, e sua mãe, a espectadora assídua Jucilene, colocou, claro, em homenagem ao galã da novela; Wendell...nome perfeito para os ambulantes, sejam da praia, sejam do Centro da Cidade; Bruno é nome de surfista mauricinho, daqueles que vão-e-voltam de Maracaípe como quem compra pão; Angélica é nome de mulher recatada que esconde o grande segredo de se envolver com o pai de sua melhor amiga; Suzy é nome de cachorro, desculpem, assim como Astor, Otto e Rufus; Ana, nome de carola de igreja que reza três terços por dia, etc e etc e etc. Há vários outros escondidos em nossa consciência: Manoel é nome do padeiro; Seu Anselmo, o da banca de jornal, que também faz jogo do bicho; Ívisson, o do rapaz que dá aquela força lavando o carro e arrumando o jardim; Samuel, o taxista de confiança que faz umas viagens com você vez em quando.

Pois bem....poderia ficar aqui horas e horas transcrevendo nomes e as impressões pré-conceituosas que sobre eles posso citar. É claro que isso não passa de um exercício de quem não tem outra coisa importante para falar, e que os significados de tais nomes dependem dos ouvidos e das impressões de quem os recebe. A falta de ciência dessa prática não inibe o poder de seu excesso de criatividade, pois, pode ser a partir de nomes, que novos personagens são criados. Melhor: cada nome nos apresenta a um personagem diferente, presente na imaginação fértil de cada um. Na vida real, acredito que o nome pouco - ou quase nada- diga sobre a pessoa que o possui (a não ser que alguém se chame Ribonucléica - essa possivelmente é uma pessoa deprimida...). O que fala realmente sobre ela é o seu caráter e no que ela acredita. Mas, num mundo fictício, presente nos vastos labirintos da criação de uma mente, um nome cabe perfeitamente na figura imaginativa para que nos remete nosso cérebro quando traduz aquelas ondas sonoras que em nossos tímpanos chegam.

Portanto, seja você Samantha (lésbica, claro), seja você Aguiar (corretor de imóveis, óbvio), ou Tereza (nome de vó, qualquer uma), Vera (cabeleireira) ou Jaciara (professora), é você que escolhe quem você quer ser. Seu nome pode se tornar apenas o alvo de brincadeiras como esta, mas você tem o poder de fazer a sua pessoa servir, não de brincadeira, mas de exemplo. E isso, claro é muito mais importante. Beleza, Antônio do elevador?