sexta-feira, maio 11, 2007

A Liberdade de dizer


Minha bandeira tem cor do tempo
O tom que escolhi
Nesse momento
Perdi

Nela pincei toda metade do passado
O que não vivi
De errado
Escondi

Independente do auto-colonizador
Finquei meu símbolo
Fugi da dor
De ídolo

Revoguei os dogmas da minha prisão
Liberdade: um embaraço
De uma fraco coração
Sem marca-passo

Trotes da tragédia da persuasão divina
Louca obsessão de letras publicadas
Teorias urgentes de esquina
desajustadas

Refém do silenciador invencível
Poder de quem é o comando
Momento irreversível
Dominando

Fruto da genética psicológica da submissão
Atrapalho do balançar de uma bandeira
Destremulada por minha fraqueza
Por mais que eu queira

Inutilidade disseminar um discurso burocrático
Se quem me detém é a coleira do sistema
Só não queria ser estático
Não é meu esquema

E embora minha luta seja menos do que puder
Embora fraca ante à Guerra do Poder
Devo ser mais do que quiser
Devo ser

Persistir na indesistibilidade (des)conquistada
Provocar a algema fortalecida
Uma história mal-contada
Re-Vivida


(por uma voz solta

no eco incerto de uma

esperança absorta

pelo "correto")


Sem saber
Sem desistir
A liberdade de dizer
A liberdade de existir.

terça-feira, maio 08, 2007

O dom inato do destaque


Alguns possuem o dom inato do destaque. Certas pessoas possuem a qualidade incomparável de chamar a atenção sem esforços, de magnetizar olhares. Dia desses, fui magnetizado por um desses seres de super-poderes.
Atribuo a Ciça (?) a melhor reflexão do meu dia. Do encontro num simples ponto de ônibus à triste despedida num outro ponto de destino, Ciça (?) conquistou toda a minha atenção e simpatia. E meu respeito. Tratava-se de alguém simples, com capacidade elevada de comunicação. Transformou a espera do ônibus demorado num prazer. Fez do ônibus lotado, uma aventura.

A cada minuto, Ciça (?) trocava um idéia com um, chamava a atenção de outro. Um talento inigualável de se fazer conhecer. Eu desempenhava o papel de seu camarada principal na viagem. Embora se dirigisse a todos que estavam por perto, era a mim, seu colega de espera e viagem, a que ela parecia recorrer em busca de um olhar comprensivo. Quando, sem querer, esbarrei nela, por conta de uma freada brusca do motorista, Ciça (?) olhou de rabo de olho, soltando um "Ok, Ok", que significava uma compreensão de alguém já acostumada com os solavancos de ônibus. Mas não foi a simples compreensão oriunda de suas experiências como passageira de coletivos que chamara mais a atenção, mas sim o modo com que ela se dirigia a mim. Como se já me conhecesse. Como se soubesse exatamente que eu a entenderia. Como se amigos fôssemos.

Ciça (?) pertence ao seleto grupo dos que possuem o anseio de comentar tudo que se passa ao seu redor. São pessoas iluminadas pela maneira de conviver pautada pelo exercício da simpatia e da gentileza, pela necessidade das respostas humanas a tudo que a ronda. Sem o outro, não há Ciça (?); não há Ciça (?) sem companhia. E é através desse apego ao vizinho que ela desliza pela passarela da vida, conquistando afetos, distribuindo alegria, alegrando os mais tristes dias de quem quer que esteja triste.

Após incontáveis gracejos, desferidos tanto aos passageiros do ônibus, quanto aos pedestres nas ruas, descemos na mesma parada. Eu estava a caminho de uma diversão. Ela, ao trabalho. E ambos tínhamos a mesma empolgação, pois a vida, para pessoas como Ciça (?), é uma grande diversão. Viver próximo a alguém assim deve ser um riso constante, deve ser engrandecedor, um aprendizado diário.

Ao lado de Ciça (?), qualquer um é coadjuvante. Naqueles poucos momentos, ela foi a artista principal, e assim deve ser em todas as peças da vida. Ao descermos do ônibus, dirigíamo-nos ao mesmo local, porém em situações diferentes. Eu, a caminho do lazer. Ela, a caminho de seu ofício. E ambos demonstrávamos bastante alegria!! Mas a minha era engrandecida pela companhia dela.

Ao descermos, nossa despedida foi antecipada. Assim que pusemos nossos pés para fora do ônibus, uma senhora que trabalhava numa lanchonete próxima a chamou, pelo nome que me pareceu ser Ciça (?). E ela prontamente respondeu, com seu sorriso sincero e mãos ao alto, em sinal de consideração.Tinha intenção apenas de cumprimentar e de continuar seu caminho ao meu lado, porém a amiga insistiu que ela ficasse. E Ciça (?), relutante, porém em seu natural desejo de agradar, se despediu de mim com olhar de quem queria ficar por mais tempo, dando-me a mão como um adeus e um sorriso de agradecimento pela companhia.

Espero que ela tenha sentido que o mais agradecido por aqueles momentos era eu. Um pouco triste por ter me afastado dela, percebi que nossa despedida não poderia ter sido de outra maneira, pois pessoas como Ciça (?) nunca saberão agradar a apenas um: vieram nesta vida para agradar a um mundo inteiro.

Quem dera um dia ela pudesse ler estas palavras... Mas contento-me com o fato da inevitabilidade da justiça nessa vida. Gente como Ciça (?) certamente obterá o retorno merecido pelos seus préstimos com exemplar de ser humano. Quem sabe alguém possa dar a ela - ou já tenha dado- o mesmo carinho que me motivou a escrever este texto, exatamente igual ao carinho que ela distribui aonde quer que passe.

Ciça (?) me fez ter certeza de que nosso descrédito pode ser amenizado pela esperança da existência de pessoas puramente boas. É quando justamente pensamos em desistir de ajudar o mundo, que ele nos mostra que possui, sim, ferramentas para esta tarefa. E pessoas como Ciça (?) podem não ter este objetivo, esta meta, mas contribuem inconscientemente para um fim coletivo, apenas por existir individualmente.
Parabéns a Ciça (?), simplesmente por existir e obrigado por cooperar a imbutir na minha existência a alegria de que pessoas como ela são uma realidade, daquelas que realmente fazem diferença.

sexta-feira, abril 20, 2007

Nova mente


Aquele será o primeiro da fila.
Te dará teu norte, teu destino.
Tuas pegadas encaixarão nas dele.
E teu sentido coincidirá com o dele.
O teu consumo se resumirá ao que ele produz.
E tua demanda surgirá em função
da tecnologia que ele lança.


Mais uma velha nova mente
ditando os rumos da tua consumida
vidinha de consumidor
novamente.

Maviosidade


Se o teu ego te impede
de erguer-se da redoma que
criou para isolar-se de mim,
saiba que o meu também me nega
o desejo de quebrar cada rachadura
que a sua angústia deixa
no vidro de sua proteção.

Como dois errantes
sobre o mesmo caminho diferente
de sentidos opostos,
é difícil encontrar sinais
de procura nos seus desvios,
por mais comuns que eles sejam.

(E por mais que eu queira)

Sendo assim,
eu, na virtuose do orgulho de cultivar orgulho,
e você, com a sobriedade das vestes maléficas no coração,
- o tripé do ódio, egoísmo e interesse que fantasiam sua alma -
tornamo-nos reféns do tudo que poderia tanto mais ser
e o que não é.
Para que retornemos ao que éramos
antes de tudo mudar,
basta lembrarmos de que, na verdade, não houve mudança alguma.
Apenas a vontade sua não encontrou na minha
um lugar para ficar à vontade.

Sigo em busca de sua maviosidade.
E você trate de restaurar meus desmantelos.
Quiçá ainda tenhamos tempo...

Logo nós, que parecíamos tão sincronizados...





quarta-feira, abril 11, 2007

Ridículo Coração



Sempre escravo da razão
Sem pulso, sem batida
Uma seca constrição
De tristeza, de ferida

Sem pulso, sem batida
Nessa circulação
De tristeza, de ferida
Não há sangue, nem vazão

Nessa circulação
Não tem átrio, nem ventrículo
Não há sangue, nem vazão
Há um coração ridículo

Não tem átrio, nem ventrículo
Há vazio de emoção
Há um coração ridículo
Sempre escravo da razão

terça-feira, abril 10, 2007

In Sônia



Sônia era uma garota de muitos sonhos.

Fosse acordada, fosse dormindo, lá estava Sônia nos mais alucinógenos pensamentos...

E neles, ela estava sempre descalça, flutuando, envolta por bolhas de sabão, coberta pelas notas de "My Girl"...

Involutariamente, em seu dia-a-dia, nos poucos momentos em que conseguia ser solitária, Sônia se envolvia com seus sonhos de bolhinhas de sabão.

A vida de Sônia era tão sem graça, que ela buscava em tais sonhos a realização da fuga idealizada, do tempo paralisado que não adiantava, nem rebobinava, da desejada falta de sentido na ilusão acalentadora de uma realidade emoldurada apenas pelos seus recônditos desejos.

Mas, eis que num terrível dia Sônia parou de sonhar. Incrivelmente, por mais que tentasse bravamente transportar-se ao sabão, à melodia alegre, aos pés descalços flutuantes, Sônia não conseguia.

Lutava, rolava contra o mau-tempo, amaldiçoava sua má sorte e desejava a morte.

Sem seus sonhos, sua realidade não tinha mais sentido. E tudo que uma dia Sônia construíra de belo vinha de sua faculdade de imaginar-se além.

Sem seus sonhos, era ninguém.

Assim, Sônia foi definhando, cada vez mais atada aos grilhões de sua má-quista existência.

Setenciada por uma insônia capaz de apagar-lhe tudo que nela era alma, Sônia morreu por falta de sonho.

E,certamente, em algum lugar onde a vida seja apenas de flutuantes pés descalços e bolhas de sabão, lá estará Sônia, a entoar os primeiros versos de sua música favorita - "I've got sunshine on a cloudy day"-, deixando os raios-de-sol passar por entre as nuvens cinzentas, esperando ser acordada de seu derradeiro novo sonho, que brilhantemente teimava em não acabar.





terça-feira, abril 03, 2007

Crise aérea, crise terrena



Constituição Federal Brasileira , 1988 - Direitos e garantias Fundamentais -
"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade..."



Pense num estado crítico. Eis no que vivemos. Não há momentos de calmaria, não há pausas na loucura pungente do dia-a-dia. Não há sequer um período de descanso. Esse Brasil, o da Ordem e do Progresso, vive nessa sofreguidão causada pelo acúmulo de seus problemas. Uma crise política aqui é diluída por uma crise na segurança acolá, que, por sua vez, perde espaço midiático pelo crise judicária que se estabelece. Outros setores parecem ficar enciumados e mais crises surgem: crise do combustível, crise diplomática, crise de valores...

E a bola da vez é a famigerada "Crise Aérea", cujas origens remotam desde os primórdios do Sistema de Navegação Aérea. Minha ignorância no assunto não me impede de imaginar qual teria sido o principal problema: do baixo de minha percepção leiga, as raízes de toda esta problemática encontram-se nos controladores de vôo, ligados à Aeronáutica Brasileira, que por sua vez, trata seus subordinados a péssimas e desajustadas condições de trabalho. Responsável pelo controle de todo o tráfego aéreo do País, este Setor, de gestão pública, veio sendo ignorado, relevado, diminuído em sua importância, praticamente abandonado. Não deu outra: num dado momento, a insuportabilidade posta à prova culminou em tais demonstrações de desrespeito para todos os lados. Empresas Aéreas impossibilitadas de honrar seus contratos padecem do mesmo mal que os passageiros impossibilitados de exercer seu direito primordial de consumidores. No último final de semana, últimos dias de março de 2007, o cenário: passageiros dormindo nos chãos dos aeroportos, outros esperando dentro da aeronave, uns desesperados em busca de hotéis, outros em desespero por nem sequer poder buscar hotel para se abrigar...

Caos. Desordem. Humilhação. Foram essas as palavras, dentre muitas outras, utilizadas pela imprensa, para descrever essa nova crise, esse novo alarde, essa nova confusão tupiniquim, que logo, logo dará lugar a alguma nova...Pensemos...Qual será a próxima...Econômica?? Política?? Não, não, estas últimas estão muito recentes.. Climática?? Pode ser......está muito na moda...

Mas, deixando tais conjecturas de lado por um momento, voltemos ao nosso tema. Concordo em gênero, número e grau com as denominações dadas à Crise Aérea brasileira. Um misto de incompetência, com leviandade e anti-profissionalismo. Uma vergonha. Mas, pensemos bem. Tal situação é uma anti-propaganda travestida de crise, desordem passageira. E o que faremos em seguida: um ajuste aqui, um retoque ali, até que todos os pólos da situação (Governo, controladores de vôo, Empresas Aéreas, consumidores e opinião pública) recebam sua migalha de recompensa e aparentemente seja resolvido o problema. Será realizado um pacto, um acordo, um (re)direcionamento de (parcos) recursos, uma tangente reorganização que mascarará o problema, esconderá a fissura por alguns anos (ou meses) e todos parecerão esquecer...Até que nova crise se estabelecerá.

O roteiro é sempre esse. E, assim, crise após crise, aprendemos apenas a remendar. Os remendos socias que fazemos ano após ano são sentidos diariamente com a gravidade dos problemas que enfrentamos com a segurança, com a violência, com a cadente distribuição de renda, com a falta de estrutura de nossas cidades, com nosso latente subdesenvolvimento... Falemos sério: em nada são exageradas as imagens que vimos das pessoas dormindo nos aeroportos...são humillhantes, claro. Mas, o que dissemos então daqueles que TODOS os dias dormem na calçada de fora dos aeroportos?? Com a crise aérea, a classe média e alta foram duramente atingidas; mas com a crise terrena, a crise crua e cruel da realidade social desse Brasil, quem sofre somos todos nós. Ao assitir às cenas das pessoas nos aeroportos, não pude deixar de ter compaixão por elas, mas, foi impossível dissociar-me das imagens que vejo todos os dias: da miséria das crianças em nossos sinais de trânsito, da falta de oportunidade de trabalho às milhares de famílias miseráveis de cada cidade desse País. Ao ver pela televisão a imagem de um casal dividindo um papelão no chão do aeroporto para se proteger do frio, indissociável é o infinito de imagens gravadas em minha mente da imensa quantidade de famílias moradoras de palafitas, de marquises, sob viadutos, ao relento...Ao presenciar o 'jantar' oferecido pelas Empresas Aéreas para alguns dos passageiros não-embarcados - composto de um pedaço de chocolate e uma barra de cereal -, foi impossível não me remeter às trocentas milhões de famílias que não possuem perspectiva de alimento ao levantar-se de sua miséria diária.

Pois é... Graaaande Brasil... embalado por crises, parece arrastar-se multidirecionalmente, em desespero, desorientado...A crise do momento é aérea, mas na verdade vivemos uma crise terrena, triste e constante e desesperançosa.

Nesse momento, Santos Dummont, patrono da Aviação e inventor dessa grande Obra humana, a aeronave, deve estar se revirando no túmulo com tal situação. Porém, antes de tudo, Santos Dummont era um patriota. E, nessa posição, me atrevo a dizer que ele vem se revirando há bem mais tempo. Na verdade, nunca deve ter tido a paz necessária e o merecido descanso.

A crise aérea mexeu com o bolso e a paciência de muitos. Mas a crise terrena..ahhh, essa vem mexendo sempre com os mais sensíveis corações...

sábado, março 31, 2007

O esboço de Constâncio


É difícil a vida de viver onde não se sinta vivo o suficiente. O fato de completar-se não é um fato. É um ato!! Nós somos inerentemente incompletos, ao ponto de, por mais esforços que tenhamos com o objetivo de preencher-nos os vazios, mais valas interiores vão se formando, clamando por novas metas, novos preenchimentos.

Muitos hão de dizer - e o dizem - que nossa incompletude é a maior arma contra o desmantelo da acomodação. E até o é; mas não é imprescindível! É um elemento que, se presente, ótimo; se ausente, no caso daqueles seres de poucos desejos e de fácil satisfação, não é um grande mal.

Diante dessas reflexões, Constâncio sentia-se insatisfeito. Porém, não do medo subjacente à nossa natureza- não era do constante desejo do mais de que ele prescindia. O mal de que padecia Constâncio era o de exercitar algo recompensador, consubstanciado na tragédia de viver racionalmente no pátio da segurança monetária, em detrimento da satisfação emocional de viver do que se gosta.

É isso mesmo: faltava-lhe estímulo. Faltava-lhe calor e ânimo. Estava cansado de tentar e tentar novamente tentar de novo. Havia desistido de buscar resgatar o pouco que sobrara de um amor que na verdade nunca acontecera. Sentia-se engatinhar enquanto outros quebravam recordes. Acumulava sensações de inadequação à medida em que acrescia o desdém por sua atual condição.

Eis o ato-fato interessante: a incompletude que deveria impulsionar a luta de Constâncio contra seu aflito desespero era a principal responsável pelos seus ensaios de desistência! E desistir a esta altura da vida seria até honesto, mas seria feio e covarde e desinteressante.

Assim, num arrasto desequilibrado, num piloto-automático sem muita rota, Constâncio apenas seguia a fila, andava sem guiar-se sozinho, no encalço dos passos da frente. Ia em direção à luz do que lhe garantiam ser seguro, mas sem cultivar os otimismos das centenas de boas conquistas que constantemente lhe atribuíam. Diante disso, das duas uma: ou Constâncio continuaria este eterno esboço mal-feito e mal-determinado ou cairia na depressiva mediocridade da falha irrecuperável do fracasso pela desistência.

Caso não superasse suas dificuldades - esses temores irritantes do que seria do futuro, tendo em vista o triste presente -, certamente Constâncio desviaria dos dois destinos acima preconizados. Pois não havia nascido para ser modelo de rotina que reproduz em vez de criar, nem muito menos para sucumbir à miséria de diluir-se no erro da incompetência.

Portanto, eis a estratégia elaborada por Constâncio: perpetuar-se-ia pelo caminho inóspito das lamúrias do desconforto de não se completar - tentando desperadamente buscar algum sentido escondido nessa viagem turbulenta e aparentemente desproposital- , mas acresceria às suas virtudes o revigorante exercício de buscar perceber o momento certo de aventurar-se no que passaria a dar-lhe prazer, e não sucumbir ao que o matava de tédio. Restava saber apenas se Constâncio teria a suficiente coragem de redirecionar suas coordenadas quando o grande momento chegasse. E mais ainda, se ele perceberia tal momento.

Logo, Constâncio, que nunca usara um bússola, seria obrigado a encontrar seu verdadeiro norte quando a vida, enfim, o apresentasse à grande oportunidade de mudar, o que transformaria uma vida esboçada no trabalho evolutivo da construção de uma Obra, no mínimo, bem encaminhada.

segunda-feira, março 19, 2007

Entropia peculiar (des)equilibradora


Aprendi em química que as moléculas, dependendo do estado físico da matéria, agrupam-se afastadas ou próximas umas das outras. Quando bem próximas, eis o sólido. Afastando-as mais um pouco, líquido. O grau de afastamento maior determina o gasoso.

Eu me penso como um ser sólido. Tudo bem que tenho líquidos e gases, e que muito do meu corpo é formado de água, portanto minhas moléculas, caso sigam as leis da química, estão num estado meio que próximo-afastado. Mas, não obstante à liquidez que me faz organicamente vivo, há massa. E essa massa entendo como responsável pela minha solidez. E o que visualmente entendo como sólido, interiormente entendo como...há algo mais gasoso do que o gasoso?

Há momentos em que a entropia interior que nos acompanha destrutura qualquer arremedo químico, engana quaisquer experiências físicas mirabolantes, camufla seja qual for a lei científica...E essa desestruturação interna na prática poderia refletir uma mudança de estado físico, mas na minha louca teoria de existir representa uma fase de procura, de confronto e de constante adaptação. É a minha entropia. Uma espécie de desorganização conflituosa e problemática. Confusa. Prejudicial. Mas intrigante. Questionadora. E desafiadora. Uma típica entropia peculiar (des)equilibradora. Trata-se de um estado de existir representado pela ausente presença da lucidez, pela corajosa covardia de desestimular-se, pelo apropriado sentimento de sentir-se impróprio. Deslocado. Como se a certeza do caminho aparentemente certo mostrasse agora quanto o fora falho. Como se a opção pela saída racional não fosse suficiente para completar as emoções mais necessárias do agora. Como se o impulso avassalador de deixar-se engolir pelo caminho irremediável da desistência se mostrasse encantadoramente convidativo. Alucinógeno. Desvirtuador. Mais forte?

***

Não sei ao certo explicar como tais escolhas passadas, agora questionadas no presente, serão capazes de determinar meu futuro. Mas sei que durante algum tempo tal estado de entropia seguirá confundindo minha psicologia de esquina.

Que a melancolia disfarçada de gentileza e fortaleza simpática siga sempre a esconder tal descontrole!! Imperceptível. Mas confessional.

Como os pecados que precisam de rezas e arrependimentos sinceros, assim discorro sobre a minha entropia. Um estado quiçá passageiro que ensine a grande lição de que o determinante na busca pela razão de existir é a consciência inconseqüente sobre o que nos constitui. Talvez essas moléculas estejam desarrumadas mesmo, talvez estejam me desorganizando, me desarrumando..Mas talvez representem a desconfortável sensação do conserto. Da cicatrização.

Que venham as marcas desse desarranjo transfigurado em crescimento. Talvez falho para uma experiência química, mas engrandecedor enquanto confusa experiência de vida. São esses momentos de encruzilhadas cortantes, perigosas e desconhecidas que nos tornam essa mistura molecular densa, porém humanamente encantadora...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Conviver


Relacionar-se com outras pessoas talvez seja um dos maiores desafios que enfrentamos nessa vida. Primeiro, porque, para se sair bem nessa tarefa, é preciso uma boa dose de maturidade. Segundo, porque é preciso paciência. E terceiro, necessita-se de uma isenção enorme de sentimentos egoísticos, além do exercício constante da famigerada senhora de todas as boas relações: a generosidade.

É isso: para conviver bem em sociedade, é necessário generosidade. E a prática desse despreendimento consigo mesmo o leva a adquirir confiança. Esta última concede a segurança exata que um ser humano precisa para conviver com o outro. Confiar no que você sente, confiar no sentimento do outro para com você...isso é capaz de alçá-lo à posição invejável de uma vida de conflitos facilmente resolúveis...

Há pessoas que não sabem lidar com os problemas de convivência. Estes, alimentam vorazmente os problemas como uma espécie de escape infindável...Como se precisassem sempre dos conflitos para sentirem evoluir suas relações..como se as agruras de um desacerto momentâneo fossem impulsionar aquela relação ao desejado. Contudo, este acúmulo de problemas, esta dificuldade de saber lidar com os abismos de diferenças entre as pessoas, na maioria das vezes mina as relações. E o que num momento pode parecer a solução de uma briga recente, é apenas um "empurrão com a barriga", um "varrer para debaixo do tapete"...É um leve paliativo.

Evitam-se problemas quando para-se de questionar incessantemente as atitudes do outro. Ou então quando se é tao certo das razões deste, que se torna desnecessário qualquer questionamento. É preciso que paremos de duvidar das escolhas daqueles que escolhemos para conviver. Devemos orientá-los, aconselhá-los. E, em troca, pedir orientação e aconselhamento. E não requerer respostas, mudanças e explicações para tudo que nos aflige.

Se o o objetivo é a boa convivência, não é através de desconfiança e insegurança que se chegará a algum lugar. Alimentar tais sentimentos apenas nos afasta daqueles de quem mais gostamos, daqueles com que podemos mais contar. Tornamo-nos cansativos e problemáticos e difíceis, algo que aponta apenas para péssimas expectativas.

Então pronto: assim estamos combinados. Quando alguém falar de você, eu te escuto antes de te acusar. Quando eu duvidar de algo que você diz, eu tento entender na hora o porquê desta dúvida. Se você escolhe alguém para conversar em vez de mim, eu tento compreender que talvez o outro tenha realmente algo que você precise mais. Eu não te acusarei sem ter certeza. Eu não esconderei suas faltas. Eu as esfregarei na sua frente e mostrarei o caminho certo. Eu duvidarei de cada um que vier iludir-me sobre você. Pois, afinal, se eu gosto de conviver com você é porque eu te amo. E nada, nem mesmo os meus problemas, são maiores do que este sentimento.

Ok, estamos combinados. E é assim construiremos boas relações...através da ajuda, do entendimento e da prática disseminada da intransitividade do verbo amar, em seu mais alto grau de fácil complexidade. E pronto. Prontos estaremos para conviver. Ótima teoria. Pratiquemos!

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Nossos abadás são nossas fantasias


Quando dou os primeiros passos pelas pontes coloridas, em direção ao som dos trombones misturados às batidas do maracatu; quando vejo pais carregando pequenos nos ombros, serpentina, confete, alegria, distribuindo amor; quando vejo as troças, os batuques, os mangue-boys, os alternativos, as sandálias de couro, os ambulantes, o cheiro de gente passando, vivendo, suando, cantando, comendo...cheiro de gente reunida para dividir felicidade. Quando eu vejo tudo isso, meu coração salta do peito ante à ansiedade do momento de me inserir nos festejos. Como admiro o carnaval de minha cidade!!
Como é lindo ver tantas pessoas entoando em uníssono as mesmas canções todos os anos...canções estas que soam como verdadeiros hinos, emprestados de épocas passadas, e que permanecem vivos através do exercício desse resgate. Quanta coisa para se admirar!! Ficaria horas apenas observando toda essa folia, todo esse descer e subir de ladeiras, todo esse êxtase dividido...toda essa harmonia resplandecida nos rostos e sorrisos e beijos e notas cantadas dos artistas dessa grande obra!!
O Carnaval de Recife e de Olinda merecem homenagens mundiais, pois carregam como principal atrativo a possibilidade de congregar todos num só grupo...Brancos, negros, velhos, pobres, bebês, ricos, muito pobres, muito ricos, homens, mulheres, crianças, bons, maus...brincam todos lado a lado e parecem, por alguns dias, esquecer das dificuldades por que passa esta cidade nos últimos tempos...
Porque bastam as primeiras notas do "Vassourinhas", para que todos - todos- entoem numa só voz o 'pã-rã-rã-rã-rã-rã-rãnnnn", em homenagem à festa, às suas cidades, ao frevo e à beleza do que significa um carnaval de todos. Sem distinções, sem convites, sem divisões, sem barreiras. Com amor, união, paz de espírito e no coração e muita, mas muita vontade de festejar a felicidade de viver um bom frevo.
Nossos abadás são nossas fantasias!!!
E como "todo carnaval tem seu fim", que o saldo final destes dias seja apenas pés cansados e um sorriso no rosto que, se puder, permanecerá ao longo do ano.
Sexo com camisinha! Não às drogas! Não à violência! Sim à folia e à gentileza de cuidar bem de si e do folião ao lado nesse carnaval. Esses são meus votos a todos aqueles, que, assim como eu, vêem nessa festa mais do que uma simples esbórnia disseminada, mas uma verdadeira comunhão de todas as gentes. E como eu tenho orgulho dessas gentes nessa época...e que época!!!

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Escamas


Vejo o reflexo de
minhas escamas
e as toco com os braços
que já não esticam tanto

O áspero do que fora fino
O opaco do que tinha viço
A água dos meus olhos tem menos brilho
- reflete minha saudade -
prevê a última liberdade

Os cabelos poucos hoje me lembram
de tudo aquilo que já perdi
mas meus sonhos também mostram
os frutos que colhi

Se a minha constatação
encontra em meus sentimentos
uma barreira para evoluir,
talvez venha por emoção
o caminho mais ameno antes de partir

Mas eu choro de tristeza
pelo que em mim não reconheço
e qualquer otimismo
que o meu sentir possa me dar
empalidece ante a poderosa
mania do tempo passar

Mas quando penso que ainda
te tenho ao lado
Fico certo de que é este sentimento
o libertador deste meu fardo

E a minha pele se transformou
em escamas...
Mas ensinou que não fui só alguém que amou;
sou alguém que ama.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Declaração


Caro amigo,


mil dificuldades são acrescidas ao trabalho de se dizer o que se sente quando o sentimento a ser descrito é tão grande quanto o que sinto. Mesmo porque a amizade, apesar de ter se tornado uma prática banal, continua inabalavelmente complexa de se resumir em simples palavras, como qualquer forma de sentir complexa. Complexidade e completude. Descrever o quanto completo me sinto ao seu lado talvez seja a melhor maneira de iniciar meu tangenciamento pessoal por tal nobreza. E esse preenchimento causado pela sua companhia não é uma dependência: é um acréscimo de entusiasmo, é um exaltar de espírito, é um sentir-se bem. É um sentir maior. É você me tornar melhor do que sou, simplesmente por me fazer acreditar em mim mesmo. Esse é seu grande crédito, amigo. O de me pôr nas nuvens quando necessito, sem esquecer de precipitá-las quando ultrapasso meus limites. Você é um dos poucos que compreende a medida relativa da minha auto-confiança. E, assim, aprendeu a ler todos os sinais de necessidade que transmito com um simples suspiro. Você especializou-se em mim, tornando-se capaz de entender as minhas linhas, os meus olhares, o meu soluço, os meus olhos úmidos, a minha boca seca e o meu gaguejar. Você acredita nas minhas histórias e embarca nas minhas loucuras, me ensinando paulatinamente a não misturar o que desejo que aconteça ao que realmente já aconteceu. Você tem me mostrado que a vida é um acúmulo desordenado de erros e acertos os quais temos a missão de organizar, se quisermos evoluir. Tê-lo como amigo me engrandece, me faz perceber o quanto sou importante e me orgulho de mim mesmo por tê-lo conquistado. Me orgulho daquele que és, e daquele que sou quando estás. Mas, acima de tudo, aprendi a orgulhar-me mais ainda daquele que sou quando na sua ausência. Afinal, você me ensinou várias lições. E, dentre tantas, está a honrada prática de saber querer bem o ser humano. Isso me torna muito melhor. Isso nos torna melhores.

E, com você, essa estrada pode até ser perigosa, mas se torna mais segura apenas por caminhá-la ao seu lado.

Meu amor por você é eterno, amigo.

Eterno, amigos.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

A Deus inconformado



- Eia, desgraça...Se fostes pouca, não terias graça!
- Quanto lamento, amigo, posso ajudar?
- Não, não se incomode...ninguém pode!
- Que é isso, companheiro...tenho ouvidos..pode falar!
- Obrigado, cumpádi, num é de ouvinte que preciso...
- Está certo...Não se preocupe...estou aqui por perto!
- Na verdade, não acredito mais na humanidade!
- Que é isso, amigo? Foi grande assim a crueldade?
- Foi, foi, cumpádi. Afiada como faca de verdade.
- Mas do que se trata? Alguma ingrata?
- Nem me fale, nem me fale, aquela bandida...!
- Vamos, amigo...Se abra, quem sabe a gente descobre uma saída!
- Só a morte, compadre, só ela pra me dar sorte...
- Calma, amigo, calma...Sem desespero...Há quanto tempo?
- De mentira? Perdi a conta! Se fazia de Santa!!!
- Que lástima...Era bonita?
- Era, compadre...a luz da minha vida...
- Vixe, companheiro..Veja o lado bom, estás solteiro...!!
- Não quero, amigo, não quero!! É ela quem venero...
- Mas se foi, amigo, se foi...Não são mais vocês dois...
- Eu sei e é por isso meu lamento...Foi-se como o vento...
- Que desgraça, que desgraça...Maldita seja tanta beleza...
- Maldita, compadre! Danou-se como a correnteza!!
- Chega, amigo, larga de birra...Enxuga o choro na manga e pega essa pinga!
- É difícil, cumpádi, cravou no peito...Perdeu todo respeito.
- Imagino, amigo, que sofrimento...Mas vivamos, pois a vida continua!
- Pra você, que tem bom casamento...
- É verdade, companheiro, não contesto! Mas de resto, tens responsabilidades...
- Não me importo, sou um homem morto! Minha sina é viver pra sofrer!
- Arruma a tua vida, hômi, toma tento! Um homem resiste a tal sofrimento...!
- Sofrimento é minha ordem, companheiro...À desordem, seguirei..
- Não permito, meu amigo, não te iludas! Até Judas foi perdoado...
- Perdão??? Àqueles safados?? Não me tomes por covarde, cumpádi, sabes que não é assim...
- Tudo bem, tudo bem...Mas, enfim, quem é que chora? E agora? O fim?
- Sim, sim...o fim...estou disposto...Não tenho mais gosto de viver...
- Então, amigo, me desculpe, mas és acima de tudo um covarde.
- Não me importo, cumpádi, já disse... e sem alarde partirei...
- Nunca hei de deixar! És adulto!! Que insulto ouvir tal insanidade!!
- Não se exaltes, compádi...já passei da idade... não tenho mais norte...
- É o que pensas, amigo... Veja, tudo tem um sentido, uma razão de ser...
- E minha razão morreu quando ela partiu, caro amigo. Adeus!
- Não, o que é isso? Por Deus, largue essa arma!!! Escuta o que te digo!!
- Obrigado, companheiro, és um homem digno...
- Que desgraça, é uma tragédia! Como podes ir assim?
- Como alguém que amou demais até o fim...
- Pensa bem, amigo, olha lá...Não se precipite...
- Desculpe, cumpádi, se a isso assistes...Mas diga a ela que sempre foi dela meu coração...
- Não, não, não!!
- ...

- ...

domingo, fevereiro 04, 2007

Menininha no cantinho


Menininha no cantinho
não chores, menininha
veja que gracinha
as borboletas passando
esquece da barriga
segura teu irmão
não se deixe abalar
ôh, menininha
queria poder embalar
tua dor e teu desgosto
com o meu desejo de que
(sobre)vivas
não chores, menininha
levanta essas pernas
se arruma e enxuga esse sal
pois na vida tem doce
longe do amargo em que te arrastas
Não descanse, menininha...
Sua história não é finda
sua mãe já se foi
mas não estás sozinha
carrega esse menino
e ensina a ele que tua vida não é uma sina
diz que é como a vida ensina...
diz que é lição...
não diga ao teu irmão
as verdades sobre o que te faz chorar
Não deixa esse menino
deixar de acreditar
Enxuga essas lágrimas, menina
e diz a ele
que miséria não é castigo, nem destino
é descaso, injustiça...é manutenção
E como toda boa menina,
menininha,
Levanta essa cabeça e diz pra mim
que tudo que fizeres, tudo que aprenderes,
passarás a essa criança.
E que sejam boas as mãos
que os ajudarão nessa estrada.
Vá, menininha,
levanta esse queixo
e perceba que tua honra te ilumina
Tenha esperança!
Pois hoje, menininha,
conservas rosto de criança,
mas foi hoje que deixastes de ser menina.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Gente de bem











Lá vem o menino...
Qual será o seu destino?
Pra onde vai com essa cara?
Onde estará meu dinheiro?
Seguro?
Por que veio tão perto?
Que sujeira...
Aah, encostar é demais
Que ultraje!
Isso lá são trajes?
Nem esmola é assim tão pobre...
Tão podre...
Por quê se mexe tanto?
Será que quer alguma coisa?
Não me peça, não me peça.....
Vaaaaaai, motorista.....tenho pressa!
Esse menino que não desencosta...
Quem gosta de tal proximidade?
Se ainda fosse apresentável...
Que desagradável....
Acho que desço na próxima.
Não é possível...inadmissível!
Que figura inconveniente !!
Culpa do governante e desse monte de gestante!
Parideiras de delinqüentes!
Que lástima...
Meu melhor perfume...e agora?
É o mesmo que jogar fora...
Tão caro... me era tão caro...
Alguém faça uma caridade!!
Retire este guri de perto de mim!!
Que nojo! Que desgraça...
Não vejo outra saída...descerei naquela praça..
Maldito mecânico.. maldito carro...
Calma, calma, sem pânico...
Só mais um segundo...próxima parada.
Não agüento mais esse cheiro...de maloqueiro.
É agora! Finalmente...sai, sai, dá licença...
Tomara que ele não encoste mais.
Não vejo a hora de deixar pra trás.
Graças, graças, paguei todos meus pecados...
Deus sabe o quanto rezo,
mas desprezo estes danados...


***


- Hã? O que foi? (Ai, Meu deus....me puxando...) Até quando? O que é? O que é?
Desencosta, lezeira! Que situação.... O quê? Minha carteira? Caiu no chão ??? ......
Obrigado.... infelizmente não tenho trocado.









quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Mentecaptalizada


Um salto agulha, brilhante

Um casaco madrepérola

da última estação

vestindo meu guarda-roupas privativo

à espera de uma ocasião

Tanto garbo...tanto crédito

encalhados no enxoval de meu orgulho

expostos nos cabides de minha pujança

encaixotados nos egoísmos de minha ambição

Mas não surgia oportunidade

nada estava à minha altura

Evento algum correspondia

ao incentivo da ostentação.

Nada me satisfaria!

Não haveria páreo!

A facilidade me desestimulava!

Sigo a colecionar cifrões

e pedras nos meus cofres.

Seco os recursos dos meus dotes.

Espalho o glamour dos meus decotes

aonde quer que eu vou.

Gasto meu tempo e meu lazer

no acúmulo de mimos.

Captalizo minha mente com novas botas

Mentalizo o que capto do que notas

Nasci para ser admirada!

Vitrine de uma sina lastreada

Consumida pelo verde opaco

de uma vida equivocada.





quarta-feira, janeiro 31, 2007

P.A.


Nem tanto, nem tão pouco

Sempre foi assim

Tãos quantos...

Não é santo...

Simples assim


Sempre atrás, nunca vencedor

Da média, acima

Abaixo dos melhores...

Há muitos piores...

Incomoda a rima


Costume do destaque, nunca teve

Próximo ao sucesso, constante

Pior é ficar tão perto...

E ter como certo...

Desfalques no instante.


Medo do fracasso, não é moda

Já se arriscou; hoje desiste

Progressão não é geométrica

é aritmética...

Enquanto se distancia, triste.


Tenta se acalmar, jogo do contente

Não consegue se sobrepôr.

A força é forte, mas escapa

E se torna fraca...

Ao saborear a dor.


Morde os dedos, reflete

Tenta explicar, traduzir

Se há códigos, sinais

Se há respostas, talvez banais...

Para fazê-lo sorrir.


Talvez o tempo, talvez a morte

Traga a sorte lançada a esmo

Muito embora ele saiba...

Que a solução caiba

nele mesmo.


E se dentro é que se nota?

Se ele esconde o que o valha...

Como achar o camuflado,

Sem a ajuda do soldado

Que fraqueja na batalha?


O que perturba é estar tão perto

E mesmo assim não conseguir

Melhor longe e absorto

Do que perto e quase morto...

Impedindo de sorrir...


Mas se sorriso é um fim certo,

que aprendizado há de chegar?

Aflição da demora da vitória?

Reconhecimento da glória?

Talvez seja o que virá...


numa história pra aprender

que a glória de vencer

não está nas armas que se usa,

mas nas que se deixa de usar










sábado, janeiro 27, 2007

Os cadarços












Hoje meus cadarços desamarraram.
ao abaixar-me, recompondo os laços,
dei de olhares com seus passos
vindo velozes, me derrubaram.
#
Fingi não notar seu embaraço
quedei-me a agradecer pelo encontro
não fossem aqueles velhos cadarços
o meu não encontraria com teu ponto.
#
Cuidou-se de recompensar com gentilezas
o descuido que me vitimara
e não pude esconder da minha cara
meu encanto com tuas belezas.
#
Agradeci por toda atenção
mas se foi em pés descompassados
não antes de sonhar a ilusão
de uma dia vir a ser seu namorado.
#
Mas a coragem de falar não foi bastante
guardei para mim minha impressão
percebi que passado aquele instante
jamais haveria outra ocasião.
#
Dei por mim, pela rua iam seus passos
na velocidade que cultivavas
pude ver, agora eram os seus cadarços
os que se desamarravam.
#
Eis que de longe não pude me conter
ao seu encontro, veículo em movimento
tentei falar, gritar, correr,
mas não deu tempo.
#
Você...derrubada pelos laços desatados.
Eu me despedi do futuro que me tiraram,
abençoando os cadarços que a trouxeram
e lamentando pelos que a levaram.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Cafonice










Aquele que se apaixona
é cafona
Esqueça o que alguém já te disse
Viva à cafonice!!
*
Se te bater forte o coração
não é porque já disseram
que você vai deixar de dizer
*
Se não controla a emoção
foram eles que sofreram?
Não! Foi você
*
Retire os dedos alheios de seus sentimentos
apodere-se do que é seu, se se atreve
Se eles estão por fora e se acham por dentro
são eles a quem você menos deve.
Desiluda-se de que é sempre belo daqui por diante
há agruras nos caminhos mais seguros
E é na chegada do caminho mais distante
que se se torna mais maduro.
Brigue, lute contra tudo que o diminui
engrandeça a cada golpe dessa vida
siga à risca o que o intui
ainda que a peleja seja a mais sofrida.
Limpe as pernas, tire o pó do tropeço
restabeleça-se do que foi seu coração
se um amor é bom no começo
não tem de ser ruim no fim da relação
Viva as paixões brancas, amarelas, pretas
não fuja da cafonice que é viver
Um grande amor é tão cafona quanto as letras
que utilizo para encorajar você.
*
(Abandone os dogmas que o impediam de gritar
pois a graça do amor é mesmo não ter medo de amar)