terça-feira, outubro 10, 2006

Opinião possessiva.


Já falei bastante aqui de mudanças, de impressões, de perturbações íntimas e sugestões de sentimentos conflituosos. Já desabafei sobre o que não gosto, sobre o que odeio, sobre o que não sei, e sobre o que gostaria tanto de entender. Já falei sobre muita coisa. E Muitos dos assuntos abordados dizem respeito a mim. Disso eu sei falar perfeitamente bem. De mim. Também sei que consigo falar razoavelmente bem sobre as coisas ao meu redor. Mas muito disso tem tantos dedos meus, que, mesmo sendo sobre algo externo, é como se estivesse vendo meu reflexo em tudo que me cerca. A tarefa de quem escreve, por mais que seja um exercício de observação do que está fora, reveste-se camufladamente de uma visão egoísta do que o autor vê do mundo. Portanto, ao tentar descrever as minhas impressões sobre uma simples viagem de ônibus, é impossível para mim desvincular disso tudo a maneira como EU enxergo certos detalhes, com isenção do que estes detalhes realmente representam. Nem tudo que eu digo ou que penso é a verdade. Mas também não é falso. Não é. É, simplesmente, minha opinião sobre o fato. Minha visão. Notem o possessivo. Minha. Daí a conclusão de que toda opinião é egoísta, por mais que sua finalidade seja em prol da coletividade, por mais que sua finalidade seja de compartilhar uma idéia. Opinião é uma espécie de manifestação de auto-congratulação. É um amostramento cínico revestido de argumento.
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Mas minha intenção ao vir neste espaço hoje, além de uma mera manifestação egoísta de mostrar apenas o que vejo ou sinto, é a de dividir opinião. Por mais individual que ela seja, ela apenas deixa de só isso ser justamente na hora em que é lida. Com a leitura do outro, minha ação presunçosa de emitir minha opinião se socializa. Ela cai na interpretação de suas pupilas e de seu cérebro do modo como suas experiências lhe permitem. Mas continua sendo minha a opinião. Apenas minha. E a sua será somente a de concordar ou não. E será sua. Só sua.
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Portanto, é no mínimo interessante notar que o ato de se comunicar, por mais que envolva, no mínimo, dois sujeitos, significa a emissão e a recepção de vontades individuais. Note que muitas das conversas alheias, por maior camaradagem envolvida, sempre são revestidas de desabafos pessoais. Quando alguém chega para contar-lhe algo sobre si, o que você faz? Na mesma hora não busca um experiência parecida na SUA VIDA para contar? Uma conversa entre duas pessoas, na grande maioria (quase 99%, diz a minha experiência de observação) é nada menos do que duas pessoas falando de si, em que muitas das vezes uma praticamente nem escuta o que a outra tem a dizer; apenas procura algo a dizer.
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Na minha opinião egoísta, as pessoas deveriam prender a saber dividir mais. Inclusive seus pensamentos. Quando meu amigo chega para me dizer que viu um filme muito ruim, eu não devo como resposta pensar num filme que EU também tenha visto e tenha odiado. Eu devo, sim, tentar entender o que ele está querendo me dizer, e dar todas as oportunidades a ele de demonstrar seu ponto de vista. Afinal, aquele é um momento dele. E sabe-se lá se ele está apenas disposto a falar de si.
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Muitas vezes prejudicamos demais nossas relações quando, no momento que outro chega para dividir, passamos a substituir. Problemas da comunicação.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Estado crítico constante


Eu sou uma panela de pressão. Resistente, suponho que de bom material, aparentemente sem rachaduras, útil para diversas coisas e ineficiente para outras. Consigo resolver muitas coisas facilmente, mas estouro se me superocuparem. Acumulo as coisas externas, isolando o que vem de fora de tal forma, que crio um estado interno de alta pressão capaz de "cozinhar" rapidamente as minhas coisas. Desse modo, crio estágios diferentes de pressão interna e externa e vou soltando, aos poucos, meus sentimentos internos, em busca do esperado equilíbrio constante, com o resultado do meu esforço nas minhas mãos.
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E, ultimamente, essa panela tem estado trabalhando em estado crítico constante. Esperando o dia de estourar, torcendo para isso não acontecer, se controlando para os danos não ferirem ninguém à sua volta, contentando-se com os prejuízos de si mesma. Essa panela nunca foi de dar problemas, mas se preocupa, a cada dia, com a possibilidade de um dia provocá-los. Talvez precise de uns reparos, talvez precise de alguém que enxergue seus problemas, talvez precise ser substituída...Mas certamente ela não deverá desistir de trabalhar. Isso jamais!

segunda-feira, setembro 18, 2006

Recife cor de tijolo


Não posso dizer que conheço bem minha cidade, nem consigo afirmar com segurança que domino seus roteiros, seus caminhos...Mas o pouco que conheço faz brotar em mim a plena certeza de que a amo e, acima de tudo, a admiro. Nascido na periferia e criado na Região Metropolitana, fui acostumado a viver em outras realidades, que nada mais são do que meros alongamentos da minha cidade natal, que sempre esteve tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Assim, minha vida inteira sempre foi um grande aprendizado sobre essa cidade, e a cada novo capítulo de minha história, era-me apresentada uma nova página de Recife.
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Alguns momentos me sinto até acanhado de demorar tanto a enveredar por seus caminhos, por ter perdido tanto tempo, numa espécie de frustração dos momentos que poderia ter aproveitado naquelas ruas que nem sequer sabia que existiam...Mas, ao mesmo tempo, percebo que esse relativo atraso talvez tenha me ensinado a valorizar ainda mais as qualidades dessa Cidade Maurícia. E como ensinaram...
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Às vezes me sinto enfeitiçado pela cor de tijolo dos bairros antigos, pelo cheiro forte do rio sob as pontes de metal. Hoje o Recife me encanta de tal forma, que me faz esquecer por diversas vezes de seus graves problemas, que meus também o são. Adoro a disposição que o corte do Capibaribe faz nela, sem seguir uma linha reta e friamente divisória, apenas. O Rio parece passear pela cidade e dá voltas como se para cumprimentar cada esquina da minha cidade de praças, de ruas ladrilhadas, de postes iluminados no cais.
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O centro da minha cidade é tão referencial que, de costume, é chamado de "cidade'. É na "cidade", ou seja, no Centro, onde tudo se concentra, de maneira tal, que é como se ele dispusesse radialmente para os outros bairros, sejam do Norte ou do Sul, reflexos do que lá acontece diariamente...Aprendi a andar um pouco pelas ruas do Centro, e a me apaixonar pelo contraste dos costumes modernos com construções tão antigas, que nunca nos deixam esquecer de nossa rica História...
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Ah, a História....me mata de orgulho a História de minha cidade... No passado - e no presente, que fique claro- funcionava como um verdadeiro celeiro intelectual e artístico, profusor de ideais, de idéias, de cultura e de movimentações políticas. O passado do Recife nos invoca a grande responsabilidade de manter esse espírito vanguardista e tão peculiar e nos faz perceber sua extrema importância na construção deste País.
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E nossa gente... Tão sofrida, e tão batalhadora, que rema contra os percalços impostos por nossa própria desorganizaçao. Antes, um povo de vizinhança, de conversa fiada na calçada de casa e fofoca na banda de jornal. Hoje, uma gente que teme cada sinal de trânsito, e se guarda, e se esconde, com medo do lado de fora (e tem motivos para temer inclusive o lado de dentro). Mas é este povo que representa a faceta mais linda do lugar, é este povo que dá vida aos movimentos de uma cidade tão castigada, mas brava e linda e de cor de tijolo que tanto amo.
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Falar dessa cidade para mim é como falar de alguém que ainda não se conhece por completo: há sempre uma nova surpresa para contar. Surpresa esta, que me vem em forma de orgulho e em vontade de homenageá-la sempre. Vem em forma de amor.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Imperfeição


Eu amo o passado. Apesar de não conhecer História a fundo, nem ter uma mente ultrapassada, adoro olhar para trás e perceber o caminho que fiz. Eu gostaria de ter uma página anotada sobre cada episódio de minha vida e uma foto para cada cena importante. Gostaria de rever o áudio de cada frase que me fez sorrir ou chorar. Gostaria de presenciar novamente meus erros e meus acertos. De rir de minhas gafes, de minhas roupas antigas. Eu sou um completo saudosista do que se passou comigo.
Muitos dizem que o passado é para ser esquecido...Refuto fervosoramente essa afirmação! Por que hei de apagar de minha memória um roteiro completo de caminhos trilhados, que me ensinam com clareza qual o caminho que não devo seguir? Condordo, sim, em não andar para frente com a cabeça virada para trás! Isso, não!! Eu sou adepto da boa olhada por cima do ombro...
Escrever, por exemplo, é um de meus passatempos favoritos e das atividades que mais me ensinam a me conhecer. Cada linha que escrevo mostrará eternamente o que se passou na minha cabeça certo momento. Assim, cada texto que fica para trás surte efeito semelhante ao das páginas de diário e das fotos instantâneas que mencionei mais acima. Além de um ótimo hábito, escrever me faz traçar um roteiro de todas as minhas sensações, opiniões e sentimentos. Como é bom reler mais à frente o que escrevi mais atrás. E como é bom saborear minhas imperfeições...Por esta razão, não sou do tipo que busca a perfeição. Adoro os erros de meus textos (se forem de digitação, eu corrijo) e me divirto muito quando, depois de um certo tempo, vejo alguma colocação imatura, incoerente, ingênua. É como se olhasse para trás e pudesse mensurar de alguma forma o quanto mudei e o quanto sou capaz de (re) fazer melhor.
Ao meu ver, a letra é expressão do momento atual de quem escreve, com as imperfeições da época, com os riscos e imaturidades do passado em que escreveu seu texto. Logo, não deve ser mexido. Ele pode ser aprimorado esteticamente, concordo. Mas na hora!! Não depois!! O que vem depois é um retrato. E realizar uma espécie de "fotoshop' num texto do passado dá a mesma impressão artificial que a gente vê nas capas de revistas. Sou a favor da obra sem enfeites acrescidos, sem retoques. A favor do texto que retrate perfeitamente o que se foi.
É por esta maior razão que escrevo. Para poder me guiar não em busca da perfeição. Mas, sim, para me reconhecer nada menos como alguém imperfeito, em construção.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Facínoras fascinantes


Como viver é engraçado...Somos seres altamente complexos - ou pelo menos nos achamos assim- e somos capazes de agir de diversas maneiras, em diferentes situações, em distintos momentos e lugares. Somos, digamos, seres altamente versáteis, adaptáveis, cuja característica das mais marcantes reside simplesmente na insatisfação. E este ponto é imprescindível na percepção do quanto complexos somos. A grande maioria das pessoas teoricamente nasceu para atingir objetivos: aprendemos que devemos viver em busca da felicidade, e ela, de modo geral, deve vir revestida de saúde, amor e dinheiro no bolso. Mas, quando se tem tudo isso, nunca se sabe se a felicidade já chegou. Não venho aqui falar de felicidade, mas do quanto somos injustos com a felicidade que nos é apresentada. Para nós, ela é o grande objetivo, mas nunca a reconhecemos, simplesmente porque nossa incessante "vontade do mais" nos nubla a devida consciência. Somos inconformados por natureza, e esse estado de entropia constante nos torna cada vez mais investigadores de novidades que venham a preencher o estado vazio causado por algo que está para chegar, mas chegou e não se percebeu. Somos animais que pensam (demais) e, por isso, sentimo-nos obrigados a fazer jus a essa capacidade única: queremos mais! Queremos sempre buscar uma forma de ultrapassar limites, de aumentar nossas áreas de influência, de esticar nossos passos, de aumentar nosso ritmo. Corremos sempre em busca de recordes, de galgar degraus mais altos e mais difíceis...E, nessa trajetória, esquecemos de nós mesmos...Esquecemos, por conta dessa corrida pela felicidade plena que nunca virá, que já somos felizes. Não percebemos o quanto o presente de ir em busca da felicidade nos mostra caminhos felizes! Mas não os vemos...E, assim, felizes que somos, vemo-nos muitas vezes tristes por não encontrar a felicidade com que sonhamos.
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Somos facínoras fascinantes, verdadeiras vítimas de nós mesmos...

segunda-feira, setembro 04, 2006

Negócio


Eis o negócio:
não negue o ócio
e seja meu sócio.

terça-feira, agosto 29, 2006

Ele por ela...Ela por ele


Ela sempre o via no metrô. Seu olhar de hipnose nunca deixava transparecer o que sentia por ele, sabia disso. Mas o medo de entregar suas intenções a um estranho conhecido a fazia demonstrar menos interesses do que a própria falta de interesse.
*
Ele a notara antes mesmo de ser notado por ela. Quando viu seus cabelos vermelhos pela primeira vez, teve a certeza de que entre aqueles cachos faltavam seus dedos. Mas ele não notara sequer um mínimo gesto de aceitação por parte dela. Ao menos um rabo de olho...nunca! E isso o castigava mais do que a espera por aquele rotineiro horário do metrô, a hora em que iria revê-la.
*
O tempo passava, e a estátua dela assim permanecia: estática, sóbria, concentrada em guardar para si cada "flash" de momento que sobrava quando a atenção dele parecia não estar lá. Ela, com todas as dificuldades que seu temperamento lhe impunha, passava toda a viagem de ida ao trabalho tentando guardar os cheiros que ele exalava, o jeito dele bocejar, o modo com andava...Mas nunca o deixava penetrar na redoma que criara em torno de si...
*
Ele só via aqueles cachos vermelhos à sua frente. Nos degraus, nos corrimões, no passar do vento só via o movimento daqueles cabelos vermelhos. Já cansara de se imaginar agarrado àquele pescoço, de pensar quão bom seria caso pudesse chamar a atenção dela de alguma forma. Mas ela parecia de gelo. E não derretia.
*
Eis que um dia a redoma dela começou a rachar. Aproveitando-se de um cochilo dele, pôs-se a observar sua feição enquanto dormia. A calma daquela respiração, o leve cair de seus cabelos lisos sobre a testa, o jeito dos seus lábios fechados num sono descompromissado. Ela deixou-se enfeitiçar por aquela visão de seus olhos apaixonados, eternecidos pela inocência que ele emanava. Aquele cochilo aguçou seu espírito maternal, brotando nela uma vontade de aninhá-lo em seus braços e de embalá-lo. A doçura daquele sentimento e daquela ternura provocou uma leve rachadura na sua redoma protetora, fazendo ressonar um leve tilintar, que o fez abrir os olhos.
*
Ele despertou e a fitou no exato momento em que ela, divagando em seus pensamentos mais carinhosos, mostrava um sorriso de encantamento direcionado exatamente para ele. Disso, não podia se enganar. Quando ele percebeu que era ele o alvo daquele olhar tão terno, não havia espaço em seu peito para tanto sentimento. Sentiu-se um sonâmbulo ao levantar, por achar que aquilo só podia ser a continuação de algum sonho. Ainda dormia, não era possível!Mas sentia suas pernas e elas o guiavam na direção dela, decididas.
*
Surpresa por ter sido flagrada num momento que considerava tão íntimo, ela não soube como agir. Foi quando percebeu que ele se levantava. Ele vai descer, ele vai descer. Não pode vir aqui, não será possível. Mas ele continuava se aproximando e, a cada passo que ele dava, mais ela se encolhia à janela, quase infiltrando-se no vidro, com vontade de se jogar, para evitar aquele aguardado (porém temido) momento em que ele lhe dirigisse a palavra.
*
Inadvertida, inconsciente e instintivamente, ele parou ao seu lado, sentou-se e pôde perceber que seus olhos eram ainda mais verdes do que conseguia ver a determinada distância. Sem pensar, apenas sentindo, pousou carinhosamente sua mão sobre a dela e notou um leve tremer por parte dela.
*
Impressionada, encantada e extasiadamente, ela sentiu quando o ombro dele tocou o seu e pôde perceber que os cabelos dele eram ainda mais lisos do que conseguia ver a determinada distância. Sem pensar, só sentindo, notou que ele, carinhosamente, pousara sua mão sobre a dela e notou um leve tremer por parte dele.
***
E, assim, de mãos dadas, seguiram viagem. Nesse dia, nenhum deles desceu em seu destino, pois tiveram a certeza de que o verdadeiro lugar de cada um era segurando a mão do outro. Na última estação, levantaram-se, saíram do vagão e enfim se encararam de frente, sem dizer palavra alguma. Naquela hora, ficou encerrada, mais do que a alegria de quebrar os próprios limites, a felicidade de se ver refletido no olhar do outro. E desse jeito perceberam que seriam naqueles reflexos suas moradias dali por diante.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Depois do São João


No meio do nada, assim seguia Maria: sentada à beira da estrada num velho tamborete, descascando milhos, debulhando grãos...um meticuloso trabalho de formiga operária. No dia anterior, ela sozinha havia colhido todas aquelas espigas do campo de milho da cidade. E naquele dia, iria ela própria sentar à beira do fogão quente, mexer as panelas e preparar canjica, pamonha e bolos de milho para a festa de São João.
Era todo dia essa rotina: alguns dias de plantação, seguidos de dias de espera, os quais ela passava tecendo redes de descanso com fios de palha seca da casca do milho velho. Quando o milho dava, Maria gastava um dia inteiro na colheita, sob o sol escaldante. E quando já tivesse colhido o suficiente, começavam os preparos. Senta, separa, descasca, debulha, enxuga o suór. Não pensa, tritura, lamenta, descasca novamente. Chora e debulha novamente. E assim continua, despejando sobre os grãos suas lágrimas.
Naquele dia, enquanto as moças da cidade preparavam-se entre tranças e vestidos de chita, Maria debruçava-se sobre a panela, mexendo a colher até engrossar a mistura. Enquanto os rapazes se empapavam de loção de feira e bebiam seus quartinhos de cana à volta da fogueira à espera das moças faceiras, Maria punha-se a se entregar ao estado de semi-moribundez em que vivia entre as panelas que ferviam.
Eis que chega a noite, começam os folguedos, o som das sanfonas e ilumina-se a cidade. Mas Maria não pode participar da festa, pois suas costas doem por demais, por causa de todo o trabalho de dias atrás...
E, novamente, Maria chora sob os lençóis pesados, ao mesmo tempo em que bombinhas explodiam do lado de fora e todos comiam com vontade todos os pratos preparados pela pobre Maria.
Após a festa, todos foram dormir, cansados das folias de uma noite feliz, no momento exato em que Maria acordava do último pesadelo. Cinco da manhã, Maria se levanta, brilho opaco no olhar, como feitiço, enquanto nas outras casas a cidade preparava-se para dormir. Maria segue o caminho da plantação, descalça, levantando poeira, mais poeira do que toda a quadrilha junina na noite passada levantara. Maria segue decidida, foice em punho e chega a seu destino: a plantação de milho. Orquestrada pelos sons de seus gritos ensandecidos, Maria desfere golpes certeiros sobre as plantas, à medida em que as pessoas na cidade iam se acordando uma a uma. Enquanto a dança da foice de Maria se dava, acima, abaixo, folhas para um lado, raízes para outro, as pessoas seguiam a melodia dramática da trilha sonora dos gritos com os golpes secos.
E se surpreenderam com o espetáculo que viam. Mais do que com qualquer luz, brilho, som ou beijo da noite enterior. Toda a cidade, recém-acordada, presenciou o (des)controle de Maria, que se libertava dos grilhões a que era submetida.
E, tal qual Maria nos dias de tristeza, todos choraram. Ela, mãos já ensanguentadas, pés de milho mortos sob seus pés, e a triste canção do choro de toda uma cidade.
Mas não eram só as pessoas que choravam. Choravam também os milhos mortos, os grãos secos e as folhas no chão. Choravam a fumaça da fogueira apagada, os balões que sobravam no céu e as garrafas e copos sujos jogados no arraiá.
Foi quando, num último gesto, cai Maria, toda suja, entregue aos restos de sua surpreendente atitude. Cai Maria, morta, como os pés de milho.
***
E, sobre seu corpo e sua solidão, cai uma singela bandeirinha de São João. Vermelha, da cor de seu sangue.

domingo, agosto 20, 2006

Sol


O sol apareceu pra contar que as nuvens de ontem foram encomendadas por ele.
'Muito cansado, ultimamente', ele disse.
Logo, chamara as nuvens para ocupar o espaço dele no céu.
Só que as nuvens cumpriram bem demais o seu papel.
Empolgadas com a importância de tal substituição, elas partiram a ocupar todas os lugares que antes pertenciam aos raios do sol.
Com sede de eficiência, taparam todas as frestas, fecharam todas as brechas...
E, sem querer, criaram uma escuridão nunca antes vista, uma espécie de sombra incessante, escurecendo todos os espaços.
*
Eis que, com o recesso do sol, todos perceberam que nada pode susbtituí-lo, e que ele é, indubitavelmente, essencial.
*
A luz, mais do que a beleza de enxergar, traz a sensação psicológica de normalidade à rotina. Traz a calma necessária para que o andar da carruagem não perca o rumo da estrada, por mais sombras e obstáculos que ela possua...por mais que ele esquente, queime e seque sem pesar.
Mas, ele floresce, ilumina e envivece o que estava quase morto.
Depois daquele dia, nunca mais o sol fez suas malas.
E voltou ao velho hábito de despedir-se de um lado, apresentando-se ao outro.
Sempre lá....onisciente...como devem ser os melhores contadores de histórias...

terça-feira, agosto 08, 2006

Rimas de Pedaços


Ele,
nos passos,
se pergunta
se o tempo
que tem
é suficiente
para agir
do modo
como gosta.
E a resposta,
tão logo,
a sorrir,
faz presente
se mais além
o sentimento
junta
os pedaços
dele.

segunda-feira, agosto 07, 2006

A flor


Sol. Chuva. A flor. Água. Seca. Folha. Falha. A flor. Espinho. Néctar. Abelha. Pé. A flor.
*
Pétala esmagada.
*
Mesmo assim, flor.
*
Entregue, a flor se esvai, esquecendo de que o poder das circunstâncias é menor do que a beleza da estação.

sábado, agosto 05, 2006

Intenção


Se ele se esforça
e tenta corrigir
falta força
pra transmitir

A mudança
que ele tenta
como uma trança
se desfaz, lenta

Se ele reluta agora
em vez de mudar
o agir de outrora
o faz parar

Segue o coração
no caminho de amar
reconhecendo a intenção
de melhorar

Mas isso não se faz
ele se perde
nos caminhos lá de trás
e se esquece

que os momentos de paz adormecem quando os sonhos sem avisar aparecem...

terça-feira, agosto 01, 2006

A hora dos cafajestes


E se disseminam as bandeiras de cores vivas e de números fáceis pelas esquinas, pontes e sinais dessa cidade. E se avolumam as promessas baratas, as politicagens mascaradas pela 'política', a troca de interesses, as ilusões. É chegado o momento de discutir o já sabido, de 'fingir' apoio em troca de algum favor pessoal, de ganhar 'simpatias' falsas e abraços irrelevantes, mas bonitos de se ver na foto. É chegada a hora do voto-mercadoria, do comércio de ideologia, da sonegação, do "caixa 2". É chegada a hora da mentira, da ciência do falsismo, da descaratez, da cara lavada. Da velha e mascarada 'política do pão e circo'. Da vetusta dicotomia 'direita x esquerda' ganhar as padarias, os bares e as filas de banco. É chegado o momento de comentar quem apareceu com o terno mais bonito. De quem roubou mais ou menos na gestão passada. De quem vai continuar votando pela manutenção do 'status quo'. É chegado o momento de discutir quem pareceu menos nervoso com a última pergunta do William Bonner. É chegada a hora de rir da falta de dedos, das línguas presas. É chegada a hora de amaldiçoar os almofadinhas do poder, cujos tronos são adquiridos por herança disfarçada, através de uma simples troca de coroa possibilitada por um caríssimo curso de oratória no Sul. É chegada a hora de pregar 'bottoms' com rostos nunca vistos, de colar adesivos com nomes nunca lidos, de pintar os muros com frases já prontas e de vender opiniões nunca sequer pensadas. É chegada a hora da fantasia, da comédia, da chanchada, da cafajestagem em sua prática mais abominável. É chegada a hora das novas técnicas de marketing. É chegada a hora do exercício mais cruel da publicidade. É chegada a hora dos absurdos, das enganosas manchetes. Das puxadas de perna, das traições, das brigas entre coligações, de jogar a favor do vitorioso. É chegada a hora do parecer ofuscar o ser de cada um. É chegada a hora dos gastos inapropriados, das 'doações' vendidas, das falsas modéstias. É chegado o momento dos falastrões. Dos fanfarrões. Dos engravatados com suas pastas repletas de cartões estampados com sorrisos mentirosos...
***
É chegado o momento da culpa, da tragédia, da depressão e do descrédito no sistema. É chegado o momento de lamentar a estrutura, de sonhar com procedimentos inovadores. É chegada a hora de desejar o indesejável. De querer o sonho de uma utopia irrealizável. E é chegado o momento de se perder nos caminhos da tecla verde. É chegada a hora de cumprir o dever, como se deixasse de ser um direito conquistado.
***
É chegado o momento de ser hipócrita. Hipócritas, sirvam-se !!! Há diversas oferendas esperando uma mão para empurrá-las em meio à maré da enganação.

sábado, julho 29, 2006

A caixa


Havia uma caixa ali no canto. Guardada. Selada. A chave da caixa estava em algum lugar, mas ninguém sabia onde. Estava muito fácil, logo ali. Mas dias se passaram sem que a caixa fosse aberta. Porém, num belo dia, alguém passou e ela estava escancarada. Dentro, não havia nada. Dias depois, alguém encontrou a chave. Debaixo da caixa. E junto dela, havia um bilhete:

"Nunca é tarde pra chorar", dizia ele.

E todos choraram pela caixa vazia. Porém repleta de significado.

sábado, julho 08, 2006

Música


Eu e música é um negócio assim: amor à primeira vista. É muito difícil de se acostumar a gostar do som. Quando eu escuto as primeiras notas de uma música que vou certamente gostar muito, eu percebo naquele momento a medida exata do quanto eu vou gostar. Com música eu sou completamente diferente do que sou com as pessoas. Ou de como estou com as pessoas. Mas isso é papo pra outro momento.
Hoje eu vou falar de música. E, música...Ah, é uma das coisas desse mundo de que mais amo. Gosto tanto de ouvir música, que às vezes não sei porque não nasci com dom pra coisa...Está certo que nunca toquei num violão que não fosse pra desafiná-lo, e num microfone, que não fosse num videokê. Mas é que deve haver algum talento musical em algum lugar, que não seja no gosto de ouvir. Um dia eu encontro.
Por enquanto, vivo à procura de música boa, que me toque, a todo momento. Sou louco por novos sons e novas formas de cantar. Quanto mais original, quanto mais novidade, melhor. Quanto mais vontade de fazer ARTE diferente, melhor. Quanto mais vontade para evoluir e criar sensações diversas a partir de uma mistura de notas, melhor. O que é música boa, para mim?? É aquela que faz bem aos ouvidos. Aquela que inspira. Aquela cujo mote principal está longe do universo capitalista das gravadoras e das rádios comerciais. Música boa pra mim é a expressão do que um ser, chamado artista, tem dentro de si e apresenta para mim. E essa expressão que sai dele, chega em mim de um jeito diferente e assim vai...Uma criação de expressões diferentes. E a minha diversão de ouvir música vem daí. Não ouço música simplesmente por diversão. E a diversão, para mim, tem pouco a ver com ritmo, batida, simplesmente. Tem mais a ver com a mensagem da música. E, como expressão de Arte, ela deve conter , sim, a mensagem embutida na mistura da letra, com a melodia, com o arranjo, com a interpretação do cantor. E quando eu falo Arte, não falo no sentido culturalmente elitista, mas no sentido de valorizar uma forma de expressão tão piamente castigada. Valorizar uma música pela sua batidinha legal é o mesmo que reconhecer a qualidade de um quadro simplesmente por sua moldura. E a tela?? As tintas?? As cores?? Os detalhes??
Sinceramente, pessoas que gostam de "músicas" cujos versos principais ditam :"Lapada na racahada" ou "Vamo fazer um milk shake de num-sei-que-lá" não gostam de música.
Porque isso não é música!!!!!
Chamar isto de música é um ultraje àqueles que gastam horas com um violão nos braços tentando colocar seus corações em cordas que viram notas que viram letras que viram músicas.
Muitos podem dizer que estes protótipos de música são, sim, demonstrações culturais. Que são populares. E que, num futuro, talvez próximo, podem fazer parte do imaginário popular, se transfigurando numa espécie de demonstração folclórica-sensual dos excluídos sociais de outrora. Respondo a esta questão com dois argumentos: 1- vivo nos tempos atuais, logo, me preocupar com o que estas demonstrações podem vir a ser não é problema meu, pois a conjuntura social que vivo é esta, não a que virá; 2- Estas músicas pervertidas (sem falso-moralismo) são nada mais do que GOLPES de empresários com tino comercial que ganham muito dinheiro às custas da falta de cultura do povão. São verdadeiros mercenários, deseducadores, gatunos e salafrários, ao meu ver. Os chamados "empresários" dessas bandas de forró eletrônico e de brega em nada se preocupam com os peões que vão trabalhar para eles lá no palco. Aquele que vai lá e canta "Lapada na rachada" não significa nada, a não ser um operário da Empresa que vive de vender lixo sonoro. Quando um "cantor" ou "cantora" entram numa banda dessas, há outros tantos (vindos da periferia, pra manter a identificação) na fila à espera para substituí-lo, sem problemas. E, para mim, chamar isto de música é ferir a quem realmente gosta dela.
***
Pois bem.
Vejam que o título deste POST se chama "música". E era mesmo para ser uma homenagem àqueles todos envolvidos no trabalho mágico de transformar ouvidos em pontes para uma expressão cultural. E acabou sendo mais uma crítica aos que os transformam em ralos de esgoto. É, eu sou assim...Não consigo deixar de criticar. Mas esta crítica foi uma forma de defender uma expressão que me faz tão bem e da qual eu sou total escravo : a música.

terça-feira, julho 04, 2006

Marés x Estações


Todo mundo sabe que a vida se vive de altos e baixos. Essa é a pura verdade...
Nem sempre estamos sempre por cima; nem sempre estamos sempre por baixo.
Mas quer saber de algo que modifica um pouco essa relação de certeza de que o ruim sempre dá espaço ao bom uma hora e vice-versa?
O conflito entre marés e estações.
O que se entende por maré ? (sem ser no sentido geográfico). Trata-se de momentos que se sucedem alternadamente...Altos e baixos e altos e baixos novamente. Assim, ininterruptamente. Um momento dando lugar ao outro em curtos (sim, curtos) espaços de tempo.
O que se entende por estação? (também sem ser no sentido geográfico). Também são momentos de sucessão alternativa...Altos e baixos e altos e baixos novamente. Só que, agora, um período dá lugar ao outro em espaços maiores de tempo.
O que isso tem a ver com altos e baixo na vida? Tudo!!!
Deseje sempre ter marés de altos e baixos!!! Almeje sempre que venha à frente mais marés...Por que com elas a gente aprende mais fácil... Um dia repleto de altos e baixos traz equilíbrio e nos acostuma mais facilmente à grande verdade com que comecei este texto. Antes uma manhã ruim intercalada por uma tarde melhor, seguida por uma noite perturbadora e um sono calmo... Antes um tropeço seguido de uma subida...Antes um sorriso de alívio logo após um choro de dor ...
Não queira experimentar estações de períodos bons e ruins...Pois eles te enferrujam a tal ponto, que nas estações ruins, tudo vira caos e ele se estabelece, enraizando-se nas suas entranhas, de modo que causa sofrimento em doses extras e cavalares. A estação boa é só alegria, é verdade. Mas te acostuma mal...e te desprepara para o solavanco posterior que te empurrará para o buraco obscuro da próxima estação. E, assim, te desequilibra, te dando de volta o que achou que já estava perdido eternamente, porém, te tirando de vez o que achou que teria para sempre...
***
O que se deve buscar nessa vida é o equilíbrio das emoções... e isso se consegue através de momentos de marés. Uma estação de boa colheita rende frutos ótimos, mas de nada adiantam se estes frutos numa próxima estação ficarão podres por um bom tempo. A maré poderia levar frutos e trazer frutos com a mesma intensidade que uma estação, sem os principais danos. Pois este fruto poderia cair de sua mão com a mesma facilidade com que você o colheu. Mas, isso te ensina mais rápido a segurá-lo mais forte da próxima vez. A proximidade dos espaços entre as marés nos ensinam mais do que o sentido volátil da vida: elas projetam sobre nós lições instantâneas. E menos sofridas, mais proveitosas.
***
O grande problema é como controlar as marés e as estações. Isto ainda não entendi. Porém, fico satisfeito de poder construir a consciência de ambos, não importando se amanhã se inicia uma nova maré ou uma nova estação. Ter a consciência sobre as coisas da vida, ao meu entender, é o primeiro passo para aprender como dar os passos certos, ainda que não exatos. Mas, se estes passos , embora que ainda sobre grande neblina, puderem me levar a algum lugar mais alto e a algum mais baixo logo depois, em vez de longas caminhadas em buracos seguidas de maratonas sobre céus, aí eu saberei a medida certa do passo seguinte. Mesmo com olhos ofuscados.
***
O que eu quero mesmo é acertar agora e errar daqui a pouco, para acertar novamente daqui a dez minutos e errar de novo dali até meia hora. Porque acertar durante meses e sofrer por outros meses logo após....é chato demais.

segunda-feira, julho 03, 2006

sorriso depois do choro é o sorriso mais sincero.


Hoje eu quero dizer que o sorriso após o choro é o sorriso mais sincero. Hoje eu quero engolir o mundo com meu sorriso de boca grande. E mostrar os dentes, de modo que faça rir quem está comigo e que bote medo nos que não estão. Hoje eu quero abrir a cortina e perceber que tenho motivos para cantarolar novamente e falar "Oi, pássaro" para o beija-flor que me visita a essa hora. Hoje quero quebrar as algemas de mentira e contar mais do que números na parede da minha cela. Hoje me deu uma vontade arretada de contar toda a minha história, de ouvir todas as histórias, de fazer mais histórias...Hoje eu quero pensar que amanhã pode ser melhor e não que ontem poderia ter sido melhor. Hoje eu quero sentir tudo aquilo que há tempos não sentia. Hoje eu quero ser garganta e pulso acelerado. Hoje eu quero comédia, só comédia... Hoje eu quero espantar o tédio, hoje eu quero espalhar mentiras, quero divulgar segredos, quero queimar os papéis das regras. Hoje eu quero encher o pulmão de cor, quero deixar pegadas de vento no asfalto, quero colorir o cinza do chão sob o móvel mais pesado. Hoje eu quero escrever sorriso. Hoje eu quero sorrir escrevendo. E quero que sorrias enquanto escrevo. Hoje eu quero nada mais do que alegria. Quero senti-la correr pela corrente de sangue e de emoção. Quero me cegar pela vontade íntima de pular as cercas, de roubar as rosas e de cheirá-las. E perceber que o aroma da rosa roubada só não é mais puro do que o cheiro dessas linhas, se ele existisse.
***
Hoje eu quero mostrar que não só de problemas se vive a vida. Hoje eu quero dizer a ela que tenho medo de suas sombras e de seus buracos e de seus trovões. Mas que aprendi a usar esse medo para esperar o momento de sorrir novamente. E vou esperar com tanta angústia, que ele logo vai chegar. E novamente eu vou sorrir. Com dentes mais imponentes e mais ameaçadores.

OBS: e obrigado a quem me fez sorrir debaixo da sombra, dentro do buraco e sob o trovão.

sábado, julho 01, 2006

Vermelha de vergonha


Revanche - palavra de origem francesa, que significa "reparação geralmente dura, rude, de afronta, ..., sofrida; desforro; vingança."
Levando em conta a grande influência cultural que nos foi peculiar ao longo da História, pode-se citar "revanche" como um dos exemplos dos empréstimos etimológicos realizados pela Língua Portuguesa. E tomamos essa dos franceses..
O que se espera de uma revanche é tentar dar o troco, é conseguir algo que já foi perdido outrora..revanche é finalmente, vencer algo que um dia o derrotou.
Não foi o que o Brasil fez.
Nessa Copa do Mundo, o Brasil entrou como favorito..Fez uma campanha tímida, não muito convincente, mas vitoriosa. Chegou até as quartas tendo que enfrentar um adversário que o havia tirado a chance de disputar o título mundial em 86 (também nas Quartas) e já tirara o título em 98 (na Final).
Pois bem...Esperava-se uma revanche??? Claro que sim!! Finalmente o Brasil poderia mostrar que não apresenta um futebol de desculpas prontas para a derrota. Esta derrota foi indesculpável... Não por ela em si, mas pelo modo como não se tentou evitá-la.
Agora todos sabemos o que vai acontecer...Parreira será rotulado de incompetente, turrão e apático. Os jogadores, de que não honraram a camisa tão importante...
Eu não vou acusar ninguém de nada. Continuo achando que temos os melhores pés para jogar futebol..mas nao temos as melhores cabeças... E o que faz um pé sem uma cabeça??
A revanche na verdade foi dos pessimistas... Que há muito perdiam jogos importantes enquanto o Brasil seguia em frente... Só que esse caminho foi detido pela falta de vontade e garra de vencer!! Derrotas acontecem, tudo bem... Mas gostaria, sinceramente, de ter perdido como a Inglaterra, como a Argentina...que lutaram até o final e que mostraram que entraram para disputar um título tão esperado.
Agora, voltemos do mundo fantasioso de Copa do Mundo...O sonho do Hexa foi adiado por 4 anos. Durante este tempo, vamos fazer o que o Brasil não fez!! O povo brasileiro tem inúmeras revanches a vencer nesse tempo. Contra a fome, contra a miséria, contra a falta de emprego, contra a falta de cultura, de educação, de saúde , de quase tudo. Temos uma importante revanche a vencer nas urnas daqui a alguns meses!!!E , até agora, vejo que nós, brasileiros, entramos pro jogo como nossos jogadores entraram hoje...Apaticamente.. Porque não seguir este exemplo frustrante para mudar alguma coisa???
Voltemos logo à realidade de nossas lutas diárias, pois o sonho, por enquanto, ficou pra mais tarde.
Orgulho-me de ser brasileiro, sempre. Mas não me orgulho de ver um time de futebol que não defende as cores do meu País tanto quanto acrescenta créditos à conta bancária!!
Mas, juro, juro, que minha bandeira permanecerá hasteada, flamejando, linda, linda..
Verde, Amarela, Azul e Branca... Mas, hoje, até que ela ficou vermelha de vergonha...

sexta-feira, junho 23, 2006

Para Elizabeth, com carinho


Eita, se isso aqui falasse
Isso aqui de dentro
desse lado que tanto usas..
Ah, se isso aqui pudesse dizer em palavras
tudo daqui de dentro
todo sentimento
quem sabe ao certo
quanto tempo
iria levar...
Se você pra mim é exemplo
Se você pra mim é alguém
isso aqui de dentro gosta mais do que gostar.
Esse aqui, grande companheiro
não é muito bom no saber
mas é melhor no sentir
e o que ele sente por você
há poucas palavras pra dizer.
Mas se num segundo ele pudesse
emitir algo que um simples "tum"
seria "te amo, amiga
somos dois, somos um
de alma e canção
somos assim, irmãos
escolhidos, por mim,

o coração."

sábado, junho 17, 2006

Vida Passageira


A gente aprende muita coisa andando de ônibus.
As pessoas que têm um senso crítico mais apurado e que estimulam em si mesmas a pura observação são as que mais evoluem nesse aprendizado.
E eu, há um tempo atrás, antes de me tornar freqüentador assíduo dos ônibus, não tinha nenhuma dessas características. Mas, inevitavelmente, andar de ônibus me fez cultivá-las, o que me ajudou bastante a formar este ser complicado que sou hoje.
Pois bem.
Andar de ônibus me deixa muito tempo sozinho comigo mesmo. No começo de minhas andanças, que contabilizam cerca de duas horas e alguns minutos dentro de ônibus diariamente, eu nem sentia essa presença solitária de minha consciência, pois ainda o caminho me entretia, a esperança de encontrar conhecidos era viva, a possibilidade de dormir era grande - pois o cansaço era igualmente grande; e ainda é -, bem como pensar na vida era um passatempo muito bom para passar o tempo. E pus bastante em prática estas atividades: me divertia com as paisagens, esperava por conversas animadas com conhecidos que há muito não encontrava, dormia e pensava.
Mas isso tudo, sinceramente, enjoa.
Enjoa porque se cria uma rotina. E, no ônibus, é muito difícil de se quebrar essa rotina. Pelo menos até eu comprar meu aparelhinho de mp3, que vai me desligar completamente do mundo do transporte para o mundinho introspectivo de minhas músicas favoritas. Sonho com esse dia em que não mais vou precisar reparar em conversas para passar o tempo. Desejo com ansiedade o tempo em que não mais precisarei me contentar em ler "outdoors", nem ficar bolando versinhos que se, não anotar na hora, certamente vou esquecer. Cansei mesmo de ter que pôr minhas técnicas de pegar no sono em prática. (Depois eu as conto aqui). Cansei!! Eu não estou reclamando de andar de ônibus, não. Mesmo porque é uma realidade bastante real minha. Afinal meu peugeot está tão longe de se concretizar...(hehehe) Mas é que o ser humano é inerentemente insatisfeito.
E olhe que eu me satisfaço com tão pouco de tudo...
Mas, para divertir este texto chato e turrão e reivindicador de uma causa menor, aqui vão dois diálogos colhidos no ônibus, numa de minhas observações mais interessantes. Numa conversa de pai pra filho, anotei - isso mesmo, se não tivesse anotado, certamente teria esquecido - dois trechos de um longo diálogo que me fez ficar acordado em plena manhã de domingo ( muito cedo) numa de minhas idas para o fim do mundo para fazer concurso público. O garoto tinha lá seus 11, talvez até menos, ou até 12, sei lá. Eu sou péssimo para chutar idades, mas o que era certo mesmo nele era sua inteligência e esperteza. Bastante amadurecido, falava com o pai do mesmo patamar, utilizando das mesmas expressões que ele, deixando claro que era criança, mas que isso não o impedia de ter uma conversa de igual para igual com o pai. Este, em retorno, parecia estimular essas característica do filho, e travou diálogos tais com ele, que só me fizeram perceber a relação pai-filho apenas pelo modo como se chamavam. Apenas isso.
Então tá. Aí vão na íntegra, dois trechos da longa conversa ( só copiei esses, deixo bem claro) :
- Pai, Costa do Marfim é "Elefante", é?
- É.. é a "Terra dos elefantes."
- E porque o Brasil é canarinho? Que nome...
- Porque o Brasil é amarelo, ué.
- Mas, pai, tem canário de outra cor.
- Tem não.
- Tem sim !!!
- Não tem, meu filho, todo canário é amarelo!!!
- Canário da Terra ...??
- A ma re lo !!
- Oxe..então o Brasil deveria se chamar calanguinho... num tem verde...
-..., calou-se pai.
***
Mais tarde, lá pelo final da viagem, veio esse:
- Pai, no Brasil tem vulcão?
- Não, não tem.
- Poxa - respondeu o garoto, insatisfeito- , deveria ter pelo menos um....
***
Pois é...é por causa dessas e outras que uma viagem chata de ônibus pode se tornar interessante. Para pessoas acostumadas a reparar de verdade nas outras pessoas, a chatice pode se transformar.
Mas, sinceramente, até isso às vezes cansa.
Mas diz aí se esse menino num é esperto. Gostei dele.

segunda-feira, junho 12, 2006

*eueela*



ela, o tecido
eu, a linha
ela, o vestido
eu, a estampa
ela, a flor
eu, a pétala
ela, o caderno
eu, o arame
ela, a preguiça
eu, a cama
ela, a meiguice
eu, a energia
ela, a calma
eu, a eletricidade
ela, o charme
eu, a simpatia
ela, a delicadeza
eu, a gentileza
ela, o sorriso
eu, os dentes
ela, a palavra
eu, a letra
ela, o móvel
eu, o verniz
ela, o coração
eu, o cérebro
ela, o cérebro
eu, o coração
ela....
eu....
eu....
ela....
assim a gente se completa.

sábado, junho 10, 2006

Compreensão



Eis que, abruptamente, pára o motorista e fala:
- Desce!
_ ... ! - respondeu a mulher, estupefacta.
Após um clímax nada amortecido pelo silêncio, ambos entrecruzaram olhares e entenderam, sem entender, que foram feitos um para o outro.
E ela nunca mais desceu daquele carro, pois, momentos depois, este veículo em que se encontravam patinava na pista molhada, indo de encontro a uma grande muralha.
Ah, se ela tivesse descido....
Talvez a compreensão encerrada naquela troca de olhares a tenha matado. Mas a fez morrer com a certeza de alguma vez já haver amado.

segunda-feira, junho 05, 2006

Impureza


Impressões, imagens rubras no olhar
suspirando pela luz que trará
mil histórias e memórias
de loucuras e atitudes de lá
Coisas imprecisas, clarão
de vazios, roupa suja no chão
desperdício, sacrifício
de sucessos que jamais saberão
Horizontes, nuvens no céu
brigadas de guerra, bordel
pelas ruas, seminuas
fêmeas estendidas num carrossel
Predispostas, sob rigor
Nunca saber o que é amor
Más condutas, absolutas
de quem troca ilusão pela dor
Sustentando sonhos sem fim
sem saber que vida assim
extraviada, madrugada,
desconstrói a esperança do sim
Nos asfaltos, reflexos
sombras estendidas ao sul
bem perplexas, desconexas,
procurando carros no azul
Os faróis as iluminam
escondendo a exposição
das vergonhas, com tamanha
fama de quem luta contra a emoção
Nessa estrada de sedução
droga, vida, nota é jargão
mais doenças, mais descrenças
mero triunfo da solidão
Mas se nunca o sol raiar
a necessidade de estar
na cidade, liberdade
vaidade pra dispensar.
Sofrimentos custam em vão
o valor do seu coração
impureza, mas beleza
no interior de uma canção...

quinta-feira, junho 01, 2006

Crítica à felicidade


Todos dizem que tudo passa, que é só pensar no melhor, que as coisas servem apenas para aprendermos, que somos fortes, que no final tudo fica bem. Isso deveria se chamar otimismo? Otimismo para mim não é essa certeza e essa fé desenfreada de que no fim tudo irá florir. Otimismo é a certeza de que se fez o possível para que a flor crescesse um pouco. E é difícil ser otimista novamente quando se acha que se fez o necessário, e mesmo assim não se viu pétala sequer. É difícil...Mas é impossível?
Muitas vezes me peguei pensando que sou abençoado por ter amigos bons e fiéis, pessoas queridas que me fazem sentir bem a cada lembrança, que estou num caminho considerado privilegiado em relação a maioria das pessoas da minha idade, e que, apesar de tudo, sou feliz por ser o que sou hoje: alguém que soube se construir a ponto de não deixar ser desconstruído por pouca coisa (nem por muita).
Esses pensamentos todos confortam, contudo não deixam a certeza de que esse caminho terá sempre a linha traçadinha, pronta a ser vista e seguida a cada curva, cujos destinos não podem ser muito além daqueles já traçados. Ou seja, dão a errônea previsão de que só por ter seguido o caminho certo até agora, será muito difícil que esse caminho se desvirtue e tudo passe a dar errado. Aí é que se encontra a nova reflexão: apesar de tudo parecer estar certo, a qualquer momento a vida pode nos surpreender. Um caminho perfeitinho, bem trilhado, nos conformes, pode ir de encontro a um abismo a qualquer momento. E a consciência dessa incerteza (im)provável funciona como um botãozinho de alerta pronto a ser acionado sempre que esse caminho está indo por outra rota.
Portanto, meus caros, longe de mim fazer transparecer aqui que minha rota está mudada, ou que caí no abismo perdido das minhas expectativas frustradas. Mas que é importante perceber que esse botão de alerta está tão vivo quanto a certeza de que o bom pode acabar a qualquer momento. E de que somos tão vulneráveis aos efeitos dessa vida que, apesar de maliciosa, nos ilude com um sorriso de criança, fazendo-nos esquecer que às vezes ela pode nos calçar, caso deixemos a aparência desse sorriso nublar o próximo passo. Vamos, sim, dar vazão à felicidade, mas sem esquecer que um momento feliz é apenas uma amostra do que a vida pode dar, caso façamos sempre o que parecer correto. Caso contrário, aquela estrada bem sinalizada, iluminada, margeada por árvores frondosas, que compõem um destino propenso ao sucesso, se não for constantemente analisada criticamente em sua aparente perfeição, pode, repentinamente, levar a um beco sem saída. E, desse beco, a saída tende a ser mais difícil.
Bem-vindos à crítica à felicidade. Felicidades!!!

domingo, maio 28, 2006

Arrependimento


Para que não possas dizer que nunca fui capaz de nos cuidar
Olha agora e vê meu sentimento no papel
E se nem ligas para o que um dia fui capaz de estragar
Saiba que hoje minha vida é fosso, fumo e fel

Entendas que nunca quis me passar por distante
E que nosso desentendimento foi todo uma má-explicação
Que sempre na verdade tentei levar adiante
O que teimavas em chamar de falta de usar o coração

Confesso que muitas de nossas crises foram detalhes sublimados
E que muitas de nossas voltas vieram de pena e de saudade
Mas isso é a que se submetem dois apaixonados
Que não se entendem e se perdem no perigo de só enxergar maldade

Às vezes não caibo em mim de tantos arrependimentos
E choro em descompasso com a rotina que tua falta me traz
E sinto por não poder voltar a todos os momentos
Em que deixei escapar aquela que um dia trouxe a paz

Por isso eu sigo nessa vida apenas solidão
À espera de que a calma da distância alivie nossa dor
E que talvez te reencontre numa linda canção
E possamos reviver e repetir o que sempre em nós ficou: o amor
***
Arrependimento. Ou modelo para os arrependidos de tanto amor.
Texto do ano passado. Mas, que por ser tão distante de mim, se tornou atemporal.

sexta-feira, maio 26, 2006

O Pe(r)dido na entrada para o Céu


Saiba que minha vida me matou. Não que eu esteja tentando mitificar minha morte, mas é que tenho certeza que a fiz por merecer. Tenho certeza que irás me aceitar, mesmo porque entendo nunca ter sido o tipo de pessoa que mereceria um destino tão cruel quanto o inferno, lugar que não estou mais disposto a ficar daqui por diante. Nunca fui o exemplo de humanismo e cidadania, muito menos o homem de coração mais puro e honesto. Mas não fui ruim por escolha; foi por falta de uma!
Bem, mereço um espaço superior simplesmente porque a morte me consertou. Se não fui capaz de exercitar todas essas qualidades que sinto se formar em mim neste momento, que ao menos eu tenha a possibilidade de mostrá-las agora, depois da morte, às pessoas que merecem recebê-las. Portanto, se minha vida foi um rol de perversidades, como muitos podem dizer, pretendo fazer de minha morte melhor do que qualquer vida. E está na hora de pôr isto em prática.
Está certo que nunca me preocupei com os outros e sempre fiz de tudo para conquistar meus objetivos mais banais. Mas é que vistos lá de baixo, do mesmo plano, eles pareciam tão essenciais...Eu não tinha esse pensar que tenho agora...Meu egoísmo era minha característica mais latente e meu desprezo pelo resto fazia-me sentir mais importante a cada nova atitude esnobe. Nunca temi ser odiado, pelo contrário, o ódio dos outros por mim alimentava meu vultoso ego, mesmo porque sempre fiz questão de provocar a inveja alheia.
Nunca liguei por pisar em alguém...Aprendi a fazer isso praticamente desde que comecei a andar. E a mentir, desde que comecei a balbuciar minhas primeiras palavras chantagiosas! Sempre fui um líder nato e conquistava todos com minha capacidade de dissimulação extrema! Além disso, sempre fui cercado por gente muito fraca e influenciada, que se deixava levar pelos meus contos e desejos mais fúteis. Minha mãe abdicou cedo do seu papel materno e sempre se dedicou com afinco à uma vidinha vazia, com casos desamorosos. Perdi meu pai antes mesmo de conhecê-lo, e meu primeiro grande amigo foi o poodle de minha mãe, que sempre vinha me lamber após cada chute que eu dava nele.
Cresci assim, sem atenção nem conversa, distante de qualquer mundo senão aquele construído por mim mesmo. Minhas paixões sempre me custaram muito dinheiro e assim foi por toda a minha vida. Nunca conheci algo que se aproximasse do amor; até agora não sabia o que era ter o coração bater forte, senão por raiva do que não consegui obter...E foi pouca coisa...
Minhas novas conquistas eram meus mais profundos objetivos e nada estava à minha frente além do meu desejo satisfeito. Nunca fui de me socializar com ninguém. Minha Sociedade era a minha mansão, meus domínios, o interior de meus muros, as coisas que já me pertenciam e as que eu ainda queria comprar. Comprar sempre foi meu passatempo favorito; sempre valorizei o garbo e o luxo. Mas nada nunca se comparou a comprar as pessoas! Isso sempre me fez ter certeza do quanto elas são fracas e hipócritas e de como elas são capazes de vender fácil suas opiniões e suas crenças...Isso me impulsionava cada vez mais a praticar meus joguinhos de destruição alheia.
Veja você que nunca tive uma oportunidade de reflexão acerca de uma possível conversão, tendo em vista tal ambiente desprezível em que eu que eu era rei. Além do mais, nunca foi realmente minha vontade mudar. Não se pode esperar muito de alguém cujas primeiras lembranças de vida são desarranjos, um começo de uma vida desfigurada, iludida pelo brilho do ouro e ofuscada pela ostentação insana.
Saiba que estou disposto a fazer desta minha estada nos céus o exercício de uma vida que não tive, mesmo que depois de morto. A morte nunca significou nada para mim, mesmo porque no fundo eu sabia que, se ela viesse, viria para me libertar. Hoje vejo que eu precisava de liberdade, que me sentia na verdade preso à pessoa que eu era obrigado a ser. Sim, via e vejo hoje, na morte, a minha liberdade; onde eu posso ser e ter tudo que nunca quis e nunca pude.
Por isso, rogo por um canto aos seus. Peço passagem por um novo mundo onde eu possa descobrir quem eu poderia ter sido e não fui. Onde eu possa perceber que dentro de mim sempre houve uma parte escondida, que só pude agora desvelar. Onde eu me sinta mais vivo do que morto (mesmo morto), onde eu possa mais aprender do que ensinar. Necessito mais do que nunca dessa chance para perceber que fui um fruto e não a raiz de uma árvore cruel.
E, assim, peço entrada neste caminho divino e, pretenso como sou de minhas possibilidades, espero com otimismo. Assim posso provar a mim mesmo que minha falta de humanidade enquanto vivo pode ser consertada pelo exercício de humanidade enquanto morto. Se não pude ser humano onde sensivelmente deveria ter sido, deixe-me o ser onde racionalmente não o poderia. Quem sabe, assim, provo a mim, aos santos e aos anjos que há sempre uma esperança, e que meus erros de vida podem ser compensados com acertos de morte. Mesmo que uma alma como a minha não tenha realmente salvação. Quem sabe não recupero um pouco do tempo perdido, mesmo que seja através desse absurdo pedido.
*****
Para as pessoas perdidas. Sempre há uma saída.
Até a próxima viagem!!

quarta-feira, maio 24, 2006

Profissão como Reinvenção


O Homem possui dois grandes campos de atuação: o pessoal e o profissional. O primeiro, entre outros aspectos relevantes, incide sobre os moldes do caráter, da personalidade e das relações interpessoais. O segundo se relaciona à realização financeira, à posição do indivíduo na sociedade e, mais precisamente, ao seu papel enquanto agente social. Estes pontos, de extrema importância na vida de qualquer ser humano, são otimizados à medida em que se reconhecem seus valores . E, para isso, o Homem precisa aprender a reinventar-se.
Assim sendo, nos moldes da modernidade, em que vigora vorazmente a individualidade e a competição, cabe ao Homem resgatar valores mensuráveis nas suas próprias ações. O reconhecimento de que seus atos não só interferem no seu próprio destino, quanto no de toda a sociedade, é o primeiro passo para o indivíduo se reconhecer "agente social" e, assim, poder aplicar os erros de um passado imperfeito a um futuro de boas expectativas. Para isso, reside na profissão a maior arma capaz de fornecer ao Homem a capacidade de mudar, a fim de transformar erros pretéritos em tentativas de acertos possíveis.
Dessa forma, a profissão de um Homem corresponde ao motor social que o guia pelo caminho tortuoso construído pela sociedade moderna. E este mecanismo essencial de empreender mudanças, a profissão, gera os meios efetivos para o indivíduo reinventar soluções, para contornar as atuais dificuldades, através da revisão dos próprios atos. Isso se faz por meio de restabelecimento de metas, mudanças de postura, emprego de ética e do equilíbrio de doses salutares de ambição para consigo e de grande generosidade para com o próximo. Diante disso, a capacidade de transformar a sociedade reside justamente no bom emprego de suas atribuições, na constante busca de comprometimento pessoal - através do acúmulo constante de conhecimento - e de compromisso social - pela reflexão de que se tem mais a ganhar em conjunto que por conta própria.
Portanto, vê-se com clareza que, neste caso, reinventar a profissão é gerir oportunidades com base nos acertos, modificando os erros e reconhecendo o papel do profissional como ator social. O bom profissional é aquele que se reconhece peça importante para a ocorrência de mudanças positivas e, assim, busca sempre reciclar a si próprio para, posteriormente, os efeitos refletirem-se, em maior escala, na sociedade. Não obstante modelos pré-determinados ou inovações salvadoras, o mais importante para o profissional de hoje é aprender a reinventar, para fomentar oportunidades futuras, com base num presente que jamais esquece do passado.
***
Fazia tempo que não escrevia dissertação...
Homenagem à inesquecível Venusa Sá Leitão, que me ajudou nessa busca pela reinvenção.
Saudades...

segunda-feira, maio 22, 2006

questões futuras sobre o que já passou


Quanto tempo faz
e não volta mais
O que foi pra traz
não vem jamais
Se não sou capaz
de viver de novo
Só por um pouco
o que passou
Tento entender
o que esquecer
pra não me machucar
tentando lembrar
o que não vai voltar...
E se for mudar?
Eu descubro e me mudo
pra um outro mundo
que volte a ver
o que foi você
no início de tudo...
Tornando absurdos
realidade...
Mas quanta idade
hei de enfrentar
sem rever o que sobrou de você?
Que mais perder
para valorizar
sentimento...
Morre com o tempo
traz lamento,
sofrimento...
O que esconder
pra nunca precisar achar
o que já se perdeu de você?
Já não sinto mais
a escolha de reviver o que há...
Caminhos passados,
memórias de lado,
suspiro acordado,
Olhando à frente, de frente,
apenas para o que virá.

terça-feira, maio 16, 2006

última mesa de bar


Mas e agora o que é que eu faço, sem os seus carinhos, sem os seus abraços, sem o seu perfume nos lençóis manchados, sem sua histórias me envolvendo em laços? Se suas virtudes foram implantadas, se suas comédias transformaram nadas, se suas tragédias foram superadas... E agora? Vá me diga! E todas as brigas que foram resolvidas? E todas aquelas promessas, aquelas saídas? Foram vazias, ocas, sem rumo, sem vida? E todas aqueles momentos de silêncio falado, cujos olhos se encontravam, hipnotizados, e entendimentos se faziam crer? E todas as vontades de ter ao lado, todo apaixonado, te querendo ver, coração roubado, trancafiado, algema e cadeado pra você ficar ? Quem dirá? Quem virá? Quem substituirá uma presença assim, sem fim, sem a possibilidade de você perto de mim? Nada presta, só ficam lembranças de tudo que me resta. Pegue esse copo e anda, pois quem no coração manda não tem vontade de chorar. E se meu choro for pra ti honesto, e mesmo assim, meus restos você rejeitar, suma da minha vida, como leve brisa que vai sem se notar. Abandona, desaprisiona essa alma cuja verdadeira dona há de chegar. Leve suas trouxas, todas suas roupas que nunca mais vou tirar. Se encarregue de levar o aquário, a bicicleta e tudo dos armários, limpe seu cenário, preu não mais notar. Vá, e sem notícia, fique onde está, que desmitifica esse meu gostar. Vá e esconda a dificuldade de tão pouca idade, que nessas horas se faz bem notar. Quem virá? Quem dirá que as certezas de um tempo atrás viram as surpresas do que não é mais?
Não é mais! Escreve num cartaz, segue o que te apraz, não sou mais o teu rapaz, veja o que a vida faz, vá e não volte mais, e me deixe...Que hoje, pelo menos hoje, eu preciso dormir em paz.
***
"...é bom às vezes se perder, sem ter porquê, sem ter razão. É um dom saber envaidecer, por si, saber mudar de tom..."
***
Também é bom imaginar. E assim seria a última mesa de bar.

segunda-feira, maio 15, 2006

os sete


se te ...
se te ...
se te ...
se te ...
se te ...
se te ...
sete.
***
a você.



quarta-feira, maio 10, 2006

queria


Te escutar mais do que orelha
E te beijar mais do que boca

Te sentir mais do que alma
E te amar mais do que peito

Te abraçar mais do que braço
E te amarrar mais do que laço

Te encontrar mais do que olho
E te envolver mais do que molho

Te sentir mais do que medo
E te entender mais do que o resto

Te atesto. E te trago mais do que fumo
Te arrumo. E te levo mais do que pronto

Te encantar mais do que sapo
E te beijar mais do que lábio.

Te ninar mais do que berço
E te virar mais do que senso.

Te perder mais que juízo
E te prender mais do que ato

Te ficar mais do que encontro
E te dar mais do que beijo

Te desejo. E te bebo e te engulo
Te absorvo. E te levo assim sem rumo.
Te admiro. E te guardo mais que disco.
Te preciso. E te meço mais que isso.

segunda-feira, maio 08, 2006

ela tem medo de escuro


Ela sempre foi exímia mãe e trabalhadora, pessoa honesta e decente, daquelas feitas na forma e sem receita pré-determinada. Ela faz compras, limpa cocô de fralda, lembra de fazer cópia de chaves, paga os empregados, leva o celular para o conserto, atende o amor com todo o carinho, paga as contas pela internet do trabalho, lidera diversas reuniões durante o dia, pega os filhos, almoça fora, cochila dez minutos, leva o menor para a natação e o maior para o curso de inglês, volta ao trabalho, mais reuniões, telefonemas, discussões. Ela lembra de confirmar com o motorista a busca dos meninos e de confirmar a presença das babás. Ela lembra de remarcar a consulta de pediatra e do urologista do marido. Ela marca a manicure para a tarde de sábado. Ela lê os emails, ela os responde, ela come lanchinho rápido, ela quebra o salto, ela chora no banheiro, ela passa batom e garante a si mesma que faz o seu melhor. Mas ela tem medo de escuro. Ela teme os momentos que passa sozinha dentro das próprias pálpebras. Ela sofre sempre que é posta contra a parede das próprias reflexões. E, assim, ela se superocupa, se divide praticamente sem deixar restos para si mesma. Os dividendos são seus talentos e o divisor é o mundo que a cerca. E nada resta para ela. Nada ela deixa para restar. Ela não usufrui o quociente resultante das próprias ações. Como se vivesse para servir a propósitos alheios, ela é a artista principal da peça, mas não é ela que recebe o prêmio maior. Não é ela que se sente recompensada por existir e cuidar de tudo ao redor. Ela tem medo de escuro simplesmente porque a luz lhe faz muito bem quando ofusca sua realidade. E é no escuro que ela melhor enxerga os resultados dessa operação injusta. Uma simples conta na qual ela só ajuda a contar, e da qual é agente principal, mas não colhe nenhum dos frutos colhidos. Ela tem medo de escuro. Porque ele revela o que os panos da vida escondem. Porque o escuro a deixa sozinha com sua consciência. Porque ele traz consigo o balanço desproporcional que acusa apenas o doar. Nunca o receber. E só doar cansa. Ela vive uma cansativa vida de concessões de si mesma em favor dos outros. Ela vive em flashes de ilusão que se apagam quando chega o escuro. E, assim, para ela, a escuridão revela mais do que esconde. E não há como se esconder do escuro. Porque ele existe constantemente, até que alguém acenda uma farol. Até lá, ela é obrigada a conviver com os próprios medos. E esses...Ah, esses...ela nunca vai deixar de temer.

terça-feira, março 21, 2006

a postar


Estou a postar este a fim de calar a minha própria boca pedindo para escrever. Como eu tenho certeza de que uma das coisas que mais me dá prazer na vida é, simplesmente, escrever, não há por que não me desdobrar um pouco, a fim de satisfazer este prazer tão proveitoso. Muitos sabem que eu fiquei sem computador um tempo, e por motivos mil, foi retardado cada vez mais o conserto do bicho. Logo, como eu não tenho hora , nem momento certo pra escrever, nem escrevo nada com objetivos previamente concebidos, sem computador em casa é praticamente impossível satisfazer esse meu desejo. Porque eu não consigo direito quando preciso, mas sim quando quero. Porque nada melhor como um ambiente familiar para deixar rolar o negócio no teclado.
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Bem, isso tudo é para dizer que este texto aqui é fruto dum gesto típico do viciado que não consegue se controlar e cai no vício. Mesmo não estando no MEU computador, me deu vontade de escrever. E mesmo correndo o risco de sair algo que eu não me sinta confortável em dividir com alguém depois, resolvi apostar. Isso, apostar!! Estando a postar, aposto em algo que acredito, mesmo que não seja da maneira que eu me sinta melhor.
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Por isso, quero sempre manter esse vício que me faz perder o senso e cair na produtividade boa que é produzir textos. E essa vontade, essa angústia que se forma quando não consigo colocar para fora em letras, palavras e frases meus mais recônditos sentimentos e pensamentos lógico-racionais, parece um choro contido que se acumula e fica preso na garganta. E sai, mesmo quando a gente não está no momento mais propício.
Pois está, este texto é como esse choro preso na garganta.
Mas, é melhor pensar nele como um riso que sai desesperador e dói na barriga depois, de tanto que foi bom...
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Façam suas apostas, estou de volta a postar!!!!

domingo, janeiro 15, 2006

sonho colorido


Sonho colorido é reflexo, espelho e imagem. É um “deja vu” do futuro. É sentir o que se sente, só que noutro corpo. É pensar o que se pensa, só que noutra mente. É dividir idéia parecida e concordar quase sempre. É experimentar conversar consigo mesmo. É ver seus próprios erros na atitude de outra pessoa. É se identificar.
Sonho colorido é ser gêmeo sem cordão umbilical. É perceber-se em outro jeito de falar. É reconhecer-se em outro jeito de andar.É verificar suas opiniões saindo de outra boca e seus carinhos feitos por outras mãos. É passar a acreditar em coincidências e crer no divino de se ver no outro. É acordar e ainda se ver deitado em outro sono.
Sonho colorido é um estágio de conquista que dura para sempre. É dividir semelhanças e falar enquanto se pensa. É falar a mesma coisa ao mesmo tempo e rir disso. É divergir no banal e concordar no essencial; aventurar-se no perigo de utilizar as mesmas estratégias, de demonstrar os mesmos defeitos, mesmo que em diferentes proporções.
Sonho colorido não é escolha; é encontro. Sonho colorido é viciante. É ir de encontro à máxima dos opostos. É contestar o magnetismo dos contrários e verificar que o norte se une a outro norte. O sonho colorido não é parte de um sono que já foi. É o tipo se sonho que se sonha de olhos abertos.
Sonho colorido é pétala de uma mesma flor. É flor de um mesmo jardim. É ter limites parecidos. É transgredir parecido. É impressionar-se a cada atitude. É uma aquarela sem bordas nem pintor. É um infinito quadro imaginário pintado a cada semelhança. É pintar a mesma cor em desenhos diferentes.
Sonho colorido é moeda tirada da fonte dos desejos. É pedido de felicidade. É ter as mesmas paixões. É identificar-se em hábito e rotina. É ter esperança de encontrar alguém com quem dividir felicidade. É relevar e descartar intransigências. Sonho colorido é névoa. Sonho colorido é fortaleza. É sorrir com pensamento.
É coração de mesmo tamanho. É coração.
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As cores desse sonho já duram por três meses. E que venham mais meses, acompanhados sempre, é claro, de novas cores. E de novos sonhos.

sábado, janeiro 14, 2006

nenhum vírus foi encontrado


O antivírus funciona como uma poderosa arma na busca e apreensão dos diversos males responsáveis pelos infinitos danos aos equipamentos da informática. É certo que não são totalmente eficientes na sua tarefa, pois novos vírus são ininterruptamente fabricados por especialistas em destruição, cujos efeitos são devastadores. Porém, devidamente atualizados, protegem contra muitos danos capazes de deletar arquivos, de destruir programas, de apagar memórias, de devastar equipamentos, entre outros.
Já imaginou quão bom seria se nós, seres humanos, também possuíssemos certos dispositivos que pudessem nos proteger dos danos que certos vírus nos causam? Não falo daqueles vírus já reconhecidos pela Medicina e pela Biologia, mas dos vírus que danificam nossa alma, que ferem nosso coração, que destroem nossos sentimentos, que nos tornam cada vez menores (ou maiores). Falo das injúrias do mundo, dos vírus produzidos pela maldade humana. Falo das demonstrações de falta de caráter, do desprezo às necessidades dos mais necessitados. Falo do descaso com o meio ambiente, da politicagem barata, da violência desenfreada. Da prática da maldade, do desrespeito ao próximo, da falta do bem-conviver. Da fabricação de inimigos e da falta de amizade. De saber que se acaba com algo muito mais rapidamente do que o tempo que se leva para construí-lo. Estes sim são vírus reais, mais poderosos do que qualquer outro já produzido artificialmente.
Pois é, como seria bom que fôssemos equipados com antivírus contra esses males, não? Assim, bastaria uma simples atualização, tão simples quanto um clique no mouse, para retirar todas as desgraças intensificadoras de nossa vergonha, para nos proteger das infiltrações da maldade no homem. É a partir desses “devaneios” que é possível perceber que existem, sim, tais remédios. Que há dentro de cada um de nós um antivírus mais complexo e poderoso do que qualquer objeto invasor. É assim que deve ser percebida a capacidade de destruição do homem: uma invasão capaz de ser combatida. Não acredito que o ser humano é inerentemente destruidor; acredito, sim, que é de nossa natureza a capacidade de renovação. Que podemos nos reconstruir através de nossos próprios erros, que podemos atualizar o nosso antivírus contra tudo o que nos faz sofrer.
Mas a maldade é voraz e sempre se acostumou a esconder de nós um artifício tão importante para a nossa sobrevivência. Os efeitos das tragédias de nós mesmos são tão devastadores que nos impedem de ativar nossos antivírus. E por isso deixamos que nosso HD seja consumido pela mesquinharia, que nossas memórias sejam devastadas, nossos arquivos mais importantes não possam ser acessados...Somos responsáveis por nossos rumos, somos responsáveis por nossas próprias agruras e angústias.
Está certo que não somos protótipos de bondade, mas também não somos projetos de maldade. Como muitos dizem, temos o bom e o ruim dentro de nós...Isso pode até ser verdade, mas o porquê de o mal previamente transparecer é tão deprimente, que me recuso a acreditar que possuímos potencial de destruição. A podridão, a gente consome; não produz. Ela está aí solta para ser absorvida pelos mais fracos. Não nascemos doentes; adoecemos. Nascemos inocentes e somos corrompidos pela corrupção. É triste demais acreditar que somos pré-dispostos para algum mal. É melhor pensar que não temos pré-disposição alguma... Estas vão sendo alimentadas ao decorrer de nossas más/boas experiências, desde a placenta ao caixão.
Como já dito, somos máquinas ambulantes de reinvenção, não de tragédias, e do mesmo modo que fabricamos armas de destruição, podemos fabricar antídotos de sobrevivência. Contesto plenamente o derrotismo e aprovo conscientemente o otimismo no mundo e nos seres humanos. Somos capazes de derrubar árvores, mas podemos plantá-las. Matamos, mas criamos vida. Roubamos, mas damos presentes. Erramos, mas acertamos depois. Caímos, mas levantamos em seguida. Odiamos, mas amamos. E amor é muito, mas muito maior.
Enquanto houver mãos para lutar pela vitória, não estaremos derrotados. Devemos sempre admitir que temos um potencial de mudança bem maior do que nós mesmos ou qualquer outro acreditam. E esse antivírus é a consciência de que somos capazes de burlar os maus exemplos e aprender com eles e não praticá-los, mas superá-los. Quem já superou alguma doença que parecia irrecuperável ou que já atingiu limites aparentemente inalcançáveis sabe do que eu estou falando. Enquanto existir a força para não desistir, a força de resistir, nós podemos sonhar com um mundo menos injusto, menos sedento por sangue, com menos disputa e mais ajuda. É assim que se conquista o caminho de momentos mais felizes, com boa vontade e certeza de êxito.
Nossos antivírus são nossos ideais. É preciso perceber que possuir um ideal não é ilusão, mesmo que o Mal seja tão grande a ponto de nos fazer querer jogar tudo pro alto e nos entregar. É Neste momento que temos a maior certeza de que devemos prosseguir, pois é sinal de que o mundo precisa mais do que nunca de nossos ideais, para que o Bem seja maior. Nunca é pouco acreditar. E acreditar não é um simples sopro no vento. É fazer ventar!
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Mais um texto de uma leva meio antiga. Este, na verdade, é o segundo de uma tentativa pessoal de fazer brotar em mim alguém que escreve no sentido estrito da palavra e não só "escreve" histórias loucas que se perdem nas loucuras da mente. Nossos antivírus são nossos ideais. Não deixe seus ideias se perderem em suas loucuras e faça um pouco de vento com os papéis de suas idéias.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Reticências...


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Não demora muito e aparecem reticências em nossas vidas...Frases não-ditas...Subentendidas...Momentos para lembrar...Para esquecer...Saudades...Projeções...Desejos não atingidos...Não-satisfeitos...Promessas não cumpridas...Promessas desfeitas...
E com isso, crescemos...Aprendemos com as reticências e com o silêncio que elas representam...Vazias?... Erro crasso... Elas são infinitas... Preenchidas por tudo o que quisermos...Elas são completas pela sugestão...Imensa responsabilidade a de preenchê-las...Responsabilidade nossa...Reticências são por excelência nosso mais lacunoso recurso...Representam o que quisermos que elas representem...Traduzem a ignorância e a sapiência...A tristeza e a alegria...O momento e a espera...A vitória e a derrota...O erro e o acerto...A surpresa e a antecipação...O início e o fim...Significam opostos...Daí a necessidade de saber usá-las...Este instrumento poderoso de quem quer se fazer entender ou confundir...Reticências são fins inacabados...Esperanças de uma continuidade ou a certeza de algo incerto...Pistas...O caminho para as pistas...A vontade e o desprezo...Respostas sem perguntas...Perguntas sem respostas...São qualquer coisa ou quase nada...São o que buscamos e do que fugimos...São a saída e a prisão...São a clareza e a vagueza...São o simples e o complexo...São o meu e o seu...São o que não quero e o que desprezo...São palavras e a falta delas...Dizem tudo e se calam...São precisas e aleatórias...Riem e choram...São obscuras e diretas...São objetivas e metafóricas...São transparentes e opacas...São místicas e racionais...Introduzem e concluem...Produzem e estatizam...Plantam e devastam...Perturbam e acalmam...Conquistam e decepcionam...Esperam e se fazem esperar...Agilizam e demoram...Significados sem significância...
Meu medo e minha coragem são reticentes...Todos somos reticentes...Até que morremos e elas acabam...Acabam-se a criatividade e a arte criadora... Até que ele, sondando, repentinamente se faz perceber...Ele vem e as leva, as afasta, as apaga...E as rouba para sempre, finalizando sua grandeza...Arrasta tudo...Mas não descarta as saudades...Vem como um furacão solitário e destruidor...Vem e se faz logo notar...Devastador...Misterioso...Melancólico...Vem e decepciona nossa imaginação...Não sugere e não produz...Ele nos elimina e não recomeça...Fria e calculadamente ele se aproxima...E, assim, aparece, uno e pobre e pequeno e poderoso ponto.
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Texto mais antigo, alguns já conhecem, mas não podia deixar de constar aqui. Meu ponto ainda não chegou, portanto tenho que aproveitar as reticências, não??

quarta-feira, janeiro 04, 2006

brincando de ser criança


É bom brincar de ser criança. E essa brincadeira deve ser levada muito a sério. Todos conhecem a máxima mais que certa de que todo mundo quando cresce deseja voltar a ser criança. Porém, o tempo, implacável como ele só, nos nega veementemente essa possibilidade. Contudo, quem nega é o tempo, meus caros. Apenas ele. O nosso estado de espírito, nossa imaginação, nosso coração...não! Contra estes nada o tempo pode fazer senão fazê-los envelhecer. E isto ele faz com voracidade!! Só que nós podemos contra-atacar!!! Como?? Bem, esse é o assunto a ser discutido.
Somos extremamente vulneráveis aos efeitos devastadores do tempo. Ao fazer o que nos é de mais direito fazer, viver, nos entregamos aos braços imbatíveis do senhor tempo. E o viver para muitos significa amadurecer, acumular experiências, crescer em todos os sentidos e seguir em frente na longa (ou breve) escalada do senhor tempo até chegar a hora da despedida. E esse viver muitas vezes encontra por este caminho obstáculos diversos, que nos fazem apagar o passado com uma bocharra boa pra danar, nos tornando a cada dia que passa adultos igualmente sérios e compenetrados em estudar, trabalhar, pensar no futuro, futuro, futuro. Nos faz deixar de rir, nos faz deixar de brincar. As responsabilidades trazidas pelo senhor tempo tendem a não nos conservar aquela criança que habita em nós e aí se esconde . É então que entra nosso grande ponto a favor que temos contra o tempo. É não deixar morrer essa criança. Podemos viver, sim, mas com alegria e sinceridade de criança. Podemos e devemos ser adultos, com todos os afazeres de adultos, com ordens a dar e a seguir, gente para educar, contas a pagar, viagens a fazer, mas sempre com um sorriso que conserve aquela ingenuidade e honestidade infantil nos lábios. Sempre com aquela disposição interminável que nos faz perder os limites vez em quando.
A infância é o período mais curto de nossas vidas e dela apenas levamos flashes, bonecas carecas, carrinhos sem roda e roupas pequenas. Devemos levar muito mais. Devemos levar sempre conosco aquele pequeno grande coração que foi desamolecendo ao longo do senhor tempo à medida que cada vez mais aumentava o volume de sangue bombeado. Devemos sempre nos lembrar da criança que fomos para formar o adulto que queremos ser.Eis mais um motivo por que devemos levar tão a sério esse negócio de ser criança, sem medo de nos chamarem de infantil. Antes ser um infantil, meus caros, a não poder reviver a criança dentro de nós por esquecer de ter sido uma. Seja criança novamente não só por você, mas pelo mundo ao seu redor, que a cada minuto transforma o sentido dessa palavra. Não deixe a infância morrer. Nem que para isso você deva ressuscitar a sua dentro de você.
Por isso é bom brincar de ser criança. E antes que o senhor tempo devastador leve para muito longe a criança que um dia você foi, dê uma volta na grande roda que é a vida e ‘bata salve-todos’ pela sua.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

(dois mil e seis) sorriu para vocês


O passado ainda está tão presente, que fica um tanto quanto difícil de prever o futuro. Mais um ano se despediu de nós e fica sempre aquela balança invisível de nossas cabeças que regula os arrependimentos e as novas resoluções. E aí sempre rola aquela avaliação se foi um ano bom ou ruim. Para mim, não existe ano bom ou ruim. Vá lá dizer que um dia foi bom ou ruim, mesmo porque 24 horas nos permitem fazer uma avaliação mais detalhada. Já 365 dias se trata de um espaço de tempo muito grande – ou não – para que se diga se foi um período feliz ou não. Avaliar se foi um ano positivo ou negativo é tão difícil porque para mim esta avaliação está intrinsecamente ligada ao conceito de felicidade. E este é um dos sentimentos mais complexos, pois chego até a duvidar sequer da permanência dele. Assim como acho que há apenas momentos felizes – e é só então que a felicidade aparece -, da mesma forma me é complicado avaliar se 2005 foi feliz. Teve, portanto, momentos felizes. E se a felicidade em sua completude existe, ela se fez presente apenas nestes momentos.
“Por onde vou guiar o olhar que não enxerga mais?”, disse o poeta, abrindo espaço às previsões, à vontade de ver a luz, de conhecer o que está por vir. De ver anunciado o horizonte distante que, quem sabe, guarda momentos felizes. Assim é 2006, um ano de esperanças diversas, mas um ano de pés no chão. Sabe aquele texto lá em baixo sobre incerteza?? Pois é, deixe a incerteza positiva guiar este ano que lhe mostra os dentes! Deixe a retrospectiva de 2005 ser ofuscada pela falta de uma expectativa detalhada de 2006. Não espere muito de um ano que mal começou. Planeje-se, trace objetivos, organize-se. Mas não tente prever cada detalhe. Não tente supervalorizar os percalços, as dificuldades. É com a improvisação que mais se aprende. Guie o novo ano como um encapuzado que vai aprendendo a enxergar melhor com os outros sentidos, em vez de morrer sufocado. Burle a pontada de vontade que sempre dá de desejar a perfeição ou um divisor de águas que vá mudar tudo repentinamente. Porque certamente seu pedido não será atendido.
Apronte-se para 2006!! Ele se apresentou com um sorriso para você. Cabe, então, retribuir a simpatia com muita garra e força, para no final dizer que ele valeu a pena, seja sendo avaliado como bom ou ruim por você. Para mim, 2006 já é um ano de momentos felizes, pois começo com saúde, disposição e, melhor ainda, tenho família, amor e amigos para me ajudar caso um destes me falte no trajeto. Portanto, não há o que tentar prever ou esperar; há o que viver !!!! 2006 sorriu para vocês!! Faça como diz a boa-educação e humildemente sorria de volta. E, se puder, seja mais ousado: estenda-lhe a mão e o convide para dançar.