sábado, março 31, 2007

O esboço de Constâncio


É difícil a vida de viver onde não se sinta vivo o suficiente. O fato de completar-se não é um fato. É um ato!! Nós somos inerentemente incompletos, ao ponto de, por mais esforços que tenhamos com o objetivo de preencher-nos os vazios, mais valas interiores vão se formando, clamando por novas metas, novos preenchimentos.

Muitos hão de dizer - e o dizem - que nossa incompletude é a maior arma contra o desmantelo da acomodação. E até o é; mas não é imprescindível! É um elemento que, se presente, ótimo; se ausente, no caso daqueles seres de poucos desejos e de fácil satisfação, não é um grande mal.

Diante dessas reflexões, Constâncio sentia-se insatisfeito. Porém, não do medo subjacente à nossa natureza- não era do constante desejo do mais de que ele prescindia. O mal de que padecia Constâncio era o de exercitar algo recompensador, consubstanciado na tragédia de viver racionalmente no pátio da segurança monetária, em detrimento da satisfação emocional de viver do que se gosta.

É isso mesmo: faltava-lhe estímulo. Faltava-lhe calor e ânimo. Estava cansado de tentar e tentar novamente tentar de novo. Havia desistido de buscar resgatar o pouco que sobrara de um amor que na verdade nunca acontecera. Sentia-se engatinhar enquanto outros quebravam recordes. Acumulava sensações de inadequação à medida em que acrescia o desdém por sua atual condição.

Eis o ato-fato interessante: a incompletude que deveria impulsionar a luta de Constâncio contra seu aflito desespero era a principal responsável pelos seus ensaios de desistência! E desistir a esta altura da vida seria até honesto, mas seria feio e covarde e desinteressante.

Assim, num arrasto desequilibrado, num piloto-automático sem muita rota, Constâncio apenas seguia a fila, andava sem guiar-se sozinho, no encalço dos passos da frente. Ia em direção à luz do que lhe garantiam ser seguro, mas sem cultivar os otimismos das centenas de boas conquistas que constantemente lhe atribuíam. Diante disso, das duas uma: ou Constâncio continuaria este eterno esboço mal-feito e mal-determinado ou cairia na depressiva mediocridade da falha irrecuperável do fracasso pela desistência.

Caso não superasse suas dificuldades - esses temores irritantes do que seria do futuro, tendo em vista o triste presente -, certamente Constâncio desviaria dos dois destinos acima preconizados. Pois não havia nascido para ser modelo de rotina que reproduz em vez de criar, nem muito menos para sucumbir à miséria de diluir-se no erro da incompetência.

Portanto, eis a estratégia elaborada por Constâncio: perpetuar-se-ia pelo caminho inóspito das lamúrias do desconforto de não se completar - tentando desperadamente buscar algum sentido escondido nessa viagem turbulenta e aparentemente desproposital- , mas acresceria às suas virtudes o revigorante exercício de buscar perceber o momento certo de aventurar-se no que passaria a dar-lhe prazer, e não sucumbir ao que o matava de tédio. Restava saber apenas se Constâncio teria a suficiente coragem de redirecionar suas coordenadas quando o grande momento chegasse. E mais ainda, se ele perceberia tal momento.

Logo, Constâncio, que nunca usara um bússola, seria obrigado a encontrar seu verdadeiro norte quando a vida, enfim, o apresentasse à grande oportunidade de mudar, o que transformaria uma vida esboçada no trabalho evolutivo da construção de uma Obra, no mínimo, bem encaminhada.

segunda-feira, março 19, 2007

Entropia peculiar (des)equilibradora


Aprendi em química que as moléculas, dependendo do estado físico da matéria, agrupam-se afastadas ou próximas umas das outras. Quando bem próximas, eis o sólido. Afastando-as mais um pouco, líquido. O grau de afastamento maior determina o gasoso.

Eu me penso como um ser sólido. Tudo bem que tenho líquidos e gases, e que muito do meu corpo é formado de água, portanto minhas moléculas, caso sigam as leis da química, estão num estado meio que próximo-afastado. Mas, não obstante à liquidez que me faz organicamente vivo, há massa. E essa massa entendo como responsável pela minha solidez. E o que visualmente entendo como sólido, interiormente entendo como...há algo mais gasoso do que o gasoso?

Há momentos em que a entropia interior que nos acompanha destrutura qualquer arremedo químico, engana quaisquer experiências físicas mirabolantes, camufla seja qual for a lei científica...E essa desestruturação interna na prática poderia refletir uma mudança de estado físico, mas na minha louca teoria de existir representa uma fase de procura, de confronto e de constante adaptação. É a minha entropia. Uma espécie de desorganização conflituosa e problemática. Confusa. Prejudicial. Mas intrigante. Questionadora. E desafiadora. Uma típica entropia peculiar (des)equilibradora. Trata-se de um estado de existir representado pela ausente presença da lucidez, pela corajosa covardia de desestimular-se, pelo apropriado sentimento de sentir-se impróprio. Deslocado. Como se a certeza do caminho aparentemente certo mostrasse agora quanto o fora falho. Como se a opção pela saída racional não fosse suficiente para completar as emoções mais necessárias do agora. Como se o impulso avassalador de deixar-se engolir pelo caminho irremediável da desistência se mostrasse encantadoramente convidativo. Alucinógeno. Desvirtuador. Mais forte?

***

Não sei ao certo explicar como tais escolhas passadas, agora questionadas no presente, serão capazes de determinar meu futuro. Mas sei que durante algum tempo tal estado de entropia seguirá confundindo minha psicologia de esquina.

Que a melancolia disfarçada de gentileza e fortaleza simpática siga sempre a esconder tal descontrole!! Imperceptível. Mas confessional.

Como os pecados que precisam de rezas e arrependimentos sinceros, assim discorro sobre a minha entropia. Um estado quiçá passageiro que ensine a grande lição de que o determinante na busca pela razão de existir é a consciência inconseqüente sobre o que nos constitui. Talvez essas moléculas estejam desarrumadas mesmo, talvez estejam me desorganizando, me desarrumando..Mas talvez representem a desconfortável sensação do conserto. Da cicatrização.

Que venham as marcas desse desarranjo transfigurado em crescimento. Talvez falho para uma experiência química, mas engrandecedor enquanto confusa experiência de vida. São esses momentos de encruzilhadas cortantes, perigosas e desconhecidas que nos tornam essa mistura molecular densa, porém humanamente encantadora...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Conviver


Relacionar-se com outras pessoas talvez seja um dos maiores desafios que enfrentamos nessa vida. Primeiro, porque, para se sair bem nessa tarefa, é preciso uma boa dose de maturidade. Segundo, porque é preciso paciência. E terceiro, necessita-se de uma isenção enorme de sentimentos egoísticos, além do exercício constante da famigerada senhora de todas as boas relações: a generosidade.

É isso: para conviver bem em sociedade, é necessário generosidade. E a prática desse despreendimento consigo mesmo o leva a adquirir confiança. Esta última concede a segurança exata que um ser humano precisa para conviver com o outro. Confiar no que você sente, confiar no sentimento do outro para com você...isso é capaz de alçá-lo à posição invejável de uma vida de conflitos facilmente resolúveis...

Há pessoas que não sabem lidar com os problemas de convivência. Estes, alimentam vorazmente os problemas como uma espécie de escape infindável...Como se precisassem sempre dos conflitos para sentirem evoluir suas relações..como se as agruras de um desacerto momentâneo fossem impulsionar aquela relação ao desejado. Contudo, este acúmulo de problemas, esta dificuldade de saber lidar com os abismos de diferenças entre as pessoas, na maioria das vezes mina as relações. E o que num momento pode parecer a solução de uma briga recente, é apenas um "empurrão com a barriga", um "varrer para debaixo do tapete"...É um leve paliativo.

Evitam-se problemas quando para-se de questionar incessantemente as atitudes do outro. Ou então quando se é tao certo das razões deste, que se torna desnecessário qualquer questionamento. É preciso que paremos de duvidar das escolhas daqueles que escolhemos para conviver. Devemos orientá-los, aconselhá-los. E, em troca, pedir orientação e aconselhamento. E não requerer respostas, mudanças e explicações para tudo que nos aflige.

Se o o objetivo é a boa convivência, não é através de desconfiança e insegurança que se chegará a algum lugar. Alimentar tais sentimentos apenas nos afasta daqueles de quem mais gostamos, daqueles com que podemos mais contar. Tornamo-nos cansativos e problemáticos e difíceis, algo que aponta apenas para péssimas expectativas.

Então pronto: assim estamos combinados. Quando alguém falar de você, eu te escuto antes de te acusar. Quando eu duvidar de algo que você diz, eu tento entender na hora o porquê desta dúvida. Se você escolhe alguém para conversar em vez de mim, eu tento compreender que talvez o outro tenha realmente algo que você precise mais. Eu não te acusarei sem ter certeza. Eu não esconderei suas faltas. Eu as esfregarei na sua frente e mostrarei o caminho certo. Eu duvidarei de cada um que vier iludir-me sobre você. Pois, afinal, se eu gosto de conviver com você é porque eu te amo. E nada, nem mesmo os meus problemas, são maiores do que este sentimento.

Ok, estamos combinados. E é assim construiremos boas relações...através da ajuda, do entendimento e da prática disseminada da intransitividade do verbo amar, em seu mais alto grau de fácil complexidade. E pronto. Prontos estaremos para conviver. Ótima teoria. Pratiquemos!

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Nossos abadás são nossas fantasias


Quando dou os primeiros passos pelas pontes coloridas, em direção ao som dos trombones misturados às batidas do maracatu; quando vejo pais carregando pequenos nos ombros, serpentina, confete, alegria, distribuindo amor; quando vejo as troças, os batuques, os mangue-boys, os alternativos, as sandálias de couro, os ambulantes, o cheiro de gente passando, vivendo, suando, cantando, comendo...cheiro de gente reunida para dividir felicidade. Quando eu vejo tudo isso, meu coração salta do peito ante à ansiedade do momento de me inserir nos festejos. Como admiro o carnaval de minha cidade!!
Como é lindo ver tantas pessoas entoando em uníssono as mesmas canções todos os anos...canções estas que soam como verdadeiros hinos, emprestados de épocas passadas, e que permanecem vivos através do exercício desse resgate. Quanta coisa para se admirar!! Ficaria horas apenas observando toda essa folia, todo esse descer e subir de ladeiras, todo esse êxtase dividido...toda essa harmonia resplandecida nos rostos e sorrisos e beijos e notas cantadas dos artistas dessa grande obra!!
O Carnaval de Recife e de Olinda merecem homenagens mundiais, pois carregam como principal atrativo a possibilidade de congregar todos num só grupo...Brancos, negros, velhos, pobres, bebês, ricos, muito pobres, muito ricos, homens, mulheres, crianças, bons, maus...brincam todos lado a lado e parecem, por alguns dias, esquecer das dificuldades por que passa esta cidade nos últimos tempos...
Porque bastam as primeiras notas do "Vassourinhas", para que todos - todos- entoem numa só voz o 'pã-rã-rã-rã-rã-rã-rãnnnn", em homenagem à festa, às suas cidades, ao frevo e à beleza do que significa um carnaval de todos. Sem distinções, sem convites, sem divisões, sem barreiras. Com amor, união, paz de espírito e no coração e muita, mas muita vontade de festejar a felicidade de viver um bom frevo.
Nossos abadás são nossas fantasias!!!
E como "todo carnaval tem seu fim", que o saldo final destes dias seja apenas pés cansados e um sorriso no rosto que, se puder, permanecerá ao longo do ano.
Sexo com camisinha! Não às drogas! Não à violência! Sim à folia e à gentileza de cuidar bem de si e do folião ao lado nesse carnaval. Esses são meus votos a todos aqueles, que, assim como eu, vêem nessa festa mais do que uma simples esbórnia disseminada, mas uma verdadeira comunhão de todas as gentes. E como eu tenho orgulho dessas gentes nessa época...e que época!!!

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Escamas


Vejo o reflexo de
minhas escamas
e as toco com os braços
que já não esticam tanto

O áspero do que fora fino
O opaco do que tinha viço
A água dos meus olhos tem menos brilho
- reflete minha saudade -
prevê a última liberdade

Os cabelos poucos hoje me lembram
de tudo aquilo que já perdi
mas meus sonhos também mostram
os frutos que colhi

Se a minha constatação
encontra em meus sentimentos
uma barreira para evoluir,
talvez venha por emoção
o caminho mais ameno antes de partir

Mas eu choro de tristeza
pelo que em mim não reconheço
e qualquer otimismo
que o meu sentir possa me dar
empalidece ante a poderosa
mania do tempo passar

Mas quando penso que ainda
te tenho ao lado
Fico certo de que é este sentimento
o libertador deste meu fardo

E a minha pele se transformou
em escamas...
Mas ensinou que não fui só alguém que amou;
sou alguém que ama.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Declaração


Caro amigo,


mil dificuldades são acrescidas ao trabalho de se dizer o que se sente quando o sentimento a ser descrito é tão grande quanto o que sinto. Mesmo porque a amizade, apesar de ter se tornado uma prática banal, continua inabalavelmente complexa de se resumir em simples palavras, como qualquer forma de sentir complexa. Complexidade e completude. Descrever o quanto completo me sinto ao seu lado talvez seja a melhor maneira de iniciar meu tangenciamento pessoal por tal nobreza. E esse preenchimento causado pela sua companhia não é uma dependência: é um acréscimo de entusiasmo, é um exaltar de espírito, é um sentir-se bem. É um sentir maior. É você me tornar melhor do que sou, simplesmente por me fazer acreditar em mim mesmo. Esse é seu grande crédito, amigo. O de me pôr nas nuvens quando necessito, sem esquecer de precipitá-las quando ultrapasso meus limites. Você é um dos poucos que compreende a medida relativa da minha auto-confiança. E, assim, aprendeu a ler todos os sinais de necessidade que transmito com um simples suspiro. Você especializou-se em mim, tornando-se capaz de entender as minhas linhas, os meus olhares, o meu soluço, os meus olhos úmidos, a minha boca seca e o meu gaguejar. Você acredita nas minhas histórias e embarca nas minhas loucuras, me ensinando paulatinamente a não misturar o que desejo que aconteça ao que realmente já aconteceu. Você tem me mostrado que a vida é um acúmulo desordenado de erros e acertos os quais temos a missão de organizar, se quisermos evoluir. Tê-lo como amigo me engrandece, me faz perceber o quanto sou importante e me orgulho de mim mesmo por tê-lo conquistado. Me orgulho daquele que és, e daquele que sou quando estás. Mas, acima de tudo, aprendi a orgulhar-me mais ainda daquele que sou quando na sua ausência. Afinal, você me ensinou várias lições. E, dentre tantas, está a honrada prática de saber querer bem o ser humano. Isso me torna muito melhor. Isso nos torna melhores.

E, com você, essa estrada pode até ser perigosa, mas se torna mais segura apenas por caminhá-la ao seu lado.

Meu amor por você é eterno, amigo.

Eterno, amigos.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

A Deus inconformado



- Eia, desgraça...Se fostes pouca, não terias graça!
- Quanto lamento, amigo, posso ajudar?
- Não, não se incomode...ninguém pode!
- Que é isso, companheiro...tenho ouvidos..pode falar!
- Obrigado, cumpádi, num é de ouvinte que preciso...
- Está certo...Não se preocupe...estou aqui por perto!
- Na verdade, não acredito mais na humanidade!
- Que é isso, amigo? Foi grande assim a crueldade?
- Foi, foi, cumpádi. Afiada como faca de verdade.
- Mas do que se trata? Alguma ingrata?
- Nem me fale, nem me fale, aquela bandida...!
- Vamos, amigo...Se abra, quem sabe a gente descobre uma saída!
- Só a morte, compadre, só ela pra me dar sorte...
- Calma, amigo, calma...Sem desespero...Há quanto tempo?
- De mentira? Perdi a conta! Se fazia de Santa!!!
- Que lástima...Era bonita?
- Era, compadre...a luz da minha vida...
- Vixe, companheiro..Veja o lado bom, estás solteiro...!!
- Não quero, amigo, não quero!! É ela quem venero...
- Mas se foi, amigo, se foi...Não são mais vocês dois...
- Eu sei e é por isso meu lamento...Foi-se como o vento...
- Que desgraça, que desgraça...Maldita seja tanta beleza...
- Maldita, compadre! Danou-se como a correnteza!!
- Chega, amigo, larga de birra...Enxuga o choro na manga e pega essa pinga!
- É difícil, cumpádi, cravou no peito...Perdeu todo respeito.
- Imagino, amigo, que sofrimento...Mas vivamos, pois a vida continua!
- Pra você, que tem bom casamento...
- É verdade, companheiro, não contesto! Mas de resto, tens responsabilidades...
- Não me importo, sou um homem morto! Minha sina é viver pra sofrer!
- Arruma a tua vida, hômi, toma tento! Um homem resiste a tal sofrimento...!
- Sofrimento é minha ordem, companheiro...À desordem, seguirei..
- Não permito, meu amigo, não te iludas! Até Judas foi perdoado...
- Perdão??? Àqueles safados?? Não me tomes por covarde, cumpádi, sabes que não é assim...
- Tudo bem, tudo bem...Mas, enfim, quem é que chora? E agora? O fim?
- Sim, sim...o fim...estou disposto...Não tenho mais gosto de viver...
- Então, amigo, me desculpe, mas és acima de tudo um covarde.
- Não me importo, cumpádi, já disse... e sem alarde partirei...
- Nunca hei de deixar! És adulto!! Que insulto ouvir tal insanidade!!
- Não se exaltes, compádi...já passei da idade... não tenho mais norte...
- É o que pensas, amigo... Veja, tudo tem um sentido, uma razão de ser...
- E minha razão morreu quando ela partiu, caro amigo. Adeus!
- Não, o que é isso? Por Deus, largue essa arma!!! Escuta o que te digo!!
- Obrigado, companheiro, és um homem digno...
- Que desgraça, é uma tragédia! Como podes ir assim?
- Como alguém que amou demais até o fim...
- Pensa bem, amigo, olha lá...Não se precipite...
- Desculpe, cumpádi, se a isso assistes...Mas diga a ela que sempre foi dela meu coração...
- Não, não, não!!
- ...

- ...

domingo, fevereiro 04, 2007

Menininha no cantinho


Menininha no cantinho
não chores, menininha
veja que gracinha
as borboletas passando
esquece da barriga
segura teu irmão
não se deixe abalar
ôh, menininha
queria poder embalar
tua dor e teu desgosto
com o meu desejo de que
(sobre)vivas
não chores, menininha
levanta essas pernas
se arruma e enxuga esse sal
pois na vida tem doce
longe do amargo em que te arrastas
Não descanse, menininha...
Sua história não é finda
sua mãe já se foi
mas não estás sozinha
carrega esse menino
e ensina a ele que tua vida não é uma sina
diz que é como a vida ensina...
diz que é lição...
não diga ao teu irmão
as verdades sobre o que te faz chorar
Não deixa esse menino
deixar de acreditar
Enxuga essas lágrimas, menina
e diz a ele
que miséria não é castigo, nem destino
é descaso, injustiça...é manutenção
E como toda boa menina,
menininha,
Levanta essa cabeça e diz pra mim
que tudo que fizeres, tudo que aprenderes,
passarás a essa criança.
E que sejam boas as mãos
que os ajudarão nessa estrada.
Vá, menininha,
levanta esse queixo
e perceba que tua honra te ilumina
Tenha esperança!
Pois hoje, menininha,
conservas rosto de criança,
mas foi hoje que deixastes de ser menina.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Gente de bem











Lá vem o menino...
Qual será o seu destino?
Pra onde vai com essa cara?
Onde estará meu dinheiro?
Seguro?
Por que veio tão perto?
Que sujeira...
Aah, encostar é demais
Que ultraje!
Isso lá são trajes?
Nem esmola é assim tão pobre...
Tão podre...
Por quê se mexe tanto?
Será que quer alguma coisa?
Não me peça, não me peça.....
Vaaaaaai, motorista.....tenho pressa!
Esse menino que não desencosta...
Quem gosta de tal proximidade?
Se ainda fosse apresentável...
Que desagradável....
Acho que desço na próxima.
Não é possível...inadmissível!
Que figura inconveniente !!
Culpa do governante e desse monte de gestante!
Parideiras de delinqüentes!
Que lástima...
Meu melhor perfume...e agora?
É o mesmo que jogar fora...
Tão caro... me era tão caro...
Alguém faça uma caridade!!
Retire este guri de perto de mim!!
Que nojo! Que desgraça...
Não vejo outra saída...descerei naquela praça..
Maldito mecânico.. maldito carro...
Calma, calma, sem pânico...
Só mais um segundo...próxima parada.
Não agüento mais esse cheiro...de maloqueiro.
É agora! Finalmente...sai, sai, dá licença...
Tomara que ele não encoste mais.
Não vejo a hora de deixar pra trás.
Graças, graças, paguei todos meus pecados...
Deus sabe o quanto rezo,
mas desprezo estes danados...


***


- Hã? O que foi? (Ai, Meu deus....me puxando...) Até quando? O que é? O que é?
Desencosta, lezeira! Que situação.... O quê? Minha carteira? Caiu no chão ??? ......
Obrigado.... infelizmente não tenho trocado.









quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Mentecaptalizada


Um salto agulha, brilhante

Um casaco madrepérola

da última estação

vestindo meu guarda-roupas privativo

à espera de uma ocasião

Tanto garbo...tanto crédito

encalhados no enxoval de meu orgulho

expostos nos cabides de minha pujança

encaixotados nos egoísmos de minha ambição

Mas não surgia oportunidade

nada estava à minha altura

Evento algum correspondia

ao incentivo da ostentação.

Nada me satisfaria!

Não haveria páreo!

A facilidade me desestimulava!

Sigo a colecionar cifrões

e pedras nos meus cofres.

Seco os recursos dos meus dotes.

Espalho o glamour dos meus decotes

aonde quer que eu vou.

Gasto meu tempo e meu lazer

no acúmulo de mimos.

Captalizo minha mente com novas botas

Mentalizo o que capto do que notas

Nasci para ser admirada!

Vitrine de uma sina lastreada

Consumida pelo verde opaco

de uma vida equivocada.





quarta-feira, janeiro 31, 2007

P.A.


Nem tanto, nem tão pouco

Sempre foi assim

Tãos quantos...

Não é santo...

Simples assim


Sempre atrás, nunca vencedor

Da média, acima

Abaixo dos melhores...

Há muitos piores...

Incomoda a rima


Costume do destaque, nunca teve

Próximo ao sucesso, constante

Pior é ficar tão perto...

E ter como certo...

Desfalques no instante.


Medo do fracasso, não é moda

Já se arriscou; hoje desiste

Progressão não é geométrica

é aritmética...

Enquanto se distancia, triste.


Tenta se acalmar, jogo do contente

Não consegue se sobrepôr.

A força é forte, mas escapa

E se torna fraca...

Ao saborear a dor.


Morde os dedos, reflete

Tenta explicar, traduzir

Se há códigos, sinais

Se há respostas, talvez banais...

Para fazê-lo sorrir.


Talvez o tempo, talvez a morte

Traga a sorte lançada a esmo

Muito embora ele saiba...

Que a solução caiba

nele mesmo.


E se dentro é que se nota?

Se ele esconde o que o valha...

Como achar o camuflado,

Sem a ajuda do soldado

Que fraqueja na batalha?


O que perturba é estar tão perto

E mesmo assim não conseguir

Melhor longe e absorto

Do que perto e quase morto...

Impedindo de sorrir...


Mas se sorriso é um fim certo,

que aprendizado há de chegar?

Aflição da demora da vitória?

Reconhecimento da glória?

Talvez seja o que virá...


numa história pra aprender

que a glória de vencer

não está nas armas que se usa,

mas nas que se deixa de usar










sábado, janeiro 27, 2007

Os cadarços












Hoje meus cadarços desamarraram.
ao abaixar-me, recompondo os laços,
dei de olhares com seus passos
vindo velozes, me derrubaram.
#
Fingi não notar seu embaraço
quedei-me a agradecer pelo encontro
não fossem aqueles velhos cadarços
o meu não encontraria com teu ponto.
#
Cuidou-se de recompensar com gentilezas
o descuido que me vitimara
e não pude esconder da minha cara
meu encanto com tuas belezas.
#
Agradeci por toda atenção
mas se foi em pés descompassados
não antes de sonhar a ilusão
de uma dia vir a ser seu namorado.
#
Mas a coragem de falar não foi bastante
guardei para mim minha impressão
percebi que passado aquele instante
jamais haveria outra ocasião.
#
Dei por mim, pela rua iam seus passos
na velocidade que cultivavas
pude ver, agora eram os seus cadarços
os que se desamarravam.
#
Eis que de longe não pude me conter
ao seu encontro, veículo em movimento
tentei falar, gritar, correr,
mas não deu tempo.
#
Você...derrubada pelos laços desatados.
Eu me despedi do futuro que me tiraram,
abençoando os cadarços que a trouxeram
e lamentando pelos que a levaram.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Cafonice










Aquele que se apaixona
é cafona
Esqueça o que alguém já te disse
Viva à cafonice!!
*
Se te bater forte o coração
não é porque já disseram
que você vai deixar de dizer
*
Se não controla a emoção
foram eles que sofreram?
Não! Foi você
*
Retire os dedos alheios de seus sentimentos
apodere-se do que é seu, se se atreve
Se eles estão por fora e se acham por dentro
são eles a quem você menos deve.
Desiluda-se de que é sempre belo daqui por diante
há agruras nos caminhos mais seguros
E é na chegada do caminho mais distante
que se se torna mais maduro.
Brigue, lute contra tudo que o diminui
engrandeça a cada golpe dessa vida
siga à risca o que o intui
ainda que a peleja seja a mais sofrida.
Limpe as pernas, tire o pó do tropeço
restabeleça-se do que foi seu coração
se um amor é bom no começo
não tem de ser ruim no fim da relação
Viva as paixões brancas, amarelas, pretas
não fuja da cafonice que é viver
Um grande amor é tão cafona quanto as letras
que utilizo para encorajar você.
*
(Abandone os dogmas que o impediam de gritar
pois a graça do amor é mesmo não ter medo de amar)

sábado, dezembro 30, 2006

2007


Toc.Toc.Toc.

- Quem é?
- 2007.
- O que você quer?
- Entrar.
- Tá, entra. Mas usa o tapete, pra não encher a casa de areia.
- Tá bom.
- Conte as novas.
- ??
- Você veio pra ficar calado?
- Não.
- E..
- Estou esperando você fazer alguma coisa.
- Hã? O quê??
- É você que vai fazer por 2007, e não 2007 que fará por você.
- ...

***
Que você faça de 2007 um ano de realizações, não apenas pessoais, mas universais.
O mundo à nossa volta precisa que façamos alguma coisa. Que façamos diferente.
Façamos a diferença.
*
**Cheers.

sábado, dezembro 23, 2006

O moço da canção de ninar


A maioria das pessoas dizem que é difícilimo encontrar um grande amor. E talvez essa máxima seja verdadeira. Mas talvez o fato mais importante seja justamente porque ninguém nunca chegou ao consenso do que é o amor. Várias tentativas de explicá-lo já foram feitas...livros, poemas, frases, gestos, guerras e declarações fabricaram-se em nome desse rei dos sentimentos, mas entendo que seja tão difícil completar-se nesses assuntos justamente porque não foi ainda possível decifrar - não digo com a sensibilidade, mas com a realidade necessária - esse grande enigma.
Eram nesses pensamentos que a moça se envolvia enquanto se lamentava por mais uma tentativa ineficiente. Em seu caminho, ecos de uma grande expectativa ecoavam com freqüência insuportavelmente gritante. Porém, a vontade de quem acaba de perder uma grande batalha é de não angariar novos conflitos. E, assim, decidiu a moça que não mais forçaria encontrar algo que talvez nem sequer existisse. Seria como empreender uma busca incessante por algo por demais abstrato para seguir em frente...E, desse modo, procurou as chaves de sua clausura como conforto e a ela se presenteou. Deixou-se envolver pela segurança de suas paredes e pertences, envolta por recordações de alguém que um dia houvera sido.
Porém, muitas daquelas recordações a remetiam a um passado inacabado, que embora aparentemente estagnado, mostrava-se certamente irresoluto, indeciso acerca dos próximas previsões.Como se nunca tivesse deixado de ser presente, como se nunca fora passado.
E, da mesma forma inesperada com que se fez lembrar, foi a maneira como este longínqüo passado se reapresentou à vida da moça. Inerte em sua clausura, o contato social que ela empreendera com o mundo exterior praticamente anulou-se. E por lá ficou por um bom tempo.
Contudo, seu exercício de busca interior foi interrompido, certo dia, pelas batidas de alguém que chegara. Despertada de seus sonhos, ainda acreditava estar sonhando quando abriu a porta. Parado à sua frente, seu passado.
E, assim, os ecos que teimavam em surgir a cada boa memória de que se recordava materializaram-se nas formas das flores e da caixinha de música que o novo (antigo) moço carregava.O sorriso continuava o mesmo. Talvez mais bonito entre as rosas. O olhar emanava a mesma curiosidade misturada à complacência. Talvez mais vivo, por conta do reflexo que nele se encontrava.
A moça não pôde deixar de se emocionar ao ouvir as primeiras notas da canção que o moço entoava. Em suas mãos, uma bela caixinha de música ressonava uma meiga canção de ninar. A bailarina que rodopiava sobre os braços de seu par parecia representar em dança a beleza daquele momento.
Ainda incerta acerca das razões do moço da canção de ninar naquela visita inesperada, ambos conversaram horas a fio, ao som da música que prometia ser trilha sonora de todos os bons momentos que a partir dali ambos viveriam.
Como luz fraca que reascendera em flashes luminosos, assim renasceu o amor da moça pelo moço da canção de ninar, que a fez esquecer de todas as decepções amorosas de outrora, fazendo-a perceber que os acordes desafinados de todas as canções não eram ruins, mas apenas notas desencontradas com as suas próprias.
Daquele dia em diante, o moço da canção de ninar passou sempre a encontrar-se com a moça e, a cada encontro, maior era a certeza de que ambos eram moço e moça um do outro.
Sempre que fecha os olhos, a moça se recorda da canção que a conquistara e, a cada vez que os abre, sabe que o moço está ao seu lado para sussurrar a melodia em seus ouvidos.
Assim se fazem canções de ninar inesquecíveis, transformando a realidade que nos consome em sonhos inacabados que se tornam doces sinfonias aos tímpanos mais sensíveis, tocados pelas notas certas, nas horas certas.
É nesses momentos em que fica fácil perceber o quanto difícil é encontrar um grande amor. Porque as notas musicais precisam de um toque de destino para, juntas, alcançar a almejada harmonia.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

O tom da moça


Durante sua curta vida, a moça cultivara um coração fácil de gostar, relutante em se apaixonar e impedido de amar. Era capaz de amar família, bichos, flores, nuvens e a espuma do mar, mas nunca nenhum rapaz a fizera experimentar o amor. Alguns esboços de amor por sua vida até que passaram, mas nenhum delez fez brotar algo que não fossem meros ensaios de amar.
Eis que numa dessas curvas que a vida insiste em nos levar, um moço apareceu, violão nos braços e jeito engraçado de existir. E encantou a moça, como numa canção sem métrica, nem rimas, mas melódica e suficientemente marcante. Tal foi o encantamento, que a moça deixou-se carregar pelas notas das canções que o moço entoava. Métricas de questionamentos formavam-se a cada tom, porém, absorta nos conselhos que seu coração dava, entregou-se àqueles versos, corajosa e desconfiadamente.
Nos primeiros acordes, o coração da moça amaciou-se, como o tecido da colcha mais confortável que usava para dormir. Nos seus sonhos, interrogações sobre o quanto seu coração suportaria de amor. Nos pensamentos, questões acerca de quando sua racionalidade afrouxaria as rédeas que mantinha sobre seus sentimentos.
As estrofes seguintes apresentaram-na a um moço doce à sua maneira, cujas atitudes mal-compreendiam-se nas precipitações da pouca idade. A moça recebia estes versos com apreensão, desejosa de que as redondilhas que ouvia seguissem num ritmo mais lento do que se acostumara a ouvir.
Não obstante, veio o refrão. E com o apressado compasso, o ensaio de amor que o coração da moça disfarçava não mais encontrava máscaras em que se refugiar. Enquanto o moço diluía-se em esforços, surpresas, desejos, agrados, e afinações em forma de presentes e demonstrações de carinho, a moça, angustiada, nada tinha a dar em retorno, nada...Nem mesmo o gostar.
Certa das dúvidas que o refrão dessa canção provocara em sua tentativa de amar, aos poucos a moça foi tentando diminuir o volume daquelas notas. À medida que o moço se preparava para evoluir em seu ritmo frenético de conquista, mais a moça retraía-se nas resistências aos seus ataques de amor.
Até que, cansada de escutar silêncio na evolução daquela melodia, a moça educadamente interrompeu a serenata, despedindo-se do moço, transmitindo um carinhoso olhar de adeus. E pôs-se a caminhar, à espera daquele que transformaria seus desejos em singelas canções de ninar. Quem sabe, em busca de alguém que conseguisse captar seu verdadeiro tom.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Seus botões


Na última vez
em que rasguei sua blusa
guardei seus botões
e coloquei-os numa caixa
cheia de algodão colorido.
Dentro e coladas
nossas fotos 3 x 4
a sorrir das brincadeiras que fizemos juntos.
.
Quando abro nossa caixa
felizes estamos, um do lado do outro
do jeito do sorriso
que estampo quanto te vejo.
.
Cada botão que cai no tapete
me lembra da caixa que ontem enfeitei.
Quantos botões mais será que cabem
na caixa nova que comprei?
.
Te desacato como quem desataca botões
com a força do ímpeto de quem não sabe esperar
e estremeço a cada nova caixa de esmero
guardando sonhos de outros botões arrancar.
.
.
(quem sabe assim sinto você perto de mim)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Amarras


Entrelaço minhas amarras nas suas
Envolvo os tecidos elásticos em teu pescoço
e sigo como sombra da tua sombra em teu encalço
torcendo para que o nó que te afasta
resista aos sofregares de sua voz sem ar
e não desuna minhas pernas envoltas nas tuas costas

Com um calço, seus passos são os meus
como um laço, abraço os braços seus
como um pedaço, colo meu corpo ao seu
e me desfaço, nas desventuras do adeus

mas se refaço, é porque desejo carinhos teus
sob o contraste da dureza dos olhos de Deus.





terça-feira, dezembro 05, 2006

A melhor viagem


Entrou apressada e desajeitadamente no ônibus, bolsas e pastas a tira colo, cabelos longos e loiros tingidos ao vento, alguns fios presos na testa pelo suor, unhas vermelhas cintilantes e calça centropê explodindo salientes gordurinhas localizadas. Seus óculos escuros escondiam bonitos olhos verdes, seu batom também vermelho cintilante (existe?) montavam uma personagem que chamou a atenção do momento em que passou a roleta, ao momento em que chegou a seu destino. Pagou com uma nota de vinte reais, resfolegou o máximo de ar que sobrava nos pulmões negros de nicotina e sentou-se num banco próximo ao cobrador no corredor. Esperou pacientemente o seu troco enquanto lutava para prender os cabelos revoltos pelo ar quente que entrava por uma janela aberta. Abria e fechava incessantemente as bolsas e pastas à procura de algo, no momento em que lutava contra as curvas dadas a toda velocidade pelo motorista, forçando suas grandes plataformas contra o chão irregular do veículo. Recebido o troco, bolsas e pastas abertas, pois ainda estava à procura desesperada de algum objeto, direcionou-se para um banco mais atrás, onde pudesse ficar sozinha, para melhor continuar a sua procura. Sentou-se sofregamente após hilários vai-e-vens, tentando-se agarrar nos encontos, nas barras do alto, nos ombros das pessoas. Sentou-se de vez. Pôs a "bagagem" no assento vazio e continuou a árdua tarefa. "Deve ser algo muito importante que essa mulher está a procurar", pensei. "Só espero que ela não invente de puxar uma arma e assalte o ônibus". Contudo, após longa procura, retirou o celular da bolsa, apresentando aos passageiros curiosos a ferramenta que usaria para proporcionar-lhes uma das viagens mais divertidas para muitos. Pegou o aparelho e discou. Levou ao ouvido. (Suspirando e assoprando desesperadamente sobre o seu colo, para 'amenizar' o calor). Eis que, esbravejando, pôs-se a falar:
- Alô? Oi, Gerso. Já varresse a casa? Meu filho, trate de arrumar essa bagunça logo, porque eu não vou fazer mais papel de palhaça contigo não. Ora merda, a pessoa chega cansada do trabalho, a porra da pia estourada e a casa um pardieiro!! Táis pensando o quê da vida, Gerso? Tu já tem quinze anos, rapaz. Toma vergonha nessa tua cara, que eu não tenho obrigação de ficar te sustentando, não. E vê se varre a casa também!! E se quiser almoçar, te arranja ai com o que tiver na geladeira. Oxe, coisa mais sem sentido, rapaz. Tou no ônibus. Tenho tempo pra ficar conversando merda, não.
Desligou. Sem pensar, discou novamente. De novo ao ouvido;
- Ei, de azul, me leva pra tu.. HAHAHAHAH Tudo bom, fia? Tua chefe já chegou? Óia, diz a ela que os papéis do plantão de ontem tão aqui comigo. Aquele negócio da menina lá do IPSEP já resolvi, visse? Falei com o menino de lá, que é meu colega, e ele desenrolou pra mim. Era só mandar um fax e tudo certinho. É porque o plano dela era empresarial, menina, aí tu já sabe..É aquela frescura todinha...Ontem? De que horas?? Mas, rapaz, acredito nisso, não...E o tabacudo do Gerso nem me deu o recado, rapaz..Aquele porra num quer nada da vida, menina. Ontem liguei pra ele. Disse: Tou no espetinho. Quando cheguei em casa, tava tudo a maior zona, pia estourada, roupa e lixo espalhado, rapaz. A pessoa já chega cansada e tem que dar uma de piniqueira é foda!! Mas sábado ele tá fudido, porque eu vou botar ele pra fazer tudinho, e nem vou fazer almoço, porque vou pro Pagode, quero nem saber!! Oxe, voou, fia..Já combinei com as menina da vila. Bora, Sandra, vai ser tão bom...Psirico. De duas horas. Já peguei meu ingresso na rádio, digo logo. Óia, tem outra ligação aqui. Já já falo contigo. (OUTRA LIGAÇÃO). Alô? Diz quenga safada...O que tem? Ele ligou pra tu, foi? Mais menina, aquele porra tá reclamando de barriga cheia. Devo nada àquele porra, não, menina. Eu falo do jeito que eu quiser, tou nem aí. Óia, já falasse com teu bofe? Porra, Ninha ajeita aí, fia. Tu num sabe que eu tô precisando daquela porra...Vê aí, menina, o cartão tá bloqueado, rapaz!! Vocês são foda, mermo. Pra pedir, é num instante, mas pra pagar, me fode todinha. Eu aqui querendo comprar uma blusa pra mim na C&A e sem puder botar no cartão. Fala com ele, Ninha, tá foda...Vai, vai. Depois tu fala comigo.
Telefone toca novamente. Atendeu:
-Alô?? Oi, lindo, tudo bem? Taaaaava...Nem ligasse ontem pra mim, num foi? Seeeeei...Vou, vou , sim...Tu vai passar de que horas? E táis de carro nesse fim de semana? Mas Jaílson vai contigo, é? Vixi, mala do caraio, Robson!Siiim, sei, sei...Mas tu vai me dar atenção, né?? Siiiim, quero só ver...Eu, linda, loira e gostosa e tu me botar de lado por causa daqueles maconheiro, tu vai ver só.. Boto logo uma gaia da porra em tu com o primeiro negão que vier bingando pra cima de mim...HAHAHAHAH. Tu faz o quê?? Te enxerga, otário!! HAHAHHAHA Tá pra nascer o hômi que enconsta em mim, baby. Òia, vou ter que desligar. O tabacudo do meu irmão tá ligando pra mim...Tá, tá...Beijoss hihiihihih Só isso? hhihihhh. Tá tá, faço, faço, animal!! HAHAHAHA (DESLIGOU. ATENDEU OUTRA CHAMADA.)
-Que é, Gerso?????? Peraí que eu ligo pra tu!!
Desligou e prendeu o cabelo de novo, com uma piranha enorme que tirou da bolsa. Discou novamente. Ouvido.
-Diz. Foi. Na parte de baixo. Bote pra descongelar. Claro!! Tá na prateleira. Meu filho, procure...Tá aí, sim...Se acabou, vá no mercadinho comprar. Menino, trinta centavos, tu não tem, não, é? Pra ficar naquela porra do churrasquinho, tu fica a noite todinha com aquelas piniqueira, né, Gerso? Vou te dar dinheiro mais não, meu filho. Você tá merecendo nadinha. Se lasque, quero saber não. Se vire, vá comer na casa das suas nega, peça esmola, se mate, sei não o que você faz. Táis com quinze anos na tua cara, Gerso. Um hômi já!! Num estuda, faz porra nenhuma..Sou tua mãe pra ficar te sustentando, não!! SUSTENTO MEUS MACHO PORQUÊ EU POSSO, SEU FILHO DA PUTA!! E NUM LIGUE MAIS PRA MIM NÃO!
***
Desligou, ainda chingando-o de "fresco". O ápice da viagem foi quando, ao perceber que sua parada passara, a mulher, ainda tentando se recompor dos gritos que há pouco dera, começou a gritar desesperadamente para o motorista ("Pára, Pára, Pára, parada desce, parada desce, parade desce. Porra, vou descer, vou descer!!!"). E percorreu o corredor do ônibus, aos trancos e barrancos, num estado mais risível que aquele em que entrara, enqunto seu telefone tocava a música da Kelly Klarkson. Desceu as escadas do ônibus, fazendo talvez mais barulho do que fez durante toda a viagem.
***
E se afastou do ônibus, andando como uma louca pela calçada, mechas de luzes de um lado a outro, cofrinho aparecendo e malas a tira-colo, enquanto os passageiros ainda riam da figura que por ali passara. E que figura...
UPDATE: OS FATOS ACIMA RELATADOS REALMENTE ACONTECERAM. E QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE NÃO FOI MESMO MERA COINCIDÊNCIA. FOI FATO. TALVEZ VOCÊ TENHA QUE ANDAR MUITO DE ÔNIBUS PARA ENCONTRAR UM PASSAGEIRO DESSE JEITO. POIS É. EU ANDO. :( OU :) ??

quarta-feira, novembro 22, 2006

A motorista e a passageira


Hoje fui da alegria à tristeza em menos de meia hora. Ou melhor, fui do orgulho à decepção em questão de minutos. Contarei: como sempre, apanhei um ônibus para a Faculdade e, qual foi a minha surpresa, que o motorista do coletivo era A motorista. Tudo bem que isso já não é muito lá novidade para muita gente, mas era para mim. Apesar de passar horas importantes da minha vida em ônibus, nunca havia pego algum dirigido por uma mulher. Pois bem. Este simples fato muito me deixou feliz, pois, apesar de ser homem, não sou machista ao ponto de não me alegrar ao ver uma mulher em posição majoritariamente masculina. Na verdade, fico feliz de poder presenciar quaisquer derrubada de barreiras sociais, quaisquer quebra de paradigmas e impossibilidades, apenas cultivadas por herança de tempos mais injustos. Me senti orgulhoso por ela, por entender o significado da posição que ocupava. Era mais do que uma motorista, tão cheia de responsabilidades e com tão pouco reconhecimento. Uma mulher no volante de um coletivo é um símbolo de tempos melhores, de uma sociedade mais justa e menos preconceituosa. E, entendendo qualquer dificuldade que ela pudesse enfrentar, era notório que aquela motorista realizava uma de suas primeiras viagens. Ou seja, ela ainda estava numa espécie de treinamento. Neste período, é extremamente normal que, seja homem ou mulher, a adaptação àquela posição ocorra paulatinamente. Assim, ela estancou o ônibus duas vezes no percurso, além de manter uma velocidade não tão costumeiramente alta, e ainda lhe era soprado o caminho pelo cobrador. Na minha visão orgulhosa (no bom sentido), perfeitamente compreensível. Minha satisfação por estar sendo guiado pelas mãos dela era tanta, que ela poderia me atrasar mais meia hora, e mesmo assim eu não ligaria. Aquela mulher não merecia de forma alguma minha irritação, mas nada menos que meus parabéns. Encaminhava-se a história para um final feliz, pelo qual eu sairia refletindo sobre como nossa realidade atual talvez seja mais fácil de viver em alguns poucos aspectos, eis que me deparo com os comentários de certa passageira. Isso mesmo, passageira. Prestes a descer, já à frente da porta de saída, fui testemunha de uma das mais completas faltas de sensibilidade e consciência que já vi alguém emitir. Uma mulher que conversava num dos assentos traseiros com dois homens, falava incessantemente em tom de reclamação, as seguintes asneiras (tentarei reproduzir com o máximo de fidelidade): "Se eu soubesse que ela (a motorista, obviamente) tava aprendendo, eu não tinha nem entrado", disse a mulher, em alto tom e dirigindo-se à frente do ônibus. E prosseguiu: "É por isso que os homens falam das mulheres. Porquem sempre têm essas antas para atrapalhar a vida dos outros." Diante da gravidade desta declaração injusta e inconcebível, contrastante por demais aos meus sentimentos no momento, resolvi retrucar a ignorância dela, diante de todos que estavam próximos, algo que realmente não costumo fazer. Disse a ela que era completamente compreensível que, como uma aprendiz, a motorista enfrentasse dificuldades. E que o melhor lugar para um motorista aprender a dirigir no trânsito era justamente no trânsito. Acrescentei dizendo que, caso não fossem dadas oportunidades como esta, uma mulher nunca poderia chegar a tal posição, e continuaríamos com uma sociedade tão injusta por muito mais tempo. Gostaria de ter acrescentado que ela, como mulher, deveria se sentir orgulhosa por ver seu gênero, tão historicamente castigado, ser capaz de mostrar à sociedade suas capacidades de eqüidade com o masculino. Porém, minha parada já se anunciava e não pude completar minha sincera e afoita lição de moral. Com a minha resposta, meu ânimo me impediu de perceber a reação dos demais passageiros, porém o meu alvo ensaiou uma espécie de reflexão confusa que talvez seja impedida de se desenvolver justamente pelo tanto de ignorância que nela deve haver. Mas me senti de tarefa cumprida. Nesta curta viagem de ônibus aprendi que 20 minutos são mais que suficientes para ir do otimismo ao pessimismo. Otimismo, por poder ter o privilégio de presenciar tais exemplos de dignidade e coragem (por parte da motorista). Pessimismo, por verificar que a ignorância é um dos maiores obstáculos sociais que temos. Por isso me senti tão assim no dia de hoje. Tão orgulhoso, e tão decepcionado...