sábado, dezembro 30, 2006

2007


Toc.Toc.Toc.

- Quem é?
- 2007.
- O que você quer?
- Entrar.
- Tá, entra. Mas usa o tapete, pra não encher a casa de areia.
- Tá bom.
- Conte as novas.
- ??
- Você veio pra ficar calado?
- Não.
- E..
- Estou esperando você fazer alguma coisa.
- Hã? O quê??
- É você que vai fazer por 2007, e não 2007 que fará por você.
- ...

***
Que você faça de 2007 um ano de realizações, não apenas pessoais, mas universais.
O mundo à nossa volta precisa que façamos alguma coisa. Que façamos diferente.
Façamos a diferença.
*
**Cheers.

sábado, dezembro 23, 2006

O moço da canção de ninar


A maioria das pessoas dizem que é difícilimo encontrar um grande amor. E talvez essa máxima seja verdadeira. Mas talvez o fato mais importante seja justamente porque ninguém nunca chegou ao consenso do que é o amor. Várias tentativas de explicá-lo já foram feitas...livros, poemas, frases, gestos, guerras e declarações fabricaram-se em nome desse rei dos sentimentos, mas entendo que seja tão difícil completar-se nesses assuntos justamente porque não foi ainda possível decifrar - não digo com a sensibilidade, mas com a realidade necessária - esse grande enigma.
Eram nesses pensamentos que a moça se envolvia enquanto se lamentava por mais uma tentativa ineficiente. Em seu caminho, ecos de uma grande expectativa ecoavam com freqüência insuportavelmente gritante. Porém, a vontade de quem acaba de perder uma grande batalha é de não angariar novos conflitos. E, assim, decidiu a moça que não mais forçaria encontrar algo que talvez nem sequer existisse. Seria como empreender uma busca incessante por algo por demais abstrato para seguir em frente...E, desse modo, procurou as chaves de sua clausura como conforto e a ela se presenteou. Deixou-se envolver pela segurança de suas paredes e pertences, envolta por recordações de alguém que um dia houvera sido.
Porém, muitas daquelas recordações a remetiam a um passado inacabado, que embora aparentemente estagnado, mostrava-se certamente irresoluto, indeciso acerca dos próximas previsões.Como se nunca tivesse deixado de ser presente, como se nunca fora passado.
E, da mesma forma inesperada com que se fez lembrar, foi a maneira como este longínqüo passado se reapresentou à vida da moça. Inerte em sua clausura, o contato social que ela empreendera com o mundo exterior praticamente anulou-se. E por lá ficou por um bom tempo.
Contudo, seu exercício de busca interior foi interrompido, certo dia, pelas batidas de alguém que chegara. Despertada de seus sonhos, ainda acreditava estar sonhando quando abriu a porta. Parado à sua frente, seu passado.
E, assim, os ecos que teimavam em surgir a cada boa memória de que se recordava materializaram-se nas formas das flores e da caixinha de música que o novo (antigo) moço carregava.O sorriso continuava o mesmo. Talvez mais bonito entre as rosas. O olhar emanava a mesma curiosidade misturada à complacência. Talvez mais vivo, por conta do reflexo que nele se encontrava.
A moça não pôde deixar de se emocionar ao ouvir as primeiras notas da canção que o moço entoava. Em suas mãos, uma bela caixinha de música ressonava uma meiga canção de ninar. A bailarina que rodopiava sobre os braços de seu par parecia representar em dança a beleza daquele momento.
Ainda incerta acerca das razões do moço da canção de ninar naquela visita inesperada, ambos conversaram horas a fio, ao som da música que prometia ser trilha sonora de todos os bons momentos que a partir dali ambos viveriam.
Como luz fraca que reascendera em flashes luminosos, assim renasceu o amor da moça pelo moço da canção de ninar, que a fez esquecer de todas as decepções amorosas de outrora, fazendo-a perceber que os acordes desafinados de todas as canções não eram ruins, mas apenas notas desencontradas com as suas próprias.
Daquele dia em diante, o moço da canção de ninar passou sempre a encontrar-se com a moça e, a cada encontro, maior era a certeza de que ambos eram moço e moça um do outro.
Sempre que fecha os olhos, a moça se recorda da canção que a conquistara e, a cada vez que os abre, sabe que o moço está ao seu lado para sussurrar a melodia em seus ouvidos.
Assim se fazem canções de ninar inesquecíveis, transformando a realidade que nos consome em sonhos inacabados que se tornam doces sinfonias aos tímpanos mais sensíveis, tocados pelas notas certas, nas horas certas.
É nesses momentos em que fica fácil perceber o quanto difícil é encontrar um grande amor. Porque as notas musicais precisam de um toque de destino para, juntas, alcançar a almejada harmonia.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

O tom da moça


Durante sua curta vida, a moça cultivara um coração fácil de gostar, relutante em se apaixonar e impedido de amar. Era capaz de amar família, bichos, flores, nuvens e a espuma do mar, mas nunca nenhum rapaz a fizera experimentar o amor. Alguns esboços de amor por sua vida até que passaram, mas nenhum delez fez brotar algo que não fossem meros ensaios de amar.
Eis que numa dessas curvas que a vida insiste em nos levar, um moço apareceu, violão nos braços e jeito engraçado de existir. E encantou a moça, como numa canção sem métrica, nem rimas, mas melódica e suficientemente marcante. Tal foi o encantamento, que a moça deixou-se carregar pelas notas das canções que o moço entoava. Métricas de questionamentos formavam-se a cada tom, porém, absorta nos conselhos que seu coração dava, entregou-se àqueles versos, corajosa e desconfiadamente.
Nos primeiros acordes, o coração da moça amaciou-se, como o tecido da colcha mais confortável que usava para dormir. Nos seus sonhos, interrogações sobre o quanto seu coração suportaria de amor. Nos pensamentos, questões acerca de quando sua racionalidade afrouxaria as rédeas que mantinha sobre seus sentimentos.
As estrofes seguintes apresentaram-na a um moço doce à sua maneira, cujas atitudes mal-compreendiam-se nas precipitações da pouca idade. A moça recebia estes versos com apreensão, desejosa de que as redondilhas que ouvia seguissem num ritmo mais lento do que se acostumara a ouvir.
Não obstante, veio o refrão. E com o apressado compasso, o ensaio de amor que o coração da moça disfarçava não mais encontrava máscaras em que se refugiar. Enquanto o moço diluía-se em esforços, surpresas, desejos, agrados, e afinações em forma de presentes e demonstrações de carinho, a moça, angustiada, nada tinha a dar em retorno, nada...Nem mesmo o gostar.
Certa das dúvidas que o refrão dessa canção provocara em sua tentativa de amar, aos poucos a moça foi tentando diminuir o volume daquelas notas. À medida que o moço se preparava para evoluir em seu ritmo frenético de conquista, mais a moça retraía-se nas resistências aos seus ataques de amor.
Até que, cansada de escutar silêncio na evolução daquela melodia, a moça educadamente interrompeu a serenata, despedindo-se do moço, transmitindo um carinhoso olhar de adeus. E pôs-se a caminhar, à espera daquele que transformaria seus desejos em singelas canções de ninar. Quem sabe, em busca de alguém que conseguisse captar seu verdadeiro tom.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Seus botões


Na última vez
em que rasguei sua blusa
guardei seus botões
e coloquei-os numa caixa
cheia de algodão colorido.
Dentro e coladas
nossas fotos 3 x 4
a sorrir das brincadeiras que fizemos juntos.
.
Quando abro nossa caixa
felizes estamos, um do lado do outro
do jeito do sorriso
que estampo quanto te vejo.
.
Cada botão que cai no tapete
me lembra da caixa que ontem enfeitei.
Quantos botões mais será que cabem
na caixa nova que comprei?
.
Te desacato como quem desataca botões
com a força do ímpeto de quem não sabe esperar
e estremeço a cada nova caixa de esmero
guardando sonhos de outros botões arrancar.
.
.
(quem sabe assim sinto você perto de mim)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Amarras


Entrelaço minhas amarras nas suas
Envolvo os tecidos elásticos em teu pescoço
e sigo como sombra da tua sombra em teu encalço
torcendo para que o nó que te afasta
resista aos sofregares de sua voz sem ar
e não desuna minhas pernas envoltas nas tuas costas

Com um calço, seus passos são os meus
como um laço, abraço os braços seus
como um pedaço, colo meu corpo ao seu
e me desfaço, nas desventuras do adeus

mas se refaço, é porque desejo carinhos teus
sob o contraste da dureza dos olhos de Deus.





terça-feira, dezembro 05, 2006

A melhor viagem


Entrou apressada e desajeitadamente no ônibus, bolsas e pastas a tira colo, cabelos longos e loiros tingidos ao vento, alguns fios presos na testa pelo suor, unhas vermelhas cintilantes e calça centropê explodindo salientes gordurinhas localizadas. Seus óculos escuros escondiam bonitos olhos verdes, seu batom também vermelho cintilante (existe?) montavam uma personagem que chamou a atenção do momento em que passou a roleta, ao momento em que chegou a seu destino. Pagou com uma nota de vinte reais, resfolegou o máximo de ar que sobrava nos pulmões negros de nicotina e sentou-se num banco próximo ao cobrador no corredor. Esperou pacientemente o seu troco enquanto lutava para prender os cabelos revoltos pelo ar quente que entrava por uma janela aberta. Abria e fechava incessantemente as bolsas e pastas à procura de algo, no momento em que lutava contra as curvas dadas a toda velocidade pelo motorista, forçando suas grandes plataformas contra o chão irregular do veículo. Recebido o troco, bolsas e pastas abertas, pois ainda estava à procura desesperada de algum objeto, direcionou-se para um banco mais atrás, onde pudesse ficar sozinha, para melhor continuar a sua procura. Sentou-se sofregamente após hilários vai-e-vens, tentando-se agarrar nos encontos, nas barras do alto, nos ombros das pessoas. Sentou-se de vez. Pôs a "bagagem" no assento vazio e continuou a árdua tarefa. "Deve ser algo muito importante que essa mulher está a procurar", pensei. "Só espero que ela não invente de puxar uma arma e assalte o ônibus". Contudo, após longa procura, retirou o celular da bolsa, apresentando aos passageiros curiosos a ferramenta que usaria para proporcionar-lhes uma das viagens mais divertidas para muitos. Pegou o aparelho e discou. Levou ao ouvido. (Suspirando e assoprando desesperadamente sobre o seu colo, para 'amenizar' o calor). Eis que, esbravejando, pôs-se a falar:
- Alô? Oi, Gerso. Já varresse a casa? Meu filho, trate de arrumar essa bagunça logo, porque eu não vou fazer mais papel de palhaça contigo não. Ora merda, a pessoa chega cansada do trabalho, a porra da pia estourada e a casa um pardieiro!! Táis pensando o quê da vida, Gerso? Tu já tem quinze anos, rapaz. Toma vergonha nessa tua cara, que eu não tenho obrigação de ficar te sustentando, não. E vê se varre a casa também!! E se quiser almoçar, te arranja ai com o que tiver na geladeira. Oxe, coisa mais sem sentido, rapaz. Tou no ônibus. Tenho tempo pra ficar conversando merda, não.
Desligou. Sem pensar, discou novamente. De novo ao ouvido;
- Ei, de azul, me leva pra tu.. HAHAHAHAH Tudo bom, fia? Tua chefe já chegou? Óia, diz a ela que os papéis do plantão de ontem tão aqui comigo. Aquele negócio da menina lá do IPSEP já resolvi, visse? Falei com o menino de lá, que é meu colega, e ele desenrolou pra mim. Era só mandar um fax e tudo certinho. É porque o plano dela era empresarial, menina, aí tu já sabe..É aquela frescura todinha...Ontem? De que horas?? Mas, rapaz, acredito nisso, não...E o tabacudo do Gerso nem me deu o recado, rapaz..Aquele porra num quer nada da vida, menina. Ontem liguei pra ele. Disse: Tou no espetinho. Quando cheguei em casa, tava tudo a maior zona, pia estourada, roupa e lixo espalhado, rapaz. A pessoa já chega cansada e tem que dar uma de piniqueira é foda!! Mas sábado ele tá fudido, porque eu vou botar ele pra fazer tudinho, e nem vou fazer almoço, porque vou pro Pagode, quero nem saber!! Oxe, voou, fia..Já combinei com as menina da vila. Bora, Sandra, vai ser tão bom...Psirico. De duas horas. Já peguei meu ingresso na rádio, digo logo. Óia, tem outra ligação aqui. Já já falo contigo. (OUTRA LIGAÇÃO). Alô? Diz quenga safada...O que tem? Ele ligou pra tu, foi? Mais menina, aquele porra tá reclamando de barriga cheia. Devo nada àquele porra, não, menina. Eu falo do jeito que eu quiser, tou nem aí. Óia, já falasse com teu bofe? Porra, Ninha ajeita aí, fia. Tu num sabe que eu tô precisando daquela porra...Vê aí, menina, o cartão tá bloqueado, rapaz!! Vocês são foda, mermo. Pra pedir, é num instante, mas pra pagar, me fode todinha. Eu aqui querendo comprar uma blusa pra mim na C&A e sem puder botar no cartão. Fala com ele, Ninha, tá foda...Vai, vai. Depois tu fala comigo.
Telefone toca novamente. Atendeu:
-Alô?? Oi, lindo, tudo bem? Taaaaava...Nem ligasse ontem pra mim, num foi? Seeeeei...Vou, vou , sim...Tu vai passar de que horas? E táis de carro nesse fim de semana? Mas Jaílson vai contigo, é? Vixi, mala do caraio, Robson!Siiim, sei, sei...Mas tu vai me dar atenção, né?? Siiiim, quero só ver...Eu, linda, loira e gostosa e tu me botar de lado por causa daqueles maconheiro, tu vai ver só.. Boto logo uma gaia da porra em tu com o primeiro negão que vier bingando pra cima de mim...HAHAHAHAH. Tu faz o quê?? Te enxerga, otário!! HAHAHHAHA Tá pra nascer o hômi que enconsta em mim, baby. Òia, vou ter que desligar. O tabacudo do meu irmão tá ligando pra mim...Tá, tá...Beijoss hihiihihih Só isso? hhihihhh. Tá tá, faço, faço, animal!! HAHAHAHA (DESLIGOU. ATENDEU OUTRA CHAMADA.)
-Que é, Gerso?????? Peraí que eu ligo pra tu!!
Desligou e prendeu o cabelo de novo, com uma piranha enorme que tirou da bolsa. Discou novamente. Ouvido.
-Diz. Foi. Na parte de baixo. Bote pra descongelar. Claro!! Tá na prateleira. Meu filho, procure...Tá aí, sim...Se acabou, vá no mercadinho comprar. Menino, trinta centavos, tu não tem, não, é? Pra ficar naquela porra do churrasquinho, tu fica a noite todinha com aquelas piniqueira, né, Gerso? Vou te dar dinheiro mais não, meu filho. Você tá merecendo nadinha. Se lasque, quero saber não. Se vire, vá comer na casa das suas nega, peça esmola, se mate, sei não o que você faz. Táis com quinze anos na tua cara, Gerso. Um hômi já!! Num estuda, faz porra nenhuma..Sou tua mãe pra ficar te sustentando, não!! SUSTENTO MEUS MACHO PORQUÊ EU POSSO, SEU FILHO DA PUTA!! E NUM LIGUE MAIS PRA MIM NÃO!
***
Desligou, ainda chingando-o de "fresco". O ápice da viagem foi quando, ao perceber que sua parada passara, a mulher, ainda tentando se recompor dos gritos que há pouco dera, começou a gritar desesperadamente para o motorista ("Pára, Pára, Pára, parada desce, parada desce, parade desce. Porra, vou descer, vou descer!!!"). E percorreu o corredor do ônibus, aos trancos e barrancos, num estado mais risível que aquele em que entrara, enqunto seu telefone tocava a música da Kelly Klarkson. Desceu as escadas do ônibus, fazendo talvez mais barulho do que fez durante toda a viagem.
***
E se afastou do ônibus, andando como uma louca pela calçada, mechas de luzes de um lado a outro, cofrinho aparecendo e malas a tira-colo, enquanto os passageiros ainda riam da figura que por ali passara. E que figura...
UPDATE: OS FATOS ACIMA RELATADOS REALMENTE ACONTECERAM. E QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE NÃO FOI MESMO MERA COINCIDÊNCIA. FOI FATO. TALVEZ VOCÊ TENHA QUE ANDAR MUITO DE ÔNIBUS PARA ENCONTRAR UM PASSAGEIRO DESSE JEITO. POIS É. EU ANDO. :( OU :) ??

quarta-feira, novembro 22, 2006

A motorista e a passageira


Hoje fui da alegria à tristeza em menos de meia hora. Ou melhor, fui do orgulho à decepção em questão de minutos. Contarei: como sempre, apanhei um ônibus para a Faculdade e, qual foi a minha surpresa, que o motorista do coletivo era A motorista. Tudo bem que isso já não é muito lá novidade para muita gente, mas era para mim. Apesar de passar horas importantes da minha vida em ônibus, nunca havia pego algum dirigido por uma mulher. Pois bem. Este simples fato muito me deixou feliz, pois, apesar de ser homem, não sou machista ao ponto de não me alegrar ao ver uma mulher em posição majoritariamente masculina. Na verdade, fico feliz de poder presenciar quaisquer derrubada de barreiras sociais, quaisquer quebra de paradigmas e impossibilidades, apenas cultivadas por herança de tempos mais injustos. Me senti orgulhoso por ela, por entender o significado da posição que ocupava. Era mais do que uma motorista, tão cheia de responsabilidades e com tão pouco reconhecimento. Uma mulher no volante de um coletivo é um símbolo de tempos melhores, de uma sociedade mais justa e menos preconceituosa. E, entendendo qualquer dificuldade que ela pudesse enfrentar, era notório que aquela motorista realizava uma de suas primeiras viagens. Ou seja, ela ainda estava numa espécie de treinamento. Neste período, é extremamente normal que, seja homem ou mulher, a adaptação àquela posição ocorra paulatinamente. Assim, ela estancou o ônibus duas vezes no percurso, além de manter uma velocidade não tão costumeiramente alta, e ainda lhe era soprado o caminho pelo cobrador. Na minha visão orgulhosa (no bom sentido), perfeitamente compreensível. Minha satisfação por estar sendo guiado pelas mãos dela era tanta, que ela poderia me atrasar mais meia hora, e mesmo assim eu não ligaria. Aquela mulher não merecia de forma alguma minha irritação, mas nada menos que meus parabéns. Encaminhava-se a história para um final feliz, pelo qual eu sairia refletindo sobre como nossa realidade atual talvez seja mais fácil de viver em alguns poucos aspectos, eis que me deparo com os comentários de certa passageira. Isso mesmo, passageira. Prestes a descer, já à frente da porta de saída, fui testemunha de uma das mais completas faltas de sensibilidade e consciência que já vi alguém emitir. Uma mulher que conversava num dos assentos traseiros com dois homens, falava incessantemente em tom de reclamação, as seguintes asneiras (tentarei reproduzir com o máximo de fidelidade): "Se eu soubesse que ela (a motorista, obviamente) tava aprendendo, eu não tinha nem entrado", disse a mulher, em alto tom e dirigindo-se à frente do ônibus. E prosseguiu: "É por isso que os homens falam das mulheres. Porquem sempre têm essas antas para atrapalhar a vida dos outros." Diante da gravidade desta declaração injusta e inconcebível, contrastante por demais aos meus sentimentos no momento, resolvi retrucar a ignorância dela, diante de todos que estavam próximos, algo que realmente não costumo fazer. Disse a ela que era completamente compreensível que, como uma aprendiz, a motorista enfrentasse dificuldades. E que o melhor lugar para um motorista aprender a dirigir no trânsito era justamente no trânsito. Acrescentei dizendo que, caso não fossem dadas oportunidades como esta, uma mulher nunca poderia chegar a tal posição, e continuaríamos com uma sociedade tão injusta por muito mais tempo. Gostaria de ter acrescentado que ela, como mulher, deveria se sentir orgulhosa por ver seu gênero, tão historicamente castigado, ser capaz de mostrar à sociedade suas capacidades de eqüidade com o masculino. Porém, minha parada já se anunciava e não pude completar minha sincera e afoita lição de moral. Com a minha resposta, meu ânimo me impediu de perceber a reação dos demais passageiros, porém o meu alvo ensaiou uma espécie de reflexão confusa que talvez seja impedida de se desenvolver justamente pelo tanto de ignorância que nela deve haver. Mas me senti de tarefa cumprida. Nesta curta viagem de ônibus aprendi que 20 minutos são mais que suficientes para ir do otimismo ao pessimismo. Otimismo, por poder ter o privilégio de presenciar tais exemplos de dignidade e coragem (por parte da motorista). Pessimismo, por verificar que a ignorância é um dos maiores obstáculos sociais que temos. Por isso me senti tão assim no dia de hoje. Tão orgulhoso, e tão decepcionado...

Primeiro Ato


Abro alas neste espaço para uma reflexão um tanto quanto pessoal sobre um assunto que a mim me agrada analisar: a natureza humana. Logicamente, este é um assunto capaz de render mais do que meros textos publicados. Nem uma biblioteca repleta de volumes minuciosamente elaborados para transmitir algo equivalente à miscelânea de cores do que vem a ser natureza humana é capaz de atingir tal objetivo. É humanamente impossível um ser humano chegar a tais e tantos detalhes elucidativos. Assim sendo, restringirei-me a focar numa das imperfeições que constróem este quadro surrealista que formamos. Falarei do erro. Para muitos, algo inevitável. Para outros, inerente. Muitos ainda dizem ser um degrau para certa evolução. Porém, mais do que tentar definir tal realidade, mais do que tentar estudar a influência que um erro pode causar em nossas vidas, e de que forma tal erro ajuda a compor a imagem do que somos ou do que parecemos ser, convém lembrar que estamos a falar de algo extremamente subjetivo. Trata-se de algo misturado a valores pré-determinados. Mas, diante do que a moral implícita em nossa sociedade nos ensina, é possível chegar-se a consensos sobre o que é um erro. Nada impede que surjam divergências interpretativas a respeito, mas pode-se, diante de um julgamento de valor coletivo, dizer o que é certo para esta coletividade. E o que é errado. Nem tudo que é errado é proibido. Mas todo erro é mal-quisto. Muitas vezes o erro proporciona o aprendizado necessário para um fim de correição. Mas em grande parte das vezes, e é esse tipo de atitude que venho especificamente falar, um erro pode ser irremediável a tal ponto, que relacionam-se os motivos pelos quais tal falha foi cometida à ausência de providencial talento de acertar. Pois bem. Um erro mecânico reflete-se na possibilidade de repetir outro movimento em busca da perfeição. Um erro estilístico propicia uma maior meticulosidade e clareza na forma de se comunicar. Um erro estatístico pode provocar uma certa confusão sobre a verdadeira situação de tal grandeza, mas um refazimento de cálculos muitas vezes mostra novas fórmulas matemáticas. Já um erro de atitude é também vexatório para o ser errante, mas não ao ponto de impedí-lo de agir de forma mais acertada no futuro. Logo, igualmente remediável. Talvez o único erro que não possua conserto é aquele proveniente de uma falha oriunda de uma realidade já distante. Certamente não há remédios para os erros de caráter. Afinal, os maus valores pessoais de alguém são adquiridos através do acúmulo de experiências aliado à gênese do temperamento deste. E esses se arraigam de tal forma, que são indesvinculáveis do ser que erra ao externá-los. Portanto, um erro de caráter é reflexo de alguém provavelmente inescrupuloso, ardil e inacabado. Tendo em vista esta análise, os mais desavisados muito costumam confundir os dois últimos erros citados. Erros de atitude e erros de caráter. Quase todos os erros de caráter manifestam-se através de erros de atitudes. Porém, nem todos os erros de atitudes vêm a ser erros de caráter. Mesmo assim, a natureza humana, generalizatória como se mostra, teima em macular certas atitudes isoladas como fossos de caráter e reputação. Exigir tal discernimento do alvo do erro talvez seja até um pouco demais, porém aqueles que se encontram em posição imparcial ao feito deveriam aprender melhor a dissociar atos falhos de má-natureza. Assim sendo, por mais que a natureza humana se revele mais profunda a cada desvendar, devemos seguir a creditar nossos maiores acertos na reflexão do que somos capazes, tentando sempre antever as reais conseqüências de nossos atos, mensurando o quanto somos capazes de se importar e meditando acerca das necessidades que possuímos de se consertar. Sempre chego à conclusão de que a conscientização de nossas características mais latentes é o primeiro passo para nos entendermos melhor, tanto a si próprios, quanto uns aos outros. E esse entendimento se perfaz em meio a percalços tais, que a hipótese de erros de atitude perde em importância para a consciência de que estes podem jamais arranhar a nobreza de alguém que exercite seu papel. Por mais que este papel de desenrole através de atos falhos, na verdade ele sempre busca o reconhecimento da platéia para a qual se exibe. Por mais que o drama que desenvolva ofusque a possibilidade do público rir no final, este papel é um mero fantoche diante do que somos e do que somos capazes. A grande questão reside no quanto a distância entre estas duas grandezas pode influenciar na peça inteira. À medida em que se limita a capacidade à natureza do "ser", reduz-se tais confusões. Contudo, muitas vezes ela escapa aos limites, aventurando-se no que simplificadamente chamamos de erros de atitude. E novamente mostramos nossa verdadeira essência indecifrável, nossa natureza nada menos que inexplicável.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Desistência


Com desdém, saiu do carro, desceu as escadas, em direção à portaria, não cumprimentou o porteiro e nem sequer ouviu os gritos do homem. Foi em direção ao elevador, clicou no sétimo andar e nem percebeu quando ele telefonara, denunciando-a. Já não importava se a imprevisibilidade a ajudaria ou não. O que importava nesse momento era a vontade de saciar sua curiosidade. Chegando no andar, aberta a porta do elevador, corredor escuro à frente. A cada passo, uma nova luz se acendia, acionada pelos seus movimentos. Ao chegar à porta, silêncio total. Respiração acelerada, batimentos quase que guturais, vilosidades involuntariamente incômodas. Arruma os cabelos. Primeiro toque. Segunto toque. Chaves. Olho mágico. Porta aberta, devagar...Adentra. Do outro lado, um fantasma segurando a maçaneta. Franja por cima da testa, olheiras de duas noites em claro, cigarros jogados na mesa do centro, aquele cheiro ocre que fica quando não se toma banho. À frente da porta, sentia o ódio remoer suas vontades de dizer todas suas verdades. Ao passar por ela, e se deparar com um adversário tão inofensivo, desabou todas suas armas ao chão. Quebraram-se todas as suas defesas e deixou escapar todos os seus ataques. Só sentiu angústia e pena e amor por aquele que agora colocava embaixo do chuveiro, enquanto incessantemente tocava ao fundo o interfone. No momento em que limpava aquele corpo, pensava unicamente em como limparia aquela alma. Sem que triscasse gota alguma na sua, que custara tanto a clarear. O resto da noite passou ao seu lado, passando os dedos em seus cachos e torcendo para que a manhã do dia seguinte fosse menos turbulenta. E tivesse mais respostas, do que as dúvidas que estavam por vir. Naquela noite, acendeu um cigarro, depois de meses de abstinência. E enfraqueceu diante de dois vícios: o do fumo e o do amor.

terça-feira, novembro 07, 2006

Atrás da cortina de fumaça


Quando a gente faz fumaça, tudo embaça. Com aflição, o fogo ameaça se espalhar pelos outros cômodos, você se desespera por alguns segundos, imagina por poucos e curtos e longos momentos sua face desmanchando em pele e carvão. Mas nada se queima além do que se quer queimar. Aos poucos, as cinzas flutuantes se descolam das lentes dos óculos, as tosses mais fortes expelem qualquer resto de fuligem que tenha se enxerido pelas vias respiratórias. Paulatinamente, a vista desembaça, o cabelo se (des) arruma em pó. Restam os dedos negros cheirando a papel queimado e tudo que se quer é um banho de água fria. Enfim, a poeira desanuvia, e a gente passa a enxergar um mundo novo. Um mundo coberto de fuligem velha precisa ser olhado através de um olhar diferente. Um espaço diferente requer um maneira diferente de tratamento. Não se pisa num chão branco de limpo do mesmo modo que um chão podre de sujo. E é assim que os dias me vêm sendo apresentados. De forma diferente. O que era antes claro, hoje me põe dúvidas. E o que anteriormente eu desconhecia, hoje já nem consigo discordar da existência. Graças às fogueiras acesas. E às chamas luminosas, que causaram novas formas de olhar. Novos olhares. Muita poeira pra limpar, mas novos olhares.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Nova no ônibus

Fiquem sabendo.Quem vier pela Domingos Ferreira, e desejar descer na Parada do Shopping Recife, e não souber, sigam as instruções que eu escutei dia desses no ônibus. Uma mulher dizia a outra:
"Táis vendo essa construção da Môra Du-Beúxi (Moura Dubeux)? Quando passar da Pizzaria Hutz (Pizza Hut), vai ter a Braidjistone (Bridgestone). Pronto. A parada é essa. Desce, fia. Bora!!"
Entenderam???? Cuidado para não se perder!!
Até outra história de ônibus.

Graforréia


Mais importante do que o que se diz é a maneira como isso que se diz chega aos ouvidos daquele a quem se destina o recado que sai daquele que deseja emitir alguma opinião sobre alguma coisa que o chamou a atenção para que alguma atitude sobre alguma coisa possa ser tomada quando alguém que deseja chamar atenção para alguma coisa tenta fazer com que outra a receba e capte tudo que se intenciona, mas se, no caminho, a experiência do que aquele quem diz o recado se confunde com a forma com que se tentou dizer, e, mais ainda, as experiências daquele que recebe suplantam a tentativa tosca de entender o recado dado, perde-se tudo que se tentou fazer com a emissão do singelo recado, que mesmo importante pode se perder no que alguém não conseguiu transmitir e no que alguém não conseguiu captar, fazendo disso um grande e claro e confuso retrato das nossas próprias vidas: uma complicada graforréia que se perde num emaranhado de palavras que parecem nunca acabar, e se fantasiam do que tanto se quer transmitir mas às vezes não se consegue, a famigerada e discutida e complicada mensagem.

domingo, outubro 15, 2006

Um pouco bagunçado


Quando cheguei havia poeira e bagunça para todo lado. Móveis revirados, discos jogados ao chão, revistas rasgadas e um coração triste no canto, com cara de culpado. Arrumei tudo cautelosamente, com cuidado e dedicação. Levantei as cadeiras, pus água nos vasos e arranjei toalhas de mesa limpas. Tudo em seu lugar. Mas resolvi deixar aquele coração arteiro de castigo, no canto, imóvel, sem se mexer. Porque talvez ele seja imaturo para perceber que ficar sozinho não é o fim do mundo. Deveria tê-lo feito consertar toda a bagunça, mas resolvi deixá-lo com a angústia da dúvida do que eu iria fazer com ele. Por enquanto, será apenas um coração no canto, de costas, sozinho e pensativo em tudo que fez e deixou de fazer. Para aprender que um coração arteiro merece nada menos que castigo. Um dia eu tiro ele de lá.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Má digestão


O fundo das meias manchavam-se com a sujeira do chão daquele cenário grotesco. Corpos vestidos de gala, smokings e longos inutilizados vestindo cadáveres. As pernas dos noivos confundiam-se com as dos seguranças; os dentes do padre agora se perdiam debaixo das saias das damas de honra. Membros e vísceras agora enfeitavam o ambiente, novos elementos da decoração. As cortinas adquiriram um tom mais róseo. Mesas e cadeiras jogadas, horror espalhado em cada emenda do salão. Enquanto limpava o suor que escorria pela testa, revirava os corpos atrás do órgão de que necessitava. Deveria estar em algum lugar por debaixo daqueles tecidos, daqueles tufos de cabelos e pêlos ensangüentados. Enquanto tropeçava entre os pedaços, ossos estalavam sob os montes de carne contorcidos regados a 'champagne' francês. Não havia nada que o fizesse desistir de sua procura insana; não desistiria de resgatar aquele que viria a ser o maior troféu do único amor que ousou rejeitá-lo. Havia anunciado que aquele coração um dia voltaria a ser dele...Logo, o procuraria nem que o seu sangue começasse a se misturar ao daqueles inúteis. Até que, enquanto ria da face de horror de uma das tias do cadáver principal, viu reluzindo sob o vestido branco o coração que procurava. Parecia ainda pulsar no momento em que o mordia com toda a força, sentindo o gosto interno das cavidades misturado ao de sangue seco. E o mastigou impetuosamente, engolindo-o com satisfação.
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Após o banquete, levantou-se calmamente e sentou-se à mesa dos noivos. Guardando a lembrança do matrimônio no bolso do paletó, calmamente levou um guardanapo à boca, limpando o sangue que dela escorria. O sangue daquela que um dia lhe negara seu amor, mas que agora era digerida pelas enzimas de seu estômago. Um brinde à má digestão.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Ensaio sobre a Maldade


O que é maldade? Para início de conversa, maldade é um pouco relativo...pois o que pode ser considerado maldade para a vítima, pode ser a solução para o seu algoz. Contudo, entendo ser a maldade um ato injusto de tal forma que prejudique outrem, impulsionado pela simples finalidade de prejudicar. A maldade está intrinsecamente ligada à inteligência e ao sofrimento. Inteligência de quem dá causa e sofrimento daquele sobre quem recaem estes efeitos.
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Sobre a inteligência: a minha humilde observação e minha leiga opinião sobre o cérebro dos seres vivos me faz perceber que, quanto mais inteligente for aquele ser, mais propício ele está de praticar atos maldosos. O que quero dizer, para exemplificar, é o fato de predadores caçarem mesmo quando não estiverem com fome. É como se a inteligência burlasse o equilíbrio da cadeia alimentar, transformando necessidades em privilégios. Agir maldosamente, ao meu ver, é tentar conseguir mais para si em detrimento de uma constante falta para o outro. Vi certaz vez num programa de televisão uma cena pavorosa de orcas caçando focas. As baleias, como seres inteligentes que são (e superiores às focas) não se contentavam simplesmente em se alimentar das focas. As orcas, nada mais, nada menos, desferiam golpes nas focas, de modo a jogá-las de uma lado a outro em pleno mar revolto. Como se espancassem as suas presas, não sei se para amaciar a carne, sei lá. Mas o que vi foi uma cena de um predador (inteligente) torturando a sua presa antes de abatê-la. Nós, homens, somos capazes da mesma coisa. Fazemos isto com as próprias orcas, belungas, golfinhos e quaisquer outros seres que nos trazem lucro. Fazemos isto com nosso Planeta!! Até com nossos semelhantes... É certo que a raça humana é 'hour-concour' na Arte da Maldade, e tanto assim o Homem consegue ser, que muitos se questionam se é da natureza da própria humanidade agir dessa forma. Ao meu ver, não. Mas que a nossa inteligência nos fornece a meticulosidade necessária para praticar tais atos, ah, isso ela dá. Ela nos concede a capacidade de criar planos, de bolar loucuras, de pisar sobre o que já está pisado. Como se o grande número de neurônios que possuímos nos impulsionasse a agir de forma injusta, provocando sofrimento e sentindo prazer pela dor alheia. E, assim, seguimos, vítimas de nossa própria maldade.
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Sobre o sofrimento: o outro lado da maldade é o de quem sofre. É o alvo do excesso de inteligência. E esse sofrimento não atinge apenas quem diretamente sofre as terríveis conseqüências desse mal, mas também aqueles que reconhecem essa injusta prática mordaz. A vítima da maldade geralmente é o lado mais fraco da relação. Leia-se mais fraco não pelo significado óbvio, mas pelo significado de ser aquela parte que, por estar em desvantagem por determinada razão, padece por isto.
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Assim, não reconheço a maldade como inerente ao Homem, mas como uma forma de exercício da fenomenal capacidade de raciocício. O pior é reconhecer que aquele que atua para o Mal é também aquele que sofre o Mal, num ciclo interminável de causas e conseqüências.
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E segue a cruel realidade. Um misto de vítimas e vitimados que se confundem no infindável rol de maldades que fazem parte, infelizmente, do que nos é mais comum: a vida.

terça-feira, outubro 10, 2006

Opinião possessiva.


Já falei bastante aqui de mudanças, de impressões, de perturbações íntimas e sugestões de sentimentos conflituosos. Já desabafei sobre o que não gosto, sobre o que odeio, sobre o que não sei, e sobre o que gostaria tanto de entender. Já falei sobre muita coisa. E Muitos dos assuntos abordados dizem respeito a mim. Disso eu sei falar perfeitamente bem. De mim. Também sei que consigo falar razoavelmente bem sobre as coisas ao meu redor. Mas muito disso tem tantos dedos meus, que, mesmo sendo sobre algo externo, é como se estivesse vendo meu reflexo em tudo que me cerca. A tarefa de quem escreve, por mais que seja um exercício de observação do que está fora, reveste-se camufladamente de uma visão egoísta do que o autor vê do mundo. Portanto, ao tentar descrever as minhas impressões sobre uma simples viagem de ônibus, é impossível para mim desvincular disso tudo a maneira como EU enxergo certos detalhes, com isenção do que estes detalhes realmente representam. Nem tudo que eu digo ou que penso é a verdade. Mas também não é falso. Não é. É, simplesmente, minha opinião sobre o fato. Minha visão. Notem o possessivo. Minha. Daí a conclusão de que toda opinião é egoísta, por mais que sua finalidade seja em prol da coletividade, por mais que sua finalidade seja de compartilhar uma idéia. Opinião é uma espécie de manifestação de auto-congratulação. É um amostramento cínico revestido de argumento.
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Mas minha intenção ao vir neste espaço hoje, além de uma mera manifestação egoísta de mostrar apenas o que vejo ou sinto, é a de dividir opinião. Por mais individual que ela seja, ela apenas deixa de só isso ser justamente na hora em que é lida. Com a leitura do outro, minha ação presunçosa de emitir minha opinião se socializa. Ela cai na interpretação de suas pupilas e de seu cérebro do modo como suas experiências lhe permitem. Mas continua sendo minha a opinião. Apenas minha. E a sua será somente a de concordar ou não. E será sua. Só sua.
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Portanto, é no mínimo interessante notar que o ato de se comunicar, por mais que envolva, no mínimo, dois sujeitos, significa a emissão e a recepção de vontades individuais. Note que muitas das conversas alheias, por maior camaradagem envolvida, sempre são revestidas de desabafos pessoais. Quando alguém chega para contar-lhe algo sobre si, o que você faz? Na mesma hora não busca um experiência parecida na SUA VIDA para contar? Uma conversa entre duas pessoas, na grande maioria (quase 99%, diz a minha experiência de observação) é nada menos do que duas pessoas falando de si, em que muitas das vezes uma praticamente nem escuta o que a outra tem a dizer; apenas procura algo a dizer.
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Na minha opinião egoísta, as pessoas deveriam prender a saber dividir mais. Inclusive seus pensamentos. Quando meu amigo chega para me dizer que viu um filme muito ruim, eu não devo como resposta pensar num filme que EU também tenha visto e tenha odiado. Eu devo, sim, tentar entender o que ele está querendo me dizer, e dar todas as oportunidades a ele de demonstrar seu ponto de vista. Afinal, aquele é um momento dele. E sabe-se lá se ele está apenas disposto a falar de si.
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Muitas vezes prejudicamos demais nossas relações quando, no momento que outro chega para dividir, passamos a substituir. Problemas da comunicação.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Estado crítico constante


Eu sou uma panela de pressão. Resistente, suponho que de bom material, aparentemente sem rachaduras, útil para diversas coisas e ineficiente para outras. Consigo resolver muitas coisas facilmente, mas estouro se me superocuparem. Acumulo as coisas externas, isolando o que vem de fora de tal forma, que crio um estado interno de alta pressão capaz de "cozinhar" rapidamente as minhas coisas. Desse modo, crio estágios diferentes de pressão interna e externa e vou soltando, aos poucos, meus sentimentos internos, em busca do esperado equilíbrio constante, com o resultado do meu esforço nas minhas mãos.
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E, ultimamente, essa panela tem estado trabalhando em estado crítico constante. Esperando o dia de estourar, torcendo para isso não acontecer, se controlando para os danos não ferirem ninguém à sua volta, contentando-se com os prejuízos de si mesma. Essa panela nunca foi de dar problemas, mas se preocupa, a cada dia, com a possibilidade de um dia provocá-los. Talvez precise de uns reparos, talvez precise de alguém que enxergue seus problemas, talvez precise ser substituída...Mas certamente ela não deverá desistir de trabalhar. Isso jamais!

segunda-feira, setembro 18, 2006

Recife cor de tijolo


Não posso dizer que conheço bem minha cidade, nem consigo afirmar com segurança que domino seus roteiros, seus caminhos...Mas o pouco que conheço faz brotar em mim a plena certeza de que a amo e, acima de tudo, a admiro. Nascido na periferia e criado na Região Metropolitana, fui acostumado a viver em outras realidades, que nada mais são do que meros alongamentos da minha cidade natal, que sempre esteve tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Assim, minha vida inteira sempre foi um grande aprendizado sobre essa cidade, e a cada novo capítulo de minha história, era-me apresentada uma nova página de Recife.
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Alguns momentos me sinto até acanhado de demorar tanto a enveredar por seus caminhos, por ter perdido tanto tempo, numa espécie de frustração dos momentos que poderia ter aproveitado naquelas ruas que nem sequer sabia que existiam...Mas, ao mesmo tempo, percebo que esse relativo atraso talvez tenha me ensinado a valorizar ainda mais as qualidades dessa Cidade Maurícia. E como ensinaram...
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Às vezes me sinto enfeitiçado pela cor de tijolo dos bairros antigos, pelo cheiro forte do rio sob as pontes de metal. Hoje o Recife me encanta de tal forma, que me faz esquecer por diversas vezes de seus graves problemas, que meus também o são. Adoro a disposição que o corte do Capibaribe faz nela, sem seguir uma linha reta e friamente divisória, apenas. O Rio parece passear pela cidade e dá voltas como se para cumprimentar cada esquina da minha cidade de praças, de ruas ladrilhadas, de postes iluminados no cais.
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O centro da minha cidade é tão referencial que, de costume, é chamado de "cidade'. É na "cidade", ou seja, no Centro, onde tudo se concentra, de maneira tal, que é como se ele dispusesse radialmente para os outros bairros, sejam do Norte ou do Sul, reflexos do que lá acontece diariamente...Aprendi a andar um pouco pelas ruas do Centro, e a me apaixonar pelo contraste dos costumes modernos com construções tão antigas, que nunca nos deixam esquecer de nossa rica História...
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Ah, a História....me mata de orgulho a História de minha cidade... No passado - e no presente, que fique claro- funcionava como um verdadeiro celeiro intelectual e artístico, profusor de ideais, de idéias, de cultura e de movimentações políticas. O passado do Recife nos invoca a grande responsabilidade de manter esse espírito vanguardista e tão peculiar e nos faz perceber sua extrema importância na construção deste País.
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E nossa gente... Tão sofrida, e tão batalhadora, que rema contra os percalços impostos por nossa própria desorganizaçao. Antes, um povo de vizinhança, de conversa fiada na calçada de casa e fofoca na banda de jornal. Hoje, uma gente que teme cada sinal de trânsito, e se guarda, e se esconde, com medo do lado de fora (e tem motivos para temer inclusive o lado de dentro). Mas é este povo que representa a faceta mais linda do lugar, é este povo que dá vida aos movimentos de uma cidade tão castigada, mas brava e linda e de cor de tijolo que tanto amo.
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Falar dessa cidade para mim é como falar de alguém que ainda não se conhece por completo: há sempre uma nova surpresa para contar. Surpresa esta, que me vem em forma de orgulho e em vontade de homenageá-la sempre. Vem em forma de amor.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Imperfeição


Eu amo o passado. Apesar de não conhecer História a fundo, nem ter uma mente ultrapassada, adoro olhar para trás e perceber o caminho que fiz. Eu gostaria de ter uma página anotada sobre cada episódio de minha vida e uma foto para cada cena importante. Gostaria de rever o áudio de cada frase que me fez sorrir ou chorar. Gostaria de presenciar novamente meus erros e meus acertos. De rir de minhas gafes, de minhas roupas antigas. Eu sou um completo saudosista do que se passou comigo.
Muitos dizem que o passado é para ser esquecido...Refuto fervosoramente essa afirmação! Por que hei de apagar de minha memória um roteiro completo de caminhos trilhados, que me ensinam com clareza qual o caminho que não devo seguir? Condordo, sim, em não andar para frente com a cabeça virada para trás! Isso, não!! Eu sou adepto da boa olhada por cima do ombro...
Escrever, por exemplo, é um de meus passatempos favoritos e das atividades que mais me ensinam a me conhecer. Cada linha que escrevo mostrará eternamente o que se passou na minha cabeça certo momento. Assim, cada texto que fica para trás surte efeito semelhante ao das páginas de diário e das fotos instantâneas que mencionei mais acima. Além de um ótimo hábito, escrever me faz traçar um roteiro de todas as minhas sensações, opiniões e sentimentos. Como é bom reler mais à frente o que escrevi mais atrás. E como é bom saborear minhas imperfeições...Por esta razão, não sou do tipo que busca a perfeição. Adoro os erros de meus textos (se forem de digitação, eu corrijo) e me divirto muito quando, depois de um certo tempo, vejo alguma colocação imatura, incoerente, ingênua. É como se olhasse para trás e pudesse mensurar de alguma forma o quanto mudei e o quanto sou capaz de (re) fazer melhor.
Ao meu ver, a letra é expressão do momento atual de quem escreve, com as imperfeições da época, com os riscos e imaturidades do passado em que escreveu seu texto. Logo, não deve ser mexido. Ele pode ser aprimorado esteticamente, concordo. Mas na hora!! Não depois!! O que vem depois é um retrato. E realizar uma espécie de "fotoshop' num texto do passado dá a mesma impressão artificial que a gente vê nas capas de revistas. Sou a favor da obra sem enfeites acrescidos, sem retoques. A favor do texto que retrate perfeitamente o que se foi.
É por esta maior razão que escrevo. Para poder me guiar não em busca da perfeição. Mas, sim, para me reconhecer nada menos como alguém imperfeito, em construção.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Facínoras fascinantes


Como viver é engraçado...Somos seres altamente complexos - ou pelo menos nos achamos assim- e somos capazes de agir de diversas maneiras, em diferentes situações, em distintos momentos e lugares. Somos, digamos, seres altamente versáteis, adaptáveis, cuja característica das mais marcantes reside simplesmente na insatisfação. E este ponto é imprescindível na percepção do quanto complexos somos. A grande maioria das pessoas teoricamente nasceu para atingir objetivos: aprendemos que devemos viver em busca da felicidade, e ela, de modo geral, deve vir revestida de saúde, amor e dinheiro no bolso. Mas, quando se tem tudo isso, nunca se sabe se a felicidade já chegou. Não venho aqui falar de felicidade, mas do quanto somos injustos com a felicidade que nos é apresentada. Para nós, ela é o grande objetivo, mas nunca a reconhecemos, simplesmente porque nossa incessante "vontade do mais" nos nubla a devida consciência. Somos inconformados por natureza, e esse estado de entropia constante nos torna cada vez mais investigadores de novidades que venham a preencher o estado vazio causado por algo que está para chegar, mas chegou e não se percebeu. Somos animais que pensam (demais) e, por isso, sentimo-nos obrigados a fazer jus a essa capacidade única: queremos mais! Queremos sempre buscar uma forma de ultrapassar limites, de aumentar nossas áreas de influência, de esticar nossos passos, de aumentar nosso ritmo. Corremos sempre em busca de recordes, de galgar degraus mais altos e mais difíceis...E, nessa trajetória, esquecemos de nós mesmos...Esquecemos, por conta dessa corrida pela felicidade plena que nunca virá, que já somos felizes. Não percebemos o quanto o presente de ir em busca da felicidade nos mostra caminhos felizes! Mas não os vemos...E, assim, felizes que somos, vemo-nos muitas vezes tristes por não encontrar a felicidade com que sonhamos.
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Somos facínoras fascinantes, verdadeiras vítimas de nós mesmos...