sábado, junho 10, 2006

Compreensão



Eis que, abruptamente, pára o motorista e fala:
- Desce!
_ ... ! - respondeu a mulher, estupefacta.
Após um clímax nada amortecido pelo silêncio, ambos entrecruzaram olhares e entenderam, sem entender, que foram feitos um para o outro.
E ela nunca mais desceu daquele carro, pois, momentos depois, este veículo em que se encontravam patinava na pista molhada, indo de encontro a uma grande muralha.
Ah, se ela tivesse descido....
Talvez a compreensão encerrada naquela troca de olhares a tenha matado. Mas a fez morrer com a certeza de alguma vez já haver amado.

segunda-feira, junho 05, 2006

Impureza


Impressões, imagens rubras no olhar
suspirando pela luz que trará
mil histórias e memórias
de loucuras e atitudes de lá
Coisas imprecisas, clarão
de vazios, roupa suja no chão
desperdício, sacrifício
de sucessos que jamais saberão
Horizontes, nuvens no céu
brigadas de guerra, bordel
pelas ruas, seminuas
fêmeas estendidas num carrossel
Predispostas, sob rigor
Nunca saber o que é amor
Más condutas, absolutas
de quem troca ilusão pela dor
Sustentando sonhos sem fim
sem saber que vida assim
extraviada, madrugada,
desconstrói a esperança do sim
Nos asfaltos, reflexos
sombras estendidas ao sul
bem perplexas, desconexas,
procurando carros no azul
Os faróis as iluminam
escondendo a exposição
das vergonhas, com tamanha
fama de quem luta contra a emoção
Nessa estrada de sedução
droga, vida, nota é jargão
mais doenças, mais descrenças
mero triunfo da solidão
Mas se nunca o sol raiar
a necessidade de estar
na cidade, liberdade
vaidade pra dispensar.
Sofrimentos custam em vão
o valor do seu coração
impureza, mas beleza
no interior de uma canção...

quinta-feira, junho 01, 2006

Crítica à felicidade


Todos dizem que tudo passa, que é só pensar no melhor, que as coisas servem apenas para aprendermos, que somos fortes, que no final tudo fica bem. Isso deveria se chamar otimismo? Otimismo para mim não é essa certeza e essa fé desenfreada de que no fim tudo irá florir. Otimismo é a certeza de que se fez o possível para que a flor crescesse um pouco. E é difícil ser otimista novamente quando se acha que se fez o necessário, e mesmo assim não se viu pétala sequer. É difícil...Mas é impossível?
Muitas vezes me peguei pensando que sou abençoado por ter amigos bons e fiéis, pessoas queridas que me fazem sentir bem a cada lembrança, que estou num caminho considerado privilegiado em relação a maioria das pessoas da minha idade, e que, apesar de tudo, sou feliz por ser o que sou hoje: alguém que soube se construir a ponto de não deixar ser desconstruído por pouca coisa (nem por muita).
Esses pensamentos todos confortam, contudo não deixam a certeza de que esse caminho terá sempre a linha traçadinha, pronta a ser vista e seguida a cada curva, cujos destinos não podem ser muito além daqueles já traçados. Ou seja, dão a errônea previsão de que só por ter seguido o caminho certo até agora, será muito difícil que esse caminho se desvirtue e tudo passe a dar errado. Aí é que se encontra a nova reflexão: apesar de tudo parecer estar certo, a qualquer momento a vida pode nos surpreender. Um caminho perfeitinho, bem trilhado, nos conformes, pode ir de encontro a um abismo a qualquer momento. E a consciência dessa incerteza (im)provável funciona como um botãozinho de alerta pronto a ser acionado sempre que esse caminho está indo por outra rota.
Portanto, meus caros, longe de mim fazer transparecer aqui que minha rota está mudada, ou que caí no abismo perdido das minhas expectativas frustradas. Mas que é importante perceber que esse botão de alerta está tão vivo quanto a certeza de que o bom pode acabar a qualquer momento. E de que somos tão vulneráveis aos efeitos dessa vida que, apesar de maliciosa, nos ilude com um sorriso de criança, fazendo-nos esquecer que às vezes ela pode nos calçar, caso deixemos a aparência desse sorriso nublar o próximo passo. Vamos, sim, dar vazão à felicidade, mas sem esquecer que um momento feliz é apenas uma amostra do que a vida pode dar, caso façamos sempre o que parecer correto. Caso contrário, aquela estrada bem sinalizada, iluminada, margeada por árvores frondosas, que compõem um destino propenso ao sucesso, se não for constantemente analisada criticamente em sua aparente perfeição, pode, repentinamente, levar a um beco sem saída. E, desse beco, a saída tende a ser mais difícil.
Bem-vindos à crítica à felicidade. Felicidades!!!

domingo, maio 28, 2006

Arrependimento


Para que não possas dizer que nunca fui capaz de nos cuidar
Olha agora e vê meu sentimento no papel
E se nem ligas para o que um dia fui capaz de estragar
Saiba que hoje minha vida é fosso, fumo e fel

Entendas que nunca quis me passar por distante
E que nosso desentendimento foi todo uma má-explicação
Que sempre na verdade tentei levar adiante
O que teimavas em chamar de falta de usar o coração

Confesso que muitas de nossas crises foram detalhes sublimados
E que muitas de nossas voltas vieram de pena e de saudade
Mas isso é a que se submetem dois apaixonados
Que não se entendem e se perdem no perigo de só enxergar maldade

Às vezes não caibo em mim de tantos arrependimentos
E choro em descompasso com a rotina que tua falta me traz
E sinto por não poder voltar a todos os momentos
Em que deixei escapar aquela que um dia trouxe a paz

Por isso eu sigo nessa vida apenas solidão
À espera de que a calma da distância alivie nossa dor
E que talvez te reencontre numa linda canção
E possamos reviver e repetir o que sempre em nós ficou: o amor
***
Arrependimento. Ou modelo para os arrependidos de tanto amor.
Texto do ano passado. Mas, que por ser tão distante de mim, se tornou atemporal.

sexta-feira, maio 26, 2006

O Pe(r)dido na entrada para o Céu


Saiba que minha vida me matou. Não que eu esteja tentando mitificar minha morte, mas é que tenho certeza que a fiz por merecer. Tenho certeza que irás me aceitar, mesmo porque entendo nunca ter sido o tipo de pessoa que mereceria um destino tão cruel quanto o inferno, lugar que não estou mais disposto a ficar daqui por diante. Nunca fui o exemplo de humanismo e cidadania, muito menos o homem de coração mais puro e honesto. Mas não fui ruim por escolha; foi por falta de uma!
Bem, mereço um espaço superior simplesmente porque a morte me consertou. Se não fui capaz de exercitar todas essas qualidades que sinto se formar em mim neste momento, que ao menos eu tenha a possibilidade de mostrá-las agora, depois da morte, às pessoas que merecem recebê-las. Portanto, se minha vida foi um rol de perversidades, como muitos podem dizer, pretendo fazer de minha morte melhor do que qualquer vida. E está na hora de pôr isto em prática.
Está certo que nunca me preocupei com os outros e sempre fiz de tudo para conquistar meus objetivos mais banais. Mas é que vistos lá de baixo, do mesmo plano, eles pareciam tão essenciais...Eu não tinha esse pensar que tenho agora...Meu egoísmo era minha característica mais latente e meu desprezo pelo resto fazia-me sentir mais importante a cada nova atitude esnobe. Nunca temi ser odiado, pelo contrário, o ódio dos outros por mim alimentava meu vultoso ego, mesmo porque sempre fiz questão de provocar a inveja alheia.
Nunca liguei por pisar em alguém...Aprendi a fazer isso praticamente desde que comecei a andar. E a mentir, desde que comecei a balbuciar minhas primeiras palavras chantagiosas! Sempre fui um líder nato e conquistava todos com minha capacidade de dissimulação extrema! Além disso, sempre fui cercado por gente muito fraca e influenciada, que se deixava levar pelos meus contos e desejos mais fúteis. Minha mãe abdicou cedo do seu papel materno e sempre se dedicou com afinco à uma vidinha vazia, com casos desamorosos. Perdi meu pai antes mesmo de conhecê-lo, e meu primeiro grande amigo foi o poodle de minha mãe, que sempre vinha me lamber após cada chute que eu dava nele.
Cresci assim, sem atenção nem conversa, distante de qualquer mundo senão aquele construído por mim mesmo. Minhas paixões sempre me custaram muito dinheiro e assim foi por toda a minha vida. Nunca conheci algo que se aproximasse do amor; até agora não sabia o que era ter o coração bater forte, senão por raiva do que não consegui obter...E foi pouca coisa...
Minhas novas conquistas eram meus mais profundos objetivos e nada estava à minha frente além do meu desejo satisfeito. Nunca fui de me socializar com ninguém. Minha Sociedade era a minha mansão, meus domínios, o interior de meus muros, as coisas que já me pertenciam e as que eu ainda queria comprar. Comprar sempre foi meu passatempo favorito; sempre valorizei o garbo e o luxo. Mas nada nunca se comparou a comprar as pessoas! Isso sempre me fez ter certeza do quanto elas são fracas e hipócritas e de como elas são capazes de vender fácil suas opiniões e suas crenças...Isso me impulsionava cada vez mais a praticar meus joguinhos de destruição alheia.
Veja você que nunca tive uma oportunidade de reflexão acerca de uma possível conversão, tendo em vista tal ambiente desprezível em que eu que eu era rei. Além do mais, nunca foi realmente minha vontade mudar. Não se pode esperar muito de alguém cujas primeiras lembranças de vida são desarranjos, um começo de uma vida desfigurada, iludida pelo brilho do ouro e ofuscada pela ostentação insana.
Saiba que estou disposto a fazer desta minha estada nos céus o exercício de uma vida que não tive, mesmo que depois de morto. A morte nunca significou nada para mim, mesmo porque no fundo eu sabia que, se ela viesse, viria para me libertar. Hoje vejo que eu precisava de liberdade, que me sentia na verdade preso à pessoa que eu era obrigado a ser. Sim, via e vejo hoje, na morte, a minha liberdade; onde eu posso ser e ter tudo que nunca quis e nunca pude.
Por isso, rogo por um canto aos seus. Peço passagem por um novo mundo onde eu possa descobrir quem eu poderia ter sido e não fui. Onde eu possa perceber que dentro de mim sempre houve uma parte escondida, que só pude agora desvelar. Onde eu me sinta mais vivo do que morto (mesmo morto), onde eu possa mais aprender do que ensinar. Necessito mais do que nunca dessa chance para perceber que fui um fruto e não a raiz de uma árvore cruel.
E, assim, peço entrada neste caminho divino e, pretenso como sou de minhas possibilidades, espero com otimismo. Assim posso provar a mim mesmo que minha falta de humanidade enquanto vivo pode ser consertada pelo exercício de humanidade enquanto morto. Se não pude ser humano onde sensivelmente deveria ter sido, deixe-me o ser onde racionalmente não o poderia. Quem sabe, assim, provo a mim, aos santos e aos anjos que há sempre uma esperança, e que meus erros de vida podem ser compensados com acertos de morte. Mesmo que uma alma como a minha não tenha realmente salvação. Quem sabe não recupero um pouco do tempo perdido, mesmo que seja através desse absurdo pedido.
*****
Para as pessoas perdidas. Sempre há uma saída.
Até a próxima viagem!!

quarta-feira, maio 24, 2006

Profissão como Reinvenção


O Homem possui dois grandes campos de atuação: o pessoal e o profissional. O primeiro, entre outros aspectos relevantes, incide sobre os moldes do caráter, da personalidade e das relações interpessoais. O segundo se relaciona à realização financeira, à posição do indivíduo na sociedade e, mais precisamente, ao seu papel enquanto agente social. Estes pontos, de extrema importância na vida de qualquer ser humano, são otimizados à medida em que se reconhecem seus valores . E, para isso, o Homem precisa aprender a reinventar-se.
Assim sendo, nos moldes da modernidade, em que vigora vorazmente a individualidade e a competição, cabe ao Homem resgatar valores mensuráveis nas suas próprias ações. O reconhecimento de que seus atos não só interferem no seu próprio destino, quanto no de toda a sociedade, é o primeiro passo para o indivíduo se reconhecer "agente social" e, assim, poder aplicar os erros de um passado imperfeito a um futuro de boas expectativas. Para isso, reside na profissão a maior arma capaz de fornecer ao Homem a capacidade de mudar, a fim de transformar erros pretéritos em tentativas de acertos possíveis.
Dessa forma, a profissão de um Homem corresponde ao motor social que o guia pelo caminho tortuoso construído pela sociedade moderna. E este mecanismo essencial de empreender mudanças, a profissão, gera os meios efetivos para o indivíduo reinventar soluções, para contornar as atuais dificuldades, através da revisão dos próprios atos. Isso se faz por meio de restabelecimento de metas, mudanças de postura, emprego de ética e do equilíbrio de doses salutares de ambição para consigo e de grande generosidade para com o próximo. Diante disso, a capacidade de transformar a sociedade reside justamente no bom emprego de suas atribuições, na constante busca de comprometimento pessoal - através do acúmulo constante de conhecimento - e de compromisso social - pela reflexão de que se tem mais a ganhar em conjunto que por conta própria.
Portanto, vê-se com clareza que, neste caso, reinventar a profissão é gerir oportunidades com base nos acertos, modificando os erros e reconhecendo o papel do profissional como ator social. O bom profissional é aquele que se reconhece peça importante para a ocorrência de mudanças positivas e, assim, busca sempre reciclar a si próprio para, posteriormente, os efeitos refletirem-se, em maior escala, na sociedade. Não obstante modelos pré-determinados ou inovações salvadoras, o mais importante para o profissional de hoje é aprender a reinventar, para fomentar oportunidades futuras, com base num presente que jamais esquece do passado.
***
Fazia tempo que não escrevia dissertação...
Homenagem à inesquecível Venusa Sá Leitão, que me ajudou nessa busca pela reinvenção.
Saudades...

segunda-feira, maio 22, 2006

questões futuras sobre o que já passou


Quanto tempo faz
e não volta mais
O que foi pra traz
não vem jamais
Se não sou capaz
de viver de novo
Só por um pouco
o que passou
Tento entender
o que esquecer
pra não me machucar
tentando lembrar
o que não vai voltar...
E se for mudar?
Eu descubro e me mudo
pra um outro mundo
que volte a ver
o que foi você
no início de tudo...
Tornando absurdos
realidade...
Mas quanta idade
hei de enfrentar
sem rever o que sobrou de você?
Que mais perder
para valorizar
sentimento...
Morre com o tempo
traz lamento,
sofrimento...
O que esconder
pra nunca precisar achar
o que já se perdeu de você?
Já não sinto mais
a escolha de reviver o que há...
Caminhos passados,
memórias de lado,
suspiro acordado,
Olhando à frente, de frente,
apenas para o que virá.

terça-feira, maio 16, 2006

última mesa de bar


Mas e agora o que é que eu faço, sem os seus carinhos, sem os seus abraços, sem o seu perfume nos lençóis manchados, sem sua histórias me envolvendo em laços? Se suas virtudes foram implantadas, se suas comédias transformaram nadas, se suas tragédias foram superadas... E agora? Vá me diga! E todas as brigas que foram resolvidas? E todas aquelas promessas, aquelas saídas? Foram vazias, ocas, sem rumo, sem vida? E todas aqueles momentos de silêncio falado, cujos olhos se encontravam, hipnotizados, e entendimentos se faziam crer? E todas as vontades de ter ao lado, todo apaixonado, te querendo ver, coração roubado, trancafiado, algema e cadeado pra você ficar ? Quem dirá? Quem virá? Quem substituirá uma presença assim, sem fim, sem a possibilidade de você perto de mim? Nada presta, só ficam lembranças de tudo que me resta. Pegue esse copo e anda, pois quem no coração manda não tem vontade de chorar. E se meu choro for pra ti honesto, e mesmo assim, meus restos você rejeitar, suma da minha vida, como leve brisa que vai sem se notar. Abandona, desaprisiona essa alma cuja verdadeira dona há de chegar. Leve suas trouxas, todas suas roupas que nunca mais vou tirar. Se encarregue de levar o aquário, a bicicleta e tudo dos armários, limpe seu cenário, preu não mais notar. Vá, e sem notícia, fique onde está, que desmitifica esse meu gostar. Vá e esconda a dificuldade de tão pouca idade, que nessas horas se faz bem notar. Quem virá? Quem dirá que as certezas de um tempo atrás viram as surpresas do que não é mais?
Não é mais! Escreve num cartaz, segue o que te apraz, não sou mais o teu rapaz, veja o que a vida faz, vá e não volte mais, e me deixe...Que hoje, pelo menos hoje, eu preciso dormir em paz.
***
"...é bom às vezes se perder, sem ter porquê, sem ter razão. É um dom saber envaidecer, por si, saber mudar de tom..."
***
Também é bom imaginar. E assim seria a última mesa de bar.

segunda-feira, maio 15, 2006

os sete


se te ...
se te ...
se te ...
se te ...
se te ...
se te ...
sete.
***
a você.



quarta-feira, maio 10, 2006

queria


Te escutar mais do que orelha
E te beijar mais do que boca

Te sentir mais do que alma
E te amar mais do que peito

Te abraçar mais do que braço
E te amarrar mais do que laço

Te encontrar mais do que olho
E te envolver mais do que molho

Te sentir mais do que medo
E te entender mais do que o resto

Te atesto. E te trago mais do que fumo
Te arrumo. E te levo mais do que pronto

Te encantar mais do que sapo
E te beijar mais do que lábio.

Te ninar mais do que berço
E te virar mais do que senso.

Te perder mais que juízo
E te prender mais do que ato

Te ficar mais do que encontro
E te dar mais do que beijo

Te desejo. E te bebo e te engulo
Te absorvo. E te levo assim sem rumo.
Te admiro. E te guardo mais que disco.
Te preciso. E te meço mais que isso.

segunda-feira, maio 08, 2006

ela tem medo de escuro


Ela sempre foi exímia mãe e trabalhadora, pessoa honesta e decente, daquelas feitas na forma e sem receita pré-determinada. Ela faz compras, limpa cocô de fralda, lembra de fazer cópia de chaves, paga os empregados, leva o celular para o conserto, atende o amor com todo o carinho, paga as contas pela internet do trabalho, lidera diversas reuniões durante o dia, pega os filhos, almoça fora, cochila dez minutos, leva o menor para a natação e o maior para o curso de inglês, volta ao trabalho, mais reuniões, telefonemas, discussões. Ela lembra de confirmar com o motorista a busca dos meninos e de confirmar a presença das babás. Ela lembra de remarcar a consulta de pediatra e do urologista do marido. Ela marca a manicure para a tarde de sábado. Ela lê os emails, ela os responde, ela come lanchinho rápido, ela quebra o salto, ela chora no banheiro, ela passa batom e garante a si mesma que faz o seu melhor. Mas ela tem medo de escuro. Ela teme os momentos que passa sozinha dentro das próprias pálpebras. Ela sofre sempre que é posta contra a parede das próprias reflexões. E, assim, ela se superocupa, se divide praticamente sem deixar restos para si mesma. Os dividendos são seus talentos e o divisor é o mundo que a cerca. E nada resta para ela. Nada ela deixa para restar. Ela não usufrui o quociente resultante das próprias ações. Como se vivesse para servir a propósitos alheios, ela é a artista principal da peça, mas não é ela que recebe o prêmio maior. Não é ela que se sente recompensada por existir e cuidar de tudo ao redor. Ela tem medo de escuro simplesmente porque a luz lhe faz muito bem quando ofusca sua realidade. E é no escuro que ela melhor enxerga os resultados dessa operação injusta. Uma simples conta na qual ela só ajuda a contar, e da qual é agente principal, mas não colhe nenhum dos frutos colhidos. Ela tem medo de escuro. Porque ele revela o que os panos da vida escondem. Porque o escuro a deixa sozinha com sua consciência. Porque ele traz consigo o balanço desproporcional que acusa apenas o doar. Nunca o receber. E só doar cansa. Ela vive uma cansativa vida de concessões de si mesma em favor dos outros. Ela vive em flashes de ilusão que se apagam quando chega o escuro. E, assim, para ela, a escuridão revela mais do que esconde. E não há como se esconder do escuro. Porque ele existe constantemente, até que alguém acenda uma farol. Até lá, ela é obrigada a conviver com os próprios medos. E esses...Ah, esses...ela nunca vai deixar de temer.

terça-feira, março 21, 2006

a postar


Estou a postar este a fim de calar a minha própria boca pedindo para escrever. Como eu tenho certeza de que uma das coisas que mais me dá prazer na vida é, simplesmente, escrever, não há por que não me desdobrar um pouco, a fim de satisfazer este prazer tão proveitoso. Muitos sabem que eu fiquei sem computador um tempo, e por motivos mil, foi retardado cada vez mais o conserto do bicho. Logo, como eu não tenho hora , nem momento certo pra escrever, nem escrevo nada com objetivos previamente concebidos, sem computador em casa é praticamente impossível satisfazer esse meu desejo. Porque eu não consigo direito quando preciso, mas sim quando quero. Porque nada melhor como um ambiente familiar para deixar rolar o negócio no teclado.
***
Bem, isso tudo é para dizer que este texto aqui é fruto dum gesto típico do viciado que não consegue se controlar e cai no vício. Mesmo não estando no MEU computador, me deu vontade de escrever. E mesmo correndo o risco de sair algo que eu não me sinta confortável em dividir com alguém depois, resolvi apostar. Isso, apostar!! Estando a postar, aposto em algo que acredito, mesmo que não seja da maneira que eu me sinta melhor.
***
Por isso, quero sempre manter esse vício que me faz perder o senso e cair na produtividade boa que é produzir textos. E essa vontade, essa angústia que se forma quando não consigo colocar para fora em letras, palavras e frases meus mais recônditos sentimentos e pensamentos lógico-racionais, parece um choro contido que se acumula e fica preso na garganta. E sai, mesmo quando a gente não está no momento mais propício.
Pois está, este texto é como esse choro preso na garganta.
Mas, é melhor pensar nele como um riso que sai desesperador e dói na barriga depois, de tanto que foi bom...
***
Façam suas apostas, estou de volta a postar!!!!

domingo, janeiro 15, 2006

sonho colorido


Sonho colorido é reflexo, espelho e imagem. É um “deja vu” do futuro. É sentir o que se sente, só que noutro corpo. É pensar o que se pensa, só que noutra mente. É dividir idéia parecida e concordar quase sempre. É experimentar conversar consigo mesmo. É ver seus próprios erros na atitude de outra pessoa. É se identificar.
Sonho colorido é ser gêmeo sem cordão umbilical. É perceber-se em outro jeito de falar. É reconhecer-se em outro jeito de andar.É verificar suas opiniões saindo de outra boca e seus carinhos feitos por outras mãos. É passar a acreditar em coincidências e crer no divino de se ver no outro. É acordar e ainda se ver deitado em outro sono.
Sonho colorido é um estágio de conquista que dura para sempre. É dividir semelhanças e falar enquanto se pensa. É falar a mesma coisa ao mesmo tempo e rir disso. É divergir no banal e concordar no essencial; aventurar-se no perigo de utilizar as mesmas estratégias, de demonstrar os mesmos defeitos, mesmo que em diferentes proporções.
Sonho colorido não é escolha; é encontro. Sonho colorido é viciante. É ir de encontro à máxima dos opostos. É contestar o magnetismo dos contrários e verificar que o norte se une a outro norte. O sonho colorido não é parte de um sono que já foi. É o tipo se sonho que se sonha de olhos abertos.
Sonho colorido é pétala de uma mesma flor. É flor de um mesmo jardim. É ter limites parecidos. É transgredir parecido. É impressionar-se a cada atitude. É uma aquarela sem bordas nem pintor. É um infinito quadro imaginário pintado a cada semelhança. É pintar a mesma cor em desenhos diferentes.
Sonho colorido é moeda tirada da fonte dos desejos. É pedido de felicidade. É ter as mesmas paixões. É identificar-se em hábito e rotina. É ter esperança de encontrar alguém com quem dividir felicidade. É relevar e descartar intransigências. Sonho colorido é névoa. Sonho colorido é fortaleza. É sorrir com pensamento.
É coração de mesmo tamanho. É coração.
###
As cores desse sonho já duram por três meses. E que venham mais meses, acompanhados sempre, é claro, de novas cores. E de novos sonhos.

sábado, janeiro 14, 2006

nenhum vírus foi encontrado


O antivírus funciona como uma poderosa arma na busca e apreensão dos diversos males responsáveis pelos infinitos danos aos equipamentos da informática. É certo que não são totalmente eficientes na sua tarefa, pois novos vírus são ininterruptamente fabricados por especialistas em destruição, cujos efeitos são devastadores. Porém, devidamente atualizados, protegem contra muitos danos capazes de deletar arquivos, de destruir programas, de apagar memórias, de devastar equipamentos, entre outros.
Já imaginou quão bom seria se nós, seres humanos, também possuíssemos certos dispositivos que pudessem nos proteger dos danos que certos vírus nos causam? Não falo daqueles vírus já reconhecidos pela Medicina e pela Biologia, mas dos vírus que danificam nossa alma, que ferem nosso coração, que destroem nossos sentimentos, que nos tornam cada vez menores (ou maiores). Falo das injúrias do mundo, dos vírus produzidos pela maldade humana. Falo das demonstrações de falta de caráter, do desprezo às necessidades dos mais necessitados. Falo do descaso com o meio ambiente, da politicagem barata, da violência desenfreada. Da prática da maldade, do desrespeito ao próximo, da falta do bem-conviver. Da fabricação de inimigos e da falta de amizade. De saber que se acaba com algo muito mais rapidamente do que o tempo que se leva para construí-lo. Estes sim são vírus reais, mais poderosos do que qualquer outro já produzido artificialmente.
Pois é, como seria bom que fôssemos equipados com antivírus contra esses males, não? Assim, bastaria uma simples atualização, tão simples quanto um clique no mouse, para retirar todas as desgraças intensificadoras de nossa vergonha, para nos proteger das infiltrações da maldade no homem. É a partir desses “devaneios” que é possível perceber que existem, sim, tais remédios. Que há dentro de cada um de nós um antivírus mais complexo e poderoso do que qualquer objeto invasor. É assim que deve ser percebida a capacidade de destruição do homem: uma invasão capaz de ser combatida. Não acredito que o ser humano é inerentemente destruidor; acredito, sim, que é de nossa natureza a capacidade de renovação. Que podemos nos reconstruir através de nossos próprios erros, que podemos atualizar o nosso antivírus contra tudo o que nos faz sofrer.
Mas a maldade é voraz e sempre se acostumou a esconder de nós um artifício tão importante para a nossa sobrevivência. Os efeitos das tragédias de nós mesmos são tão devastadores que nos impedem de ativar nossos antivírus. E por isso deixamos que nosso HD seja consumido pela mesquinharia, que nossas memórias sejam devastadas, nossos arquivos mais importantes não possam ser acessados...Somos responsáveis por nossos rumos, somos responsáveis por nossas próprias agruras e angústias.
Está certo que não somos protótipos de bondade, mas também não somos projetos de maldade. Como muitos dizem, temos o bom e o ruim dentro de nós...Isso pode até ser verdade, mas o porquê de o mal previamente transparecer é tão deprimente, que me recuso a acreditar que possuímos potencial de destruição. A podridão, a gente consome; não produz. Ela está aí solta para ser absorvida pelos mais fracos. Não nascemos doentes; adoecemos. Nascemos inocentes e somos corrompidos pela corrupção. É triste demais acreditar que somos pré-dispostos para algum mal. É melhor pensar que não temos pré-disposição alguma... Estas vão sendo alimentadas ao decorrer de nossas más/boas experiências, desde a placenta ao caixão.
Como já dito, somos máquinas ambulantes de reinvenção, não de tragédias, e do mesmo modo que fabricamos armas de destruição, podemos fabricar antídotos de sobrevivência. Contesto plenamente o derrotismo e aprovo conscientemente o otimismo no mundo e nos seres humanos. Somos capazes de derrubar árvores, mas podemos plantá-las. Matamos, mas criamos vida. Roubamos, mas damos presentes. Erramos, mas acertamos depois. Caímos, mas levantamos em seguida. Odiamos, mas amamos. E amor é muito, mas muito maior.
Enquanto houver mãos para lutar pela vitória, não estaremos derrotados. Devemos sempre admitir que temos um potencial de mudança bem maior do que nós mesmos ou qualquer outro acreditam. E esse antivírus é a consciência de que somos capazes de burlar os maus exemplos e aprender com eles e não praticá-los, mas superá-los. Quem já superou alguma doença que parecia irrecuperável ou que já atingiu limites aparentemente inalcançáveis sabe do que eu estou falando. Enquanto existir a força para não desistir, a força de resistir, nós podemos sonhar com um mundo menos injusto, menos sedento por sangue, com menos disputa e mais ajuda. É assim que se conquista o caminho de momentos mais felizes, com boa vontade e certeza de êxito.
Nossos antivírus são nossos ideais. É preciso perceber que possuir um ideal não é ilusão, mesmo que o Mal seja tão grande a ponto de nos fazer querer jogar tudo pro alto e nos entregar. É Neste momento que temos a maior certeza de que devemos prosseguir, pois é sinal de que o mundo precisa mais do que nunca de nossos ideais, para que o Bem seja maior. Nunca é pouco acreditar. E acreditar não é um simples sopro no vento. É fazer ventar!
###
Mais um texto de uma leva meio antiga. Este, na verdade, é o segundo de uma tentativa pessoal de fazer brotar em mim alguém que escreve no sentido estrito da palavra e não só "escreve" histórias loucas que se perdem nas loucuras da mente. Nossos antivírus são nossos ideais. Não deixe seus ideias se perderem em suas loucuras e faça um pouco de vento com os papéis de suas idéias.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Reticências...


***
Não demora muito e aparecem reticências em nossas vidas...Frases não-ditas...Subentendidas...Momentos para lembrar...Para esquecer...Saudades...Projeções...Desejos não atingidos...Não-satisfeitos...Promessas não cumpridas...Promessas desfeitas...
E com isso, crescemos...Aprendemos com as reticências e com o silêncio que elas representam...Vazias?... Erro crasso... Elas são infinitas... Preenchidas por tudo o que quisermos...Elas são completas pela sugestão...Imensa responsabilidade a de preenchê-las...Responsabilidade nossa...Reticências são por excelência nosso mais lacunoso recurso...Representam o que quisermos que elas representem...Traduzem a ignorância e a sapiência...A tristeza e a alegria...O momento e a espera...A vitória e a derrota...O erro e o acerto...A surpresa e a antecipação...O início e o fim...Significam opostos...Daí a necessidade de saber usá-las...Este instrumento poderoso de quem quer se fazer entender ou confundir...Reticências são fins inacabados...Esperanças de uma continuidade ou a certeza de algo incerto...Pistas...O caminho para as pistas...A vontade e o desprezo...Respostas sem perguntas...Perguntas sem respostas...São qualquer coisa ou quase nada...São o que buscamos e do que fugimos...São a saída e a prisão...São a clareza e a vagueza...São o simples e o complexo...São o meu e o seu...São o que não quero e o que desprezo...São palavras e a falta delas...Dizem tudo e se calam...São precisas e aleatórias...Riem e choram...São obscuras e diretas...São objetivas e metafóricas...São transparentes e opacas...São místicas e racionais...Introduzem e concluem...Produzem e estatizam...Plantam e devastam...Perturbam e acalmam...Conquistam e decepcionam...Esperam e se fazem esperar...Agilizam e demoram...Significados sem significância...
Meu medo e minha coragem são reticentes...Todos somos reticentes...Até que morremos e elas acabam...Acabam-se a criatividade e a arte criadora... Até que ele, sondando, repentinamente se faz perceber...Ele vem e as leva, as afasta, as apaga...E as rouba para sempre, finalizando sua grandeza...Arrasta tudo...Mas não descarta as saudades...Vem como um furacão solitário e destruidor...Vem e se faz logo notar...Devastador...Misterioso...Melancólico...Vem e decepciona nossa imaginação...Não sugere e não produz...Ele nos elimina e não recomeça...Fria e calculadamente ele se aproxima...E, assim, aparece, uno e pobre e pequeno e poderoso ponto.
*
Texto mais antigo, alguns já conhecem, mas não podia deixar de constar aqui. Meu ponto ainda não chegou, portanto tenho que aproveitar as reticências, não??

quarta-feira, janeiro 04, 2006

brincando de ser criança


É bom brincar de ser criança. E essa brincadeira deve ser levada muito a sério. Todos conhecem a máxima mais que certa de que todo mundo quando cresce deseja voltar a ser criança. Porém, o tempo, implacável como ele só, nos nega veementemente essa possibilidade. Contudo, quem nega é o tempo, meus caros. Apenas ele. O nosso estado de espírito, nossa imaginação, nosso coração...não! Contra estes nada o tempo pode fazer senão fazê-los envelhecer. E isto ele faz com voracidade!! Só que nós podemos contra-atacar!!! Como?? Bem, esse é o assunto a ser discutido.
Somos extremamente vulneráveis aos efeitos devastadores do tempo. Ao fazer o que nos é de mais direito fazer, viver, nos entregamos aos braços imbatíveis do senhor tempo. E o viver para muitos significa amadurecer, acumular experiências, crescer em todos os sentidos e seguir em frente na longa (ou breve) escalada do senhor tempo até chegar a hora da despedida. E esse viver muitas vezes encontra por este caminho obstáculos diversos, que nos fazem apagar o passado com uma bocharra boa pra danar, nos tornando a cada dia que passa adultos igualmente sérios e compenetrados em estudar, trabalhar, pensar no futuro, futuro, futuro. Nos faz deixar de rir, nos faz deixar de brincar. As responsabilidades trazidas pelo senhor tempo tendem a não nos conservar aquela criança que habita em nós e aí se esconde . É então que entra nosso grande ponto a favor que temos contra o tempo. É não deixar morrer essa criança. Podemos viver, sim, mas com alegria e sinceridade de criança. Podemos e devemos ser adultos, com todos os afazeres de adultos, com ordens a dar e a seguir, gente para educar, contas a pagar, viagens a fazer, mas sempre com um sorriso que conserve aquela ingenuidade e honestidade infantil nos lábios. Sempre com aquela disposição interminável que nos faz perder os limites vez em quando.
A infância é o período mais curto de nossas vidas e dela apenas levamos flashes, bonecas carecas, carrinhos sem roda e roupas pequenas. Devemos levar muito mais. Devemos levar sempre conosco aquele pequeno grande coração que foi desamolecendo ao longo do senhor tempo à medida que cada vez mais aumentava o volume de sangue bombeado. Devemos sempre nos lembrar da criança que fomos para formar o adulto que queremos ser.Eis mais um motivo por que devemos levar tão a sério esse negócio de ser criança, sem medo de nos chamarem de infantil. Antes ser um infantil, meus caros, a não poder reviver a criança dentro de nós por esquecer de ter sido uma. Seja criança novamente não só por você, mas pelo mundo ao seu redor, que a cada minuto transforma o sentido dessa palavra. Não deixe a infância morrer. Nem que para isso você deva ressuscitar a sua dentro de você.
Por isso é bom brincar de ser criança. E antes que o senhor tempo devastador leve para muito longe a criança que um dia você foi, dê uma volta na grande roda que é a vida e ‘bata salve-todos’ pela sua.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

(dois mil e seis) sorriu para vocês


O passado ainda está tão presente, que fica um tanto quanto difícil de prever o futuro. Mais um ano se despediu de nós e fica sempre aquela balança invisível de nossas cabeças que regula os arrependimentos e as novas resoluções. E aí sempre rola aquela avaliação se foi um ano bom ou ruim. Para mim, não existe ano bom ou ruim. Vá lá dizer que um dia foi bom ou ruim, mesmo porque 24 horas nos permitem fazer uma avaliação mais detalhada. Já 365 dias se trata de um espaço de tempo muito grande – ou não – para que se diga se foi um período feliz ou não. Avaliar se foi um ano positivo ou negativo é tão difícil porque para mim esta avaliação está intrinsecamente ligada ao conceito de felicidade. E este é um dos sentimentos mais complexos, pois chego até a duvidar sequer da permanência dele. Assim como acho que há apenas momentos felizes – e é só então que a felicidade aparece -, da mesma forma me é complicado avaliar se 2005 foi feliz. Teve, portanto, momentos felizes. E se a felicidade em sua completude existe, ela se fez presente apenas nestes momentos.
“Por onde vou guiar o olhar que não enxerga mais?”, disse o poeta, abrindo espaço às previsões, à vontade de ver a luz, de conhecer o que está por vir. De ver anunciado o horizonte distante que, quem sabe, guarda momentos felizes. Assim é 2006, um ano de esperanças diversas, mas um ano de pés no chão. Sabe aquele texto lá em baixo sobre incerteza?? Pois é, deixe a incerteza positiva guiar este ano que lhe mostra os dentes! Deixe a retrospectiva de 2005 ser ofuscada pela falta de uma expectativa detalhada de 2006. Não espere muito de um ano que mal começou. Planeje-se, trace objetivos, organize-se. Mas não tente prever cada detalhe. Não tente supervalorizar os percalços, as dificuldades. É com a improvisação que mais se aprende. Guie o novo ano como um encapuzado que vai aprendendo a enxergar melhor com os outros sentidos, em vez de morrer sufocado. Burle a pontada de vontade que sempre dá de desejar a perfeição ou um divisor de águas que vá mudar tudo repentinamente. Porque certamente seu pedido não será atendido.
Apronte-se para 2006!! Ele se apresentou com um sorriso para você. Cabe, então, retribuir a simpatia com muita garra e força, para no final dizer que ele valeu a pena, seja sendo avaliado como bom ou ruim por você. Para mim, 2006 já é um ano de momentos felizes, pois começo com saúde, disposição e, melhor ainda, tenho família, amor e amigos para me ajudar caso um destes me falte no trajeto. Portanto, não há o que tentar prever ou esperar; há o que viver !!!! 2006 sorriu para vocês!! Faça como diz a boa-educação e humildemente sorria de volta. E, se puder, seja mais ousado: estenda-lhe a mão e o convide para dançar.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Seja Útil


Doar sangue é doar esforço e vontade de ajudar. Muitas pessoas temem aquela agulha nada fina e a sensação de mal-estar de ser picado por ela, além do enorme trabalho que deve ser se dirigir ao posto de coleta. Já escutei, inclusive, - perdoem-me quem me disse isso, mas é um absurdo – o infundado e desinformado argumento de que ao doar sangue, arrisca-se a contrair doenças. A agulha é grossa sim, não vou mentir. A sensação de tê-la enfiada no braço é desconfortável como uma picada de formiga. A possível tontura após doar é completamente normal, haja vista que, ao retirar seu sangue, vai com ele sua glicose. E a segurança de quem empresta seu braço para doar seu sangue é tão grande quanto aquele que transa com uma camisinha que não fura, quanto aquele que usa sua própria agulha descartável para se picar, quanto aquele casal que passa a vida inteira sem incorrer em infidelidades. Em outras palavras, o risco é zero e, opinião de doador, podem confiar.
Compreendo que muitos temem mesmo a agulha e, por ter medo de sangue, temam ainda mais ver o seu próprio sangue saindo por um troço enfiado no braço. Contudo, minha gente, é um ato tão nobre, tão especial, tão engrandecedor, que todos estes pontos desfavoráveis de que falei parecem tão pequenos...A sensação de poder ajudar alguém que possa precisar do seu sangue para sobreviver é tão maravilhosa, que qualquer sensação de desconforto físico causada pela doação é irrelevante por demais. Mas esse desconforto é mínimo e momentâneo, talvez uma leve tontura, como já disse, e só. Nada mais.
O efeito principal de doar sangue é o de exercer cidadania. É se fazer atuante. É ajudar sem esperar nada em troca. É doar esperança e amor. É ser generoso no sentido mais justo da palavra. É simplesmente ajudar. E se você quiser experimentar desse sentimento fortalecedor, doe!!! Sinta-se importante, sinta-se grande!!! Se você não teve hepatite, possui mais de 50 Kg, tem uma atividade sexual que não possa ser considerada de risco, se possui taxas de anemia consideradas normais e não está tomando qualquer medicação, o que está esperando para ajudar alguém???? Por que temer algo que não há sentido em temer??
Como alguém que já fez sua parte e vai continuar fazendo até o fim da vida, posso afirmar certamente que a alegria de doar é imensa!!!E é com um sorriso na boca e nos olhos que irei todas as vezes a cada três meses de minha vida. E que meu sangue possa levar esperança para muitos e que salve e ajude tantos quanto for necessário para ajudar a viver. Esse sentimento não tem preço. É impagável !!! E se você é um dos que teme agulhas ou desconfia da segurança dos equipamentos e materiais utilizados para retirar o sangue dos doadores, trate de reavaliar seus paradigmas, trate de repensar seus valores e a que você veio ao mundo. Se para se fazer útil ou desperdiçar uma de suas muitas utilidades.

domingo, dezembro 25, 2005

eu vi o passado e não gostei


O espírito de Natal nem me tocou como em muitos neste ano e não sei explicar a razão. Nessa época, uma linha tênue divide em nós dois sentimentos: euforia e melancolia. Eu, particularmente, não experimentei nenhum dos dois. Primeiro porque tenho alguns motivos, sim, para estar eufórico, mas também muitos para estar melancólico. Também não sei explicá-los bem, mas sei que eles existem em algum lugar..É assim o Natal pra mim, um misto de pensamentos e flash backs, de promessas cumpridas ou não, de resoluções futuras que podem ou não acontecer..Enfim, a hora de com um "rewind" ou um "forward" revisitar-me em alguns lugares que estão dentro de mim...Complicado, não?? A vida é complicada, meus caros..Porém, este texto de hoje não se trata de uma retrospectiva 2005, muito menos de uma expectativa 2006, pois este virá mais a frente.
Vim aqui na verdade para contar-lhes que eu vi o passado e não gostei. Hoje eu vi uma gravação pré-histórica (de 1989), quando eu, na época com seis anos, ao som do Balão Mágico, brincava com meus muitos primos amados num prédio antigo da minha vó Maria. Esta gravação pertence a meus tios e primas de Brasília e, por motivos quaisquer, nunca tínhamos visto. Pois é, pessoas, eis que a hora da verdade anunciou-se e a criança que um dia fui foi posta na minha frente, em chatices, irritâncias e gestuais característicos. Agora sei porque odeio tanto crianças metidas, amostradas e chatas...Porque eu era uma delas!!!! Alguns me acham "cricri" e complicado?? Pois o que vi foi um ser dez mil vezes mais; portanto, conscientizem-se de que hoje vocês conhecem alguém bem melhor!!! A toda hora este ser queria chamar a atenção, colocando a mão na frente da lente da câmera, fazendo peripécias e salamaleques vexatórios para aparecer. Que coisinha chata!!!! O que senti ao ver minha família numa época em que era bem mais unida foi muito bom, mas o que senti ao me ver tão diferente do que sou hoje, me deixou pensativo acerca de algumas coisas...De que nossas experiências são o que temos de mais construtivo em nossa vida...Nossa formação é a fórmula que define nosso futuro. Ao me deparar com um passado que eu nunca havia visto, percebi inteiramente a importância do presente. E esta importância nos parece tão menos importante, justamente pelo fato de o presente ser algo tão escorregadio, tão imensurável que parece não existir.
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Muitos vivem se preocupando com as coisas que fizeram e com as que irão fazer. Aprendi com uma simples gravação emocionada que o que devo mais me preocupar é com o que faço. Só assim eu vou me ver um dia no futuro, poder me olhar digitando este texto, por exemplo, e sorrir com algo que tenha aprendido bem.
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A vida é feita de ensinamentos, meus amigos, e o maior deles é o que você aprende agora. Não antes ou depois.

sábado, dezembro 24, 2005

Mar Adentro


mar adentro
mar adentro
e na leveza do fundo
onde se realizam os sonhos
se juntam duas vontades
para realizar um desejo
seu olhar e meu olhar
como em eco, repetindo, sem palavras
mais adentro
mais adentro
pelo sangue e pelos ossos
mas eu acordo sempre
e sempre quero estar morto
para continuar com minha
boca enredada em seus cabelos.

(Sonhos - Ramón Sampedro)
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" liberdade sem vida não é liberdade; uma vida sem liberdade não é vida."
Preciso dizer mais alguma coisa??
Um Feliz Natal a todos.